quarta-feira, 20 de maio de 2026

Dicas para terminar com sucesso seu mestrado ou doutorado

Há quase uma década, abandonei por completo as redes sociais. Facebook – isso ainda existe? –, Twitter-X, Orkut (!)... minha presença nessas plataformas é nula. Tenho apenas um perfil no Linkedin, mas raramente entro lá. Não foi sem surpresa que encontrei nesta rede, na última semana, a indicação de um artigo muito interessante, publicado há sete anos, com ótimas dicas para pós-graduandos e pós-graduandas. 

O trabalho, intitulado “100 PhD rules of the game to successfully complete a doctoral dissertation” (em tradução livre, “100 regras do jogo para completar uma tese de doutorado com sucesso”), foi escrito por Niamh M. Brennan, Professora Emérita de Governança Corporativa da University College Dublin e publicado na revista Accounting, Auditing & Accountability Journal. O artigo pode ser lido AQUI.

A autora apresenta 100 dicas preciosas para quem está labutando na pós-graduação. Compilei em alguns blocos de ideias, adaptando-as à realidade brasileira quando necessário, as que considero suas sugestões mais significativas (convido todos e todas a lerem o artigo de Brennan na íntegra):


1. Encontre um tema ou uma pergunta de pesquisa que lhe interesse, que faça uma contribuição substancial para a literatura e coloque alguns "tijolos" na parede do conhecimento. Não amplifique a exigência de contribuição a proporções irrealistas. 

Uma dissertação de mestrado leva, em média, entre dois e três anos para ser finalizada; uma tese de doutorado, entre quatro e seis anos. Assim, seu interesse pelo tema escolhido deve perdurar por um longo período. Algo que parece óbvio, mas nem sempre acontece: temas escolhidos por discentes, com o apoio do orientador, tendem a ser melhores do que os escolhidos pelos orientadores para os discentes.

Em geral, uma dissertação de mestrado deve gerar ao menos um artigo publicável; uma tese de doutorado, um punhado deles (são os "tijolos" na parede do conhecimento). Os números variam conforme a área de pesquisa. Deve-se resistir à sanha do produtivismo desenfreado.

Não se espera que uma dissertação ou tese produza o equivalente à teoria da evolução de Darwin-Wallace. Dissertações e teses são, simplesmente, grandes projetos de pesquisa que geram contribuições à literatura existente.


2. Escolha um orientador ativo em pesquisa, que compartilhe seus interesses de pesquisa e com quem você se dê bem.

Seu orientador deve publicar em periódicos avaliados por pares de forma regular e atualizada. Se o seu orientador não publica, é improvável que você publique nesse nível.

Idealmente, deve haver sintonia de ideias e de interesses de pesquisa compartilhados entre você e seu orientador. Nesse sentido, é essencial que vocês mantenham um bom relacionamento. Mas não se iluda: o papel do orientador é de aconselhamento e orientação, para garantir que você permaneça no caminho. O orientador não é responsável pela pesquisa. 

Faça reuniões regulares com seu orientador, entregue algum tipo de relatório de progresso (escrito ou verbal), anote seus conselhos, ouça-os e responda a eles. Entregar trabalho escrito ao seu orientador antes das reuniões o ajudará a lhe dar um feedback de melhor qualidade. 

É responsabilidade dos mestrandos e doutorandos agendar as reuniões com seus respectivos orientadores. A depender do tipo de trabalho e da área, uma vez a cada quinze dias ou uma vez por mês são frequências satisfatórias. Agende as datas com antecedência. Planeje o que você vai falar para garantir que as reuniões sejam produtivas.

Publique em coautoria com seu orientador, certificando-se de que ele, de fato, contribua para seus artigos.


3. Abra sua mente, desenvolva habilidades de pensamento crítico, assuma a responsabilidade por sua pesquisa e entenda a importância de concluir as coisas (iniciativa é importante, mas “acabativa” é fundamental!).

Abra sua mente a novas ideias. Aprenda com as críticas. Bons acadêmicos não aceitam nada como verdade absoluta – não é porque algo foi publicado que é uma contribuição válida inquestionável. Nesse sentido, espera-se de um pós-graduando avaliação crítica de pesquisas anteriores e feedback construtivo. Como um crítico de arte, aprenda a identificar o que é bom e o que é ruim, justificando sua posição.

Lembre-se: mestrandos e doutorandos, e não seus orientadores, são os responsáveis por suas pesquisas. Foque em concluir sua dissertação ou tese. Parta do pressuposto de que ela não ficará perfeita e terá muitos e muitos (e muitos) erros. Como a vida. 


4. Tenha confiança, seja determinado, persistente e resiliente, gerencie os altos e baixos, mantenha o foco, seja disciplinado e cumpra seus prazos.

Muitas pessoas antes de você já concluíram um mestrado ou um doutorado. Você também vai conseguir. Trabalhe sua determinação, obstinação e persistência. 

Tal qual Rocky Balboa, seja como um pino de boliche: não importa quantas vezes você seja derrubado, levante-se de volta. A jornada da pós-graduação é uma montanha-russa. Você viverá momentos altos e momentos baixos. 

Inicie, planeje, execute, controle e conclua a pesquisa de acordo com os padrões exigidos para o mestrado e o doutorado dentro do prazo permitido pela sua universidade. Seja metódico, mantendo registros de suas leituras, de sua pesquisa, etc. Tente respeitar o cronograma do seu plano. Se houver atrasos, encontre formas de compensar o tempo perdido.

A maioria das universidades exige disciplinas obrigatórias e optativas para integralização da pós-graduação. Quanto antes você concluir as disciplinas, mais cedo poderá se concentrar na sua pesquisa. 


5. Conheça a literatura da sua área, torne-se um especialista na(s) sua(s) teoria(s) e metodologia(s), sempre que ler um pouco, escreva um pouco.

Familiarize-se com os principais periódicos da sua área. Certifique-se de conhecer em profundidade as teorias e métodos relacionados à sua pesquisa. Justifique por que você as escolheu e como sua pesquisa se posiciona em relação às controvérsias e debates na sua área.

Pós-graduandos devem demonstrar compreensão da literatura prévia. Estabeleça um hábito de ler livros de qualidade, capítulos de livros e artigos de periódicos. Não apenas leia, mas releia – uma segunda ou terceira leitura pode trazer detalhes críticos e insights que passaram batido na primeira. Examine artigos de revisão de literatura para entender como autores experientes realizam esse exercício. 

À medida que lê a literatura, resuma-a e, quando apropriado, inclua os resumos na dissertação ou na tese, construindo o documento ao longo do tempo. 


6. Procure ajuda, converse com outros pós-graduandos na sua universidade, encontre um parceiro (ou vários) de estudos e aprenda com os outros.

Encontre oportunidades de obter ajuda com sua pesquisa, tanto de outros pós-graduandos quanto de outros acadêmicos. Se estiver passando por um problema específico grave, não o esconda. Conte ao seu orientador ou ao coordenador do seu programa de pós-graduação. Se não falar, o problema pode piorar.

Converse com estudantes de mestrado e doutorado que estejam em etapas mais avançadas do que você, pois eles já aprenderam como o sistema funciona na sua universidade e podem lhe contar o que aprenderam "na prática".

A pesquisa na pós-graduação tende a ser solitária (em algumas áreas mais do que em outras). Encontrar um parceiro de estudos pode ajudar a tornar a experiência menos desgastante. Além de oferecer apoio nos dias difíceis, essas pessoas podem se tornar suas colaboradoras.


7. Comece a escrever sua dissertação ou tese desde o dia 1, aprenda a escrever, comece dissertação ou tese com um sumário, escreva (quase) todos os dias pensando em contar uma história.

A escrita é uma disciplina e um hábito. Adquira o hábito de escrever desde o início. Quanto mais você escreve, melhor escreve. Não mantenha suas ideias apenas na sua cabeça! Se você escrever todos os dias, conseguirá concluir sua dissertação ou tese. A escrita também ajuda a clarear as ideias. 

Dissertações e teses têm estilo, formato e estrutura próprios. Certifique-se de entender como deve ser a aparência do seu trabalho. Compreenda a estrutura de parágrafos, sintaxe, prolixidade, pontuação, ortografia, etc. Algumas universidades permitem que os alunos escolham entre dissertação e tese tradicionais e o modelo de múltiplos artigos. A escolha não precisa ser feita imediatamente, mas quanto antes você a fizer, melhor.

