sábado, 22 de agosto de 2026

Chegou o micro cheio de programas

Meu primeiro computador foi um CP200 da Prológica, clone nacional do ZX81 criado por Sir Clive Sinclair (1940-2021), um dos pioneiros da indústria de computadores pessoais. Era uma máquina com memória RAM de 16 Kbytes (!). Nos idos de 1985, quando pus as mãos no bicho e o pluguei na TV, fiquei em êxtase. Mesmo que suas imagens fossem em preto e branco, e os gráficos mais acanhados até do que os do videogame Atari, a chance de poder escrever programas e ver o resultado aparecendo na tela era indescritível. Até hoje, quando sinto cheiro de alguns tipos de plástico semelhantes ao do chassi daquele computadorzinho, minha memória volta quatro décadas (bendito sistema límbico). 


Quando pequeno, nunca entendi direito qual era a dinâmica na minha família em relação à grana. Morávamos em uma casa alugada caindo aos pedaços e, ainda assim, meu irmão e eu tínhamos videogame e computador, coisa que, em uma cidade pequena do interior de São Paulo, no início dos anos 1980, não era realidade para quase ninguém. Sei apenas que minha mãe vivia com os cabelos em pé por causa das finanças domésticas. 


O CP200 não ficou muito tempo conosco e foi logo substituído por um CP400, mais um clone da Prológica, dessa vez do TRS-80 Color Computer 2. Como o próprio nome da sua matriz dizia, agora tínhamos cores, muitas cores! E espetaculares 64 Kbytes de memória RAM. No entanto, tenho poucas memórias do CP400 porque ele logo foi substituído pelo TK2000 da Microdigital, outro clone, construído com técnicas de engenharia reversa a partir do taiwanês Micro-Professor MPF-II, que também era uma cópia não autorizada do Apple II+, criado pela Multitech (que depois viria a se tornar a Acer). Todos esses computadores funcionavam conectados a televisores de tubo. Os programas eram armazenados em fitas cassete.


Foi quando chegou o TK2000, em algum momento de 1987, que descobri o que meu pai estava buscando: ele tinha comprado uma fita de um jogo chamado Sargon, que não era compatível com absolutamente nenhum dos computadores que tínhamos tido até então. Infelizmente, no TK2000, bem mais poderoso que os CPs anteriores, a tal fita não funcionava. Hoje, isso pode parecer quase absurdo – afinal, não seria só consultar as especificações do jogo ANTES de comprá-lo para verificar se ele era, de fato, compatível com seu equipamento? No entanto, estamos falando do Brasil de meados dos anos 1980. Não existia indústria de informática no país, as revistas especializadas eram escassas, a arquitetura das máquinas era roubada descaradamente… era um mundo novo, admirável e excitante. 


Ficamos com o TK2000 por poucos meses. No final de 1987, pudemos descobrir do que se tratava aquela fita. Meu pai trouxe para casa um exemplar do Dismac D-8100. Foi como ser transportado para as estrelas. Fabricado pela Dismac Industrial, que se dedicava à produção de máquinas de escrever e calculadoras, o computador era (mais um) clone, mas com um diferencial: apresentava total compatibilidade com o Apple II Plus, tanto em hardware quanto em software. 64 Kbytes de RAM, muitos slots para placas de periféricos, gráficos lindos. E fomos nós tocar a fitinha do Sargon. Me lembro bem: com o cursor piscando em branco, após digitar “Load”, começou uma barulheira extraordinária, sinal de que o programa carregava corretamente. De repente, BUM! Aparece na tela um tabuleiro de xadrez. 


Sargon foi uma das primeiras linhas de jogos de xadrez para computadores pessoais. Fez muito sucesso entre enxadristas profissionais e amadores, em especial quando lançado para o Apple II. Teve três edições até o fim da Hayden Software, sua produtora. A versão mais clássica, Sargon III, foi um estrondo. 


Após essa primeira fita, logo adquirimos um leitor de disquetes de 5 ¼ polegadas e acesso à maior biblioteca de software do planeta à época. Se hoje temos Macbooks, iMacs, iPhones e iPads, nada existiria sem o Apple II (“Agradeça ao time do Apple II, Steve!", pedia o outro Steve da maçã, o Wozniak, no divertido “Steve Jobs", filme de 2015 dirigido por Danny Boyle. Wozniak estava certo também nessa).


Aprendemos de tudo com o Dismac. Como “hackear” programas e copiá-los de um disquete para outro (usando apenas um leitor de disquetes), como aproveitar os dois lados do disco e dobrar sua capacidade de armazenamento (bastava um picote do lado esquerdo), como mudar as telas de entrada dos jogos e inserir nossos gráficos e nomes neles, como programar em BASIC (e, bem pouco, em “código de máquina”)... talvez o maior aprendizado tenha sido entender que os problemas computacionais complexos podiam ser tratados a partir da sua decomposição em porções menores, passíveis de serem resolvidas individualmente e testadas até se chegar à uma solução completa mais ou menos satisfatória. O BASIC foi uma ferramenta essencial para isso; de quebra, ajudava a melhorar o inglês. 


Com o passar do tempo, mais e mais pessoas compravam clones do Apple II. Uma comunidade informal foi sendo criada, com trocas de jogos, “aplicativos” (quando ouço esse termo ainda hoje penso em “um processador de texto, um programa para copiar disquetes ou um programa para fazer contas”), revistas (Microssistemas! Input!) e livros. 


Nessa época, nossa família já morava em uma casa própria. Os pisos não estavam prontos, o banheiro interno também não, não tínhamos carro nem telefone, mas os disquetes de “Karateka”, “Lode Runner”, “Captain Goodnight and the Islands of Fear” e “Chessmaster 2000” (com um maravilhoso tabuleiro tridimensional) continuavam chegando. 


No final de 1988, pela primeira vez tivemos dois computadores ao mesmo tempo. Enquanto meu pai deixava o Apple II no seu salão de cabeleireiro, ganhamos um TK90X de segunda mão. Mais um clone. Era a versão da Microdigital para o ZX Spectrum, da mesma Sinclair que produzia o ZX81. Teclado chiclete, 48 Kbytes de RAM, gráficos coloridos, milhares de programas: não espanta que, em 2026, existam clubes ativos para o TK90X e o ZX Spectrum e até réplicas sendo comercializadas. Era o “micro cheio de programas". Alguns dizem que uma música pop, para se aproximar da perfeição, não pode ter mais de 3 ou 4 minutos. O som da minha infância cabe nesse intervalo. É esse:



Tivemos o TK90X e o Apple II por muitos anos, mesmo enquanto nossos amigos se rendiam à invasão dos PCs pós-abertura econômica no início dos anos 1990.


As mais de 40 décadas de revolução contínua impulsionada pelo computador pessoal tornaram inconcebível um mundo sem essas máquinas. Na verdade, o pensamento computacional existe muito antes da nossa espécie sequer sonhar com a criação de um computador digital. Há registro de formas primitivas desse tipo de raciocínio no Egito Antigo, 2.700 Antes da Era Comum (AEC) e na Babilônia, entre 1.800 e 1.600 AEC. 


Para mim, tudo começou com o CP200. Gosto muito de sentir o cheiro dele.


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