segunda-feira, 8 de junho de 2009

Grande, feroz e ainda vivo

“Eu não conheço resposta melhor que a epítome de um colega psicólogo: “grande, feroz e extinto” – em outras palavras, irresistivelmente ameaçadores mas basicamente seguros” S.J.Gould (1993)

Um dos meus heróis intelectuais é o paleontólogo Stephen Jay Gould (1941-2002). Ele foi dos maiores divulgadores do evolucionismo da segunda metade do século XX, árduo defensor de uma visão materialista do mundo biológico, calcada nos trabalhos de Charles Darwin e dos evolucionistas que vieram depois dele. Gould não se afiliava totalmente à tradição neo-darwinista ortodoxa, representada por luminares como Ernst Mayr (1904-2005), Theodosius Dobzhansky (1900-1975) e George G. Simpson (1902-1984), pois a sua visão da evolução da vida dava muito mais peso ao componente estocástico. Para ele, eventos como extinções em massa - essencialmente aleatórias e não-previsíveis - teriam importância quase tão grande quanto a seleção natural de variedades pré-existentes, tida como o processo evolutivo fundamental para os proponentes da teoria sintética da evolução e por seus seguidores, como Richard Dawkins e outros ultra-darwinistas.

O primeiro artigo que li de S.J.Gould intitulava-se Dinomania. Originalmente publicado na The New York Review of Books de 12 de agosto de 1993, esse texto foi traduzido para o português pela Folha de São Paulo no ano seguinte (ou no mesmo ano, não me lembro ao certo). A prosa gouldiana me impressionou. Seu estilo elegante, ainda que muitas vezes prolixo, parecia algo a ser tomado como referência para um trabalho futuro. Foi a partir daí que comecei a delinear minha futura carreira e perceber que eu trabalharia com algum aspecto das ciências naturais. Esse artigo foi republicado na sétima coletânea de ensaios de Gould, “Dinossauro
no palheiro”, originalmente lançada em 1995 sob o nome “Dinosaur in a Haystack”.

Apesar de ser uma influência constantemente presente na minha visão de mundo científico e de ser um dos textos mais saborosos – senão o mais saboroso – entre todos os divulgadores científicos, S.J. Gould cometeu muitas falhas durante a sua carreira, foi intransigente, quase leviano, e um tanto personalista. Chegou a dedicar mais da metade de um dos seus livros ("Full House: the spread of excellence from Plato to Darwin", de 1996, traduzido aqui como "Lance de Dados", em 2001), pretensamente dedicado a sintetizar a história do pensamento evolutivo de Platão à Darwin, à análise de estatísticas de beisebol, um esporte que pouco diz à grande maioria do mundo civilizado fora do EUA e adjacências (com exceção talvez do Japão, Cuba e Venezuela). Por mais que as idéias de Gould sejam interessantes a esse respeito, é difícil chegar ao fim das suas 250 páginas sem um misto de desconforto e sensação de tempo desperdiçado. Richard Dawkins ironiza em um ensaio do seu “Capelão do Diabo” essa obra menor de Gould.

Outro ponto considerado por muitos como falho na carreira desse evolucionista foi seu feroz ataque ao darwinismo a partir do final dos anos 1970 até quase meados da década de 1980. Juntamente com seu colega paleontólogo Niles Eldredge, em 1973 Gould propôs a hipótese do equilíbrio pontuado. Em linhas gerais, a idéia era contrapor o processo evolutivo contínuo e gradual dos teóricos sintéticos da evolução ao registro fóssil, essencialmente lacunoso, e que mostra, no geral, modificações ocorrendo em curtos períodos de tempo geológico, seguidos de longos períodos de estase, com pouquíssimas alterações perceptíveis nas espécies. Gould chegou a proferir que o darwinismo estava morto em um trabalho publicado em 1980 na revista Paleobiology. Essa demonstração de pretensão e arrogância obviamente não foi bem vista pela comunidade acadê
mica, o que dificultou a discussão isenta do equilíbrio pontuado como um processo alternativo (ou complementar) ao gradualismo darwiniano. Atualmente, há correntes que interpretam o equilíbrio pontuado como um gradualismo ocorrendo em curtos intervalos de tempo, seguidos por períodos longos em que as modificações se acumulariam, mas não se refletiriam em explosões de diversidade.