Concluir dissertações e teses tem muito em comum com montar quebra-cabeças. Para montar um quebra-cabeça, a primeira coisa que se faz é separar as peças com bordas retas e formar a moldura. O restante é concluído por tentativa e erro. Em uma dissertação ou tese, o sumário é o equivalente: um mapa de rota para o início, meio e fim do trabalho. Uma estrutura clara é fundamental.

Tenha um documento-mestre para que toda a tese seja desenvolvida, e não de forma fragmentada em arquivos separados. Ainda que você opte pelo modelo de múltiplos artigos, vale a pena concentrá-los em um único documento.

O mais importante é contar uma história envolvente. Organize a sequência para tornar a história mais atraente, em vez de seguir a cronologia exata do que você fez.


8. Compreenda as regras da sua universidade sobre a defesa da dissertação ou da tese, escolha seu(s) avaliador(es) cuidadosamente, conheça seu público, faça um “simulado” de defesa, seja confiante e firme, defenda seu trabalho sem ser defensivo.

Familiarize-se com a pesquisa dos seus avaliadores, pois isso pode influenciar a linha de questionamento deles. Os avaliadores vão querer saber se foi você quem realizou a pesquisa e escreveu a dissertação ou tese, se você compreende a pesquisa, se respondeu às perguntas de pesquisa e se elas foram abordadas de maneira adequada.

Prepare uma lista o mais exaustiva possível de perguntas (e respostas) que possam lhe fazer na defesa. Peça aos colegas de pós-graduação da sua área ou do seu laboratório que formem uma banca simulada antes da defesa real. Se possível, faça anotações por escrito das principais perguntas e comentários. Se o seu orientador puder participar da defesa, ele poderá anotar todas as perguntas e comentários para reflexão posterior.

Você deve ser o especialista no seu tema e demonstrar autoridade sobre o assunto com a confiança e a firmeza adequadas. Ainda assim, toda pesquisa tem falhas. Os avaliadores encontrarão pontos fracos no seu trabalho. Reconheça e siga o jogo! As seções de considerações finais e de pesquisas futuras são ótimos espaços para abordar esses pontos.


9. Aproveite sua pós-graduação.

É difícil ter êxito em algo de que não se gosta. Se você aproveitar o processo e gostar dos seus estudos na pós-graduação, terá mais chances de se tornar uma pesquisadora ou um pesquisador bem-sucedido.


Referência

Brennan, N.M. 2019. 100 PhD rules of the game to successfully complete a doctoral dissertation. Accounting, Auditing & Accountability Journal, 32 (1), 364–376. https://doi.org/10.1108/AAAJ-01-2019-030 

PS: Há dez anos, publiquei aqui no blog a resenha de um livro que dialoga com este tema. Pode ser acessado AQUI.

Imagem: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Power-of-words-by-antonio-litterio-creative-commons-attribution-share-alike-3-0.jpg

quarta-feira, 11 de março de 2026

Negacionismos e a lógica ilógica das conspirações

Tenho dois amigos torcedores fanáticos de um time de futebol do Rio de Janeiro. De fato, eles não são apenas fanáticos: são absolutamente ensandecidos, maníacos, obcecados. Ainda que ambos sejam cientistas, quando comentam a respeito do time que adotaram como seu, esquecem a lógica e a racionalidade. No grupo de amigos que temos, eles são conhecidos como “negacionistas”, já que fazem um contraponto ferrenho a qualquer um que questione sua paixão desavergonhada pelo ludopédio rubro-negro. Seu time errou quatro pênaltis em uma disputa por conta de nervosismo e incompetência dos batedores? “Não foi isso. Erramos porque não queríamos mesmo o título”. O presidente do seu clube demitiu o técnico que havia ganhado tudo no ano anterior por mera vaidade? “O presidente tomou a decisão correta; o técnico não estava rendendo”. Todos os analistas e as estatísticas apontam que o seu time perdeu intensidade nesta temporada. “Os especialistas e as estatísticas estão equivocados”.


Por mais que o amor destemperado por um time de futebol não possa ser explicado cientificamente, ele guarda semelhanças ao negacionismo da ciência, e como ele muitas vezes relaciona-se mais à identidade coletiva do que a informações, dados e raciocínio hipotético-dedutivo.


Em 2022, o filósofo da ciência Lee McIntyre (1962– ) publicou Como falar com um negacionista da ciência: conversas com terraplanistas e outros que desafiam a razão (lançado no Brasil pela editora da Unicamp). No livro, McIntyre organiza seu argumento a partir de cinco erros característicos de um negacionista da ciência:


1. Confiança em teorias da conspiração;

2. Evidências seletivas;

3. Confiança em falsos especialistas (e difamação de verdadeiros especialistas);

4. Insistência de que a ciência precisa ser perfeita;

5. Raciocínio ilógico.


Qualquer um que negue teorias e hipóteses científicas se encaixa nesses pontos (quase sempre em todos), sejam eles terraplanistas, revisionistas históricos, anti-evolucionistas defensores do design inteligente, partidários do movimento MAGA, bolsonaristas anti-vacina ou negacionistas das mudanças climáticas.


Para McIntyre, mais do que falta de dados e informações, negacionistas da ciência compartilham uma “identidade social”, um espírito de grupo semelhante ao das religiões (e de algumas ideologias políticas), que os tornam imunes à lógica científica. Ao questionamento “que tipo de evidência faria você abandonar sua posição anti-ciência”, parte significativa deles responderia que essa pergunta não faz sentido, uma vez que a posição negacionista não se apoia em evidência empírica ou hipóteses falseáveis.


Teorias da conspiração e negacionismos científicos estão tão entremeados que são quase sinônimos. Para quem, como eu, passou a adolescência vendo os agentes Fox Mulder e Dana Scully puxando os fios de uma gigantesca maquinação governamental com a participação (ou não) de alienígenas, é fácil identificar uma teoria da conspiração: em linhas gerais, é toda crença não comprovada de que algo extraordinariamente improvável seja verdade, mas que nem todos conseguem perceber uma vez que essa tal verdade fica obliterada por uma campanha coordenada por pessoas ou instituições poderosas. Em Arquivo X, Mulder era o crédulo. Se o complô beirava o absurdo, ele lhe dava crédito e procurava “a verdade”, que, como dizia o slogan da série, “estava lá fora”. Não à toa, em seu escritório, Mulder tinha o pôster de um disco voador com os dizeres “Eu quero acreditar”. Arquivo X terminou em 2009 e retornou para duas temporadas em 2016 e 2018 (tentei acompanhar o revival, mas o comportamento do então agente afastado do FBI soou tão MAGA-like que desisti em prol de manter as boas memórias de minha adolescência com a série). 


Segundo McIntyre (2024, p. 29), o uso de evidências seletivas também está no cerne do comportamento negacionista. Em suas palavras: 


A seleção de evidências está profundamente enraizada em um erro cognitivo comum chamado viés de confirmação. Por meio do viés de confirmação, somos motivados a encontrar fatos que sejam consistentes com aquilo em que preferimos acreditar, e muito dispostos a ignorar quaisquer fatos que desfavoreçam a nossa crença


O mesmo vale para a confiança extremada em falsos especialistas, em boa parte das vezes sem qualquer formação sobre o assunto em pauta. Apela-se para influencers, apresentadores de canais de YouTube e Tik Tok, blogueiros, falsos pesquisadores e toda fauna de alegadas autoridades e suas “investigações independentes” que não são levadas a sério pela comunidade acadêmico-científica. Aqui entra outra particularidade do comportamento de negacionistas da ciência, segundo McIntyre: a vitimização. Os adeptos de teorias da conspiração reclamam coletivamente de serem ridicularizados pelos cientistas reais e se agrupam em torno de seus próprios “especialistas”, tornando as disputas sobre assuntos científicos guerras de “nós contra eles”. O documentário A terra é plana, de 2018, dirigido por Daniel J. Clark, aborda com assertividade esse aspecto em grupos de terraplanistas dos EUA.


