segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Taxonomia não é ufologia!


"Eu quero acreditar". Esse era o mote de um dos seriados mais icônicos dos anos 1990, Arquivo X. Semana a semana, os agentes do FBI Fox Mulder e Dana Scully se viam investigando o aparecimento de seres espetaculares, monstros pré-históricos redivivos, pés-grandes e organismos extraterrestres co-participantes de uma conspiração mundial de proporções quase inimagináveis. Eu achava tudo muito divertido e acompanhava fielmente a série, ainda que o criador Chris Carter não tivesse preocupação alguma com precisão científica.

Recentemente, alguns taxonomistas ressuscitaram o slogan "Eu quero acreditar" em um contexto distinto: eles têm defendido a possibilidade de se descrever novas espécies mesmo ser terem em mãos qualquer material biológico fisicamente palpável. Bastaria uma foto e a indicação de um especialista, sugerindo que a espécie fotografada não é conhecida pela ciência, para justificar um novo trabalho de descrição taxonômica. Coleta de material biológico? Não é necessário! Depósito de espécimes em museus e coleções de história natural? Dispensável! Sequenciamento de material genético, dissecção de partes anatômicas importantes para a diagnose da espécie, análise do comportamento do organismo no ambiente natural? Detalhes demais para um mundo de demandas tão aceleradas...

Na taxonomia tradicional, é prática corriqueira a coleta de espécimes através de técnicas como armadilhas montadas em áreas naturais ou procedimentos ativos (na entomologia, ramo da zoologia que trata do estudos dos insetos, usamos puçás no campo, que são redes de "caçar borboletas"). Os indivíduos coletados, caso não sejam identificados como nenhuma espécie conhecida, podem ser descritos como novas espécies, recebendo um nome - formado pelo gênero mais um epíteto específico - a partir de regras de nomenclatura derivadas daquelas criadas por Carolus Linnaeus no século XVIII.

As descrições de espécies dependem da observação pormenorizada dos indivíduos coletados. Estas podem ser realizadas a olho nu, em microscópios ópticos, eletrônicos ou estereomiscroscópios, muitas vezes após dissecções dos espécimes e montagem das suas partes em lâminas permanentes ou temporárias. Tal trabalho consome muito tempo porém é imprescindível para identificações e descrições precisas.

A única forma de garantir que as “novas espécies” descritas não existam apenas no mundo das ideias é estudando os indivíduos que serviram de base para as descrições. Sem eles, a zoologia e a botânica sempre se remeterão à autoridade: a existência de uma espécie dependerá de se acreditar (ou não) na idoneidade do taxonomista e na pertinência da sua fonte única de evidências primárias. Só que não é difícil encontrar pesquisadores inidôneos...

Neste ano de 2016, um entomólogo russo - Sergey Viktorovich Pushkin - publicou uma nova espécie de besouro da família Dermestidae. Ele a nomeou Thaumaglossa zhantievi. No trabalho original (que pode ser baixado AQUI), há uma foto da região dorsal de um espécime e uma ilustração da terminália (a porção reprodutiva, fundamental para a diagnose de muitos insetos) (Figura 1).

Figura 1: A "nova espécie" Thaumaglossa zhantievi.

Ainda que a descrição seja demasiado sintética, seria válida. Está de acordo, por exemplo, com o que define o Código Internacional de Nomenclatura Zoológica. No entanto, a foto utilizada no artigo de Pushkin como representativa dessa nova espécie foi simplesmente roubada de um outro artigo publicado anos atrás, que descrevia a espécie de dermestídeo Thaumaglossa laeta (as fotos do material utilizado nesta descrição podem ser vistas AQUI). Pushkin COPIOU a foto de T. laeta, fez algumas pequenas alterações através de algum software de edição digital de imagens, e inseriu no seu próprio trabalho. Não contente, a ilustração da terminália da "espécie nova" T. zhantievi também foi roubada de outro trabalho, que descrevia Thaumaglossa mroczkowskii (Figuras 7 e 9 do artigo disponível AQUI).

Em suma: o entomólogo russo simplesmente INVENTOU uma nova espécie! Ele surrupiou a foto de uma espécie publicada e já descrita, deu uma arrumada no Photoshop (deixando o espécime simétrico), roubou a ilustração de uma terminália de outra espécie, fez o mesmo procedimento no Photoshop e... voilá! Mais uma "espécie nova" para emporcalhar a literatura, publicada em uma revista com índice de impacto e revisão-por-pares (ou ímpares já que deixaram passar tamanho absurdo).

A recente defesa da utilização de fotografias (sem coleta, sem análise de material de referências) como evidência suficiente para a descrição de novas espécies presta um desserviço à prática taxonômica. Abre precedentes para picaretagens como a de Pushkin e pode ser fatal para nossos esforços em direção ao aumento do conhecimento da biodiversidade e para a conservação biológica.

Por mais que estejamos vendo todos os dias os ambientes naturais se deteriorando - quando não completamente destruídos -, ainda que muitas espécies estejam sendo extintas (uma delas pode ter perecido no exato momento em que você lê esse breve ensaio), nada justifica a frouxidão científica. Descrever espécies não é um jogo em que ganha aquele cientista, grupo de pesquisa ou país que nomeia a maior quantidade de novos táxons. Não estamos nos Jogos Olímpicos da taxonomia. É preciso seriedade e apreço por práticas que garantam a repetibilidade nos laboratórios, permitindo a outros pesquisadores e interessados conhecer o máximo possível sobre uma espécie. Fotografias não são suficientes - elas não são substituto da realidade e sim uma representação dela.

"Eu não quero acreditar" que uma espécie descrita existe de fato para além daquilo que foi publicado em um artigo científico. "Eu quero saber"! E, para isso, não dá para contar apenas com imagens. Taxonomia não é ufologia, é ciência. Deve ser tratada assim sempre.

