quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Por que as pessoas acreditam em ideias estranhas?



O mal da hipocrisia não está no fato de ser visível aos outros, mas no de ser invisível a quem a pratica.
Michael Shermer (2002)

Em A hora do lobo (1968), o cineasta sueco Ingmar Bergman (1918-2007) conta a história do pintor Johan, homem atormentado por aparições fantasmagóricas e angústias profundas que lhe assombram (e à sua mulher grávida, Alma) entre a meia-noite e a aurora.  Paulatinamente, durante as madrugadas delirantes na ilha isolada para a qual o casal se retira, Johan vai perdendo contato com a realidade externa e passa a duvidar de sua própria lucidez. É nessa hora do lobo que os questionamentos mais fundamentais emergem em nossa mente envolta nas brumas do homem dos sonhos, quando acordamos por vezes assustados, ainda imaginando estarmos em um mundo de pesadelo: Por que as pessoas acreditam em ideias estapafúrdias? O que nos leva a perder completamente o senso crítico e aceitar tolices flagrantes que chegam sem filtros aos nossos ouvidos? Como pessoas alfabetizadas são capazes de defender a existência de conspirações globais controladas por professores universitários, partidos políticos, megainvestidores e criminosos sexuais, que desejam transformar o mundo em uma utopia coletivista de autômatos bestializados adoradores do demônio? Qual a motivação para alguns considerarem plausível que uma entidade sobrenatural inescrutável molde nossa realidade nos seus mais ínfimos detalhes, e que o simples fato de chamarem essa ideia de “científica” seja suficiente para legitimá-la, mesmo contrariando centenas de anos de evidências empíricas organizadas e estudadas por um sem número de pessoas inteligentes?

Muitas vezes, nessa hora do lobo, a pseudo-teoria do Design Inteligente dança em frente aos meus olhos cheios de areia. E me lembro das inúmeras vezes em que fui questionado se acredito na possibilidade de um designer inteligente. Sempre respondo que sim a esse questionamento, afinal, minha esposa é designer E inteligente…

O Design Inteligente foi uma tentativa, até agora frustrada, de grupos religiosos inserirem o "criacionismo científico" no ensino de ciências dos EUA. O movimento foi criado pelo advogado norte-americano Phillip E. Johnson (1940– ) no final dos anos 1980. Professor de direito em Berkeley e aparentemente sem formação científica (além de não aceitar a teoria da evolução, ele também nega que o vírus HIV seja o causador da AIDS e defende que os fenômenos observáveis podem ser explicados por causas não-naturais), Johnson construiu seu discurso pseudocientífico a partir de uma pilha de contradições que não se fundamentava em evidências. No entanto, ainda que todos os seus frágeis argumentos tenham sido desconstruídos sem muito esforço nas últimas décadas, o Design Inteligente continua muito utilizado na retórica de políticos e líderes religiosos como alternativa à teoria evolutiva; pode-se mesmo dizer que os defensores do criacionismo científico são uma parte importante da comissão de frente dos movimentos contemporâneos contra a ciência e o pensamento acadêmico, que têm, entre suas hordas, grupos tão díspares quanto terraplanistas, paranoicos anti-vacinação, membros do alto escalão do governo em repúblicas ocidentais e “filósofos” best-sellers.

Após a publicação da sua obra máxima A origem das espécies por meio de seleção natural: ou a preservação das raças favorecidas na luta pela vida, em 1859, o naturalista britânico Charles Darwin (1809-1882) e seus contemporâneos iniciaram uma das maiores revoluções científicas de todos os tempos, encabeçando um questionamento radical do conceito que o homem fazia de si mesmo e da sua posição no mundo natural. Mesmo hoje, mais de um século e meio após a primeira edição do Origem ter se esgotado rapidamente nas livrarias britânicas, as controvérsias ainda ressoam. No entanto, nas ciências naturais, há pouquíssimas vozes discordantes da realidade da evolução (quando existem, são apenas manifestações carregadas de entrelinhas e segundas intenções). 

Evolução é um fato. O mundo natural é produto contínuo de mudanças, sejam elas graduais ou aceleradas, que vêm acontecendo desde a origem da vida na Terra há cerca de quatro bilhões de anos. Essa variação orgânica não tem um direcionamento prévio – não existe uma planta baixa, um blueprint ou um projeto que define como evoluem as características morfológicas, genéticas ou comportamentais dos seres vivos. Nesse sentido, não existe perfeição na evolução: adaptação diz respeito somente aquilo que funciona em um dado momento e em um dado contexto ambiental. Os mecanismos evolutivos prescindem de um objetivo final. São completamente desnecessários um designer, um demiurgo ou quaisquer figuras divinas influenciando a origem e diversificação da vida no planeta. 

Com o Origem de Darwin e a delimitação de uma área das ciências naturais chamada Biologia Evolutiva, verificou-se uma série de implicações muito claras, não apenas científicas mas também filosóficas, metafísicas e religiosas. O livro de Darwin e seus comentários e refinamentos subsequentes colocaram fim a uma visão de mundo calcada explicitamente no fixismo criacionista, segundo a qual uma entidade supranatural teria concebido toda a diversidade biológica existente, substituindo-a por uma natureza dinâmica, plena de variações por toda a sua história. O mecanismo discutido por Darwin, a seleção natural, extinguiu o papel dado no passado às forças sobrenaturais intangíveis na estruturação do mundo vivo.

A seleção natural é capaz de explicar a existência da enorme variedade de formas de vida no nosso planeta através de um processo materialista baseado na interação entre variação pré-existente e sucesso reprodutivo; desde meados do século vinte, sabemos que a variabilidade é causada principalmente por mutações genéticas e recombinações cromossômicas que acontecem nas células reprodutivas (tais como óvulos e espermatozoides). Com isso, os deuses tornaram-se tão obsoletos quanto os papiros, a máquina de escrever ou a fita cassete... Como corolário à ideia de que todos os organismos derivam de ancestrais comuns por um processo contínuo de ramificação – dessa forma, a ancestralidade comum conecta todos os seres vivos em uma gigantesca árvore genealógica com bilhões de ramos, considerando-se todas as espécies recentes e também as extintas –, completou-se a revolução iniciada com o astrônomo e matemático polonês Nicolau Copérnico (1473-1543), retirando as poucas justificativas ainda existentes para a ideia de que o ser humano tem uma posição de centralidade em relação a todo o cosmos. O Homo sapiens, após Darwin, não é mais do que um galhinho na imensa árvore da vida.

Obviamente, o materialismo evolutivo não é contrário aos deuses, simplesmente porque estes não são objetos de estudos científicos e, portanto, não podem ser interpretados à luz do raciocínio lógico preconizado pela teoria da evolução. Parafraseando a lendária – e provavelmente apócrifa – resposta do astrônomo Pierre-Simon Laplace (1749-1827), deus é uma hipótese irrelevante para a biologia, assim como é irrelevante também para as demais ciências naturais. O paleontólogo norte-americano Niles Eldredge (1943– ), em seu livro O triunfo da evolução e a falência do criacionismo (publicado no Brasil em 2010), sintetiza de forma brilhante a nossa impossibilidade de experimentar diretamente, através dos nossos sentidos, o sobrenatural divino. Para ele, “(...) no empreendimento chamado ciência, não há afirmação ontológica de que não exista um Deus (...), mas sim um reconhecimento epistemológico de que, mesmo se esse Deus realmente existisse, não haveria como experimentá-lo, apesar dos meios impressionantes, embora ainda limitados, que estão à disposição da ciência”.

O Design Inteligente é um conjunto de afirmações sem sentido que tenta, a todo custo, mudar esse quadro. Eles postulam algo chamado “criacionismo científico”, uma contradição absoluta. Essa pseudociência, tão válida quanto a ufologia, a astrologia e a saúde quântica, baseia-se na premissa de que existe certo nível de complexidade irredutível nos sistemas biológicos, que os impediria de terem se originado por etapas através de um mecanismo lento e gradual como o da seleção natural. Já que a evolução gradualista não seria possível, nas palavras dos proponentes e defensores do movimento, a vida no planeta seria, portanto, obra de um designer ou projetista que tivesse pensado, a priori, no encaixe perfeito entre todos os componentes constituintes dos sistemas orgânicos. É a retomada da Teologia Natural, anterior à Darwin, segundo a qual as relações entre as partes constituintes dos seres vivos e entre estes e o ambiente no qual habitam seriam evidência irrefutável de um deus interventor responsável por toda a criação.

Para o bioquímico norte-americano Michael Behe (1952– ), da Universidade de Lehigh, autor do famigerado (e cientificamente questionável) A caixa preta de Darwin, o funcionamento de uma estrutura como o flagelo de uma bactéria, apêndice móvel em forma de chicote responsável pela movimentação dos microrganismos, estaria tão finamente relacionado a diferentes microestruturas e processos bioquímicos que só poderia ter sido fruto de um planejamento prévio feito por alguém (ou algo) de inteligência inescrutável. O conceito da complexidade irredutível de Behe revela nada mais do que a formação acadêmica enviesada do seu autor, ao menos na área da Biologia Evolutiva. A literatura especializada traz muitos exemplos de precursores do flagelo que de fato têm “partes faltantes”, quando comparados ao sistema irredutível apresentado por Behe, e, ainda assim, plenamente funcionais.

Behe fala de outras estruturas, como o olho, também inexplicáveis para ele dentro de uma perspectiva evolutiva gradualista, como a de Darwin e de muitos outros cientistas. No seu entendimento torto da natureza, olhos e estruturas fotorreceptoras não poderiam ter surgido “por partes” ou “incompletas”, uma vez que seriam sistemas irredutivelmente complexos – se retirássemos quaisquer dos seus componentes, todo o sistema colapsaria e perderia sua funcionalidade. Bobagem! Existem olhos muito menos intrincados, diferentes dos nossos, que funcionam e garantem a sobrevivência dos seus portadores (basta nos lembrarmos de planárias e seus ocelos estrábicos). No mais, existem espécies com acuidade visual maior que a do Homo sapiens, o que refuta a hipótese de que nossas estruturas orgânicas são o ápice da evolução. 