Outro aspecto importante nessa discussão é a insistência, por parte de negacionistas e teóricos da conspiração, de que a ciência deve ser perfeita e dar conta de todas as explicações de um fenômeno. Desconsidera-se que o pensamento científico se desenvolve através da relação indissociável entre hipóteses, corroborações e refutações. Como discutido inúmeras vezes neste blog, a ciência é uma atividade humana passível de erros e estes são essenciais na construção do conhecimento. Mais do que um emaranhado de conjecturas inquestionáveis, todos os campos de estudo da ciência são abertos a mudanças e críticas. No entanto, dados e experimentos contrapondo uma ideia estapafúrdia são de pouca serventia para convencer um negacionista a acreditar em algo que ele não quer que seja verdade. “Ele sempre vai insistir em mais e mais provas”, conforme nos conta McIntyre (2024, p. 92)


Por fim, dentre os cinco pontos elencados acima, o raciocínio ilógico também faz parte do menu de um negacionista. Falácias, falsas analogias, falsos dilemas e conclusões precipitadas são exemplos. Para suportar seus pontos, distorcem, simplificam ou exageram o argumento dos seus oponentes para atacá-los com mais facilidade; usam pistas falsas ou tópicos irrelevantes para desviar a atenção do assunto principal; comparam situações apenas marginalmente (se tanto) semelhantes; ou chegam a conclusões a partir de amostragens nada significativas, evidências insuficientes e casos isolados.


É interessante notar que terraplanistas e antivaxxers compartilham uma “identidade social" e um conjunto de valores e práticas que não se coaduna com uma perspectiva científica baseada em evidências empíricas, observações e testes controláveis. As “provas” que apresentam são apenas pseudo-racionalizações para o que aceitam enquanto membros de um grupo, um coletivo que divide com eles valores e práticas semelhantes. Nesse sentido, lidar com negacionismos a partir exclusivamente de fatos e dados que refutem ideias pseudo-científicas pode não ser o caminho mais eficaz. Nas palavras de McIntyre (2024, p. 110):


O negacionismo da ciência não se baseia em falta de evidências. O que significa que não pode ser remediado apenas fornecendo mais fatos. (...) Nenhuma evidência vai fazer um negacionista mudar de ideia se não avaliarmos o papel que suas crenças desempenham no reforço de sua identidade social. 


Como, então, lidar com o negacionismo da ciência? Não há uma resposta simples para uma pergunta tão complexa quanto esta. Envolvimento pessoal, humildade, respeito e transparência sobre como a ciência funciona, aliados a dados e valores a partir dos quais o pensamento científico se constrói, são cruciais para debelar teorias da conspiração. Ainda segundo McIntyre (2024, p. 317):


Abraçar a ideia de que ainda vale a pena conversar com alguém que discorda de nós é como fazer um investimento em nossos semelhantes e em nosso futuro juntos. (...) Ter uma conversa difícil com uma pessoa é respeitá-la o suficiente para tentar convencê-la de que está errada.


Atualmente, não podemos mais nos afastar do debate público em torno da ciência. No início deste século XXI, pensadores como o paleontólogo Stephen Jay Gould (1941–2002) recusavam-se a discutir com defensores da ideia pseudo-científica do design inteligente. Em uma carta datada de dezembro de 2001 ao também evolucionista Richard Dawkins (1941– ) (apud Dawkins, 2005, p. 383):


Essas pessoas não têm a expectativa de convencer cientistas respeitáveis com seus argumentos ridículos. Em vez disso, o que elas buscam é o oxigênio da respeitabilidade. Nós lhes fornecemos esse oxigênio pelo mero gesto de nos envolvermos com elas de alguma maneira. Elas não se importam de serem derrotadas em sua argumentação. O que desejam é o reconhecimento que lhes damos pelo simples fato de debatermos com elas em público.


Essa visão elitista é inaceitável no mundo contemporâneo. Como lembra McIntyre (2024, p. 311), “o vilão é o herói da sua própria história”. Temos a obrigação de nos engajarmos contra toda sorte de negacionismos. Da perspectiva acadêmica, o trabalho colaborativo entre quem produz e quem divulga o conhecimento científico, e a proximidade com o público, seja ele de qual estrato social e ideológico for, são fundamentais para combatermos o lamaçal de notícias falsas, charlatanismos e teorias conspiratórias em que a sociedade humana está imersa.


Para alguns torcedores amalucados, infelizmente, nada bastaria. Nem Galactus e seu poder cósmico fariam meus amigos flamenguistas caírem na razão.


Referências:

Dawkins, R. 2005 O capelão do diabo. Companhia das Letras: São Paulo.


McIntyre, L. 2024. Como falar com um negacionista da ciência: conversas com terraplanistas e outros que desafiam a razão. Editora Unicamp: Campinas.

Santos, C.M.D. 2022. Comunicação científica em um mundo negacionista: traduzindo ciência em diferentes mídias. In: Spineli, P.K. & Jacob, E.L. (Org.). Comunicação em foco: conexões e fragmentações. Editora da PUC-SP: São Paulo, 205–222.


Imagem:

Gravura de Flammarion, circa 188. Fonte: Wikipedia (https://pt.wikipedia.org/wiki/Terra_plana#/media/Ficheiro:Universum.jpg)


quinta-feira, 29 de maio de 2025

Múmias extraterrestres?

Arquivo X foi uma das séries de TV mais icônicas dos anos 1990. Uma vez por semana, os agentes do FBI Fox Mulder e Dana Scully se envolviam em investigações sobre atividade paranormal, seres espetaculares, monstros pré-históricos ressuscitados, pés-grandes, teorias conspiratórias mundiais e monstrengos extraterrestres. A abertura da série, além da música tema marcante, terminava com um punch: "A verdade está lá fora". Eu adorava essa série e a acompanhava fielmente, todos os domingos, na TV aberta.

Mulder, o co-protagonista, tinha um pôster pregado em seu escritório no FBI com a frase "Eu quero acreditar" logo abaixo da imagem de um disco voador.

Sobre a possibilidade de existência de vida extraterrestre, não é suficiente querer acreditar. Eu quero saber. E saber com base em evidências sólidas. 

Em 12 de setembro de 2023, o jornalista e ufólogo Jaime Maussan apresentou, em um evento na Câmara dos Deputados do México, o que seriam dois cadáveres mumificados de uma espécie alienígena. Segundo Maussan, os tais ETs haviam sido recuperados de um sítio arqueológico no Peru em 2017. As imagens divulgadas mostram seres humanoides diminutos, muito semelhantes aos extraterrestres retratados em centenas de filmes de Hollywood (que a literatura ufológica costuma chamar de "greys", dado o aspecto cinzento de sua pele). 

Seriam essas múmias evidências da existência de seres extraterrestres, provavelmente inteligentes e capazes de viagens interestelares?

É preciso ter muita calma nessa hora…

Não é a primeira vez que corpos de hipotéticos extraterrestres são apresentados como reais. Em 1995, o vídeo de uma suposta autópsia de ETs "capturados" em 1947 na cidade de Roswell, nos EUA, bombou nos programas de TV. O Fantástico, revista eletrônica da TV Globo que tristemente anunciava o final do domingo, deu grande destaque à gravação. Mesmo em tempos pré-internet, a tal autópsia viralizou. Lembro bem de como eu e meus colegas do colégio ficamos impressionados com o nível de detalhes do vídeo. Parecia autêntico. Não estávamos sós no universo!

Só que a gravação era falsa. Pouco mais de dez anos depois, Ray Santilli, um empresário britânico, admitiu que tudo havia sido criado em estúdio. 

Vídeos como o da autópsia fajuta de Roswell e imagens de avistamentos de objetos voadores não-identificados (os chamados OVNIs) vez por outra aparecem na internet. É possível encontrar vários no YouTube. No entanto, as falsificações grosseiras costumam ser prontamente identificadas. 

No caso dos "extraterrestres" revelados por Maussan, a Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM) rapidamente se pronunciou dizendo que nada tinha a ver com o relato, ainda que o ufólogo tenha dito que pesquisadores da instituição investigaram amostras das múmias, atestando sua antiguidade e a presença de DNA alienígena. Vale lembrar que Maussan esteve envolvido em outras controvérsias semelhantes à atual (como a das múmias de Nazca, também apontadas por ele como extraterrestres).

Material como o apresentado no México não é descartado pela ciência de imediato ou considerado falsificação sem ser analisado. Em 2018, por exemplo, um grupo de pesquisadores, liderados por Sanchita Bhattacharya, da Universidade da Califórnia, publicou um belo trabalho na revista Genome Research analisando um esqueleto humanoide encontrado no Deserto do Atacama, no Chile. O espécime tinha um fenótipo estranho, com pouco mais de 13 centímetros, menos costelas do que o esperado para um Homo sapiens e crânio alongado. Quando da sua descoberta, ufólogos não tardaram a considerar o cadáver uma forma de vida extraterrestre. A equipe de Bhattacharya mostrou, de forma inequívoca, que o esqueleto era de uma menina recém-nascida, portadora de uma série de mutações genéticas (nos genes COL1A1, COL2A1, KMT2D, FLNB, ATR, TRIP11, PCNT) ligadas à malformações do crânio e costelas.