Referências
Amorim, D.S. et al. 2016. Timeless standards for species delimitation. Zootaxa, 4137(1), 121-128.
Pape, T. et al. 2016. Taxonomy: species can be named from photos. Nature, 537, 307.
Santos, C.M.D. et al. 2016. On typeless species and the perils of fast taxonomy. Systematic Entomology, 41, 511-515.
Spineli, P.K. 2010. Mais humano que humano: o cyberpunk na fotografia de Blade Runner. Revista Olhar, 22, 162-186. 

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Breves resenhas: O mal ronda a Terra

Desde 2013, sou representante docente no Conselho Universitário da universidade em que leciono. Um dia desses, apresentando o relato de uma proposta de pós-graduação neste conselho, sugeri que os coordenadores do projeto tomassem bastante cuidado com a produção científica/acadêmica dos seus docentes credenciados e que levassem em consideração a possibilidade de reduzir o número de disciplinas ofertadas, na tentativa de garantir uma alocação didática mais eficiente nos anos vindouros. Por isso, fui taxado de “direitista” e “alinhado com o imperialismo exploratório eurocentrista” por uma das representantes deste mesmo conselho, particularmente encarniçada (e, como de praxe entre os extremistas de qualquer matiz, sem nenhuma finesse ou humor), ainda que minha sugestão de encaminhamento tenha sido pela aprovação da proposta de pós-graduação.

O historiador Tony Judt (1948–2010) levantou-se inúmeras vezes contra perspectivas anacrônicas como a citada acima, dada a sectarismos e ausência completa de empatia e generosidade para com o alheio. Para Judt, é preciso aprender a lidar com as necessidades comuns rejeitando o individualismo niilista da direita e o socialismo deturpado do passado. Em seu último livro publicado em vida, “O mal ronda a Terra: um tratado sobre as insatisfações do presente” (de 2010), ele discute a necessidade de se abandonar a fé cega no mercado e de colocar o respeito à igualdade de direitos acima de qualquer coisa. Seguem abaixo alguns trechos da obra:
O caráter materialista e egoísta da vida contemporânea não é inerente à condição humana. (p. 16)
A última vez que um grupo de jovens expressou comparável desânimo pelo vazio de suas vidas e da frustrante falta de sentido do mundo foi nos anos 1920: não por acaso os historiadores falam de uma geração perdida. (p.17)
O governo pode desempenhar um papel maior em nossas vidas sem ameaçar a liberdade. (p. 19)
A desigualdade é corrosiva. Faz com que as sociedades apodreçam por dentro. (p. 30)
Quanto mais nos tornamos iguais, mais acreditamos que a igualdade é possível. (p. 32)
O crescimento econômico beneficia a todos, mas privilegia desproporcionalmente uma pequena minoria em posição de explorá-lo. (p. 33)
[O pensamento econômico hoje] decreta que busquemos nossos interesses (definidos como vantagens econômicas maximizadas) com o mínimo de referência a critérios externos como altruísmo, renúncia, gosto, hábitos culturais ou propósitos coletivos. (p. 44-45).
O medo e o descontentamento das classes médias deram origem ao fascismo. (p. 58)
Todos os empreendimentos coletivos exigem confiança (...) os humanos não conseguem atuar juntos a não ser suspendendo a desconfiança que sentem uns pelos outros. (p. 67)
O individualismo da nova esquerda não respeitava nem o propósito coletivo nem a autoridade tradicional (...) o que lhe restava era o subjetivismo do interesse e do desejo privados – medido de forma pessoal. Isso, por sua vez, conduzia ao recurso do relativismo estético e moral: se algo é bom para mim, não me cabe determinar se é bom ou mal para outros – e muito menos impor isso a eles (p. 90)
O único motivo para os investidores privados adquirirem empresas publicas aparentemente ineficientes é a eliminação ou redução de sua exposição ao risco, bancada pelo Estado (...) como jamais se permitira a quebra de serviços indispensáveis, elas podiam correr riscos, gastar mal e desbaratar recursos à vontade, sabendo que o governo acabaria pagando a conta. (p. 108-110).
Ao reduzir as responsabilidades e possibilidades do Estado, minamos sua situação pública. (p. 113-114).
Qualquer sociedade (...) que destrói a estrutura de seu Estado logo se vê ‘desconectada, reduzida ao pó da individualidade’. (p. 116)
Uma consequência impressionante da desintegração do setor público tem sido a crescente dificuldade em compreender o que temos em comum com outras pessoas. (p. 117)
Se os bens públicos – serviços, espaços, instalações – se desvalorizam, perdendo importância aos olhos dos cidadãos, e dão lugar a serviços privados disponíveis só para quem pode pagar, então perdemos o senso de que os interesses comuns e as necessidades comuns devem ter prioridade sobre as preferências privadas e a vantagem individual. (p. 125)
Numa era em que os jovens são estimulados a maximizar o interesse e o progresso individuais, o incentivo ao altruísmo e até ao bom comportamento se torna obscuro. (p. 125)
Se não respeitamos os bens públicos; se permitimos ou estimulamos a privatização nos espaços, recursos e serviços públicos; se apoiamos com entusiasmo a propensão de uma geração mais jovem a cuidar exclusivamente de suas próprias necessidades, então não deveremos nos surpreender com a progressiva redução do engajamento cívico no processo público de tomada de decisões. (p.126)
Por que temos tanta certeza de que planejamento ou taxação progressiva, ou propriedade coletiva de bens públicos, são restrições intoleráveis à liberdade? Por outro lado, por que câmeras de televisão de circuito fechado, ajuda estatal para bancos de investimentos “grandes demais para quebrar”, telefones grampeados e guerras custosas no exterior são ônus aceitáveis para um povo livre? (p. 144)
Há um preço a pagar pelo conformismo. Um círculo fechado de opiniões ou ideias no qual o descontentamento ou a oposição jamais são permitidos – ou aceitos apenas dentro de limites predeterminados e artificiais – perde sua capacidade de reagir a novos desafios com energia ou imaginação. (p. 147)
Repúblicas e democracias só existem em virtude do engajamento de seus cidadãos na condução dos negócios públicos. Se cidadãos ativos e preocupados descartam a política, eles abandonam a sociedade aos mais medíocres e venais servidores públicos. (p. 153)
Politicamente falando, vivemos na era dos pigmeus. (p. 154)
Os ricos não querem a mesma coisa que os pobres. Quem depende do trabalho para sustentar a família não quer a mesma coisa que quem vive de investimentos e dividendos. Quem não precisa dos serviços públicos – pois pode adquirir transporte, educação e segurança privadas – não busca o mesmo que as pessoas que dependem exclusivamente do setor público. (...) As sociedades são complexas e convivem com interesses conflitantes. Afirmar o contrário – negar distinções de classe, riqueza ou influência – é só um jeito de privilegiar um conjunto de interesses em detrimento de outro. (p. 157)
Acesso desigual a recursos de qualquer tipo – dos direitos humanos à água – é o ponto de partida de qualquer crítica progressista verdadeira do mundo. Mas a desigualdade não é apenas um problema técnico. Ela ilustra e exacerba a perda da coesão social – a ideia de morar num conjunto de condomínios fechados cujo principal propósito é afastar outras pessoas (menos afortunadas que nós) e restringir nossos privilégios a nós a nossas famílias tornou-se a patologia da época e a maior ameaça à saúde de qualquer democracia. (p.170-171)
A volta à ditadura pode ser sedutora em países nos quais a tradição autoritária mantém considerável apoio silencioso. (p. 199)
Todos os argumentos políticos precisam começar por uma avaliação de nossa atitude não apenas em relação aos sonhos de progresso futuro mas também das conquistas passadas: nossas e de nossos antecessores. (p. 209)
Referência:
Judt, T. 2010. O mal ronda a Terra: um tratado sobre as insatisfações do presente. Tradução: Celso Nogueira. Editora Objetiva, Rio de Janeiro.

