quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Porque Popper não vale para a cladística

Trecho de "Jantando dinossauros com Hennig", artigo que submeti recentemente à Scientia Studia:

"Qualquer análise filogenética se inicia com a transformação da observação da diversidade em códigos que servem como base de dados sobre os quais será aplicado um algoritmo. Essa etapa carrega subjetividade, pois não há observações livres de teorias. Nas palavras do Nobel de Medicina e Fisiologia de 1960, sir Peter Medawar (1979, p. 83), 'A observação é um processo crítico e proposital; há uma razão científica para se fazer uma observação e não outra. O que o cientista observa é sempre uma diminuta parcela no vasto campo dos possíveis objetos de observação'. A observação é escolhida segundo critérios que nem sempre podem ser qualificados como objetivos.

A análise filogenética fundamenta-se no teste de congruência entre os caracteres inicialmente considerados homólogos. O objetivo da congruência é descobrir as relações evolutivas entre os organismos. Dessa forma, os padrões que resultam em relações de parentesco na cladística são resultado da homologia – um cladograma de táxons representa uma hierarquia de homologias (Ebach et al., 2005). Para a sistemática filogenética, a não-congruência de padrões de distribuição de caracteres e seus estados de caráter em um cladograma leva à chamada homoplasia, que é a negação de uma hipótese primária de homologia filogenética em favor de uma hipótese de surgimento independente de uma característica em um dado cladograma".

Trecho de "Using the logical basis of phylogenetics as the framework for teaching biology", um artigo que escrevi com o Dr. Adolfo Calor (FFCLRP-USP) e aceito para publicação na Papéis Avulsos de Zoologia:

"Despite some disagreement on the subject, different cladograms derived from different data sources are unfalsifiable according to the Popperian argument (Popper, 1959, 1962). However, when a cladogram is coherent (non-contradictory) with other cladograms – it does not matter the kind of evidences – it means that the hypothesis has a high degree of corroboration. Consequently, as they are scientific hypotheses, cladograms can be tested against data provided by multiple sources. Those cladograms shown to be unsupported (contradictory) are often abandoned, while those that remain well substantiated continue to be used. This context, Popperian philosophy provides the justification for phylogenetic analysis. (Wiley, 1975; Nelson & Platnick, 1981; Farris, 1983; Kluge, 1997; Faith & Trueman, 2001)".



Recentemente, foi publicado um artigo na Cladistics com uma perspectiva bastante interessante a respeito da aplicação do pensamento popperiano na sistemática biológica: "The unfalsifiability of cladograms and its consequences", por Lars Vogt (Cladistics, 24(1), February 2008, 62-73). Nele, Vogt fala sobre a impossibilidade de se falsear uma hipótese filogenética. Ele faz um apanhado geral do falseacionismo popperiano e chega à conclusão de que a filosofia de Popper não cabe no raciocínio filogenético, em nenhuma etapa (nem durante o teste de congruência dos caracteres, como amplamente aceito, a partir da idéia de que hipóteses de homologia primária podem ser falseadas, i.e., "corroboradas" ou "refutadas").

O embasamento "popperiano" da filogenética é especialmente derivado do trabalho de James S. Farris (1983), que utilizou uma concepção bastante idiossincrática do que seria a filosofia de Popper e a incorporou ao raciocínio cladístico. O trecho grifado acima reflete uma concepção disseminada na sistemática filogenética moderna. Mas existem alguns problemas...

Para Popper, uma teoria tem que ser falseável, sim, mas ela NUNCA é falseada de fato (uma vez que o próprio falseador também é uma teoria, mesmo sendo ele uma observação). Quando uma hipótese de homologia primária não é congruente com as demais, ela não é REFUTADA, em um sentido popperiano, visto que a distribuição de caracteres homoplásticos é perfeitamente adequada à qualquer topologia. Sendo assim, qualquer hipótese filogenética pode abarcar tanto sinapomorfias quanto homoplasias - nenhuma hipótese de homologia primária é "falseada" ou "corroborada".

Segundo Popper, uma teoria científica é passível de falseamento se ela proíbe a ocorrência um determinado (ou determinados) evento ou observação (por exemplo, a teoria da relatividade "proíbe" que a luz continue em linha reta quando passa próxima de uma grande massa, como uma estrela). Dessa forma, hipóteses científicas em um sentido popperiano são aquelas que se baseiam na possibilidade de falseamento de previsões oriundas da teoria. Hipóteses de homologia primária (ou hipóteses filogenéticas como um todo) NÃO PROÍBEM NADA e NÃO FAZEM PREVISÕES SOBRE NADA. Sendo assim, elas não se enquadram no critério popperiano, que não foi criado originalmente no âmbito de hipóteses históricas como os cladogramas.

O trabalho de Vogt (2008) tem uma conclusão muito pertinente. Ele diz que qualquer hipótese científica - cladogramas inclusos - passam por algum tipo de teste de hipótese, que não precisa seguir os preceitos popperianos, e que a sistemática é uma ciência madura o suficiente para ter sua própria filosofia subjacente.

Esse é um artigo que vale a pena ser lido e, se possível, "deglutido e incorporado às células do sistemata". Eu já estou revendo meus conceitos...

3 comentários:

João Carlos disse...

Assim como todo o ramo da "Teoria das Cordas" na Física de Altas Energias... A matemática é rigorosamente perfeita, mas, na hora de fazer previsões experimentalmente verificáveis...

Rafaela L. Falaschi disse...

E agora? As medidas de suporte são justificáveis? Faz sentido o que o Farris nos falou na Argentina? rsrs
bjo

Charles Morphy disse...

Não acho que as medidas de suporte sejam justificáveis, mesmo assim.
Bootstrap e jackknife continuam sendo apenas padrões resultantes de análises com matrizes depauperadas. Mesmo se considerássemos a possibilidade de congruência (entre a hipótese original e as hipóteses do bootstrap e do jackknife), o negócio continuaria tautólogico, visto que a base de dados é a mesma.
A meu ver, o grande problema continua mesmo sendo a origem das evidências. O ideal de uma hipótese filogenética é ser "bem iluminada" - congruente com outras hipóteses oriundas de OUTROS conjuntos de dados - e não ser "auto-iluminada"...