A questão do surgimento dos olhos nos animais é interessante. O gene Pax6 (referido como Eyeless em moscas, Aniridia em humanos e Small eyes em camundongos) está presente em todas as espécies portadoras de olhos ou ocelos, não apenas nos mamíferos mais modificados, como os primatas, grupo no qual nossa espécie se insere. Esse gene é capaz de induzir a formação de estruturas fotorreceptoras e exerce funções diferentes quando expresso em outros tecidos. Assim, vertebrados e insetos compartilham o mesmo gene fundamental e pelo menos parte das sequências de desenvolvimento que levam à expressão dos olhos, o que indica um alto grau de conservação evolutiva, e é também evidência inequívoca de parentesco evolutivo entre todos os animais.

Estima-se que o início da diversificação de genes como o Pax6 nos animais deu-se no período Cambriano, há cerca de 520 milhões de anos. Muitos dos sistemas gênicos que surgiram nesse período são, ainda hoje, compartilhados por diferentes grupos (águas vivas, baleias, insetos, minhocas, hominídeos...). Esses e outros exemplos podem ser encontrados em livros de ampla divulgação como o Infinitas formas de grande beleza (de 2006), do biólogo norte-americano Sean Carroll (1960– ) e O maior espetáculo da Terra (de 2009), publicado pelo evolucionista britânico Richard Dawkins (1941– ), ou ainda em inúmeros podcasts, postagens de blogs, vídeos  e artigos na internet. Aqui, e em qualquer outro tópico relacionado à Biologia Evolutiva, não há necessidade alguma de apelar para explicações sobrenaturais ou pseudocientíficas como fazem os defensores do Design Inteligente.

Não existem sistemas de complexidade irredutível porque os atributos biológicos que surgem e se disseminam são locais, baseadas na relação entre os portadores desses atributos e o ambiente em que se encontram. Algo que garanta altas taxas de sobrevivência e reprodução em um período, se modificadas as condições do entorno e as pressões seletivas, pode se tornar um entrave à perpetuação dos descendentes tempos depois. O Design Inteligente parte da premissa equivocada de que tudo o que existe no mundo natural é perfeitamente ajustado. No entanto, como dito anteriormente, evolução não diz respeito à perfeição, e sim ao que funciona.

Alguém poderia manifestar que os “teóricos” do Design Inteligente, assim como os “teóricos” dos alienígenas do passado (ou do Antigo Astronauta)[i], têm todo o direito de se expressar. Isso é óbvio. O que é temerário não é a existência de panfletos defendendo a realidade de um projetista que tenha conscientemente criado todas as formas de vida do universo, ou a realização de congressos de “pesquisadores” e entusiastas sobre o tema. Qualquer forma de conhecimento, seja ela convergente ou dissonante das nossas premissas científicas ou crenças, deve circular livremente; o fomento ao debate de ideias é condição essencial para o refinamento do intelecto e a manutenção de sociedades democráticas e menos desiguais. O que não se pode é misturar maçãs e laranjas: o Design Inteligente NÃO é ciência e, portanto, NÃO deve ser ensinado como tal. Ele não é uma explicação alternativa à teoria evolutiva. O Design Inteligente é retórica criacionista, uma forma de introduzir o literalismo bíblico nas aulas de ciências, que deveriam ter por objetivo permitir aos estudantes discutir e examinar evidências científicas utilizadas para compreender a natureza, e não tratá-la simplesmente como o resultado de um evento único e deliberado de criação perpetrado por um agente externo à própria natureza e que teria relatado todo o seu trabalho em um livro confuso, contraditório, e cheio de circunvoluções literárias.

Quem entraria em uma padaria para encher o tanque do seu carro ou procuraria na loja de materiais de construção por um maço de alfaces? É muito simples: se não é ciência, não deve ser ensinado ou discutido como ciência. Não existem artigos sobre Design Inteligente publicados em periódicos científicos confiáveis – é de se esperar que revistas bem qualificadas tenham um sistema de revisão por pares, ou peer-review, no qual os trabalhos submetidos são avaliados por pesquisadores especializados, que emitem pareceres favoráveis ou não à publicação. Não há experimentos ou observações capazes de testar as premissas dessa pseudociência[ii].

Se alguém imagina que os relatos criacionistas judaico-cristãos devam ser ensinados durante as aulas de ciências, que defenda também o ensino dos mitos de criação indígenas, das mirabolâncias fantásticas da Cientologia e dos ditames do Pastafarianismo, além de todas as mais de 6.000 crenças religiosas existentes no planeta. Foi mais ou menos esse o argumento levantado pelo físico norte-americano Bobby Henderson (1980– ) em 2005. Ele era um estudante da Oregon State University, nos EUA, e mandou uma carta aberta ao conselho de educação do estado do Oregon, que discutia a possibilidade de incluir o Design Inteligente no currículo escolar. Seu texto é um estupendo exemplo de ironia e sarcasmo (faço aqui uma tradução livre de um excerto. O original pode ser encontrado AQUI ):

Eu e muitos outros ao redor do mundo aceitamos fortemente que o universo foi criado por um Monstro Espaguete Voador. Foi Ele quem criou tudo o que vemos e o que sentimos. Sentimos fortemente que as extraordinárias evidências científicas que defendem a existência de processos evolutivos não são mais do que coincidências, colocadas lá por Ele.

É por essa razão que estou lhes escrevendo hoje, para formalmente requisitar que essa teoria alternativa seja ensinada em suas escolas, juntamente com as outras duas teorias. De fato, eu iria longe o suficiente para processá-los caso vocês não concordem com isso. Estou certo que vocês estão percebendo para onde vamos. Se a teoria do Design Inteligente não é baseada na fé, mas é apenas outra teoria científica, como ela clama, então vocês devem permitir que nossa teoria seja ensinada, uma vez que ela também se baseia na ciência, e não na fé.

Alguns acham difícil acreditar por isso talvez seja útil contar-lhes um pouco sobre nossas crenças. Nós temos evidências que um Monstro Espaguete Voador criou o universo. Nenhum de nós, é claro, estava lá para ver, mas temos escritos que contam a respeito. Temos inúmeros volumes grossos explicando todos os detalhes do Seu poder (...)

O Design Inteligente é tão científico quanto o Monstro Espaguete Voador e não pode ser ensinado em aulas de ciências, de nenhum nível, seja fundamental, médio ou superior. Design Inteligente é uma tática desonesta que tem por objetivo tornar obrigatório aos estudantes entrarem em contato com uma visão de mundo criacionista compartilhada por um grupo em detrimento a milhares de outras igualmente absurdas do ponto de vista científico. 

Incluir o Design Inteligente nos currículos escolares é um crime contra o Estado laico, contra a ciência e até contra a liberdade religiosa. Se o sujeito é hindu, ou xintoísta, ou pastafariano, por que tem que estudar o mito de criação de outra religião e não da sua?). No Brasil, ainda (escrevo isso em janeiro de 2019, pouco após a posse do novo presidente do Brasil), tal medida seria frontalmente inconstitucional[iii].

As aulas de ciências são espaços próprios para se discutir a necessidade de evidências que suportem nossas afirmações. Crianças e adolescentes devem ser incitados a não acreditarem em proposições quando não existem fundamentos para supô-las verdadeiras: sem ceticismo não há alfabetização científica. Ao tentar impor aos jovens em formação a ideia de que um projetista foi responsável por tudo o que existe no universo, advogamos abertamente a favor da irracionalidade e do obscurantismo. Influenciar a educação científica dos estudantes, por força de lei e de interesses sub-reptícios de congregações religiosas e agendas políticas, é impedir que uma geração inteira acorde do pesadelo do subdesenvolvimento e da submissão intelectual.

Dum spiro spero[iv]. Mesmo na atual realidade distópica em que vivemos, repleta de ignorância, retrocessos e crenças cegas que se sobrepõem às evidências e ao livre pensar, uma aurora menos cinzenta é possível. Para tal, devemos combater a crescente barbárie que assola a civilização contemporânea com as armas da razão, do pensamento científico e do humanismo. Incansavelmente.

Foto: Patricia Kiss

Notas 


[i] Essa hipótese pseudocientífica descreve a crença de que criaturas extraterrestres visitaram a Terra há milhares de anos, e que interagiram de alguma forma com civilizações humanas; em algumas das suas vertentes, “teóricos” dos alienígenas do passado chegam mesmo a dizer que foi os ETs interviram na evolução da vida no nosso planeta através de experimentos genéticos.

[ii] No dia 14 de dezembro de 2015, a conceituada revista PLoS One (acrônimo para Public Library of Science One) aceitou para publicação o artigo “Biomechanical Characteristics of Hand Coordination in Grasping Activities of Daily Living” – em tradução livre “Características Biomecânicas da coordenação da mão em atividades de agarramento na vida diária” – de autoria de Ming-Jin Liu, Cai-Hua Xiong, Le Xiong e Xiao-Lin Huang. Em linhas gerais, o trabalho tinha entre suas conclusões a ideia de que a habilidade manual humana extraordinária revela (pasmem!) o design divino. Se somos tão hábeis em agarrar objetos, clicar em sites maliciosos e digitar infindáveis mensagens no Whatsapp, o artigo da PLoS One sugere fortemente que isso tudo é obra de Deus. Para os autores: “(...) A ligação funcional explícita indica que a característica biomecânica da arquitetura conectiva tendínea entre músculos e articulações é o design adequado feito pelo Criador para realizar uma infinidade de tarefas diárias de uma maneira confortável”. Dado o burburinho da comunidade científica, o artigo de Liu e seus colaboradores foi retratado pelo periódico, que se desculpou e prometeu apurar em que passo (ou passos) do processo de revisão houve equívocos.