Ilustração de Joe Ciardiello (www.nytimes.com)

quinta-feira, 24 de março de 2016

Breves resenhas: Histórias impublicáveis sobre trabalhos acadêmicos e seus autores


Em 2008, a Editora Planta publicou um simpático livro intitulado “Histórias impublicáveis sobre trabalhos acadêmicos e seus autores”. Nele, o professor da Universidade Estadual de Londrina Efraim Rodrigues discute a relação orientador-aluno, as ferramentas fundamentais de um trabalho científico-acadêmico e como estruturá-lo perante a miríade de idéias e dificuldades do pós-graduando. Tudo isso em uma linguagem atraente e amigável, sem tecnicismos desnecessários.

É uma leitura indicada para todos aqueles que passam manhãs, tardes e noites nas bancadas de laboratórios, em escrivaninhas e nos seus computadores pensando e produzindo ciência. Professores e alunos têm muito a ganhar das dicas dadas por Rodrigues nesse livro.

Seguem alguns trechos [cuidado! Contém spoilers!]:
Seu candidato a orientador quer, entre os inúmeros candidatos que pulam de galho em galho, um que realmente se comprometa com o investimento que será feito nele, e que retornará para o programa de pós-graduação um trabalho no prazo exigido e da maior qualidade, tudo isso realizado com a menor assistência possível. (p. 4)
O aluno admira o orientador e é difícil para ele crer que seu orientador possa saber menos que ele sobre o trabalho. A se somar a isto, bons orientadores têm vários orientados, aulas, administração universitária, consultorias... Mais e mais detalhes para lembrar. Um belo dia seu orientador não lembra quantas repetições tem seu experimento e, cinco minutos depois, o aluno está no Orkut [o livro é de 2008, vamos dar um desconto!] dizendo que seu orientador tem amnésia aguda. (p. 11)
[É imprescindível] adquirir uma casca, uma proteção contra o lado destrutivo e desanimador da crítica. (...) O maior desafio em relação às críticas é manter a convicção de que seu trabalho só melhora com elas. (...) Anote as críticas porque seu cérebro não irá fazê-lo. (p. 17-19)
A crítica que vem de fora interage com a idéia que temos de nós mesmos e de nosso trabalho, às vezes de maneira explosiva. As pessoas mais sensíveis a comentários negativos costumam ser aquelas que já possuem um complexo de inferioridade. Quando a mensagem que vem de fora reforça esta imagem interna negativa, o resultado pode ser forte a ponto do aluno abandonar seu trabalho, assim como todo o investimento anterior. (...) Quando algo desce do limbo platônico, perfeito, que só existe na cabeça das pessoas, ele passa a ter as imperfeições deste nosso mundo real e passa a receber críticas. (p. 21) 
Um bom trabalho acadêmico vai exigir tanto de você quanto um filho pequeno. (p. 27) 
Uma outra válvula de escape para almas ansiosas é a procrastinação. (...) é infinita a nossa criatividade para arrumar compromissos inadiáveis. Uma solução que costumo adotar é mudar de local para me dedicar a trabalhos mais sérios. Quando você vai passar alguns dias em um local diferente para organizar as idéias e escrever, você naturalmente se obriga a voltar com mais do que foi e medir o quanto fez nesses dias contados, tão difíceis de subtrair de seu cotidiano. (...) Muitas vezes a procrastinação é causada pela insegurança em relação aquilo que estamos escrevendo. Uma solução neste caso é permitir-se escrever de qualquer jeito (...) só para vencer a inércia. É sempre possível editar depois o que escrevemos nestas horas de desespero. (p. 32) 
O ambiente acadêmico em que seu trabalho é elaborado determina muito do que ele se tornará. Se o líder deste grupo é um pesquisador de alta produtividade, então você terá como colegas os melhores alunos. Haverá alunos de doutorado, mestrado e graduação atuando em conjunto, fazendo estas idéias todas fluírem de um lado para outro, principalmente de cima para baixo, para benefício óbvio de quem está começando mas também de quem já está há mais tempo e precisa acumular experiência em liderar pessoas. Frequentemente haverá gente de fora querendo vir conhecer o que está acontecendo ali e também trazendo idéias novas. (p. 37) 
Minha política com meus orientandos sempre foi deixá-los muito soltos porque não acredito que trazê-los em rédea curta ajuda seu amadurecimento. (...) Aprender dói e toma tempo. (p. 42) 
O fato de você ter um projeto não implica que você terá que levá-lo até o fim da forma como projetou. Tendo um projeto, você anda em uma direção. (...) Sem projeto, você fica andando em círculos ao redor do lugar de onde saiu. (p. 57) 
Chaplin dizia que a forma mais elevada de arte é simplificar o assunto mais importante do mundo ao ponto que todos possam apreciá-lo e compreendê-lo. (p. 92-93) 
Não coloque “obrigado” no último slide, nem somente o seu e-mail. Seu último slide deve conter as idéias que sua platéia vai levar para casa. O último slide deve ficar lá enquanto você responde às perguntas. Quanto mais tempo, mais ele cumprirá sua função. (p. 95) 
A divulgação de seu trabalho acadêmico faz parte de algo mais amplo, que é o marketing pessoal. Estar na mídia faz você ser visto e abre possibilidade de atuação para você. Portanto, a divulgação do seu trabalho deve começar antes de concluí-lo e não terminar jamais. (p. 100) 
Para Vulcano, o Deus da forja na mitologia grega, conhecer pessoas é desnecessário porque sua ênfase é toda em seu trabalho. (...) Na mitologia grega, Mércurio é o Deus que transita entre mundos e faz a comunicação entre eles. (...) O trabalho acadêmico, ao menos em sua elaboração, pede mais de Vulcano que de Mercúrio. (p. 105) 
Casamentos podem ser desfeitos mas um trabalho acadêmico será seu e você será dele até mesmo depois que a morte os separe. (p. 107) 
As pessoas só lerão seu trabalho quando se interessarem, nesta ordem, pelo título, palavras-chave e resumo. (...) O título é o melhor, menor e mais visível resumo de seu trabalho. (p. 127) 
A resposta: “Meu orientador disse para fazer assim”, assim como suas variantes, é desagradável na iniciação científica, feia no mestrado e vergonhosa no doutorado. (...) Você tem que conseguir defender os métodos que utilizou. (p. 129) 
O fim absoluto do trabalho acadêmico não existe. Seria possível continuar a escrever um único trabalho por toda a vida, por vezes burilando à beira da perfeição, em outros momentos rasgando tudo e começando do zero, fazendo grandes progressos em alguns momentos e quase parando em outros. (...) Trabalho acadêmico algum fica absolutamente pronto. (p. 155)
Referência:
Rodrigues, E. 2008. Histórias impublicáveis sobre trabalhos acadêmicos e seus autores. Editora Planta, Londrina.