Há inúmeros relatos de testemunhos de OVNIs e abduções, estátuas que choram sangue, aparições de espíritos e fantasmas. Talvez a grande maioria dos relatos de testemunhas de OVNIs e abduções seja de fraudes explícitas. Em raros casos, não são. Alguém que passou por experiências aparentemente inexplicáveis pode se perguntar: "Como assim fraude? Tenho certeza que vi essas coisas!". Será mesmo? Nossas observações nunca são livres de hipóteses prévias. Muitas vezes, vemos apenas o que queremos, ou o que o nosso entorno nos sugere.

O questionamento sobre a existência de vida fora do planeta Terra não é recente. Remonta à Grécia Antiga. Hoje em dia, há discussões profundas e cientificamente embasadas sobre exoplanetas, luas e mesmo cometas abrigarem algum tipo de vida. A área de investigação conhecida como Astrobiologia assumiu parte da responsabilidade de estudar a origem e evolução da vida no universo. O interesse pela Astrobiologia foi reavivado em 1996, com o anúncio, feito por cientistas norte-americanos, de possíveis microrganismos fósseis marcianos no meteorito ALH84001, ejetado de Marte há cerca de 4 bilhões de anos e encontrado na continente antártico em 1984. As dúvidas sobre esses relictos marcianos continuam até nossos dias. 

Para a Astrobiologia, é possível que, ao menos em parte, padrões e processos da evolução da vida na Terra se repitam em outros planetas universo afora. Há autores, como o biólogo britânico Richard Dawkins, que defendem que toda a vida existente em qualquer parte do universo passa por um processo análogo à seleção natural, resultando em taxas de sobrevivência e reprodução diferenciais a partir de variabilidade que surge, principalmente, por mutações e recombinações do material genético constituinte dos organismos. Esse "darwinismo universal" permitiria que reconhecêssemos formas de vida em qualquer ambiente extraterrestre. A intrincada trama da sensacional ficção-científica Devoradores de Estrelas, de Andy Weir, parte dessa premissa.

Há pesquisadores, no entanto, que consideram que formas de vida extraterrestres seriam muito distintas das que somos capazes de identificar - no clássico da ficção-científica Solaris, publicado em 1961, o escritor polonês Stanislaw Lem fala sobre a descoberta de um oceano inteligente, o que nos parece, hoje, quase impossível de imaginar. Ainda assim, se pensarmos que o universo visível tem um diâmetro aproximado de 93 bilhões de anos-luz (cerca de 930 sextilhões de quilômetros), talvez a existência de formas de vida inimagináveis para a nossa espécie seja regra. 

A busca por vida fora do planeta Terra traz, no seu íntimo, algumas das questões filosóficas e científicas mais profundas já levantadas pela nossa espécie: O que é vida? Como identificar o que é vivo em comparação ao que não é? Por que parte das coisas que existem são vivas? Por que as coisas vivas são encontradas em uma grande diversidade de formas? Por que alguns seres vivos têm consciência e de que maneiras ela pode se manifestar? Toda vida no cosmo depende de informação codificada em moléculas de DNA ou de processos baseados na bioquímica do carbono? Como encontrar uma definição de vida que se aplica não somente ao que conhecemos? Reconheceríamos algum tipo de vida extraterrestre? 

Questionamentos como esses são legítimos e orientam pesquisas há muitos anos. É dever da ciência vislumbrar além do que acontece na nossa frente, aqui e agora. Para isso, no entanto, precisamos nos armar das ferramentas certas, algo como um "kit de detecção de bobagens", como dizia o astrofísico e divulgador científico Carl Sagan. É ele que pode nos permitir separar hipóteses científicas, ou seja, baseadas em evidências robustas, daquelas pseudocientíficas ou fraudulentas. O desejo de acreditar que não estamos sós no universo não pode prevalecer sobre a ciência rigorosa.

Se extraterrestres de fato, as múmias apresentadas na Câmara dos Deputados do México seriam a maior revelação científica de todos os tempos, capaz de nos forçar a realinhar muito do que julgamos conhecer sobre a vida, o universo e tudo o mais. Porém, alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias, e não apenas sensacionalismo midiático sem base científica. Seguimos olhando para o céu em busca de indícios de que realmente há alguém, ou algo, lá fora.

Leituras sugeridas:

Bhattacharya, S., Li, J., Sockell, A., Kan, M.J., Bava, F.A., Chen, S.C., Ávila-Arcos, M.C., Ji, X., Smith, E., Asadi, N.B., Lachman, R.S., Lam, H.Y.K., Bustamante, C.D., Butte, A.J., Nolan, G.P. (2018) Whole-genome sequencing of Atacama skeleton shows novel mutations linked with dysplasia. Genome Research, 28(4), 423-431. http://www.genome.org/cgi/doi/10.1101/gr.223693.117.

Darling, D. (2001) Life everywhere: the maverick science of Astrobiology. Basic Books, New York.

Dawkins, R. (1983) Universal Darwinism. Em: Bendall, D.S. (ed.) Evolution from molecules to man. Cambridge University Press, 403–425.

Sagan, C. (2006). O mundo assombrado pelos demônios. Companhia das Letras: São Paulo.

Sokal, A. & Bricmont, J. (2010) Imposturas intelectuais: o abuso da ciência pelos filósofos pós-modernos. Editora Record, São Paulo.

Foto: Divulgação/Congresso Mexicano 

quinta-feira, 13 de julho de 2023

Manuscritos, publicações e a revisão por (ím)pares

Há alguns meses, submeti um artigo que procurava discutir, à luz de uma breve síntese da história da teoria evolutiva, as possibilidades da Inteligência Artificial na "criação de espécies potenciais" que nos permitissem preencher ao menos parte das lacunas da árvore da vida. Duas semanas atrás recebi um parecer destruidor rejeitando o trabalho para publicação sem qualquer possibilidade de correção ou ajuste. Como diria um grande amigo meu, professor de zoologia na Universidade Federal da Bahia, levei uma bela "traulitada".

O mais desconcertante é que, lendo o parecer com cuidado, não consegui relacioná-lo diretamente com o que eu tinha escrito. O (ou a) parecerista teceu uma série de comentários que pouco tinham a ver com a proposta do meu trabalho e fez sugestões de inclusão de temas que nem com muita boa vontade poderiam ser acrescentados no texto. "Não traz para a discussão nenhuma referência da biosemiótica, code biology ou teoria da informação, as empreitadas mais potentes na biologia atual". Claro que não trouxe tais temas para a discussão, afinal não eram mote do artigo! 

O estabelecimento da ciência contemporânea está pautado na chamada "revisão por pares". Artigos enviados para publicação em periódicos acadêmicos são revisados por outros pesquisadores, que fazem ponderações, pedem esclarecimentos, sugerem alterações, apontam falhas e lacunas. Quando o processo funciona, a ciência presente no manuscrito submetido se fortalece e a comunidade científica como um todo é favorecida. 

No entanto, não raro o processo de peer-review seria melhor intitulado "revisão por ímpares". Aí tome sugestões de inclusão de artigos do próprio parecerista ou textos aleatórios, observações descabidas, falta de tato (e mesmo falta de educação), sem contar o indefectível "esse artigo precisa ser revisado por um falante nativo do inglês", quando o autor não é anglófono ou tem sobrenome como Santos. A crítica sobre o idioma, felizmente, deve se extinguir por completo com a popularização de algoritmos de Inteligência Artificial que auxiliam na escrita e edição de texto - além de ter postado sobre esse assunto AQUI, eu e o Prof. João Paulo Gois, também docente da Universidade Federal do ABC, escrevemos a respeito na Zootaxa (Harnessing the power of AI language models for taxonomy and systematics)

Meu objetivo como pesquisador sempre foi o de conseguir mais pareceres positivos do que negativos na minha produção acadêmica. Creio que meu balanço atual é de mais ou menos 50/50. Isso significa que, no momento em que escrevo essa postagem, já tomei umas 70 "traulitadas". A primeira mais marcante foi justamente em um trabalho submetido com meu amigo da Federal da Bahia como co-autor, no início de nossa pós-graduação em entomologia. Era meu terceiro artigo submetido, depois de dois sucessos. O parecer veio como uma voadora no peito: "Esse texto, escrito por dois estudantes, é o pior que já li na vida". Não era assim tão péssimo, ainda que tivesse problemas... Para o trabalho mais recente que publiquei na Journal of Biogeography com co-autores discentes e o Prof. João Paulo citado acima, um dos revisores sugeriu que o novo método que propusemos - SAMBA, acrônimo para Super Area-cladogram after resolving Multiple Biogeographical Ambiguities - não era necessário porque aquele que ele havia criado já resolvia todos os problemas da biogeografia cladística. O detalhe é que esse tal método miraculoso foi publicado e nunca utilizado por ninguém…

Como parecerista, procuro sempre ressaltar as qualidades dos manuscritos que avalio. QUALQUER trabalho feito com seriedade tem pontos positivos, por mais inexperiente que seja o seu autor ou por mais desafiadoras as mudanças necessárias para que o artigo possa ser publicado. Revisores não são oráculos e não devem se travestir da verdade absoluta. Mas somos todos humanos e estamos sujeitos a vaidades, egoísmos e comportamentos arrogantes, que muitas vezes transparecem nos nossos pareceres. Tenho lutado contra isso desde a primeira revisão que fiz, há mais de 20 anos. Espero estar melhorando a cada vez que aceito uma tarefa de peer-review.