O discurso de Gould perdeu muito do caráter corrosivo a partir do final dos anos 1980, o que, em conjunto com o sucesso de seus livros e a popularização da paleontologia através de filmes como Jurassic Park (que foi o mote do ensaio Dinomania supracitado), transformaram-no em um ícone pop, levando-o inclusive a aparecer no desenho Simpsons. Isso não significa que as controvérsias e polêmicas cessaram: poucos meses depois da sua participação na série animada, Gould se viu imiscuído a uma polêmica com autores do quilate de Daniel Dennet e Dawkins, acerca da sua crítica exacerbada ao que ele chamou de fundamentalismo darwinista, representado por aqueles que resumiam TODA a evolução como a ocorrência de adaptação via seleção natural.

Infelizmente, S.J Gould morreu aos 60 anos de idade, em decorrência de um câncer de pulmão que foi seu adversário por mais de duas décadas. Deixou uma obra fascinante, longa, abrangente, que merece ser lida com isenção e analisada por qualquer pessoa que se interesse pelas labirínticas maravilhas da vida e do pensamento humano.

4 comentários:

Michele Gravina disse...

Olá Charles!
Aprecio muitíssimo o trabalho de Gould, mas acho que muito da acidez de suas opiniões são uma espécie de contenda contra Richard Dawkins. Penso que a evolução de maneira gradual não exclui de forma alguma padrões como o do equilíbrio pontuado. Os dois mecanismos podem acontecer ao longo do tempo; não concordo que tudo seja explicado por adaptações e seleção natural. O que ocorre é que os darwinistas mais radicais, como Dawkins, delegam à deriva genética um papel irrelevante no processo evolutivo. Me parece bem razoável que estes mecanismos possam coexistir pacificamente, atruando nas populações.

Charles Morphy disse...

Olá, Michele!
Agradeço a visita.
Também penso que a evolução é complexa demais para ser explicada por um único processo. Há muitas evidências fósseis inequívocas que apontam para a ocorrência de algum tipo de equilíbrio pontuado.
Li um ensaio do Dawkins em um livro sobre a filosofia da biologia em que ele diz que a seleção natural realmente não explica tudo mas que ressaltar o seu papel é algo como uma "estratégia de divulgação". Não sei até que ponto isso é assim tão válido - a meu ver, promover a desinformação é uma maneira um tanto tortuosa de divulgar o conhecimento...
Agora, quanto à acidez do S.J.Gould, ela já estava presente mesmo antes das controvérsias com os ultra-darwinistas - basta lembrar do seu artigo decretando o fim da teoria sintética, publicado em 1980. Talvez sua língua tenha se tornado mais ferina com o tempo, o que não o impediu, entretanto, de escrever belos e tocantes ensaios, como alguns presentes no "I have landed", sua última coletânea.
Abraço!

Luiz Bento disse...

Gosto muito dos livros do Gould mas acho eles muito repetitivos, chegando até ser chatos. Se tratando de escrita sou muito fã do Dawkins. Realmente acho que ele tem um estilo diferenciado e que me dá um prazer muito grande de ler. Mesmo em livros menos importantes como "Deus um delírio" ele deixa a sua marca. A parte que ele trata do Gould no Capelão do Diabo é muito interessante. Um misto de admiração e crítica que ficou bem elegante.

Abraços Charles, bela reflexão.

Charles disse...

Olá, Luiz!
Vejo os livros do Gould como companheiros para a vida: não dá p/ ler tudo de uma única vez, pois os assuntos realmente se repetem (a partir de perspectivas diferentes) e podem se tornar enfadonhos.
Também gosto muito do Dawkins - apesar de seus primeiros livros também não primarem pela concisão ou pelo estilo (como o caso do Gene Egoísta, que envelheceu mal). Talvez sua obra mais interessante, até por conta da análise a posteriori de parte de suas idéias e convicções, seja mesmo o "Capelão do Diabo" - inclusive li ontem outra vez a seção a qual você se refere, em que ele comenta sua relação com o S.J.Gould a partir dos reviews que escreveu dos livros do paleontólogo. É claro que as críticas mais incisivas ficaram de fora, só que terminar uma elegia ao "inimigo" com a frase "Sentirei sua falta" demonstra que, na ciência, o respeito e a admiração não significam necessariamente o compartilhamento estrito de pontos de vista.
Abraço!