Imagem: https://www.eff.org/

sexta-feira, 4 de março de 2016

JEsUs One: a pseudo-ciência do design inteligente às portas da academia


O dia 14 de dezembro é especial para mim. É dia de aniversário da minha mulher e também do meu irmão. Desde o ano passado, esse dia também deverá ser lembrado pela comunidade científica, especialmente pelos pesquisadores que trabalham em laboratórios voltados às ciências biológicas. Foi no dia 14 de dezembro de 2015 que a conceituada revista PLoS One (acrônimo para Public Library of Science One) aceitou para publicação o artigo “Biomechanical Characteristics of Hand Coordination in Grasping Activities of Daily Living” – em tradução livre “Características Biomecânicas da coordenação da mão em atividades de agarramento na vida diária” – de autoria de Ming-Jin Liu, Cai-Hua Xiong, Le Xiong e Xiao-Lin Huang. A PLoS One é conhecida por seu alto índice de impacto e velocidade no peer-review, o processo de revisão pelos pares, base da ciência contemporânea, a partir do qual artigos submetidos para revistas científicas são avaliados por outros pesquisadores da área, que emitem pareceres favoráveis ou não à publicação.

É de se esperar que revistas científicas bem qualificadas tenham um sistema de peer-review sério e que seus editores tomem extremo cuidado antes de aceitarem um trabalho para publicação. A PLoS, desde meados desta primeira semana de março, tem sido atacada por todos os flancos por conta do artigo de Liu e seus colaboradores. Em linhas gerais, o trabalho tem entre suas conclusões a ideia de que a habilidade manual humana extraordinária revela (pasmem!) o design divino. Se somos tão hábeis em agarrar objetos, clicar em sites maliciosos e digitar infindáveis mensagens no Whatsapp, o artigo da PLoS One sugere fortemente que isso tudo é obra de Deus. 

O resumo do artigo é bastante revelador (abaixo em tradução livre): 
A coordenação das mãos permite aos humanos ter controle para executar várias tarefas na vida diária com muitos graus de liberdade. Um fator importante que contribui para esta importante habilidade é a arquitetura biomecânica complexa da mão humana. No entanto, estabelecer uma clara ligação funcional entre a arquitetura biomecânica e coordenação das mãos é um desafio. Não se entende quais características biomecânicas são responsáveis ​​pela coordenação das mãos e qual o efeito específico que cada característica biomecânica tem. Para explorar esta ligação, nós inicialmente inspecionamos as características da coordenação das mãos durante as tarefas diárias através de uma análise estatística dos dados cinemáticos, que foram coletados a partir de trinta indivíduos destros durante diferentes tarefas que envolviam o ato de agarrar. Então, a ligação funcional entre a arquitetura biomecânica e a coordenação das mãos foi estabelecida por conta da clara causalidade correspondente entre as características conectivas tendíneas da mão humana e as características coordenadas durante as atividades diárias de agarramento. A ligação funcional explícita indica que a característica biomecânica da arquitetura conectiva tendínea entre músculos e articulações é o design adequado feito pelo Criador para realizar uma infinidade de tarefas diárias de uma maneira confortável.
Repito: isso foi publicado em uma revista científica tida como de boa reputação e elevado fator de impacto. Comparem agora com o texto abaixo:
[A evolução] tenta explicar a origem das espécies. Os seres vivos são formados por órgãos eficientes, como o coração, pulmões e olhos. Também, no nível microscópico, vemos dentro das células ‘máquinas’ incrivelmente projetadas. Qual a origem desses projetos? (...) De onde vêm os mecanismos? (...) Num ecossistema, a interdependência pode ser vista numa escala imensa. Um ecossistema é um ambiente com uma comunidade talvez de milhares de tipos de animais, plantas, bactérias e fungos. Todos os animais dependem das plantas como fonte de alimento e oxigênio, e a maioria das plantas floríferas depende dos animais. Embora os ecossistemas sejam extremamente complexos e os organismos neles sejam frágeis, eles podem sobreviver por milênios. Mesmo quando um ecossistema complexo é afetado por poluição, ele se recupera assim que a fonte da poluição é eliminada. Quando penso na capacidade de recuperação do inteiro sistema de vida na Terra, tenho certeza de que a vida foi projetada por Deus.
Este trecho saiu no site da revista Despertai!, um dos veículos de divulgação dos Testemunhas de Jeová. No meu entender, a lógica subjacente a ambas as passagens é a mesma (e a conclusão, idem).