Por mais desanimador e intimidante que seja receber uma avaliação negativa ou agressiva sobre o que fazemos de forma dedicada e diligente, isso faz parte da construção do conhecimento científico. Temos que tentar, na medida do possível, absorver o que for útil e descartar o que nada acrescenta, sem adotar posturas demasiado defensivas. Não temos controle sobre o que escrevem a respeito do nosso trabalho, mas podemos focar em controlar o que sentimos ao avaliarmos esses comentários. Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo, como nos ensina Walter Franco em sua canção-mantra mais conhecida.

Quanto ao manuscrito recusado, procedi com uma "lipoaspiração" radical, cortei gorduras e estou trabalhando em uma nova versão com um colega parceiro de outras tantas empreitadas. Que os próximos pareceristas sejam, de fato, divisíveis por dois!

Referências

Heard, S. B. 2022. The Scientist’s guide to writing: how to write more easily and effectively throughout your scientific career. New Jersey: Princeton University Press.

Santos, C.M.D. & Gois, J.P. 2023. Harnessing the power of AI language models for taxonomy and systematics: a follow-up to “Can ChatGPT be leveraged for taxonomic investigations? Potential and limitations of a new technology” by Davinack (2023). Zootaxa, 5297(3), 446-450.

Santos, D., Sampronha, S., Hammoud, M., Gois, J.P. & Santos, C.M.D. 2023. SAMBA: Super area-cladogram after resolving multiple biogeographical ambiguities. Journal of Biogeography, 50(4), 816-825.

Imagem: https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Numbers#/media/File:Numbers_grid_in_NY.jpg 

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Escrita científica em inglês: ferramentas online úteis e gratuitas

Publicar os resultados das pesquisas realizadas nos laboratórios, universidades e institutos é condição fundamental para o desenvolvimento da ciência. É através de artigos e livros que as ideias circulam, são testadas, corroboradas ou refutadas, inspiram outros trabalhos e novas áreas de investigação.

Todo pesquisador e pesquisadora, em algum momento, enfrenta o desafio de colocar no papel (ou na tela) os produtos do seu trabalho. Às vezes, as palavras saem com mais facilidade; em certos momentos, no entanto, precisamos acender velas e incensos para Darwin antes de digitar a primeira palavra. 

A escrita científica só faz sentido se para ela existirem leitores. No mundo contemporâneo, o processo de encontrar material publicado é bem mais simples do que há 20 anos. Quem tem mais de 35 deve se lembrar do quanto gastávamos (em tempo e dinheiro) fotocopiando artigos e capítulos de livros. Uma vez fui lecionar um curso de pós-graduação em Manaus e levei duas malas: uma com roupas, outra com separatas. E nem sou tão velho assim…

Dito isso, o idioma no qual se publica a ciência é sempre uma questão importante. A depender do tipo de artigo, do seu escopo e público alvo, podemos optar por periódicos que aceitam manuscritos em português, espanhol, francês… No entanto, em termos de acessibilidade para um amplo espectro de interessados, o inglês tem sido a escolha de boa parte da comunidade científica para divulgar seus resultados. Aí começam os problemas, especialmente para não falantes nativos do idioma de Shakespeare.

Para meus alunos e alunas, costumo dizer que o inglês da ciência não é o mesmo da literatura. É o inglês técnico, que precisa ser claro e objetivo. O importante é comunicar com precisão as ideias, de preferência da forma mais parcimoniosa e sucinta possível. Àquela primeira versão, escrita sem travas, quase em fluxo de consciência, devem ser aplicadas técnicas de “lipoaspiração redacional”: cortar o que é desnecessário, evitar generalidades, excluir frases que não adicionam nada, e limar parágrafos longos e intrincados.

Felizmente, hoje temos inúmeras ferramentas que auxiliam pesquisadores e pesquisadoras na escrita dos seus artigos, capítulos e projetos. Listo abaixo algumas delas que acho particularmente interessantes.

Ferramenta útil para revisão, verificação e correção de erros gramaticais e de linguagem, adequação de conteúdos e melhoria de fluência no texto. Há opção grátis, que ajuda muito. O aplicativo dá uma pontuação geral do texto, que pode servir como um norte para edições e melhorias. Após utilizar o Grammarly, a primeira versão do seu manuscrito certamente ganhará em clareza e assertividade.

Dicionário de sinônimos, muito útil durante o processo de reescrever e editar.

Esse site gratuito dá uma nota (score) para o seu manuscrito baseada na qualidade do inglês quando comparado a outros artigos de um banco de dados de mais de 300.000 trabalhos acadêmicos de todas as áreas . A pontuação leva em conta aspectos de legibilidade em inglês, incluindo gramática, consistência e clareza. Com base no seu score, o aplicativo sugere, por exemplo, serviços de revisão (na maioria pagos). Quanto mais alta a nota, menor a necessidade desse tipo de serviço. Se o score chegar a um valor acima de 7,0, o sistema entende que o texto está suficientemente bom e não precisa de grandes melhorias.

Nesse site, é possível fazer o upload do artigo e descobrir quantas vezes as palavras mais citadas aparecem (e também a existência de muitas frases e construções repetidas). Vale muito a pena ser usado, especialmente para refinar um texto já bem trabalhado no Grammarly.

Tenho usado as ferramentas acima da seguinte forma:

(1) trabalho a versão inicial em algum processador de texto (GDocs ou MSWord, por exemplo);
(2) uso o Grammarly até chegar ao máximo score que ele permite (o mais perto de 99);
(3) verifico o score no secure.aje.com;
(4) conto palavras e frases repetidas no countwordsfree.com, que serão retrabalhadas ou cortadas;
(5) volto para (2) até que o score no secure.aje.com esteja acima de 7.2, o que garante, segundo o sistema, que o texto está suficientemente bom e não precisa de revisão adicional (ou por um "native speaker˜).

Não existe uma receita quando o assunto é redigir manuscritos científicos. O fundamental é que cada um e cada uma construa o seu próprio processo. Sei como é frustrante receber pareceres do tipo “a ciência nesse artigo é boa, mas o inglês precisa melhorar”. Não devemos esmorecer frente a esses obstáculos. Ferramentas como as discutidas aqui podem ser o diferencial entre o “rejected” e o “accepted with minor revisions”.

PS: Há uma vasta literatura com dicas de escrita científica. Dois artigos muito úteis, que revisito periodicamente, são voltados para falantes de português e discutem os nossos principais erros ao escrevermos em inglês.

Marlow, M.A. 2014. Writing scientific articles like a native English speaker: top ten tips for Portuguese speakers

Marlow, M.A. 2016. Writing scientific articles like a native English speaker: concise writing for Portuguese speakers


domingo, 18 de julho de 2021

Richard C. Lewontin (1929-2021)


No último dia 04 de julho, aos 92 anos, faleceu nos EUA o biólogo Richard Charles Lewontin (1929-2021).

Ao longo de sua carreira científica, Lewontin foi um crítico ferrenho do determinismo genético, tendo se posicionado contra a ideia de que características complexas dos seres vivos, como o coeficiente de inteligência, estivessem diretamente inscritas no DNA. Para todo atributo há um gene específico? De jeito nenhum, afirmava Lewontin. A variabilidade orgânica não podia ser resumida a um pedaço de material genético.