[iii] Em 03 de janeiro de 2019, foi aprovada no Brasil a lei 13.796, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e assegura, aos alunos regularmente matriculados em instituições de ensino públicas ou privadas, o direito de ausentar-se de provas ou aulas marcadas para os dias em que for vedado o exercício de tais atividades segundo os preceitos de sua religião; essa nova lei entra em conflito com o princípio de um Estado laico, garantido pela Constituição Federal brasileira promulgada em 1988.

[iv] Enquanto respiro, tenho esperança.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Taxonomia não é ufologia!


"Eu quero acreditar". Esse era o mote de um dos seriados mais icônicos dos anos 1990, Arquivo X. Semana a semana, os agentes do FBI Fox Mulder e Dana Scully se viam investigando o aparecimento de seres espetaculares, monstros pré-históricos redivivos, pés-grandes e organismos extraterrestres co-participantes de uma conspiração mundial de proporções quase inimagináveis. Eu achava tudo muito divertido e acompanhava fielmente a série, ainda que o criador Chris Carter não tivesse preocupação alguma com precisão científica.

Recentemente, alguns taxonomistas ressuscitaram o slogan "Eu quero acreditar" em um contexto distinto: eles têm defendido a possibilidade de se descrever novas espécies mesmo ser terem em mãos qualquer material biológico fisicamente palpável. Bastaria uma foto e a indicação de um especialista, sugerindo que a espécie fotografada não é conhecida pela ciência, para justificar um novo trabalho de descrição taxonômica. Coleta de material biológico? Não é necessário! Depósito de espécimes em museus e coleções de história natural? Dispensável! Sequenciamento de material genético, dissecção de partes anatômicas importantes para a diagnose da espécie, análise do comportamento do organismo no ambiente natural? Detalhes demais para um mundo de demandas tão aceleradas...

Na taxonomia tradicional, é prática corriqueira a coleta de espécimes através de técnicas como armadilhas montadas em áreas naturais ou procedimentos ativos (na entomologia, ramo da zoologia que trata do estudos dos insetos, usamos puçás no campo, que são redes de "caçar borboletas"). Os indivíduos coletados, caso não sejam identificados como nenhuma espécie conhecida, podem ser descritos como novas espécies, recebendo um nome - formado pelo gênero mais um epíteto específico - a partir de regras de nomenclatura derivadas daquelas criadas por Carolus Linnaeus no século XVIII.

As descrições de espécies dependem da observação pormenorizada dos indivíduos coletados. Estas podem ser realizadas a olho nu, em microscópios ópticos, eletrônicos ou estereomiscroscópios, muitas vezes após dissecções dos espécimes e montagem das suas partes em lâminas permanentes ou temporárias. Tal trabalho consome muito tempo porém é imprescindível para identificações e descrições precisas.

A única forma de garantir que as “novas espécies” descritas não existam apenas no mundo das ideias é estudando os indivíduos que serviram de base para as descrições. Sem eles, a zoologia e a botânica sempre se remeterão à autoridade: a existência de uma espécie dependerá de se acreditar (ou não) na idoneidade do taxonomista e na pertinência da sua fonte única de evidências primárias. Só que não é difícil encontrar pesquisadores inidôneos...

Neste ano de 2016, um entomólogo russo - Sergey Viktorovich Pushkin - publicou uma nova espécie de besouro da família Dermestidae. Ele a nomeou Thaumaglossa zhantievi. No trabalho original (que pode ser baixado AQUI), há uma foto da região dorsal de um espécime e uma ilustração da terminália (a porção reprodutiva, fundamental para a diagnose de muitos insetos) (Figura 1).

Figura 1: A "nova espécie" Thaumaglossa zhantievi.

Ainda que a descrição seja demasiado sintética, seria válida. Está de acordo, por exemplo, com o que define o Código Internacional de Nomenclatura Zoológica. No entanto, a foto utilizada no artigo de Pushkin como representativa dessa nova espécie foi simplesmente roubada de um outro artigo publicado anos atrás, que descrevia a espécie de dermestídeo Thaumaglossa laeta (as fotos do material utilizado nesta descrição podem ser vistas AQUI). Pushkin COPIOU a foto de T. laeta, fez algumas pequenas alterações através de algum software de edição digital de imagens, e inseriu no seu próprio trabalho. Não contente, a ilustração da terminália da "espécie nova" T. zhantievi também foi roubada de outro trabalho, que descrevia Thaumaglossa mroczkowskii (Figuras 7 e 9 do artigo disponível AQUI).

Em suma: o entomólogo russo simplesmente INVENTOU uma nova espécie! Ele surrupiou a foto de uma espécie publicada e já descrita, deu uma arrumada no Photoshop (deixando o espécime simétrico), roubou a ilustração de uma terminália de outra espécie, fez o mesmo procedimento no Photoshop e... voilá! Mais uma "espécie nova" para emporcalhar a literatura, publicada em uma revista com índice de impacto e revisão-por-pares (ou ímpares já que deixaram passar tamanho absurdo).

A recente defesa da utilização de fotografias (sem coleta, sem análise de material de referências) como evidência suficiente para a descrição de novas espécies presta um desserviço à prática taxonômica. Abre precedentes para picaretagens como a de Pushkin e pode ser fatal para nossos esforços em direção ao aumento do conhecimento da biodiversidade e para a conservação biológica.

Por mais que estejamos vendo todos os dias os ambientes naturais se deteriorando - quando não completamente destruídos -, ainda que muitas espécies estejam sendo extintas (uma delas pode ter perecido no exato momento em que você lê esse breve ensaio), nada justifica a frouxidão científica. Descrever espécies não é um jogo em que ganha aquele cientista, grupo de pesquisa ou país que nomeia a maior quantidade de novos táxons. Não estamos nos Jogos Olímpicos da taxonomia. É preciso seriedade e apreço por práticas que garantam a repetibilidade nos laboratórios, permitindo a outros pesquisadores e interessados conhecer o máximo possível sobre uma espécie. Fotografias não são suficientes - elas não são substituto da realidade e sim uma representação dela.

"Eu não quero acreditar" que uma espécie descrita existe de fato para além daquilo que foi publicado em um artigo científico. "Eu quero saber"! E, para isso, não dá para contar apenas com imagens. Taxonomia não é ufologia, é ciência. Deve ser tratada assim sempre.

Referências
Amorim, D.S. et al. 2016. Timeless standards for species delimitation. Zootaxa, 4137(1), 121-128.
Pape, T. et al. 2016. Taxonomy: species can be named from photos. Nature, 537, 307.
Santos, C.M.D. et al. 2016. On typeless species and the perils of fast taxonomy. Systematic Entomology, 41, 511-515.
Spineli, P.K. 2010. Mais humano que humano: o cyberpunk na fotografia de Blade Runner. Revista Olhar, 22, 162-186. 

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Breves resenhas: O mal ronda a Terra

Desde 2013, sou representante docente no Conselho Universitário da universidade em que leciono. Um dia desses, apresentando o relato de uma proposta de pós-graduação neste conselho, sugeri que os coordenadores do projeto tomassem bastante cuidado com a produção científica/acadêmica dos seus docentes credenciados e que levassem em consideração a possibilidade de reduzir o número de disciplinas ofertadas, na tentativa de garantir uma alocação didática mais eficiente nos anos vindouros. Por isso, fui taxado de “direitista” e “alinhado com o imperialismo exploratório eurocentrista” por uma das representantes deste mesmo conselho, particularmente encarniçada (e, como de praxe entre os extremistas de qualquer matiz, sem nenhuma finesse ou humor), ainda que minha sugestão de encaminhamento tenha sido pela aprovação da proposta de pós-graduação.