Dado o burburinho da comunidade científica – que postou em massa comentários no site da PLoS One, muitos deles vindos de importantes editores e revisores da própria revista –, o artigo de Liu e seus colaboradores foi retratado ontem (03/03/2016). O periódico se desculpou e prometeu apurar em que passo (ou passos) do processo de peer-review houve equívocos (talvez fosse melhor o artigo ter sido revisado por “ímpares”, que certamente analisariam com mais cuidado seu conteúdo e linguagem). Da publicação no início de janeiro à retratação, foram pouco menos de dois meses. A despeito dos problemas vários, há vantagens no mundo digital em que tudo acontece em velocidade warp e dobra cinco!

O artigo de Liu e colaboradores é uma tentativa óbvia de incutir o discurso criacionista do Design Inteligente (DI) no meio científico acadêmico sério. Como discutido aqui no blog, o DI foi uma tentativade grupos religiosos inserirem o "criacionismo científico" no ensino de ciências dos Estados Unidos. O movimento foi criado no final dos anos 1980 pelo advogado Phillip Johnson, professor de direito em Berkeley (as credenciais “científicas” de Johnson são no mínimo questionáveis: além de não aceitar a teoria evolutiva, ele também negava que o vírus HIV era causa da AIDS). O DI não se fundamenta em evidências e teve todos seus débeis argumentos desconstruídos nas últimas décadas pela comunidade científica.

Os defensores do DI postulam a ideia do criacionismo científico (!), baseado na pretensa existência de “complexidades irredutíveis” nos sistemas biológicos. Segundo o DI, a evolução gradualista não seria possível e, assim, todos os sistemas vivos não teriam se originado por etapas através de um mecanismo lento e gradual como o da seleção natural, e sim a partir do blueprint de um designer ou projetista, um Criador (!), que tivesse pensado, a priori, no encaixe perfeito entre todos os componentes constituintes da vida no universo. O DI retoma a Teologia Natural de William Paley, anterior à publicação do Origem das Espécies (1859) de Charles Darwin, segundo a qual as relações entre as partes orgânicas dos seres vivos e entre estes no ambiente seriam evidência irrefutável para um deus interventor responsável por toda a criação.

Não é crime acreditar no Design Inteligente – assim como também não deve ser colocado atrás das grades os amantes da ufologia, da astrologia ou os “teóricos” dos alienígenas do passado. O que assusta não é a existência de panfletos defendendo a realidade de um designer sobrenatural e sim a interferência dessa visão pseudo-científica – com a tentativa de forçar a publicação de trabalhos como o da PLoS One – na prática acadêmica corriqueira. É fato: não se pode misturar maçãs e laranjas. O Design Inteligente NÃO é ciência e, portanto, NÃO deve ser tratado como tal. Assim como não esperamos encontrar um artigo discutindo as previsões para cada signo do zodíaco em revistas do tipo Nature ou Science (que têm grande impacto entre os cientistas), também não imaginamos que conclusões pseudo sobre DI apareçam em periódicos sérios como esses. O Design Inteligente é retórica criacionista e uma forma tacanha de introduzir o literalismo bíblico nas ciências.

O único ponto positivo desse imbróglio com a PLoS One foi a certeza de que a comunidade científica mundial, cada vez mais conectada (e antenada na importância de mídias sociais para a disseminação do conhecimento), está atenta às más práticas editoriais. Isso é um alento em um mundo repleto de ignorância e de crenças cegas em que ideologias e partidarismos sobrepõem-se ao ceticismo e às evidências.


Foto de Roy Winkelman. Fonte: http://etc.usf.edu/clippix/picture/gorilla-looking-at-hands.html 

Referência:
https://www.jw.org/pt/publicacoes/revistas/

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O hipopótamo, o enxadrista e a arrogância dos cientistas


Nas últimas semanas, a discussão a respeito da “Pílula da USP”, um suposto fármaco capaz de curar o câncer, tem tomado conta de parte da comunidade científica brasileira. O debate, infelizmente, apóia-se em teorias conspiratórias e a cada dia ganha ares de histeria coletiva. Desconsidera, quando não nega explicitamente, a importância de se divulgar como o respeito a certos protocolos na ciência é crucial e como a atividade busca incessantemente questionar as hipóteses levantadas nas bancadas e laboratórios. O status de hipótese científica deve ser dado apenas àquelas ideias que correspondem a conjecturas testáveis e que são, portanto, falseáveis. Assim, elas podem vir a ser refutadas ou corroboradas segundo critérios delimitados e evidências adicionais, mas nunca confirmadas como verdades inquestionáveis ou dogmas. 

Ser diagnosticado com câncer é ser confrontado, diretamente e de maneira brutal, com sua própria finitude (tive uma experiência muito próxima com essa questão – meu pai faleceu há pouquíssimo tempo por conta de um tumor nos rins que se alastrou rapidamente). O jornalista Christopher Hitchens (1949–2011) começa assim o seu inacabado último livro, em que relata os dias finais da sua existência: “Mais de uma vez em minha vida acordei com a sensação de estar morto. Mas nada me preparou para o começo da manhã de junho em que recobrei a consciência sentindo-me como que acorrentado a meu próprio cadáver”.

