Há quase uma década, abandonei por completo as redes sociais. Facebook – isso ainda existe? –, Twitter-X, Orkut (!)... minha presença nessas plataformas é nula. Tenho apenas um perfil no Linkedin, mas raramente entro lá. Não foi sem surpresa que encontrei nesta rede, na última semana, a indicação de um artigo muito interessante, publicado há sete anos, com ótimas dicas para pós-graduandos e pós-graduandas.
O trabalho, intitulado “100 PhD rules of the game to successfully complete a doctoral dissertation” (em tradução livre, “100 regras do jogo para completar uma tese de doutorado com sucesso”), foi escrito por Niamh M. Brennan, Professora Emérita de Governança Corporativa da University College Dublin e publicado na revista Accounting, Auditing & Accountability Journal. O artigo pode ser lido AQUI.
A autora apresenta 100 dicas preciosas para quem está labutando na pós-graduação. Compilei em alguns blocos de ideias, adaptando-as à realidade brasileira quando necessário, as que considero suas sugestões mais significativas (convido todos e todas a lerem o artigo de Brennan na íntegra):
1. Encontre um tema ou uma pergunta de pesquisa que lhe interesse, que faça uma contribuição substancial para a literatura e coloque alguns "tijolos" na parede do conhecimento. Não amplifique a exigência de contribuição a proporções irrealistas.
Uma dissertação de mestrado leva, em média, entre dois e três anos para ser finalizada; uma tese de doutorado, entre quatro e seis anos. Assim, seu interesse pelo tema escolhido deve perdurar por um longo período. Algo que parece óbvio, mas nem sempre acontece: temas escolhidos por discentes, com o apoio do orientador, tendem a ser melhores do que os escolhidos pelos orientadores para os discentes.
Em geral, uma dissertação de mestrado deve gerar ao menos um artigo publicável; uma tese de doutorado, um punhado deles (são os "tijolos" na parede do conhecimento). Os números variam conforme a área de pesquisa. Deve-se resistir à sanha do produtivismo desenfreado.
Não se espera que uma dissertação ou tese produza o equivalente à teoria da evolução de Darwin-Wallace. Dissertações e teses são, simplesmente, grandes projetos de pesquisa que geram contribuições à literatura existente.
2. Escolha um orientador ativo em pesquisa, que compartilhe seus interesses de pesquisa e com quem você se dê bem.
Seu orientador deve publicar em periódicos avaliados por pares de forma regular e atualizada. Se o seu orientador não publica, é improvável que você publique nesse nível.
Idealmente, deve haver sintonia de ideias e de interesses de pesquisa compartilhados entre você e seu orientador. Nesse sentido, é essencial que vocês mantenham um bom relacionamento. Mas não se iluda: o papel do orientador é de aconselhamento e orientação, para garantir que você permaneça no caminho. O orientador não é responsável pela pesquisa.
Faça reuniões regulares com seu orientador, entregue algum tipo de relatório de progresso (escrito ou verbal), anote seus conselhos, ouça-os e responda a eles. Entregar trabalho escrito ao seu orientador antes das reuniões o ajudará a lhe dar um feedback de melhor qualidade.
É responsabilidade dos mestrandos e doutorandos agendar as reuniões com seus respectivos orientadores. A depender do tipo de trabalho e da área, uma vez a cada quinze dias ou uma vez por mês são frequências satisfatórias. Agende as datas com antecedência. Planeje o que você vai falar para garantir que as reuniões sejam produtivas.
Publique em coautoria com seu orientador, certificando-se de que ele, de fato, contribua para seus artigos.
3. Abra sua mente, desenvolva habilidades de pensamento crítico, assuma a responsabilidade por sua pesquisa e entenda a importância de concluir as coisas (iniciativa é importante, mas “acabativa” é fundamental!).
Abra sua mente a novas ideias. Aprenda com as críticas. Bons acadêmicos não aceitam nada como verdade absoluta – não é porque algo foi publicado que é uma contribuição válida inquestionável. Nesse sentido, espera-se de um pós-graduando avaliação crítica de pesquisas anteriores e feedback construtivo. Como um crítico de arte, aprenda a identificar o que é bom e o que é ruim, justificando sua posição.
Lembre-se: mestrandos e doutorandos, e não seus orientadores, são os responsáveis por suas pesquisas. Foque em concluir sua dissertação ou tese. Parta do pressuposto de que ela não ficará perfeita e terá muitos e muitos (e muitos) erros. Como a vida.
4. Tenha confiança, seja determinado, persistente e resiliente, gerencie os altos e baixos, mantenha o foco, seja disciplinado e cumpra seus prazos.
Muitas pessoas antes de você já concluíram um mestrado ou um doutorado. Você também vai conseguir. Trabalhe sua determinação, obstinação e persistência.
Tal qual Rocky Balboa, seja como um pino de boliche: não importa quantas vezes você seja derrubado, levante-se de volta. A jornada da pós-graduação é uma montanha-russa. Você viverá momentos altos e momentos baixos.
Inicie, planeje, execute, controle e conclua a pesquisa de acordo com os padrões exigidos para o mestrado e o doutorado dentro do prazo permitido pela sua universidade. Seja metódico, mantendo registros de suas leituras, de sua pesquisa, etc. Tente respeitar o cronograma do seu plano. Se houver atrasos, encontre formas de compensar o tempo perdido.
A maioria das universidades exige disciplinas obrigatórias e optativas para integralização da pós-graduação. Quanto antes você concluir as disciplinas, mais cedo poderá se concentrar na sua pesquisa.