O historiador Tony Judt (1948–2010) levantou-se inúmeras vezes contra perspectivas anacrônicas como a citada acima, dada a sectarismos e ausência completa de empatia e generosidade para com o alheio. Para Judt, é preciso aprender a lidar com as necessidades comuns rejeitando o individualismo niilista da direita e o socialismo deturpado do passado. Em seu último livro publicado em vida, “O mal ronda a Terra: um tratado sobre as insatisfações do presente” (de 2010), ele discute a necessidade de se abandonar a fé cega no mercado e de colocar o respeito à igualdade de direitos acima de qualquer coisa. Seguem abaixo alguns trechos da obra:
O caráter materialista e egoísta da vida contemporânea não é inerente à condição humana. (p. 16)
A última vez que um grupo de jovens expressou comparável desânimo pelo vazio de suas vidas e da frustrante falta de sentido do mundo foi nos anos 1920: não por acaso os historiadores falam de uma geração perdida. (p.17)
O governo pode desempenhar um papel maior em nossas vidas sem ameaçar a liberdade. (p. 19)
A desigualdade é corrosiva. Faz com que as sociedades apodreçam por dentro. (p. 30)
Quanto mais nos tornamos iguais, mais acreditamos que a igualdade é possível. (p. 32)
O crescimento econômico beneficia a todos, mas privilegia desproporcionalmente uma pequena minoria em posição de explorá-lo. (p. 33)
[O pensamento econômico hoje] decreta que busquemos nossos interesses (definidos como vantagens econômicas maximizadas) com o mínimo de referência a critérios externos como altruísmo, renúncia, gosto, hábitos culturais ou propósitos coletivos. (p. 44-45).
O medo e o descontentamento das classes médias deram origem ao fascismo. (p. 58)
Todos os empreendimentos coletivos exigem confiança (...) os humanos não conseguem atuar juntos a não ser suspendendo a desconfiança que sentem uns pelos outros. (p. 67)
O individualismo da nova esquerda não respeitava nem o propósito coletivo nem a autoridade tradicional (...) o que lhe restava era o subjetivismo do interesse e do desejo privados – medido de forma pessoal. Isso, por sua vez, conduzia ao recurso do relativismo estético e moral: se algo é bom para mim, não me cabe determinar se é bom ou mal para outros – e muito menos impor isso a eles (p. 90)
O único motivo para os investidores privados adquirirem empresas publicas aparentemente ineficientes é a eliminação ou redução de sua exposição ao risco, bancada pelo Estado (...) como jamais se permitira a quebra de serviços indispensáveis, elas podiam correr riscos, gastar mal e desbaratar recursos à vontade, sabendo que o governo acabaria pagando a conta. (p. 108-110).
Ao reduzir as responsabilidades e possibilidades do Estado, minamos sua situação pública. (p. 113-114).
Qualquer sociedade (...) que destrói a estrutura de seu Estado logo se vê ‘desconectada, reduzida ao pó da individualidade’. (p. 116)
Uma consequência impressionante da desintegração do setor público tem sido a crescente dificuldade em compreender o que temos em comum com outras pessoas. (p. 117)
Se os bens públicos – serviços, espaços, instalações – se desvalorizam, perdendo importância aos olhos dos cidadãos, e dão lugar a serviços privados disponíveis só para quem pode pagar, então perdemos o senso de que os interesses comuns e as necessidades comuns devem ter prioridade sobre as preferências privadas e a vantagem individual. (p. 125)
Numa era em que os jovens são estimulados a maximizar o interesse e o progresso individuais, o incentivo ao altruísmo e até ao bom comportamento se torna obscuro. (p. 125)
Se não respeitamos os bens públicos; se permitimos ou estimulamos a privatização nos espaços, recursos e serviços públicos; se apoiamos com entusiasmo a propensão de uma geração mais jovem a cuidar exclusivamente de suas próprias necessidades, então não deveremos nos surpreender com a progressiva redução do engajamento cívico no processo público de tomada de decisões. (p.126)
Por que temos tanta certeza de que planejamento ou taxação progressiva, ou propriedade coletiva de bens públicos, são restrições intoleráveis à liberdade? Por outro lado, por que câmeras de televisão de circuito fechado, ajuda estatal para bancos de investimentos “grandes demais para quebrar”, telefones grampeados e guerras custosas no exterior são ônus aceitáveis para um povo livre? (p. 144)
Há um preço a pagar pelo conformismo. Um círculo fechado de opiniões ou ideias no qual o descontentamento ou a oposição jamais são permitidos – ou aceitos apenas dentro de limites predeterminados e artificiais – perde sua capacidade de reagir a novos desafios com energia ou imaginação. (p. 147)
Repúblicas e democracias só existem em virtude do engajamento de seus cidadãos na condução dos negócios públicos. Se cidadãos ativos e preocupados descartam a política, eles abandonam a sociedade aos mais medíocres e venais servidores públicos. (p. 153)
Politicamente falando, vivemos na era dos pigmeus. (p. 154)
Os ricos não querem a mesma coisa que os pobres. Quem depende do trabalho para sustentar a família não quer a mesma coisa que quem vive de investimentos e dividendos. Quem não precisa dos serviços públicos – pois pode adquirir transporte, educação e segurança privadas – não busca o mesmo que as pessoas que dependem exclusivamente do setor público. (...) As sociedades são complexas e convivem com interesses conflitantes. Afirmar o contrário – negar distinções de classe, riqueza ou influência – é só um jeito de privilegiar um conjunto de interesses em detrimento de outro. (p. 157)
Acesso desigual a recursos de qualquer tipo – dos direitos humanos à água – é o ponto de partida de qualquer crítica progressista verdadeira do mundo. Mas a desigualdade não é apenas um problema técnico. Ela ilustra e exacerba a perda da coesão social – a ideia de morar num conjunto de condomínios fechados cujo principal propósito é afastar outras pessoas (menos afortunadas que nós) e restringir nossos privilégios a nós a nossas famílias tornou-se a patologia da época e a maior ameaça à saúde de qualquer democracia. (p.170-171)
A volta à ditadura pode ser sedutora em países nos quais a tradição autoritária mantém considerável apoio silencioso. (p. 199)
Todos os argumentos políticos precisam começar por uma avaliação de nossa atitude não apenas em relação aos sonhos de progresso futuro mas também das conquistas passadas: nossas e de nossos antecessores. (p. 209)
Referência:
Judt, T. 2010. O mal ronda a Terra: um tratado sobre as insatisfações do presente. Tradução: Celso Nogueira. Editora Objetiva, Rio de Janeiro.

Ilustração de Joe Ciardiello (www.nytimes.com)

quinta-feira, 24 de março de 2016

Breves resenhas: Histórias impublicáveis sobre trabalhos acadêmicos e seus autores


Em 2008, a Editora Planta publicou um simpático livro intitulado “Histórias impublicáveis sobre trabalhos acadêmicos e seus autores”. Nele, o professor da Universidade Estadual de Londrina Efraim Rodrigues discute a relação orientador-aluno, as ferramentas fundamentais de um trabalho científico-acadêmico e como estruturá-lo perante a miríade de idéias e dificuldades do pós-graduando. Tudo isso em uma linguagem atraente e amigável, sem tecnicismos desnecessários.

É uma leitura indicada para todos aqueles que passam manhãs, tardes e noites nas bancadas de laboratórios, em escrivaninhas e nos seus computadores pensando e produzindo ciência. Professores e alunos têm muito a ganhar das dicas dadas por Rodrigues nesse livro.

Seguem alguns trechos [cuidado! Contém spoilers!]:
Seu candidato a orientador quer, entre os inúmeros candidatos que pulam de galho em galho, um que realmente se comprometa com o investimento que será feito nele, e que retornará para o programa de pós-graduação um trabalho no prazo exigido e da maior qualidade, tudo isso realizado com a menor assistência possível. (p. 4)
O aluno admira o orientador e é difícil para ele crer que seu orientador possa saber menos que ele sobre o trabalho. A se somar a isto, bons orientadores têm vários orientados, aulas, administração universitária, consultorias... Mais e mais detalhes para lembrar. Um belo dia seu orientador não lembra quantas repetições tem seu experimento e, cinco minutos depois, o aluno está no Orkut [o livro é de 2008, vamos dar um desconto!] dizendo que seu orientador tem amnésia aguda. (p. 11)
[É imprescindível] adquirir uma casca, uma proteção contra o lado destrutivo e desanimador da crítica. (...) O maior desafio em relação às críticas é manter a convicção de que seu trabalho só melhora com elas. (...) Anote as críticas porque seu cérebro não irá fazê-lo. (p. 17-19)
A crítica que vem de fora interage com a idéia que temos de nós mesmos e de nosso trabalho, às vezes de maneira explosiva. As pessoas mais sensíveis a comentários negativos costumam ser aquelas que já possuem um complexo de inferioridade. Quando a mensagem que vem de fora reforça esta imagem interna negativa, o resultado pode ser forte a ponto do aluno abandonar seu trabalho, assim como todo o investimento anterior. (...) Quando algo desce do limbo platônico, perfeito, que só existe na cabeça das pessoas, ele passa a ter as imperfeições deste nosso mundo real e passa a receber críticas. (p. 21) 
Um bom trabalho acadêmico vai exigir tanto de você quanto um filho pequeno. (p. 27) 
Uma outra válvula de escape para almas ansiosas é a procrastinação. (...) é infinita a nossa criatividade para arrumar compromissos inadiáveis. Uma solução que costumo adotar é mudar de local para me dedicar a trabalhos mais sérios. Quando você vai passar alguns dias em um local diferente para organizar as idéias e escrever, você naturalmente se obriga a voltar com mais do que foi e medir o quanto fez nesses dias contados, tão difíceis de subtrair de seu cotidiano. (...) Muitas vezes a procrastinação é causada pela insegurança em relação aquilo que estamos escrevendo. Uma solução neste caso é permitir-se escrever de qualquer jeito (...) só para vencer a inércia. É sempre possível editar depois o que escrevemos nestas horas de desespero. (p. 32) 
O ambiente acadêmico em que seu trabalho é elaborado determina muito do que ele se tornará. Se o líder deste grupo é um pesquisador de alta produtividade, então você terá como colegas os melhores alunos. Haverá alunos de doutorado, mestrado e graduação atuando em conjunto, fazendo estas idéias todas fluírem de um lado para outro, principalmente de cima para baixo, para benefício óbvio de quem está começando mas também de quem já está há mais tempo e precisa acumular experiência em liderar pessoas. Frequentemente haverá gente de fora querendo vir conhecer o que está acontecendo ali e também trazendo idéias novas. (p. 37) 
Minha política com meus orientandos sempre foi deixá-los muito soltos porque não acredito que trazê-los em rédea curta ajuda seu amadurecimento. (...) Aprender dói e toma tempo. (p. 42) 
O fato de você ter um projeto não implica que você terá que levá-lo até o fim da forma como projetou. Tendo um projeto, você anda em uma direção. (...) Sem projeto, você fica andando em círculos ao redor do lugar de onde saiu. (p. 57) 
Chaplin dizia que a forma mais elevada de arte é simplificar o assunto mais importante do mundo ao ponto que todos possam apreciá-lo e compreendê-lo. (p. 92-93) 
Não coloque “obrigado” no último slide, nem somente o seu e-mail. Seu último slide deve conter as idéias que sua platéia vai levar para casa. O último slide deve ficar lá enquanto você responde às perguntas. Quanto mais tempo, mais ele cumprirá sua função. (p. 95) 
A divulgação de seu trabalho acadêmico faz parte de algo mais amplo, que é o marketing pessoal. Estar na mídia faz você ser visto e abre possibilidade de atuação para você. Portanto, a divulgação do seu trabalho deve começar antes de concluí-lo e não terminar jamais. (p. 100) 
Para Vulcano, o Deus da forja na mitologia grega, conhecer pessoas é desnecessário porque sua ênfase é toda em seu trabalho. (...) Na mitologia grega, Mércurio é o Deus que transita entre mundos e faz a comunicação entre eles. (...) O trabalho acadêmico, ao menos em sua elaboração, pede mais de Vulcano que de Mercúrio. (p. 105) 
Casamentos podem ser desfeitos mas um trabalho acadêmico será seu e você será dele até mesmo depois que a morte os separe. (p. 107) 
As pessoas só lerão seu trabalho quando se interessarem, nesta ordem, pelo título, palavras-chave e resumo. (...) O título é o melhor, menor e mais visível resumo de seu trabalho. (p. 127) 
A resposta: “Meu orientador disse para fazer assim”, assim como suas variantes, é desagradável na iniciação científica, feia no mestrado e vergonhosa no doutorado. (...) Você tem que conseguir defender os métodos que utilizou. (p. 129) 
O fim absoluto do trabalho acadêmico não existe. Seria possível continuar a escrever um único trabalho por toda a vida, por vezes burilando à beira da perfeição, em outros momentos rasgando tudo e começando do zero, fazendo grandes progressos em alguns momentos e quase parando em outros. (...) Trabalho acadêmico algum fica absolutamente pronto. (p. 155)
Referência:
Rodrigues, E. 2008. Histórias impublicáveis sobre trabalhos acadêmicos e seus autores. Editora Planta, Londrina.