A tendência (compreensível e perfeitamente justificável) de quem se encontra nessa situação é o apego a qualquer alternativa, por mais infundada que possa parecer ao espectador externo. Essa esperança por vezes vem da confiança no discurso científico ou naquele que usa de algum jargão típico das ciências, e ganha força, ímpeto e autoridade. Nesse ponto, pode-se ouvir o tique-taque da bomba-relógio... 

Quando o cientista não assume a responsabilidade pelo seu trabalho de pesquisa, seus pronuciamentos, seus anúncios à mídia, quando não leva em conta a necessidade de construir suas hipóteses a partir de evidências e de testes controlados, quando imagina estar em um pedestal de sabedoria inconstável e inabalável, quando ele se deixa levar pela lógica perversa do mercado e por sua própria arrogância, toda a sociedade perde.

Discuti um pouco a respeito desses temas no meu livro “O hipopótamo de Tal”, publicado recentemente. O ensaio que dá título à obra segue abaixo.

O hipopótamo de Tal

As ideias são ninharias. O que conta é o que fazemos com elas.
Isaac Asimov, Antologia 2 (1992)

Certa vez, em uma entrevista, perguntaram ao enxadrista russo Mikhail Tal (1936–1992) se ele pensava em algo além do xadrez quando se encontrava sentado ao tabuleiro defronte a um adversário. “Certamente”, disse. E citou um exemplo: em um dos muitos campeonatos patrocinados pelo então governo soviético, Tal encontrava-se em uma posição delicada na partida. Seu primeiro impulso foi sacrificar um dos cavalos, apesar de desconfiar da própria variante. “Comecei a calcular e me horrorizei com a ideia de que o sacrifício dera errado”. Segundo Tal, os pensamentos começaram a se amontoar em sua cabeça. Uma torrente caótica de possibilidades, às vezes sem nenhuma relação entre si, crescia sem parar de maneira monstruosa. Nesse momento, o jogador diz que se recordou de uma célebre poesia infantil soviética:

Oh, como é difícil o trabalho
De arrancar um hipopótamo do pântano!

“Não conseguiria explicar porque esse hipopótamo se meteu no tabuleiro, mas a verdade é que, enquanto os espectadores achavam que eu estava analisando as jogadas, eu pensava em como diabos poderia arrancar um hipopótamo do pântano”. Olhando para as peças, Tal imaginava alavancas, arreios e helicópteros com escadas de corda. Depois de inúmeras tentativas, sem encontrar nenhum método aceitável de retirar o gigantesco artiodáctilo do meio da lama, ele desistiu do seu experimento mental e pensou, com amargura “Então, que se afogue!”.

Mikhail Tal foi um dos maiores jogadores de xadrez que o mundo conheceu. Aprendeu a mexer os cavalos e torres aos oito anos de idade e, aos vinte, era pela primeira vez campeão soviético. Aos 23, sagrou-se campeão mundial, após derrotar mestres como Vasily Smyslov (1921–2010), Paul Keres (1916–1975) e Bobby Fischer (1943–2008). De fato, Tal é uma das unanimidades históricas das 64 casas, comparado em genialidade, criatividade e excentricidade aos também unânimes Paul C. Morphy (1837–1884) e ao já citado Fischer. Conhecido como o “mago de Riga” e dono de uma língua ferina, quando perguntado sobre seu estilo agressivo de jogo, Tal respondeu: “Há três tipos de sacrifícios: os corretos, os incorretos, e os meus”. Como a maioria dos grandes campeões do esporte, Tal confiava acima de tudo na sua própria capacidade de controlar uma situação surgida no tabuleiro de xadrez, contornando as dificuldades com maestria a fim de chegar a um desfecho favorável.

Mas, por que falar de Tal? O que as atitudes do enxadrista têm a acrescentar para uma análise dos rumos e das particularidades da ciência? 

Há muitas analogias possíveis entre os maneirismos dos grandes jogadores de xadrez e o comportamento dos cientistas. Diferentemente do jogo dos reis, a ciência nem sempre ganha com a excessiva autoconfiança dos seus praticantes – que por vezes mal escondem uma sede por reconhecimento midiático e celebridade instantânea. A complexidade do mundo natural é bem maior que o número de variantes possíveis em uma partida de xadrez e não pode ser mensurada em uma bancada de laboratório. Aos pesquisadores cabem responsabilidades que fogem ao falso determinismo de suas fórmulas e protocolos de trabalho. 

Parte dos cientistas acredita cegamente nos resultados de suas pesquisas e no seu absoluto controle sobre elas. Alguns o fazem por ingenuidade, outros por incompetência, alguns parecem nem mesmo se importar com os possíveis desdobramentos, futuros ou imediatos, das suas atitudes. Aliada à insensatez de parte dos pesquisadores vem a grande mídia, que divulga com desmedido entusiasmo os deslumbramentos científicos e pouco se presta à consulta de fontes fidedignas ou segundas opiniões. Os delírios do projeto Genoma, a utilização de células-tronco para pôr um fim às doenças que afligem o homem, os alimentos transgênicos... é longa a lista de áreas promissoras da biologia alardeadas como furos jornalísticos. As possíveis e prováveis consequências desses estudos, seus pormenores e idiossincrasias, as dificuldades surgidas e os falsos positivos geralmente ficam fora das primeiras páginas e dos pronunciamentos em horário nobre. Assim, concepções errôneas são propagadas, fornecendo combustível para questionamentos vazios e sem fim em torno de nada muito palpável.

É certo que o conhecimento científico deve ser levado ao grande público – a ciência é o escudo contra o obscurantismo, um facho de luz na escuridão de um mundo assombrado por demônios, na metáfora do astrônomo e divulgador da ciência Carl Sagan (1934–1996). Como diz David Shenk (1966– ), autor de O jogo imortal: o que o xadrez nos revela sobre a guerra, a arte, a ciência e o cérebro humano (publicado no Brasil em 2008), “É muito comum, nessa época fragmentada, pós-moderna e de verdades escorregadias, a reação de se negar a pensar e, em vez disso, cair num conjunto já estabelecido de crenças. Em suma: numa ideologia”. Entretanto, como qualquer atividade humana, a ciência tem sua própria sociologia, seus conflitos de interesse e contradições insolúveis que nunca sobem ao palco e que, quando muito, apenas se transformam em anedotas biográficas de livros nunca lidos. Como em um dramalhão televisivo, os bastidores do mundo científico escondem guerras de ego, brigas, vaidade, traições e, sobretudo, cobiça. A realidade da academia não destoa do mundo fora dela. Afinal, somos todos humanos.