No seu livro de ensaios "Biology as ideology: the doctrine of DNA", de 1991 (traduzido para o português e publicado aqui em 2000), Lewontin escreveu:
(...) não temos razão a priori para pensar que haveria qualquer diferenciação genética entre grupos raciais em características como comportamento, temperamento e inteligência. Tampouco há um pingo de evidência de que as classes sociais diferem de alguma forma em seus genes, exceto na medida em que a origem étnica ou a raça podem ser usadas como forma de discriminação econômica. O absurdo propagado pelos ideólogos do determinismo biológico de que as classes inferiores são biologicamente inferiores às classes superiores (...) é precisamente isso, um absurdo. O objetivo é legitimar as estruturas de desigualdade em nossa sociedade, colocando um brilho biológico sobre elas e confundindo o que pode ser influenciado pelos genes e o que pode ser alterado por mudanças sociais e ambientais.
Em 2000, Lewontin publicou no The New York Review of Books [1] umas das mais lúcidas críticas à percepção popular - comum também entre muitos cientistas - de que o DNA é o Santo Graal da biologia, a panaceia que vai nos apontar os caminhos para resolvermos todos os nossos problemas. Para Lewontin:
(...) é necessário mais que o DNA para se fazer um ser vivo. Em certa ocasião, ouvi um dos líderes mundiais da biologia molecular, na palestra de abertura de um congresso científico, dizer que se tivesse um computador com capacidade suficiente e a seqüência completa do DNA de um organismo, ele poderia calcular o organismo, ou seja, segundo ele, seria possível descrever plenamente sua anatomia, fisiologia e comportamento. Isto está errado. Nem o próprio organismo é capaz de se calcular a partir do próprio DNA. Um organismo vivo em qualquer momento de sua vida é exclusivamente consequência de uma história de desenvolvimento resultante da interação e da determinação de forças internas e externas. As forças externas, que usualmente pensamos como “ambiente”, são elas próprias parcialmente consequência das atividades do organismo em si, enquanto produz e consome as condições da própria existência. Os organismos não encontram o mundo no qual se desenvolvem. Eles o produzem.
Lewontin foi um dos grandes colaboradores do paleontólogo Stephen Jay Gould (1941-2002). É deles o hoje clássico ensaio "The Spandrels of San Marco and the Panglossian Paradigm: a critique of the adaptationist programme", publicado em 1979. No artigo, Lewontin e Gould fazem um contraponto à visão adaptacionista estrita na biologia - a ideia de que todo e qualquer atributo existente nos organismos teria sido forjado pela seleção natural, a única responsável pelas formas orgânicas, funções e comportamentos encontrados na natureza. Mais de 40 anos após a publicação desse artigo seminal, hoje sabemos que há muito mais na biologia do que apenas a seleção natural. A identificação dos fatores e mecanismos responsáveis pela complexidade orgânica é um dos objetivos da Síntese Estendida da Evolução, que tem avançado nos caminhos abertos por Lewontin, Gould e outros autores nos já longínquos anos 1970.

Richard Lewontin foi um exemplo de biólogo que enxergava seu trabalho na genética e na biologia evolutiva para além do laboratório. Jerry Coyne, autor do belo livro "Why evolution is true" e ex-aluno de pós-graduação de Lewontin, a quem ele chamava "The Boss", conta que, à pergunta "O que te levou para as ciências?", seu orientador costumava responder "Um professor carismático" [2].

Até mais, "Boss", e obrigado pelos peixes!

Notas:
[1] O texto foi traduzido em 2002 e publicado na Revista da Adusp sob o título "O sonho do genoma humano".
[2] Jerry Coyne publicou 
um tributo a seu ex-orientador cheio de fotos e anedotas comoventes. Pode ser acessado AQUI.

Leia mais:

domingo, 13 de junho de 2021

Da relação entre dietas baseadas em plantas e a COVID-19

Acaba de ser publicado (junho/2021) um interessante estudo a respeito da influência da dieta na infecção, severidade e duração dos sintomas da COVID-19. Ainda que vários trabalhos anteriores tenham sugerido que padrões de alimentação podem ter algum papel na incidência e no curso da COVID-19 por conta da sua relação com o aumento (ou diminuição) da resposta imunológica, o trabalho de Hyunju Kim, do Departamento de Epidemiologia da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, e seus colaboradores espalhados pelos Estados Unidos é o primeiro a estabelecer uma correlação direta entre padrões de dieta e severidade da síndrome respiratória aguda grave causada pelo coronavírus.

Profissionais de saúde de seis países (França, Alemanha, Itália, Espanha, Reino Unido e EUA), altamente expostos a pacientes com COVID-19, foram objeto da pesquisa, feita entre 17 de julho e 25 de setembro de 2020. De um total de 2884 participantes, houve 568 casos COVID-19; destes, 138 indivíduos apresentaram sintomas de moderados a graves, enquanto 430 indivíduos tiveram sintomas de muito leves a leves.

Os participantes relataram suas dietas durante todo o ano anterior à Organização Mundial de Saúde ter decretado o status de pandemia de COVID-19, em março de 2020. Dessa forma, foi possível definir os padrões de ingestão alimentar usual e de longo prazo dos amostrados. Entre as opções de dietas apresentadas aos participantes estavam alimentos integrais, dietas à base de plantas, dietas vegetarianas, regimes alimentares que incluíam peixes e frutos do mar (mas excluíam a carne de outros animais), dietas com baixo teor de gordura, dietas pobres em carboidratos e dietas ricas em proteína animal.

Entre os 568 casos de COVID-19 registrados na amostra, os indivíduos que seguiam dietas baseadas em plantas relataram consumir mais vegetais totais, proteínas vegetais (leguminosas e nozes) e menos aves, carnes vermelhas e processadas, além de menos bebidas adoçadas com açúcar e álcool, em comparação com aqueles que não seguiam dietas à base de plantas.

Os participantes com dietas ricas em vegetais tiveram 73% menos chances de apresentar sintomas de COVID-19 de moderados a graves em comparação com aqueles que não se alimentavam preferencialmente de vegetais e legumes. Aqueles que seguiram dietas baseadas em vegetais somadas a peixes e frutos do mar como fonte de proteína animal tiveram 59% menos chances de apresentar sintomas moderados a graves.

Os participantes da pesquisa de Kim e colaboradores que seguiam dietas vegetais ou vegetarianas tiveram maior ingestão de vegetais, legumes e nozes, e menor consumo de aves, carnes vermelhas e alimentos industrializados ultraprocessados. Dietas baseadas em vegetais são ricas em nutrientes, especialmente fitoquímicos, fibras, vitaminas A, C, D e E e minerais (ferro, potássio, magnésio). A suplementação de alguns desses nutrientes diminui o risco de infecções respiratórias, como resfriado comum e pneumonia, encurtando a duração dos seus sintomas. Uma vez que desempenham papéis importantes na produção de anticorpos, proliferação de linfócitos e redução do estresse oxidativo, dietas com concentrações adequadas em tais nutrientes podem ter por consequência o bom funcionamento do sistema imunológico.

Vírus como o SARS-CoV-2 provocam falhas no acionamento do sistema imunológico. A inflamação resultante pode levar à deficiência respiratória aguda e a outros sintomas perigosos. Na maioria dos pacientes de COVID-19, o sistema imune é capaz de "desarmar" e matar o coronavírus. No entanto, em cerca de 5% dos infectados o corpo não é capaz de se livrar do vírus, o que pode resultar em dano duradouro ao pulmão e outros tecidos, formação de coágulos e vazamento de fluidos dos vasos sanguíneos.

Estudos como o de Hyunju Kim e colaboradores apontam que uma dieta saudável, baseada majoritariamente em plantas e rica em nutrientes, funciona como proteção adicional (além das vacinas, absolutamente necessárias) contra sintomas severos da COVID-19.

Mais sobre vegetarianismo e especismo:

Referências
1. Calder, P.C. 2020. Nutrition, immunity and COVID-19. BMJ Nutr Prev Health 3:74–92. 
2. Kim, H., Rebholz, C.M., Hegde, S., et al. 2021. Plant-based diets, pescatarian diets and COVID-19 severity: a population-based case-control study in six countries. BMJ Nutrition, Prevention & Health.
3. Iwasaki, A. & Wong, P. 2001. O caos que a COVID-19 cria na imunidade. Scientific American Brasil 216: 59–65.
4. Morais, A.H.A., Aquino, J. S., Silva-Maia, J.K., et al. 2021. Nutritional status, diet and viral respiratory infections: perspectives for severe acute respiratory syndrome coronavirus 2. Br J Nutr125:851–62. 
5. Satija, A. & Hu, F.B. 2018. Plant-based diets and cardiovascular health. Trends Cardiovasc Med 28:437–41. 
6. Zabetakis, I., Lordan, R., Norton, C., et al. 2020. COVID-19: the inflammation link and the role of nutrition in potential mitigation. Nutrients 12:1466. 

terça-feira, 20 de abril de 2021

Breves resenhas: Por que os generalistas vencem em um mundo de especialistas


Uma das grandes vantagens de vivenciar o ambiente acadêmico universitário é a possibilidade de trocar ideias, impressões, conhecimento e visões de mundo com colegas professores, pesquisadores, discentes e servidores.