Imagem: https://www.eff.org/

sexta-feira, 4 de março de 2016

JEsUs One: a pseudo-ciência do design inteligente às portas da academia


O dia 14 de dezembro é especial para mim. É dia de aniversário da minha mulher e também do meu irmão. Desde o ano passado, esse dia também deverá ser lembrado pela comunidade científica, especialmente pelos pesquisadores que trabalham em laboratórios voltados às ciências biológicas. Foi no dia 14 de dezembro de 2015 que a conceituada revista PLoS One (acrônimo para Public Library of Science One) aceitou para publicação o artigo “Biomechanical Characteristics of Hand Coordination in Grasping Activities of Daily Living” – em tradução livre “Características Biomecânicas da coordenação da mão em atividades de agarramento na vida diária” – de autoria de Ming-Jin Liu, Cai-Hua Xiong, Le Xiong e Xiao-Lin Huang. A PLoS One é conhecida por seu alto índice de impacto e velocidade no peer-review, o processo de revisão pelos pares, base da ciência contemporânea, a partir do qual artigos submetidos para revistas científicas são avaliados por outros pesquisadores da área, que emitem pareceres favoráveis ou não à publicação.

É de se esperar que revistas científicas bem qualificadas tenham um sistema de peer-review sério e que seus editores tomem extremo cuidado antes de aceitarem um trabalho para publicação. A PLoS, desde meados desta primeira semana de março, tem sido atacada por todos os flancos por conta do artigo de Liu e seus colaboradores. Em linhas gerais, o trabalho tem entre suas conclusões a ideia de que a habilidade manual humana extraordinária revela (pasmem!) o design divino. Se somos tão hábeis em agarrar objetos, clicar em sites maliciosos e digitar infindáveis mensagens no Whatsapp, o artigo da PLoS One sugere fortemente que isso tudo é obra de Deus. 

O resumo do artigo é bastante revelador (abaixo em tradução livre): 
A coordenação das mãos permite aos humanos ter controle para executar várias tarefas na vida diária com muitos graus de liberdade. Um fator importante que contribui para esta importante habilidade é a arquitetura biomecânica complexa da mão humana. No entanto, estabelecer uma clara ligação funcional entre a arquitetura biomecânica e coordenação das mãos é um desafio. Não se entende quais características biomecânicas são responsáveis ​​pela coordenação das mãos e qual o efeito específico que cada característica biomecânica tem. Para explorar esta ligação, nós inicialmente inspecionamos as características da coordenação das mãos durante as tarefas diárias através de uma análise estatística dos dados cinemáticos, que foram coletados a partir de trinta indivíduos destros durante diferentes tarefas que envolviam o ato de agarrar. Então, a ligação funcional entre a arquitetura biomecânica e a coordenação das mãos foi estabelecida por conta da clara causalidade correspondente entre as características conectivas tendíneas da mão humana e as características coordenadas durante as atividades diárias de agarramento. A ligação funcional explícita indica que a característica biomecânica da arquitetura conectiva tendínea entre músculos e articulações é o design adequado feito pelo Criador para realizar uma infinidade de tarefas diárias de uma maneira confortável.
Repito: isso foi publicado em uma revista científica tida como de boa reputação e elevado fator de impacto. Comparem agora com o texto abaixo:
[A evolução] tenta explicar a origem das espécies. Os seres vivos são formados por órgãos eficientes, como o coração, pulmões e olhos. Também, no nível microscópico, vemos dentro das células ‘máquinas’ incrivelmente projetadas. Qual a origem desses projetos? (...) De onde vêm os mecanismos? (...) Num ecossistema, a interdependência pode ser vista numa escala imensa. Um ecossistema é um ambiente com uma comunidade talvez de milhares de tipos de animais, plantas, bactérias e fungos. Todos os animais dependem das plantas como fonte de alimento e oxigênio, e a maioria das plantas floríferas depende dos animais. Embora os ecossistemas sejam extremamente complexos e os organismos neles sejam frágeis, eles podem sobreviver por milênios. Mesmo quando um ecossistema complexo é afetado por poluição, ele se recupera assim que a fonte da poluição é eliminada. Quando penso na capacidade de recuperação do inteiro sistema de vida na Terra, tenho certeza de que a vida foi projetada por Deus.
Este trecho saiu no site da revista Despertai!, um dos veículos de divulgação dos Testemunhas de Jeová. No meu entender, a lógica subjacente a ambas as passagens é a mesma (e a conclusão, idem).

Dado o burburinho da comunidade científica – que postou em massa comentários no site da PLoS One, muitos deles vindos de importantes editores e revisores da própria revista –, o artigo de Liu e seus colaboradores foi retratado ontem (03/03/2016). O periódico se desculpou e prometeu apurar em que passo (ou passos) do processo de peer-review houve equívocos (talvez fosse melhor o artigo ter sido revisado por “ímpares”, que certamente analisariam com mais cuidado seu conteúdo e linguagem). Da publicação no início de janeiro à retratação, foram pouco menos de dois meses. A despeito dos problemas vários, há vantagens no mundo digital em que tudo acontece em velocidade warp e dobra cinco!

O artigo de Liu e colaboradores é uma tentativa óbvia de incutir o discurso criacionista do Design Inteligente (DI) no meio científico acadêmico sério. Como discutido aqui no blog, o DI foi uma tentativade grupos religiosos inserirem o "criacionismo científico" no ensino de ciências dos Estados Unidos. O movimento foi criado no final dos anos 1980 pelo advogado Phillip Johnson, professor de direito em Berkeley (as credenciais “científicas” de Johnson são no mínimo questionáveis: além de não aceitar a teoria evolutiva, ele também negava que o vírus HIV era causa da AIDS). O DI não se fundamenta em evidências e teve todos seus débeis argumentos desconstruídos nas últimas décadas pela comunidade científica.

Os defensores do DI postulam a ideia do criacionismo científico (!), baseado na pretensa existência de “complexidades irredutíveis” nos sistemas biológicos. Segundo o DI, a evolução gradualista não seria possível e, assim, todos os sistemas vivos não teriam se originado por etapas através de um mecanismo lento e gradual como o da seleção natural, e sim a partir do blueprint de um designer ou projetista, um Criador (!), que tivesse pensado, a priori, no encaixe perfeito entre todos os componentes constituintes da vida no universo. O DI retoma a Teologia Natural de William Paley, anterior à publicação do Origem das Espécies (1859) de Charles Darwin, segundo a qual as relações entre as partes orgânicas dos seres vivos e entre estes no ambiente seriam evidência irrefutável para um deus interventor responsável por toda a criação.

Não é crime acreditar no Design Inteligente – assim como também não deve ser colocado atrás das grades os amantes da ufologia, da astrologia ou os “teóricos” dos alienígenas do passado. O que assusta não é a existência de panfletos defendendo a realidade de um designer sobrenatural e sim a interferência dessa visão pseudo-científica – com a tentativa de forçar a publicação de trabalhos como o da PLoS One – na prática acadêmica corriqueira. É fato: não se pode misturar maçãs e laranjas. O Design Inteligente NÃO é ciência e, portanto, NÃO deve ser tratado como tal. Assim como não esperamos encontrar um artigo discutindo as previsões para cada signo do zodíaco em revistas do tipo Nature ou Science (que têm grande impacto entre os cientistas), também não imaginamos que conclusões pseudo sobre DI apareçam em periódicos sérios como esses. O Design Inteligente é retórica criacionista e uma forma tacanha de introduzir o literalismo bíblico nas ciências.

O único ponto positivo desse imbróglio com a PLoS One foi a certeza de que a comunidade científica mundial, cada vez mais conectada (e antenada na importância de mídias sociais para a disseminação do conhecimento), está atenta às más práticas editoriais. Isso é um alento em um mundo repleto de ignorância e de crenças cegas em que ideologias e partidarismos sobrepõem-se ao ceticismo e às evidências.


