quarta-feira, 11 de março de 2026

Negacionismos e a lógica ilógica das conspirações

Tenho dois amigos torcedores fanáticos de um time de futebol do Rio de Janeiro. De fato, eles não são apenas fanáticos: são absolutamente ensandecidos, maníacos, obcecados. Ainda que ambos sejam cientistas, quando comentam a respeito do time que adotaram como seu, esquecem a lógica e a racionalidade. No grupo de amigos que temos, eles são conhecidos como “negacionistas”, já que fazem um contraponto ferrenho a qualquer um que questione sua paixão desavergonhada pelo ludopédio rubro-negro. Seu time errou quatro pênaltis em uma disputa por conta de nervosismo e incompetência dos batedores? “Não foi isso. Erramos porque não queríamos mesmo o título”. O presidente do seu clube demitiu o técnico que havia ganhado tudo no ano anterior por mera vaidade? “O presidente tomou a decisão correta; o técnico não estava rendendo”. Todos os analistas e as estatísticas apontam que o seu time perdeu intensidade nesta temporada. “Os especialistas e as estatísticas estão equivocados”.


Por mais que o amor destemperado por um time de futebol não possa ser explicado cientificamente, ele guarda semelhanças ao negacionismo da ciência, e como ele muitas vezes relaciona-se mais à identidade coletiva do que a informações, dados e raciocínio hipotético-dedutivo.


Em 2022, o filósofo da ciência Lee McIntyre (1962– ) publicou Como falar com um negacionista da ciência: conversas com terraplanistas e outros que desafiam a razão (lançado no Brasil pela editora da Unicamp). No livro, McIntyre organiza seu argumento a partir de cinco erros característicos de um negacionista da ciência:


1. Confiança em teorias da conspiração;

2. Evidências seletivas;

3. Confiança em falsos especialistas (e difamação de verdadeiros especialistas);

4. Insistência de que a ciência precisa ser perfeita;

5. Raciocínio ilógico.


Qualquer um que negue teorias e hipóteses científicas se encaixa nesses pontos (quase sempre em todos), sejam eles terraplanistas, revisionistas históricos, anti-evolucionistas defensores do design inteligente, partidários do movimento MAGA, bolsonaristas anti-vacina ou negacionistas das mudanças climáticas.


Para McIntyre, mais do que falta de dados e informações, negacionistas da ciência compartilham uma “identidade social”, um espírito de grupo semelhante ao das religiões (e de algumas ideologias políticas), que os tornam imunes à lógica científica. Ao questionamento “que tipo de evidência faria você abandonar sua posição anti-ciência”, parte significativa deles responderia que essa pergunta não faz sentido, uma vez que a posição negacionista não se apoia em evidência empírica ou hipóteses falseáveis.


Teorias da conspiração e negacionismos científicos estão tão entremeados que são quase sinônimos. Para quem, como eu, passou a adolescência vendo os agentes Fox Mulder e Dana Scully puxando os fios de uma gigantesca maquinação governamental com a participação (ou não) de alienígenas, é fácil identificar uma teoria da conspiração: em linhas gerais, é toda crença não comprovada de que algo extraordinariamente improvável seja verdade, mas que nem todos conseguem perceber uma vez que essa tal verdade fica obliterada por uma campanha coordenada por pessoas ou instituições poderosas. Em Arquivo X, Mulder era o crédulo. Se o complô beirava o absurdo, ele lhe dava crédito e procurava “a verdade”, que, como dizia o slogan da série, “estava lá fora”. Não à toa, em seu escritório, Mulder tinha o pôster de um disco voador com os dizeres “Eu quero acreditar”. Arquivo X terminou em 2009 e retornou para duas temporadas em 2016 e 2018 (tentei acompanhar o revival, mas o comportamento do então agente afastado do FBI soou tão MAGA-like que desisti em prol de manter as boas memórias de minha adolescência com a série). 


Segundo McIntyre (2024, p. 29), o uso de evidências seletivas também está no cerne do comportamento negacionista. Em suas palavras: 


A seleção de evidências está profundamente enraizada em um erro cognitivo comum chamado viés de confirmação. Por meio do viés de confirmação, somos motivados a encontrar fatos que sejam consistentes com aquilo em que preferimos acreditar, e muito dispostos a ignorar quaisquer fatos que desfavoreçam a nossa crença


O mesmo vale para a confiança extremada em falsos especialistas, em boa parte das vezes sem qualquer formação sobre o assunto em pauta. Apela-se para influencers, apresentadores de canais de YouTube e Tik Tok, blogueiros, falsos pesquisadores e toda fauna de alegadas autoridades e suas “investigações independentes” que não são levadas a sério pela comunidade acadêmico-científica. Aqui entra outra particularidade do comportamento de negacionistas da ciência, segundo McIntyre: a vitimização. Os adeptos de teorias da conspiração reclamam coletivamente de serem ridicularizados pelos cientistas reais e se agrupam em torno de seus próprios “especialistas”, tornando as disputas sobre assuntos científicos guerras de “nós contra eles”. O documentário A terra é plana, de 2018, dirigido por Daniel J. Clark, aborda com assertividade esse aspecto em grupos de terraplanistas dos EUA.