Ainda que estejamos muito distantes da normalidade nos dias de hoje, mediando nossos contatos sociais e profissionais por telas de computador e smartphones (para os privilegiados com a chance de trabalhar de forma remota), os momentos de compartilhamento de experiências continuam fundamentais para nosso desenvolvimento intelectual e humano.

Há alguns meses, o grande amigo João Paulo Gois, companheiro docente na Universidade Federal do ABC, me indicou a leitura de "Por que os generalistas vencem em um mundo de especialistas", de David Epstein. Descobri que o livro constava da lista de leitura de Bill Gates para o ano de 2020 (curiosamente, tanto Gois quanto Gates são especialistas em computação).

A obra discute conceitos muitos caros à academia nos dias de hoje: interdisciplinaridade, construção transversal do conhecimento científico, e necessidade de visão ampla e múltipla para a resolução de problemas complexos. Seguem abaixo alguns trechos:
O desafio que todos enfrentamos é como manter os benefícios da amplitude, da experiência diversificada, do pensamento interdisciplinar e da concentração tardia em um mundo que cada vez mais incentiva (e até exige) a hiperespecialização.

Nossa maior força é exatamente o oposto da especialização estrita. É a capacidade de fazer uma integração ampla.

(...) as características que significam boas notas [na universidade] não incluem capacidade crítica de qualquer significado amplo

Os alunos vêm preparados com óculos científicos, mas não saem carregando o canivete suíço do raciocínio científico. (...) Eles devem aprender a pensar antes de aprenderem sobre o que pensar.

Quanto mais limitado e repetitivo for um desafio, mais provavelmente ele será automatizado, enquanto grandes recompensas serão acumuladas para aqueles que conseguirem obter conhecimento conceitual de um problema ou domínio e aplicá-lo de maneira totalmente nova.

Tolerar grandes erros pode criar as melhores oportunidades de aprendizado.

O pensamento analógico profundo é a prática de reconhecer similaridades em múltiplos campos de conhecimento ou cenários que, superficialmente, parecem ter muito pouco em comum.

(...) as pessoas que melhor resolvem problemas são as mais capazes de determinar sua estrutura profunda antes de determinar uma estratégia de resolução.

(...) o inesperado torna-se uma oportunidade para se aventurar por um novo caminho — e analogias servem como guias nas terras selvagens.

(...) os laboratórios mais capazes de transformar descobertas inesperadas em conhecimento novo para a humanidade criavam muitas analogias, e as criavam a partir de uma grande variedade de áreas. (...) Em algumas reuniões de laboratório, uma nova analogia era proposta, em média, a cada quatro minutos, algumas delas vindas de áreas completamente alheias à Biologia.

O truque mais importante, disse ele, é manter-se sintonizado para perceber quando mudar é simplesmente falta de perseverança e quando se trata do astuto reconhecimento da existência de projetos mais adequados.

(...) uma mente aberta sempre levará algo de toda nova experiência.

Sua pessoa de agora é passageira, assim como todas as outras que você já foi. (...) aprendemos quem somos apenas vivendo, e não antes.

Os criadores de previsões mais profícuos afastam-se do problema em questão e examinam eventos não relacionados, mas com similaridades estruturais, em vez de confiarem na intuição baseada na experiência pessoal ou em apenas uma área de especialização.

Quando tudo o que você tem é um vulcanologista, aprendi, toda extinção tem como origem um vulcão.

Parte do problema, argumentou ele, é que os cientistas jovens são obrigados a se especializar antes de aprenderem a pensar.

(...) trabalhos que conectam áreas díspares do conhecimento têm menor probabilidade de serem financiados, menos chance de serem publicados em periódicos famosos, maior probabilidade de serem ignorados após sua publicação e, assim, maior probabilidade, em longo prazo, de serem um grande sucesso na biblioteca do conhecimento humano.

(...) O progresso científico em uma frente ampla é resultado do livre brincar de intelectos livres, trabalhando em assuntos de sua própria escolha, de uma forma ditada por sua curiosidade pela exploração do desconhecido.

Compare a si mesmo com seu eu de ontem, e não com pessoas mais jovens e que não sejam você. Cada um de nós avança em um ritmo diferente, então não permita que alguém faça com que você se sinta atrasado. Provavelmente, você nem sequer sabe com exatidão para onde está indo, e sentir-se em desvantagem não ajuda em nada.
O trabalho de Epstein é celebrado como um livro de negócios, mas as discussões que o autor apresenta são pertinentes para qualquer área em que seja necessário investigar soluções para questões amplas. Vale a leitura!

Referência:
Epstein, D. 2020 [2019]. Por que os generalistas vencem em um mundo de especialistas. Tradução: Marcelo Barbão e Fal Azevedo. Editora Globo Livros.

domingo, 9 de agosto de 2020

Podcast Um longo argumento

Recentemente, comecei um podcast derivado deste blog.

Também intitulado "Um longo argumento", a ideia é expandir as discussões feitas aqui para abarcar, além das biologia e temas afins, também outras áreas das ciências. 

O podcast trará breves ensaios sobre temas ligados à teoria evolutiva, sistemática, biogeografia e filosofia da ciência, e também entrevistas e debates com pesquisadores, estudantes de pós-graduação e divulgadores científicos. 

Ele está disponível em cinco plataformas:

Spotify
https://open.spotify.com/show/4l6KIw1QizeFNZVR5P3gfx

Anchor
https://anchor.fm/charles-morphy

Breaker

RadioPublic

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Sobre outros olhares para a divulgação científica

Dias atrás, participei de uma live do canal "Coelho Pré-Cambriano" em que discutimos a importância da divulgação científica (o vídeo na íntegra pode ser visto AQUI). Dentre os desafios para democratizar o conhecimento das ciências, um dos maiores é encontrar uma maneira de substituir verdades dogmáticas por hipóteses transitórias. 

A teoria da evolução tem componentes adicionais que a tornam pouco palatável, quando não inaceitável, para porções expressivas da sociedade. Desde a publicação do "Origem das Espécies" por Charles Darwin em 1859, permanecem em alta temperatura discussões contrárias à explicação da origem e diversificação dos seres vivos sem a participação de uma inteligência transcendental ou mão divina criadora. Para Darwin e os evolucionistas que o sucederam, processos como a seleção natural atuando sobre variações pré-existentes nas populações de organismos, fruto de mutações do material genético e recombinações cromossômicas, funcionam independentemente de direcionamento prévio ou planejamento. 

Nos últimos 50 anos, diferentes cientistas aceitaram o desafio de levar os fundamentos da evolução para o público fora das universidades e instituições de pesquisa. Dois dos autores mais conhecidos do público, traduzidos para diversos idiomas (inclusive o português), são o britânico Richard Dawkins (1941- ) e o norte-americano Stephen Jay Gould (1941-2002) (ambos discutidos nesse espaço AQUI e AQUI). A despeito da percepção geral de que Dawkins e Gould eram "inimigos" ou tinham rixas incontornáveis, a realidade da disputa entre eles é bem menos acalorada. 

Tanto Dawkins quanto Gould concordam em aspectos fundamentais. Ambos vêem a descrição científica do universo como bela e completa (Gould também considera as humanidades e as religiões como aptas a oferecer insights sobre valores e maneiras de se viver). Aceitam que toda vida no planeta Terra, incluindo a nossa própria espécie, remonta a um ancestral comum muito simples, mais até do que as bactérias menos complexas conhecidas, surgido há cerca de 4 bilhões de anos. O processo evolutivo é natural, sem participação de um criador ou designer inteligente. Mutações aleatórias do material genético tem papel importante na geração de variabilidade, ainda que a evolução não seja uma loteria. A seleção natural, entendida como a sobrevivência diferencial de indivíduos frente a outros, e o consequente aumento da representatividade das características dos sobreviventes nas gerações futuras, é fundamental para compreender a adaptação dos organismos ao meio em que vivem.