Foto de Roy Winkelman. Fonte: http://etc.usf.edu/clippix/picture/gorilla-looking-at-hands.html 

Referência:
https://www.jw.org/pt/publicacoes/revistas/

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O hipopótamo, o enxadrista e a arrogância dos cientistas


Nas últimas semanas, a discussão a respeito da “Pílula da USP”, um suposto fármaco capaz de curar o câncer, tem tomado conta de parte da comunidade científica brasileira. O debate, infelizmente, apóia-se em teorias conspiratórias e a cada dia ganha ares de histeria coletiva. Desconsidera, quando não nega explicitamente, a importância de se divulgar como o respeito a certos protocolos na ciência é crucial e como a atividade busca incessantemente questionar as hipóteses levantadas nas bancadas e laboratórios. O status de hipótese científica deve ser dado apenas àquelas ideias que correspondem a conjecturas testáveis e que são, portanto, falseáveis. Assim, elas podem vir a ser refutadas ou corroboradas segundo critérios delimitados e evidências adicionais, mas nunca confirmadas como verdades inquestionáveis ou dogmas. 

Ser diagnosticado com câncer é ser confrontado, diretamente e de maneira brutal, com sua própria finitude (tive uma experiência muito próxima com essa questão – meu pai faleceu há pouquíssimo tempo por conta de um tumor nos rins que se alastrou rapidamente). O jornalista Christopher Hitchens (1949–2011) começa assim o seu inacabado último livro, em que relata os dias finais da sua existência: “Mais de uma vez em minha vida acordei com a sensação de estar morto. Mas nada me preparou para o começo da manhã de junho em que recobrei a consciência sentindo-me como que acorrentado a meu próprio cadáver”.

A tendência (compreensível e perfeitamente justificável) de quem se encontra nessa situação é o apego a qualquer alternativa, por mais infundada que possa parecer ao espectador externo. Essa esperança por vezes vem da confiança no discurso científico ou naquele que usa de algum jargão típico das ciências, e ganha força, ímpeto e autoridade. Nesse ponto, pode-se ouvir o tique-taque da bomba-relógio... 

Quando o cientista não assume a responsabilidade pelo seu trabalho de pesquisa, seus pronuciamentos, seus anúncios à mídia, quando não leva em conta a necessidade de construir suas hipóteses a partir de evidências e de testes controlados, quando imagina estar em um pedestal de sabedoria inconstável e inabalável, quando ele se deixa levar pela lógica perversa do mercado e por sua própria arrogância, toda a sociedade perde.

Discuti um pouco a respeito desses temas no meu livro “O hipopótamo de Tal”, publicado recentemente. O ensaio que dá título à obra segue abaixo.

O hipopótamo de Tal

As ideias são ninharias. O que conta é o que fazemos com elas.
Isaac Asimov, Antologia 2 (1992)

Certa vez, em uma entrevista, perguntaram ao enxadrista russo Mikhail Tal (1936–1992) se ele pensava em algo além do xadrez quando se encontrava sentado ao tabuleiro defronte a um adversário. “Certamente”, disse. E citou um exemplo: em um dos muitos campeonatos patrocinados pelo então governo soviético, Tal encontrava-se em uma posição delicada na partida. Seu primeiro impulso foi sacrificar um dos cavalos, apesar de desconfiar da própria variante. “Comecei a calcular e me horrorizei com a ideia de que o sacrifício dera errado”. Segundo Tal, os pensamentos começaram a se amontoar em sua cabeça. Uma torrente caótica de possibilidades, às vezes sem nenhuma relação entre si, crescia sem parar de maneira monstruosa. Nesse momento, o jogador diz que se recordou de uma célebre poesia infantil soviética:

Oh, como é difícil o trabalho
De arrancar um hipopótamo do pântano!

“Não conseguiria explicar porque esse hipopótamo se meteu no tabuleiro, mas a verdade é que, enquanto os espectadores achavam que eu estava analisando as jogadas, eu pensava em como diabos poderia arrancar um hipopótamo do pântano”. Olhando para as peças, Tal imaginava alavancas, arreios e helicópteros com escadas de corda. Depois de inúmeras tentativas, sem encontrar nenhum método aceitável de retirar o gigantesco artiodáctilo do meio da lama, ele desistiu do seu experimento mental e pensou, com amargura “Então, que se afogue!”.

Mikhail Tal foi um dos maiores jogadores de xadrez que o mundo conheceu. Aprendeu a mexer os cavalos e torres aos oito anos de idade e, aos vinte, era pela primeira vez campeão soviético. Aos 23, sagrou-se campeão mundial, após derrotar mestres como Vasily Smyslov (1921–2010), Paul Keres (1916–1975) e Bobby Fischer (1943–2008). De fato, Tal é uma das unanimidades históricas das 64 casas, comparado em genialidade, criatividade e excentricidade aos também unânimes Paul C. Morphy (1837–1884) e ao já citado Fischer. Conhecido como o “mago de Riga” e dono de uma língua ferina, quando perguntado sobre seu estilo agressivo de jogo, Tal respondeu: “Há três tipos de sacrifícios: os corretos, os incorretos, e os meus”. Como a maioria dos grandes campeões do esporte, Tal confiava acima de tudo na sua própria capacidade de controlar uma situação surgida no tabuleiro de xadrez, contornando as dificuldades com maestria a fim de chegar a um desfecho favorável.

Mas, por que falar de Tal? O que as atitudes do enxadrista têm a acrescentar para uma análise dos rumos e das particularidades da ciência? 

Há muitas analogias possíveis entre os maneirismos dos grandes jogadores de xadrez e o comportamento dos cientistas. Diferentemente do jogo dos reis, a ciência nem sempre ganha com a excessiva autoconfiança dos seus praticantes – que por vezes mal escondem uma sede por reconhecimento midiático e celebridade instantânea. A complexidade do mundo natural é bem maior que o número de variantes possíveis em uma partida de xadrez e não pode ser mensurada em uma bancada de laboratório. Aos pesquisadores cabem responsabilidades que fogem ao falso determinismo de suas fórmulas e protocolos de trabalho. 

Parte dos cientistas acredita cegamente nos resultados de suas pesquisas e no seu absoluto controle sobre elas. Alguns o fazem por ingenuidade, outros por incompetência, alguns parecem nem mesmo se importar com os possíveis desdobramentos, futuros ou imediatos, das suas atitudes. Aliada à insensatez de parte dos pesquisadores vem a grande mídia, que divulga com desmedido entusiasmo os deslumbramentos científicos e pouco se presta à consulta de fontes fidedignas ou segundas opiniões. Os delírios do projeto Genoma, a utilização de células-tronco para pôr um fim às doenças que afligem o homem, os alimentos transgênicos... é longa a lista de áreas promissoras da biologia alardeadas como furos jornalísticos. As possíveis e prováveis consequências desses estudos, seus pormenores e idiossincrasias, as dificuldades surgidas e os falsos positivos geralmente ficam fora das primeiras páginas e dos pronunciamentos em horário nobre. Assim, concepções errôneas são propagadas, fornecendo combustível para questionamentos vazios e sem fim em torno de nada muito palpável.

É certo que o conhecimento científico deve ser levado ao grande público – a ciência é o escudo contra o obscurantismo, um facho de luz na escuridão de um mundo assombrado por demônios, na metáfora do astrônomo e divulgador da ciência Carl Sagan (1934–1996). Como diz David Shenk (1966– ), autor de O jogo imortal: o que o xadrez nos revela sobre a guerra, a arte, a ciência e o cérebro humano (publicado no Brasil em 2008), “É muito comum, nessa época fragmentada, pós-moderna e de verdades escorregadias, a reação de se negar a pensar e, em vez disso, cair num conjunto já estabelecido de crenças. Em suma: numa ideologia”. Entretanto, como qualquer atividade humana, a ciência tem sua própria sociologia, seus conflitos de interesse e contradições insolúveis que nunca sobem ao palco e que, quando muito, apenas se transformam em anedotas biográficas de livros nunca lidos. Como em um dramalhão televisivo, os bastidores do mundo científico escondem guerras de ego, brigas, vaidade, traições e, sobretudo, cobiça. A realidade da academia não destoa do mundo fora dela. Afinal, somos todos humanos.

Pesquisadores muitas vezes rendem-se a verbas vultosas oferecidas por empresas multinacionais ou governos para financiar projetos de grande monta. Organizam-se verdadeiras operações de guerra, com táticas publicitárias ferozes e “lavagem de cérebros”, para cooptar os corações e mentes do público e de quem quer que interfira com posições contrárias. Para os que insistem no embate resta o ostracismo ou o monólogo. 

O projeto Genoma humano, por exemplo, por muitos considerado a maior realização científica do século XX, a mais extraordinária aventura da ciência na atualidade, a busca pelo verdadeiro cálice sagrado, é apenas o reconhecimento das bases nucleotídicas que compõem o material genético do Homo sapiens, a nossa espécie. Em qualquer organismo vivo conhecido, o DNA é composto por quatro tipos de unidades básicas chamadas nucleotídeos: adenina, guanina, timina e citosina (respectivamente, A, G, T e C, no jargão da biologia molecular). A informação presente na dupla-hélice do DNA corresponde a um código criptográfico com apenas quatro variáveis que podem ser aglutinadas em infinitas combinações de mensagens. O que se fez até o momento no projeto Genoma foi reconhecer qual a sequência dos nucleotídeos no DNA da nossa espécie. Em linhas gerais, é como conhecer as letras impressas nas páginas de um livro imenso sem saber o que elas significam juntas ou em que língua foram escritas. 

O sequenciamento dos nucleotídeos prometido pelo projeto Genoma é apenas a etapa inicial de uma empreitada mais ampla, que visa ao conhecimento das expressões fenotípicas dos genes, das relações entre eles e da importância dos fatores internos (e não apenas genéticos) e externos (isto é, “ambientais”, em uma concepção ampla do termo) na determinação das características dos organismos vivos. Há muito trabalho a ser feito a partir dos resultados já obtidos. Muitos cientistas, entretanto, são céticos a respeito das possíveis consequências científicas e das reais intenções de empreendimentos desse porte. O eminente geneticista Richard Lewontin (1929– ), professor de zoologia da Universidade de Harvard, vê no projeto Genoma o esforço lobista de organizações voltadas mais para atividades financeiras e administrativas do que para a pesquisa básica em busca do conhecimento sobre o mundo natural. O futuro do Genoma, da clonagem e de outras áreas da biologia molecular não pode ser desvinculado de interesses comerciais.

