quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Escrita científica em inglês: ferramentas online úteis e gratuitas

Publicar os resultados das pesquisas realizadas nos laboratórios, universidades e institutos é condição fundamental para o desenvolvimento da ciência. É através de artigos e livros que as ideias circulam, são testadas, corroboradas ou refutadas, inspiram outros trabalhos e novas áreas de investigação.

Todo pesquisador e pesquisadora, em algum momento, enfrenta o desafio de colocar no papel (ou na tela) os produtos do seu trabalho. Às vezes, as palavras saem com mais facilidade; em certos momentos, no entanto, precisamos acender velas e incensos para Darwin antes de digitar a primeira palavra. 

A escrita científica só faz sentido se para ela existirem leitores. No mundo contemporâneo, o processo de encontrar material publicado é bem mais simples do que há 20 anos. Quem tem mais de 35 deve se lembrar do quanto gastávamos (em tempo e dinheiro) fotocopiando artigos e capítulos de livros. Uma vez fui lecionar um curso de pós-graduação em Manaus e levei duas malas: uma com roupas, outra com separatas. E nem sou tão velho assim…

Dito isso, o idioma no qual se publica a ciência é sempre uma questão importante. A depender do tipo de artigo, do seu escopo e público alvo, podemos optar por periódicos que aceitam manuscritos em português, espanhol, francês… No entanto, em termos de acessibilidade para um amplo espectro de interessados, o inglês tem sido a escolha de boa parte da comunidade científica para divulgar seus resultados. Aí começam os problemas, especialmente para não falantes nativos do idioma de Shakespeare.

Para meus alunos e alunas, costumo dizer que o inglês da ciência não é o mesmo da literatura. É o inglês técnico, que precisa ser claro e objetivo. O importante é comunicar com precisão as ideias, de preferência da forma mais parcimoniosa e sucinta possível. Àquela primeira versão, escrita sem travas, quase em fluxo de consciência, devem ser aplicadas técnicas de “lipoaspiração redacional”: cortar o que é desnecessário, evitar generalidades, excluir frases que não adicionam nada, e limar parágrafos longos e intrincados.

Felizmente, hoje temos inúmeras ferramentas que auxiliam pesquisadores e pesquisadoras na escrita dos seus artigos, capítulos e projetos. Listo abaixo algumas delas que acho particularmente interessantes.

Ferramenta útil para revisão, verificação e correção de erros gramaticais e de linguagem, adequação de conteúdos e melhoria de fluência no texto. Há opção grátis, que ajuda muito. O aplicativo dá uma pontuação geral do texto, que pode servir como um norte para edições e melhorias. Após utilizar o Grammarly, a primeira versão do seu manuscrito certamente ganhará em clareza e assertividade.

Dicionário de sinônimos, muito útil durante o processo de reescrever e editar.

Esse site gratuito dá uma nota (score) para o seu manuscrito baseada na qualidade do inglês quando comparado a outros artigos de um banco de dados de mais de 300.000 trabalhos acadêmicos de todas as áreas . A pontuação leva em conta aspectos de legibilidade em inglês, incluindo gramática, consistência e clareza. Com base no seu score, o aplicativo sugere, por exemplo, serviços de revisão (na maioria pagos). Quanto mais alta a nota, menor a necessidade desse tipo de serviço. Se o score chegar a um valor acima de 7,0, o sistema entende que o texto está suficientemente bom e não precisa de grandes melhorias.

Nesse site, é possível fazer o upload do artigo e descobrir quantas vezes as palavras mais citadas aparecem (e também a existência de muitas frases e construções repetidas). Vale muito a pena ser usado, especialmente para refinar um texto já bem trabalhado no Grammarly.

Tenho usado as ferramentas acima da seguinte forma:

(1) trabalho a versão inicial em algum processador de texto (GDocs ou MSWord, por exemplo);
(2) uso o Grammarly até chegar ao máximo score que ele permite (o mais perto de 99);
(3) verifico o score no secure.aje.com;
(4) conto palavras e frases repetidas no countwordsfree.com, que serão retrabalhadas ou cortadas;
(5) volto para (2) até que o score no secure.aje.com esteja acima de 7.2, o que garante, segundo o sistema, que o texto está suficientemente bom e não precisa de revisão adicional (ou por um "native speaker˜).

Não existe uma receita quando o assunto é redigir manuscritos científicos. O fundamental é que cada um e cada uma construa o seu próprio processo. Sei como é frustrante receber pareceres do tipo “a ciência nesse artigo é boa, mas o inglês precisa melhorar”. Não devemos esmorecer frente a esses obstáculos. Ferramentas como as discutidas aqui podem ser o diferencial entre o “rejected” e o “accepted with minor revisions”.

PS: Há uma vasta literatura com dicas de escrita científica. Dois artigos muito úteis, que revisito periodicamente, são voltados para falantes de português e discutem os nossos principais erros ao escrevermos em inglês.

Marlow, M.A. 2014. Writing scientific articles like a native English speaker: top ten tips for Portuguese speakers

Marlow, M.A. 2016. Writing scientific articles like a native English speaker: concise writing for Portuguese speakers


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