Etólogo de formação, Dawkins estudou padrões de comportamento dos seres vivos. Na sua concepção, a principal questão tratada pela biologia evolutiva é a adaptação dos organismos aos ambientes e os processos naturais responsáveis por ela. Segundo Dawkins, a história da evolução é a história das linhagens de genes (unidades básicas da hereditariedade, um gene é constituído pelo segmento de uma cadeia de DNA responsável pela síntese de uma proteína). Assim, a luta pela sobrevivência seria a luta dos genes para se replicar. Tudo o que compõe um organismo para além do material genético corresponderia a receptáculos ou veículos para os genes. 

Gould era paleontólogo e focou seu trabalho nos macroprocessos (tais como o papel das extinções na história evolutiva). Para ele, eventos aleatórios são cruciais na constituição das biotas. Mesmo que considere significativo o papel da seleção natural, Gould dá peso a outros processos e eventos como definidores da história evolutiva dos organismos. Caso os dinossauros não-avianos tivessem sobrevivido ao impacto do meteorito e às suas consequências ao final do Cretáceo, 65 milhões de anos atrás, na certa os mamíferos não teriam se diversificado e nós não estaríamos aqui. Se voltarmos a fita da evolução 540 milhões de anos para o início do Cambriano e a tocarmos outra vez, o cenário resultante poderia ser distinto. 

Dawkins e Gould são dois gigantes da divulgação científica e referências obrigatórias. O texto de ambos tem refinamento literário, clareza de ideias e sabor. Não apelam para linguagem técnica demasiada, usando de metáforas precisas para apresentar o panorama da evolução orgânica no planeta, ou mesmo fora dele. Ainda que Daniel Pennac, no seu "Como um romance", diga que o verbo ler não suporta o imperativo, aqui a sugestão vale: leiam Dawkins e Gould.

Mas não leiam apenas Dawkins e Gould.

Quando falamos em divulgação científica, em especial textos voltados paras ciências biológicas, o viés de gênero é claro. Para além de Dawkins e Gould, outros nomes óbvios citados são Carl Zimmer, Edward Wilson, David Quammen, Neil Shubin… Todos homens. Nós somos maioria entre os autores de textos traduzidos e publicados. No entanto, como apontam Maren Wellenreuther e Sarah Otto no artigo "Women in evolution – highlighting the changing face of evolutionary biology" [Mulheres na evolução - destacando a nova face da biologia evolutiva], cientistas mulheres estão na vanguarda de muitas áreas de ciência, notadamente nos estudos evolutivos. Tal fato tem contribuído para mais autoras publicarem textos de divulgação científica, trazendo um olhar diferenciado e necessário.

A bióloga evolucionista Lynn Margulis (1938-2011) é um dos exemplos de cientista que transitou de forma competente entre a pesquisa de ponta e publicações para um público amplo (um pouco mais sobre ela AQUI). Em 1966, ela propôs que, no correr da evolução, muitos eventos de fusões entre bactérias ocorreram, originando espécies diferentes através de simbiogênese. Em um artigo recusado inúmeras vezes por revistas especializadas até ser publicado - um exemplo importante de resiliência e confiança, características necessárias para o trabalho científico -, Margulis sugeriu que muitos dos atributos dos organismos complexos derivam da junção de dois ou mais microrganismos diferentes, que passaram a compartilhar uma vida comum através da cooperação. De forma bem simplificada, as organelas celulares conhecidas como mitocôndrias e cloroplastos foram, um dia, organismos bacterianos livres. Essas bactérias devem ter sido fagocitadas por outras, mas não digeridas, e o “alimento” foi incorporado ao ambiente interno das bactérias ingestoras. Essa visão radical sobre a história dos seres vivos, que aponta o papel essencial da cooperação em contraponto à competição da visão clássica darwiniana, foi uma avanço conceitual capaz de sacudir o que imaginávamos saber de evolução. Além de excepcional pesquisadora, Margulis publicou diversos livros de divulgação científica, alguns deles em parceria com seu filho Dorion Sagan.

A historiadora da ciência Janet Browne (1950- ), especialista em história da biologia e professora em Harvard, é outro nome que precisa ser conhecido. Com várias obras traduzidas para o português, Browne é a principal biógrafa de Darwin. Seus dois volumes ("Charles Darwin: Viajando" e "Charles Darwin: O poder do lugar") e a biografia curta do "Origem das Espécies" - é isso mesmo, uma biografia de um livro! - devem figurar na lista de referências básicas de quem gosta de conhecer mais sobre a teoria evolutiva. 

No centro da revolução das pesquisas sobre processos evolutivos - que muitas vezes recebe o nome de "Síntese Estendida" (mais sobre ela AQUI) -, as geneticistas Eva Jablonka (1952 - ) e Marion Lamb (1939 - ) causaram impacto para além dos muros da academia com a publicação do seu "Evolução em quatro dimensões: DNA, comportamento e a história da vida" (com tradução em português). Na obra, elas discutem como a variabilidade dos organismos não depende apenas de mutações genéticas, e que existem outros fatores, chamados epigenéticos, capazes de alterar o funcionamento de genes e conjuntos de genes sem alterar sua sequência de DNA. Tais mudanças podem se perpetuar para as gerações descendentes, descoberta essa que contraria o "cânone" da Síntese Moderna da Teoria Evolutiva, concebida em meados do século XX, segundo o qual apenas mudanças ocorridas nos genes das células reprodutivas seriam herdadas. Em suma: Jablonka e Lamb resgatam as bases do pensamento de Jean Baptiste de Lamarck (1744-1829), incorporando a ideia da herança dos caracteres adquiridos à teoria evolutiva a partir do conhecimento contemporâneo das ciências biológicas. 

Ainda sem tradução para o português, a especialista em biologia molecular e biotecnologia Nessa Carey tem sido uma das vozes mais interessantes a discutir, tanto em pesquisas publicadas em revistas especializadas quanto em obras de divulgação científicas e palestras, o estado da arte da genética. Em seus livros, ela apresenta como nossa visão sobre o genoma tem mudado e como premissas antes tidas como certas precisam de revisão. Suas três obras de divulgação são boas pedidas: "The epigenetics revolution: how modern biology is rewriting our understanding of genetics, disease, and inheritance" [A revolução epigenética: como a biologia moderna está reescrevendo nosso entendimento sobre genética, doença e herança, de 2012]; "Junk DNA: A Journey Through the Dark Matter of the Genome" [DNA lixo: uma jornada através da matéria escura do genoma, de 2015] e o mais recente "Hacking the Code of Life: How gene editing will rewrite our futures" [Hackeando o código da vida: como a edição de genes vai reescrever nossos futuros, de 2019).

Jane Goodall (1934- ), Evelyn Fox Keller (1936- ), Elizabeth Kolbert (1961- )... os exemplos aqui não esgotam o assunto. Que o meio editorial - tradicionalmente controlado por nós, homens, e pleno de movimentos a favor do status quo patriarcal -, se dobre à força das contribuições das mulheres para a ciência. Nas palavras de Maren Wellenreuther e Sarah Otto: "As mulheres estão alterando a maneira como pensamos sobre a biologia evolutiva, traçando novas direções de pesquisa, facilitando o caminho para outras mulheres, e amando seus empregos". 

Leituras indicadas:

1. Elizabeth Kolbert. 2015. A sexta extinção: uma história não natural. Editora Intrínseca, RJ.
2. Eva Jablonka & Marion Lamb. 2010. Evolução em quatro dimensões: DNA, comportamento e a história da vida. Companhia das Letras, SP.
3. Evelyn Fox Keller. 2002. O século do gene. Editora Crisálida, MG.
4. Janet Browne. 2011. Charles Darwin: O poder do lugar. Editora Unesp, SP.
5. Janet Browne. 2011. Charles Darwin: Viajando. Editora Unesp, SP.
6. Lynn Margulis. 2008. Symbiotic Planet: a new look at evolution. Basic Books.
7. Lynn Margulis & Dorion Sagan. 2002. O que é vida? Jorge Zahar Editor, RJ. 
8. Lynn Margulis & Dorion Sagan. 2008. Acquiring genomes: a theory of the origin of species. Basic Books. 
9. Maren Wellenreuther & Sarah Otto. 2015. Women in evolution – highlighting the changing face of evolutionary biology. Evolutionary Applications, 9(1), 3-16. 
10. Nessa Carey. 2012. The epigenetics revolution: how modern biology is rewriting our understanding of genetics, disease, and inheritance. Icon Books Ltd. 
11. Nessa Carey. 2015. Junk DNA: a journey through the dark matter of the genome. Icon Books Ltd. 
12. Nessa Carey. 2019. Hacking the Code of Life: how gene editing will rewrite our futures. Icon Books Ltd.