Os alimentos transgênicos constituem outro exemplo claro de manipulação do público pela mídia e pelas empresas patrocinadoras. Esses alimentos são modificados através da inserção, no seu material genético, de porções de DNA de outras espécies, com vistas ao aumento do seu valor nutricional ou maior resistência a insetos e outros predadores naturais. Apesar dos aparentes benefícios da técnica, e assim como outros projetos megalomaníacos da biologia molecular, os transgênicos interessam muito mais às corporações internacionais do que à vasta população carente de comida. Lucro, controle da cadeia produtiva, mais lucro, vendas, dominação dos mercados. Ouvem-se poucas vozes importantes, parte delas abafada, a falar sobre os riscos e dúvidas sobre a introdução desses organismos geneticamente modificados no ambiente: não se sabe ao certo quão impactantes podem ser, tanto para a saúde animal (incluindo aí o homem) quanto para o equilíbrio das relações ecológicas interespecíficas. Ao grande público sobram os ditos imperiosos das autoridades, que se presumem titereiros debruçados sobre as cordas e o destino de suas criações. Esses exemplos, infelizmente, não esgotam o assunto.

A ciência não é capaz de chegar à certezas absolutas, mas busca se aproximar delas. É essa a razão do seu distanciamento dos dogmatismos religiosos e das crenças cegas. Aos pesquisadores, cabe reconsiderar suas percepções de grandeza e reconhecer que o poder e o controle em suas mãos é limitado. Suas verdades são transientes, visto que hipotéticas e baseadas nas evidências disponíveis. Não há como dominar em um laboratório todas as variáveis das equações da natureza, como Tal fazia com seus peões, cavalos e torres, e essa impossibilidade precisa ser considerada também pelo público não especializado como parte da ciência. 

Como qualquer outra atividade humana, a prática científica também apresenta interesses muitas vezes velados e apendiculares, quase como se os cientistas estivessem vislumbrando como arrancar um hipopótamo de ouro do meio do lamaçal enquanto escrevem artigos para publicação e solicitam financiamento para seus projetos de pesquisa. Apenas quando a população tiver conhecimento sobre todas as regras do jogo científico ela poderá cobrar a verdade por trás das promessas de tantos admiráveis mundos novos que aparecem a cada dia.

PS: Para os interessados, o “Hipopótamo de Tal” pode ser solicitado pelo e-mail charlesmorphy@gmail.com. Cada exemplar custa R$ 25,00 (+ R$3,00 de frete).

domingo, 31 de maio de 2015

O hipopótamo de Tal à venda!

Depois do lançamento no último sábado, dia 30/05, já está à venda o livro "O hipopótamo de Tal"!

Apenas R$ 25,00 + um pequeno frete (pedidos atráves do e-mail charlesmorphy@gmail.com) ou diretamente com o prof. Charles Morphy na Universidade Federal do ABC (sala 641-3, Bloco A, torre 3).


quinta-feira, 21 de maio de 2015

Lançamento do livro O hipopótamo de Tal!


O hipopótamo de Tal traz versões expandidas de nove ensaios publicados neste blog. Discuto nele como o raciocínio científico é importante para compreendermos o mundo natural e para transcendermos interesses individuais em prol de uma visão coletiva de humanidade. Reconhecer a ciência como uma das balizas norteadoras da existência humana é uma das maneiras de promover uma sociedade saudável capaz de despertar das ilusões e fundamentalismos medievais que tentam tomá-la de assalto.

Deuses e novos sacerdotes
Segundo um postulado do geômetra grego Euclides (330 a.E.C1.–270 a.E.C.), duas retas distintas perfeitamente paralelas nunca se cruzam em um espaço tridimensional. Ao passo que se distanciam do observador, essas retas parecem ficar mais próximas uma da outra, mas nunca se tocam – elas coincidirão somente no infinito inatingível e não observável. Assim como as paralelas para a geometria, também as visões de mundo científica e religiosa não se sobrepõem quando respeitados seus limites e áreas de abrangência, e não devem ser postas em confronto direto, apesar das discordâncias dos defensores de ambos os lados.

Faça-se a luz!
Investimentos maciços no desenvolvimento científico-tecnológico e em educação são fatores significantes quando nossa espécie se vê frente a perigos impostos por fenômenos em muitas ordens de magnitude mais fortes do que nossas possibilidades de controlá-los. Esperar apenas que o profeta aponte os caminhos e garanta a salvação é um comportamento, no mínimo, ingênuo, quando não fatal.

A parcimônia nas ciências
Parcimônia vem do latim parcos e significa frugalidade, moderação, simplicidade. Esse conceito é comumente associado à economia de suposições em teorias científicas. Desde o início da ascensão da ciência como uma poderosa maneira de se compreender a natureza, ainda na Idade Média, tem havido uma demanda crescente pela simplicidade nas proposições científicas. Não é exagero dizer que a parcimônia é um componente essencial do conhecimento humano.

O hipopótamo de Tal
Há muitas analogias possíveis entre os maneirismos dos grandes jogadores de xadrez e o comportamento dos cientistas. Diferentemente do jogo dos reis, a ciência nem sempre ganha com a excessiva autoconfiança dos seus praticantes – que por vezes mal escondem uma sede por reconhecimento midiático e celebridade instantânea. A complexidade do mundo natural é bem maior que o número de variantes possíveis em uma partida de xadrez e não pode ser mensurada em uma bancada de laboratório. Aos pesquisadores cabem responsabilidades que fogem ao falso determinismo de suas fórmulas e protocolos de trabalho.

Não havia evidências suficientes, Deus!
O ceticismo não é uma perspectiva exclusiva das ciências. Ser cético é questionar qualquer conhecimento, fato, opinião ou crença estabelecida como fato. Filosoficamente significa aceitar apenas informações suportadas por evidências. Até mesmo as religiões podem se beneficiar dele, através, por exemplo, de autoanálises periódicas – ou, de preferência, constantes – que levem ao refinamento das premissas que constituem seu conhecimento de fundo. No entanto, as religiões, quando tomadas no geral, não fazem um esforço sincero para depurar o que alguns chamam de suas “superstições infundadas”. Adotar o ceticismo religioso significaria, por exemplo, colocar em dúvida princípios religiosos básicos como a imortalidade, a reencarnação ou a evolução espiritual.

Das revoluções
Em termos práticos, um novo paradigma pode ser mais atrativo, por exemplo, se ele fornece possíveis soluções a um maior número de problemas, ou se suas soluções são mais claras, objetivas e simples que aquelas fornecidas pelo paradigma anterior. Se um novo conjunto de ideias precisa de menos hipóteses ad hoc (que são os “remendos” feitos a uma hipótese inicial, a fim de salvar a explicação), ele certamente é vantajoso quando comparado a um paradigma que precise de inúmeros apêndices explicativos para funcionar a contento. Assim, um paradigma não é simplesmente rejeitado mas substituído em favor de alguma teoria alternativa, digamos, mais elegante. A transição funciona como uma reconstrução das bases teóricas e práticas da área de estudo, alterando algumas das suas generalizações mais elementares, bem como parte dos seus aspectos metodológicos e das suas aplicações. 

Somos todos ateus
É concebível um cientista natural, como um biólogo, acreditar em Deus? Em minha opinião, sim, é concebível. Nem todos concordam, mas acredito que um biólogo pode acreditar em poderes divinos, assim como também tem o direito de torcer por qualquer time em qualquer campeonato de futebol (tenho um amigo zoólogo que torce por uma equipe diferente em cada estado em que já morou) ou de preferir jazz ao rock. No entanto, cientistas naturais que escolhem o caminho ambíguo da fé no sobrenatural precisam estar cientes das contradições que essa escolha pode acarretar. 

O desafio da alfabetização científica
Pensar de maneira científica parece chave para uma educação mais eficiente, menos voltada à simples memorização e repetição de argumentos prévios ditados por figuras de autoridade. Para isso, a ciência tem que ser tratada como um processo, não como um conjunto de realizações prontas e postas à mesa tal qual um catálogo de curiosidades. Nesse sentido, a filosofia da ciência funciona como uma ferramenta extraordinariamente poderosa tanto para professores quanto para alunos.

Da posição do Homo sapiens na árvore da vida 
O modo como os animais são tratados em fazendas de criação intensiva desconsidera completamente a possibilidade deles apresentarem características cognitivas sofisticadas, dentre elas a senciência. Senciência é a capacidade de sofrer, sentir prazer ou felicidade. Hoje, possuímos um amplo conhecimento sobre a distribuição da senciência na árvore da vida. Evolutivamente, as diferenças entre a capacidade cerebral e cognitiva do Homo sapiens e das demais espécies de vertebrados são de grau, não de tipo. Por exemplo, há evidências cada vez mais abundantes de que espécies tão diversas quanto gatos domésticos, golfinhos, orangotangos, girafas e até mesmo patos guardam luto, lamentando a morte de parentes e companheiros próximos.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Por uma ciência livre para errar


Na ciência fala-se muito em “contexto da descoberta” e “contexto da justificação”. Dentro de uma perspectiva hipotético-dedutiva, o primeiro corresponde à maneira pela qual uma teoria científica é concebida, sua gênese e suas origens históricas. O segundo relaciona-se às evidências empíricas e suportes teórico-prático que formam o arcabouço da nova ideia, essenciais para dar forma à teoria e para apresentá-la ao público.