Outro aspecto importante nessa discussão é a insistência, por parte de negacionistas e teóricos da conspiração, de que a ciência deve ser perfeita e dar conta de todas as explicações de um fenômeno. Desconsidera-se que o pensamento científico se desenvolve através da relação indissociável entre hipóteses, corroborações e refutações. Como discutido inúmeras vezes neste blog, a ciência é uma atividade humana passível de erros e estes são essenciais na construção do conhecimento. Mais do que um emaranhado de conjecturas inquestionáveis, todos os campos de estudo da ciência são abertos a mudanças e críticas. No entanto, dados e experimentos contrapondo uma ideia estapafúrdia são de pouca serventia para convencer um negacionista a acreditar em algo que ele não quer que seja verdade. “Ele sempre vai insistir em mais e mais provas”, conforme nos conta McIntyre (2024, p. 92)


Por fim, dentre os cinco pontos elencados acima, o raciocínio ilógico também faz parte do menu de um negacionista. Falácias, falsas analogias, falsos dilemas e conclusões precipitadas são exemplos. Para suportar seus pontos, distorcem, simplificam ou exageram o argumento dos seus oponentes para atacá-los com mais facilidade; usam pistas falsas ou tópicos irrelevantes para desviar a atenção do assunto principal; comparam situações apenas marginalmente (se tanto) semelhantes; ou chegam a conclusões a partir de amostragens nada significativas, evidências insuficientes e casos isolados.


É interessante notar que terraplanistas e antivaxxers compartilham uma “identidade social" e um conjunto de valores e práticas que não se coaduna com uma perspectiva científica baseada em evidências empíricas, observações e testes controláveis. As “provas” que apresentam são apenas pseudo-racionalizações para o que aceitam enquanto membros de um grupo, um coletivo que divide com eles valores e práticas semelhantes. Nesse sentido, lidar com negacionismos a partir exclusivamente de fatos e dados que refutem ideias pseudo-científicas pode não ser o caminho mais eficaz. Nas palavras de McIntyre (2024, p. 110):


O negacionismo da ciência não se baseia em falta de evidências. O que significa que não pode ser remediado apenas fornecendo mais fatos. (...) Nenhuma evidência vai fazer um negacionista mudar de ideia se não avaliarmos o papel que suas crenças desempenham no reforço de sua identidade social. 


Como, então, lidar com o negacionismo da ciência? Não há uma resposta simples para uma pergunta tão complexa quanto esta. Envolvimento pessoal, humildade, respeito e transparência sobre como a ciência funciona, aliados a dados e valores a partir dos quais o pensamento científico se constrói, são cruciais para debelar teorias da conspiração. Ainda segundo McIntyre (2024, p. 317):


Abraçar a ideia de que ainda vale a pena conversar com alguém que discorda de nós é como fazer um investimento em nossos semelhantes e em nosso futuro juntos. (...) Ter uma conversa difícil com uma pessoa é respeitá-la o suficiente para tentar convencê-la de que está errada.


Atualmente, não podemos mais nos afastar do debate público em torno da ciência. No início deste século XXI, pensadores como o paleontólogo Stephen Jay Gould (1941–2002) recusavam-se a discutir com defensores da ideia pseudo-científica do design inteligente. Em uma carta datada de dezembro de 2001 ao também evolucionista Richard Dawkins (1941– ) (apud Dawkins, 2005, p. 383):


Essas pessoas não têm a expectativa de convencer cientistas respeitáveis com seus argumentos ridículos. Em vez disso, o que elas buscam é o oxigênio da respeitabilidade. Nós lhes fornecemos esse oxigênio pelo mero gesto de nos envolvermos com elas de alguma maneira. Elas não se importam de serem derrotadas em sua argumentação. O que desejam é o reconhecimento que lhes damos pelo simples fato de debatermos com elas em público.


Essa visão elitista é inaceitável no mundo contemporâneo. Como lembra McIntyre (2024, p. 311), “o vilão é o herói da sua própria história”. Temos a obrigação de nos engajarmos contra toda sorte de negacionismos. Da perspectiva acadêmica, o trabalho colaborativo entre quem produz e quem divulga o conhecimento científico, e a proximidade com o público, seja ele de qual estrato social e ideológico for, são fundamentais para combatermos o lamaçal de notícias falsas, charlatanismos e teorias conspiratórias em que a sociedade humana está imersa.


Para alguns torcedores amalucados, infelizmente, nada bastaria. Nem Galactus e seu poder cósmico fariam meus amigos flamenguistas caírem na razão.


Referências:

Dawkins, R. 2005 O capelão do diabo. Companhia das Letras: São Paulo.


McIntyre, L. 2024. Como falar com um negacionista da ciência: conversas com terraplanistas e outros que desafiam a razão. Editora Unicamp: Campinas.

Santos, C.M.D. 2022. Comunicação científica em um mundo negacionista: traduzindo ciência em diferentes mídias. In: Spineli, P.K. & Jacob, E.L. (Org.). Comunicação em foco: conexões e fragmentações. Editora da PUC-SP: São Paulo, 205–222.


Imagem:

Gravura de Flammarion, circa 188. Fonte: Wikipedia (https://pt.wikipedia.org/wiki/Terra_plana#/media/Ficheiro:Universum.jpg)


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