5. Conheça a literatura da sua área, torne-se um especialista na(s) sua(s) teoria(s) e metodologia(s), sempre que ler um pouco, escreva um pouco.
Familiarize-se com os principais periódicos da sua área. Certifique-se de conhecer em profundidade as teorias e métodos relacionados à sua pesquisa. Justifique por que você as escolheu e como sua pesquisa se posiciona em relação às controvérsias e debates na sua área.
Pós-graduandos devem demonstrar compreensão da literatura prévia. Estabeleça um hábito de ler livros de qualidade, capítulos de livros e artigos de periódicos. Não apenas leia, mas releia – uma segunda ou terceira leitura pode trazer detalhes críticos e insights que passaram batido na primeira. Examine artigos de revisão de literatura para entender como autores experientes realizam esse exercício.
À medida que lê a literatura, resuma-a e, quando apropriado, inclua os resumos na dissertação ou na tese, construindo o documento ao longo do tempo.
6. Procure ajuda, converse com outros pós-graduandos na sua universidade, encontre um parceiro (ou vários) de estudos e aprenda com os outros.
Encontre oportunidades de obter ajuda com sua pesquisa, tanto de outros pós-graduandos quanto de outros acadêmicos. Se estiver passando por um problema específico grave, não o esconda. Conte ao seu orientador ou ao coordenador do seu programa de pós-graduação. Se não falar, o problema pode piorar.
Converse com estudantes de mestrado e doutorado que estejam em etapas mais avançadas do que você, pois eles já aprenderam como o sistema funciona na sua universidade e podem lhe contar o que aprenderam "na prática".
A pesquisa na pós-graduação tende a ser solitária (em algumas áreas mais do que em outras). Encontrar um parceiro de estudos pode ajudar a tornar a experiência menos desgastante. Além de oferecer apoio nos dias difíceis, essas pessoas podem se tornar suas colaboradoras.
7. Comece a escrever sua dissertação ou tese desde o dia 1, aprenda a escrever, comece dissertação ou tese com um sumário, escreva (quase) todos os dias pensando em contar uma história.
A escrita é uma disciplina e um hábito. Adquira o hábito de escrever desde o início. Quanto mais você escreve, melhor escreve. Não mantenha suas ideias apenas na sua cabeça! Se você escrever todos os dias, conseguirá concluir sua dissertação ou tese. A escrita também ajuda a clarear as ideias.
Dissertações e teses têm estilo, formato e estrutura próprios. Certifique-se de entender como deve ser a aparência do seu trabalho. Compreenda a estrutura de parágrafos, sintaxe, prolixidade, pontuação, ortografia, etc. Algumas universidades permitem que os alunos escolham entre dissertação e tese tradicionais e o modelo de múltiplos artigos. A escolha não precisa ser feita imediatamente, mas quanto antes você a fizer, melhor.
Concluir dissertações e teses tem muito em comum com montar quebra-cabeças. Para montar um quebra-cabeça, a primeira coisa que se faz é separar as peças com bordas retas e formar a moldura. O restante é concluído por tentativa e erro. Em uma dissertação ou tese, o sumário é o equivalente: um mapa de rota para o início, meio e fim do trabalho. Uma estrutura clara é fundamental.
Tenha um documento-mestre para que toda a tese seja desenvolvida, e não de forma fragmentada em arquivos separados. Ainda que você opte pelo modelo de múltiplos artigos, vale a pena concentrá-los em um único documento.
O mais importante é contar uma história envolvente. Organize a sequência para tornar a história mais atraente, em vez de seguir a cronologia exata do que você fez.
8. Compreenda as regras da sua universidade sobre a defesa da dissertação ou da tese, escolha seu(s) avaliador(es) cuidadosamente, conheça seu público, faça um “simulado” de defesa, seja confiante e firme, defenda seu trabalho sem ser defensivo.
Familiarize-se com a pesquisa dos seus avaliadores, pois isso pode influenciar a linha de questionamento deles. Os avaliadores vão querer saber se foi você quem realizou a pesquisa e escreveu a dissertação ou tese, se você compreende a pesquisa, se respondeu às perguntas de pesquisa e se elas foram abordadas de maneira adequada.
Prepare uma lista o mais exaustiva possível de perguntas (e respostas) que possam lhe fazer na defesa. Peça aos colegas de pós-graduação da sua área ou do seu laboratório que formem uma banca simulada antes da defesa real. Se possível, faça anotações por escrito das principais perguntas e comentários. Se o seu orientador puder participar da defesa, ele poderá anotar todas as perguntas e comentários para reflexão posterior.
Você deve ser o especialista no seu tema e demonstrar autoridade sobre o assunto com a confiança e a firmeza adequadas. Ainda assim, toda pesquisa tem falhas. Os avaliadores encontrarão pontos fracos no seu trabalho. Reconheça e siga o jogo! As seções de considerações finais e de pesquisas futuras são ótimos espaços para abordar esses pontos.
9. Aproveite sua pós-graduação.
É difícil ter êxito em algo de que não se gosta. Se você aproveitar o processo e gostar dos seus estudos na pós-graduação, terá mais chances de se tornar uma pesquisadora ou um pesquisador bem-sucedido.
Referência
Brennan, N.M. 2019. 100 PhD rules of the game to successfully complete a doctoral dissertation. Accounting, Auditing & Accountability Journal, 32 (1), 364–376. https://doi.org/10.1108/AAAJ-01-2019-030
PS: Há dez anos, publiquei aqui no blog a resenha de um livro que dialoga com este tema. Pode ser acessado AQUI.
Imagem: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Power-of-words-by-antonio-litterio-creative-commons-attribution-share-alike-3-0.jpg