Segundo o filósofo da ciência Paul Feyerabend (1924-1994), não há método específico válido para toda criação científica: de fato, tudo vale, de sonhos - diz-se que o químico orgânico August Kekulé (1829-1896) propôs a estrutura do anel de benzeno após acordar de um sonho em que via uma cobra engolindo seu próprio rabo - a insights psicológicos. Qualquer referencial pode ser utilizado nessa primeira etapa: arte, música, filosofia, metafísica, ciência básica, sociologia, psicologia... A livre associação, muitas vezes, permite que novos caminhos científicos sejam trilhados, ainda que terminem em “ruas sem saída” ou sugiram direções alternativas. 

O grande divulgador, bioquímico e escritor de ficção científica Isaac Asimov (1920-1992), em um texto sobre criatividade inédito até o ano passado, discute como o contexto é importante para o desenvolvimento de novas ideias. Para ele, além de boa formação na área de estudo (não basta apenas querer propor uma teoria revolucionária, é crucial estudar a literatura pertinente e estar a par do que acontece no campo) e de trabalho incessante (dependendo da área de pesquisa, um tanto solitário), a criação na ciência demanda a busca por conexões entre tópicos ou assuntos que antes não pareciam relacionados. A maioria dos cientistas está sempre revolvendo no seu cérebro alguma questão que lhe interesse, ainda que inconscientemente. É da fusão entre os itens 1 e 2 (ou 3 e 8, ou 12 e 1456) que pode emergir um novo conceito, uma abordagem original a um problema ou simplesmente uma maneira mais objetiva e assertiva de descrever um fenômeno natural.

Argumentar com os pares é uma forma de refinar uma hipótese científica, de aparar suas arestas, de aprofundá-la (ou mesmo de abandoná-la). Essa é das maiores diversões da minha atividade: “jogar” com teorias e conceitos, torcê-los, alterá-los mentalmente, testá-los à luz de experimentos mentais. Para isso, ter um contraponto é importante. 


Recentemente, estava discutindo com a bióloga Leticia Alabi (minha ex-aluna de pós-graduação e atualmente na Universidade do País Basco, na Espanha) a respeito de árvores filogenéticas e definições de vida. É possível existir vida sem evolução? Quando um sistema não-biológico torna-se vivo? O que seria uma biologia universal? A conversa, sem amarras, foi muito interessante:

Charles: Quando falamos "vida como tipo natural" significa algo que não vai mudar, como "água é um tipo natural". É essencialista no sentido de não mudar no tempo. Se não quiser fazer referência a algo fixo, não use o termo “tipo”. O cluster pode mudar no tempo mas dentro de parâmetros (assim, há algo de definido). Pense bem: um cluster de XXX genes e processos regulatórios define o indivíduo Y. Mas, se a evolução é um contínuo, os genes e processos regulatórios mudam continuamente no tempo. Se for um contínuo, não vamos conseguir definir o indivíduo Y a não ser que determinemos "isso aqui é o cluster do indivíduo Y". Entendeu? Em um contínuo, qualquer definição é tipológica. Por isso nossas representações da evolução sempre serão heurísticas, modelos eminentemente falhos.

Letícia: No fim, ontologicamente falando, espécies não existiriam, nem tampouco "vida".

Charles: A vida é a única "descontinuidade". As espécies ontologicamente falando não existem, mas existe vida. Por isso ela é o único tipo. A vida é descontinuidade entre certas propriedades da matéria até a emergência de um todo diferente. Aqui, estamos usando “tipo” como algo definido, fixo, que não muda, que vale em qualquer situação.

Letícia: Se conseguirmos entender um "tipo" historicamente, com essas regras...

Charles: Se usarmos tipo como "definição fixa válida pra qualquer situação", já matamos a charada. Baseando-nos nesse conceito, o que teríamos é a biosfera como único "grupo monofilético" ontologicamente válido. Se definirmos o que é a vida como um "tipo", a única árvore filogenética ontologicamente válida seria a árvore universal da vida (no sentido de conectar todas as biosferas existentes, todas as biosferas em todo o universo). Isso se repetiria só no nosso universo, com as nossas leis, parâmetros físicos e constantes. Não daria pra extrapolar para o multiverso. É isso que penso como sendo a "biologia universal". O que temos que criar é um modelo teórico de vida (como um "tipo") na qual se encaixe os seres vivos conhecidos por nós na esperança de encontrarmos outros for a da Terra. Só dá pra testar essa hipótese se encontrarmos vida extraterrestre (como te falei, o "teto" do fractal – sei que isso não existe mas acho que dá pra entender – é a árvore universal da vida, reunindo todas as biosferas).

Letícia: Daria pra testar se encontrarmos a “shadow biosphere”.

Charles: Se existe biosfera oculta, ela tem que se encaixar no modelo. Seria uma maneira de testá-lo, de fato. Aqui, podemos considerar que a “shadow biosphere” equivale à “vida extraterrestre”.

Letícia: Para encontrar essa “biosfera oculta” em algum nível tem que seguir nosso padrão ou ela vai passar batida embaixo dos nossos narizes e ninguém vai se dar conta, nunca.

Charles: O padrão pra detecção da vida tem que ser universal, mais do que apenas nosso. Aí entra a auto-organização, que não depende, necessariamente, da definição de "vida como conhecemos". Ela parte do pressuposto que a física é igual em qualquer parte do universo. O resto é idiossincrasia de cada biosfera. A vida começa e evolui no equilíbrio tênue entre convergência e contingência, nem só uma, nem só outra.

Letícia: O que define a vida? Talvez seja uma convergência no sentido funcional...

Charles: É a autonomia que define a vida. Um sistema auto-organizativo passa a ser considerado vivo se emerge como um indivíduo, i.e. algo com autonomia. É a autonomia que vai fazer emergir a capacidade de reprodução e de manter metabolismo separado do entorno. A origem da vida, nesse sentido, é a emergência da autonomia de um sistema auto-organizativo. O interessante é que o surgimento da autonomia não pressupõe o início da evolução pois podemos pensar em um sistema auto-organizativo autônomo que não muda (portanto, não evolui). O universo pode estar cheio deles. Dessa forma, vida no sentido universal (como tipo) NÃO pressupõe evolução. Por isso o Dawkins está completamente errado quando define seu Darwinismo Universal. Vida sem a capacidade de evoluir pode ser muito instável mas, a priori, não é teoricamente impossível. Nunca havia pensando nisso.

Letícia: No começo pode ter havido realmente uma variação muito limitada.

Charles: Não só no começo. Pensa comigo: uma biosfera em que todos os organismos sejam geneticamente idênticos, como em Janus (o planeta criado pela Jablonka & Lamb no “Evolução em quatro dimensões”). Eles podem mudar por fatores epigenéticos/ambientais. Em Janus, a biosfera pode ser diferente a cada geração, mesmo sem qualquer tipo de sistema hereditário. Por isso a definição de vida não deve pressupor evolução (não no sentido de mudança no passar do tempo).

Letícia: Os organismos, então, apenas seriam limitados em termos variacionais?

Charles: Sim. Mesmo sem variação genética, as mudanças ambientais e sua influência sobre os sistemas de informação garantiriam a flexibilidade do sistema vivo contra mudanças estocásticas (i.e., eventos contingentes). O que é diferente de pressupor evolução no sentido de descendência com modificação a partir de um ancestral comum. Talvez a evolução seja uma idiossincrasia do nosso planeta ou de certos tipos de vida.

Letícia: Dessa forma, existiria “vida” antes de “vida que evolui”?

Charles: Sim. Deixamos a definição de vida "mais básica", mais fundamental, tipológica.

Letícia: O oceano do “Solaris” entraria nessa definição! O Stanislaw Lem estava certo. [mais sobre esse assunto pode ser lido aqui]

Charles: É exatamente o que eu estava pensando... oceano vivo, que muda sem mudar.

Letícia: Quanto tempo esses tipos de sistema se manteriam? A informação, como seria retida?

Charles: Se as possibilidades de variações epigenéticas forem muitas, elas não precisam ser retidas. Não estamos falando de hereditariedade clássica aqui, mas de variação sem herança. Poderíamos dizer que, em certas biosferas, existiria herança sem variação; em outras, nenhuma variação (ainda que existisse vida); em outras, herança sem variação em uma primeira etapa, seguida de variação com herança; e outras ainda, em um primeiro momento a vida apareceria como um sistema sem possibilidade de variação, depois surgiria variação sem herança (sem qualquer tipo de molécula informacional ou material genético), seguida de variação com herança (genética mais epigenética). Acho que é isso.

Letícia: Gostei da discussão. Ideias, ideias!


Vida sem evolução? Variação sem base hereditária? Biologia universal? Essas coisas podem realmente existir? Não sei ao certo. Na ciência, o processo é tão importante quanto o resultado, e as perguntas, mais fundamentais que as respostas. A partir da dúvida, seguimos em frente.

Infelizmente, a imagem do cientista difundida pelo cinema e pelas mídias de massa não corresponde à rotina dos laboratórios, universidades e institutos de pesquisa. A ciência não precisa ser vetusta ou carrancuda. Às vezes miramos em alvos móveis que não temos a menor certeza se serão ou não atingidos. Isso não importa tanto. Pelo contrário: questionar os pilares da nossa realidade e tentar explicá-los cientificamente é uma atividade prazerosa e divertida.

Não devemos temer o erro. Como disse o professor Dráulio Barros de Araújo, neurocientista da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em um encontro da Academia Brasileira de Ciências ano passado: “o risco é inerente à boa pesquisa. Ciência não é sobre papers, é sobre curiosidade e descoberta”. Fracassar é parte indissociável do processo de construção de conhecimento. 

O caminho que temos para desvendar os mistérios do mundo natural é nos aventurarmos além dos limites do possível, permitindo à nossa imaginação adentrar os domínios do que alguns julgam impossível (ou improvável). Fica a mensagem do físico Richard Feynman (1918-1988): a natureza é tão absurdamente extraordinária que ela nunca vai deixar nossas mentes relaxarem.

Figuras
http://en.wikipedia.org/wiki/Self-organization
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