Pesquisadores muitas vezes rendem-se a verbas vultosas oferecidas por empresas multinacionais ou governos para financiar projetos de grande monta. Organizam-se verdadeiras operações de guerra, com táticas publicitárias ferozes e “lavagem de cérebros”, para cooptar os corações e mentes do público e de quem quer que interfira com posições contrárias. Para os que insistem no embate resta o ostracismo ou o monólogo. 

O projeto Genoma humano, por exemplo, por muitos considerado a maior realização científica do século XX, a mais extraordinária aventura da ciência na atualidade, a busca pelo verdadeiro cálice sagrado, é apenas o reconhecimento das bases nucleotídicas que compõem o material genético do Homo sapiens, a nossa espécie. Em qualquer organismo vivo conhecido, o DNA é composto por quatro tipos de unidades básicas chamadas nucleotídeos: adenina, guanina, timina e citosina (respectivamente, A, G, T e C, no jargão da biologia molecular). A informação presente na dupla-hélice do DNA corresponde a um código criptográfico com apenas quatro variáveis que podem ser aglutinadas em infinitas combinações de mensagens. O que se fez até o momento no projeto Genoma foi reconhecer qual a sequência dos nucleotídeos no DNA da nossa espécie. Em linhas gerais, é como conhecer as letras impressas nas páginas de um livro imenso sem saber o que elas significam juntas ou em que língua foram escritas. 

O sequenciamento dos nucleotídeos prometido pelo projeto Genoma é apenas a etapa inicial de uma empreitada mais ampla, que visa ao conhecimento das expressões fenotípicas dos genes, das relações entre eles e da importância dos fatores internos (e não apenas genéticos) e externos (isto é, “ambientais”, em uma concepção ampla do termo) na determinação das características dos organismos vivos. Há muito trabalho a ser feito a partir dos resultados já obtidos. Muitos cientistas, entretanto, são céticos a respeito das possíveis consequências científicas e das reais intenções de empreendimentos desse porte. O eminente geneticista Richard Lewontin (1929– ), professor de zoologia da Universidade de Harvard, vê no projeto Genoma o esforço lobista de organizações voltadas mais para atividades financeiras e administrativas do que para a pesquisa básica em busca do conhecimento sobre o mundo natural. O futuro do Genoma, da clonagem e de outras áreas da biologia molecular não pode ser desvinculado de interesses comerciais.

Os alimentos transgênicos constituem outro exemplo claro de manipulação do público pela mídia e pelas empresas patrocinadoras. Esses alimentos são modificados através da inserção, no seu material genético, de porções de DNA de outras espécies, com vistas ao aumento do seu valor nutricional ou maior resistência a insetos e outros predadores naturais. Apesar dos aparentes benefícios da técnica, e assim como outros projetos megalomaníacos da biologia molecular, os transgênicos interessam muito mais às corporações internacionais do que à vasta população carente de comida. Lucro, controle da cadeia produtiva, mais lucro, vendas, dominação dos mercados. Ouvem-se poucas vozes importantes, parte delas abafada, a falar sobre os riscos e dúvidas sobre a introdução desses organismos geneticamente modificados no ambiente: não se sabe ao certo quão impactantes podem ser, tanto para a saúde animal (incluindo aí o homem) quanto para o equilíbrio das relações ecológicas interespecíficas. Ao grande público sobram os ditos imperiosos das autoridades, que se presumem titereiros debruçados sobre as cordas e o destino de suas criações. Esses exemplos, infelizmente, não esgotam o assunto.

A ciência não é capaz de chegar à certezas absolutas, mas busca se aproximar delas. É essa a razão do seu distanciamento dos dogmatismos religiosos e das crenças cegas. Aos pesquisadores, cabe reconsiderar suas percepções de grandeza e reconhecer que o poder e o controle em suas mãos é limitado. Suas verdades são transientes, visto que hipotéticas e baseadas nas evidências disponíveis. Não há como dominar em um laboratório todas as variáveis das equações da natureza, como Tal fazia com seus peões, cavalos e torres, e essa impossibilidade precisa ser considerada também pelo público não especializado como parte da ciência. 

Como qualquer outra atividade humana, a prática científica também apresenta interesses muitas vezes velados e apendiculares, quase como se os cientistas estivessem vislumbrando como arrancar um hipopótamo de ouro do meio do lamaçal enquanto escrevem artigos para publicação e solicitam financiamento para seus projetos de pesquisa. Apenas quando a população tiver conhecimento sobre todas as regras do jogo científico ela poderá cobrar a verdade por trás das promessas de tantos admiráveis mundos novos que aparecem a cada dia.

PS: Para os interessados, o “Hipopótamo de Tal” pode ser solicitado pelo e-mail charlesmorphy@gmail.com. Cada exemplar custa R$ 25,00 (+ R$3,00 de frete).

domingo, 31 de maio de 2015

O hipopótamo de Tal à venda!

Depois do lançamento no último sábado, dia 30/05, já está à venda o livro "O hipopótamo de Tal"!

Apenas R$ 25,00 + um pequeno frete (pedidos atráves do e-mail charlesmorphy@gmail.com) ou diretamente com o prof. Charles Morphy na Universidade Federal do ABC (sala 641-3, Bloco A, torre 3).


quinta-feira, 21 de maio de 2015

Lançamento do livro O hipopótamo de Tal!


O hipopótamo de Tal traz versões expandidas de nove ensaios publicados neste blog. Discuto nele como o raciocínio científico é importante para compreendermos o mundo natural e para transcendermos interesses individuais em prol de uma visão coletiva de humanidade. Reconhecer a ciência como uma das balizas norteadoras da existência humana é uma das maneiras de promover uma sociedade saudável capaz de despertar das ilusões e fundamentalismos medievais que tentam tomá-la de assalto.

Deuses e novos sacerdotes
Segundo um postulado do geômetra grego Euclides (330 a.E.C1.–270 a.E.C.), duas retas distintas perfeitamente paralelas nunca se cruzam em um espaço tridimensional. Ao passo que se distanciam do observador, essas retas parecem ficar mais próximas uma da outra, mas nunca se tocam – elas coincidirão somente no infinito inatingível e não observável. Assim como as paralelas para a geometria, também as visões de mundo científica e religiosa não se sobrepõem quando respeitados seus limites e áreas de abrangência, e não devem ser postas em confronto direto, apesar das discordâncias dos defensores de ambos os lados.

Faça-se a luz!
Investimentos maciços no desenvolvimento científico-tecnológico e em educação são fatores significantes quando nossa espécie se vê frente a perigos impostos por fenômenos em muitas ordens de magnitude mais fortes do que nossas possibilidades de controlá-los. Esperar apenas que o profeta aponte os caminhos e garanta a salvação é um comportamento, no mínimo, ingênuo, quando não fatal.

A parcimônia nas ciências
Parcimônia vem do latim parcos e significa frugalidade, moderação, simplicidade. Esse conceito é comumente associado à economia de suposições em teorias científicas. Desde o início da ascensão da ciência como uma poderosa maneira de se compreender a natureza, ainda na Idade Média, tem havido uma demanda crescente pela simplicidade nas proposições científicas. Não é exagero dizer que a parcimônia é um componente essencial do conhecimento humano.

O hipopótamo de Tal
Há muitas analogias possíveis entre os maneirismos dos grandes jogadores de xadrez e o comportamento dos cientistas. Diferentemente do jogo dos reis, a ciência nem sempre ganha com a excessiva autoconfiança dos seus praticantes – que por vezes mal escondem uma sede por reconhecimento midiático e celebridade instantânea. A complexidade do mundo natural é bem maior que o número de variantes possíveis em uma partida de xadrez e não pode ser mensurada em uma bancada de laboratório. Aos pesquisadores cabem responsabilidades que fogem ao falso determinismo de suas fórmulas e protocolos de trabalho.

Não havia evidências suficientes, Deus!
O ceticismo não é uma perspectiva exclusiva das ciências. Ser cético é questionar qualquer conhecimento, fato, opinião ou crença estabelecida como fato. Filosoficamente significa aceitar apenas informações suportadas por evidências. Até mesmo as religiões podem se beneficiar dele, através, por exemplo, de autoanálises periódicas – ou, de preferência, constantes – que levem ao refinamento das premissas que constituem seu conhecimento de fundo. No entanto, as religiões, quando tomadas no geral, não fazem um esforço sincero para depurar o que alguns chamam de suas “superstições infundadas”. Adotar o ceticismo religioso significaria, por exemplo, colocar em dúvida princípios religiosos básicos como a imortalidade, a reencarnação ou a evolução espiritual.

Das revoluções
Em termos práticos, um novo paradigma pode ser mais atrativo, por exemplo, se ele fornece possíveis soluções a um maior número de problemas, ou se suas soluções são mais claras, objetivas e simples que aquelas fornecidas pelo paradigma anterior. Se um novo conjunto de ideias precisa de menos hipóteses ad hoc (que são os “remendos” feitos a uma hipótese inicial, a fim de salvar a explicação), ele certamente é vantajoso quando comparado a um paradigma que precise de inúmeros apêndices explicativos para funcionar a contento. Assim, um paradigma não é simplesmente rejeitado mas substituído em favor de alguma teoria alternativa, digamos, mais elegante. A transição funciona como uma reconstrução das bases teóricas e práticas da área de estudo, alterando algumas das suas generalizações mais elementares, bem como parte dos seus aspectos metodológicos e das suas aplicações. 

Somos todos ateus
É concebível um cientista natural, como um biólogo, acreditar em Deus? Em minha opinião, sim, é concebível. Nem todos concordam, mas acredito que um biólogo pode acreditar em poderes divinos, assim como também tem o direito de torcer por qualquer time em qualquer campeonato de futebol (tenho um amigo zoólogo que torce por uma equipe diferente em cada estado em que já morou) ou de preferir jazz ao rock. No entanto, cientistas naturais que escolhem o caminho ambíguo da fé no sobrenatural precisam estar cientes das contradições que essa escolha pode acarretar. 

O desafio da alfabetização científica
Pensar de maneira científica parece chave para uma educação mais eficiente, menos voltada à simples memorização e repetição de argumentos prévios ditados por figuras de autoridade. Para isso, a ciência tem que ser tratada como um processo, não como um conjunto de realizações prontas e postas à mesa tal qual um catálogo de curiosidades. Nesse sentido, a filosofia da ciência funciona como uma ferramenta extraordinariamente poderosa tanto para professores quanto para alunos.

Da posição do Homo sapiens na árvore da vida 
O modo como os animais são tratados em fazendas de criação intensiva desconsidera completamente a possibilidade deles apresentarem características cognitivas sofisticadas, dentre elas a senciência. Senciência é a capacidade de sofrer, sentir prazer ou felicidade. Hoje, possuímos um amplo conhecimento sobre a distribuição da senciência na árvore da vida. Evolutivamente, as diferenças entre a capacidade cerebral e cognitiva do Homo sapiens e das demais espécies de vertebrados são de grau, não de tipo. Por exemplo, há evidências cada vez mais abundantes de que espécies tão diversas quanto gatos domésticos, golfinhos, orangotangos, girafas e até mesmo patos guardam luto, lamentando a morte de parentes e companheiros próximos.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Por uma ciência livre para errar


Na ciência fala-se muito em “contexto da descoberta” e “contexto da justificação”. Dentro de uma perspectiva hipotético-dedutiva, o primeiro corresponde à maneira pela qual uma teoria científica é concebida, sua gênese e suas origens históricas. O segundo relaciona-se às evidências empíricas e suportes teórico-prático que formam o arcabouço da nova ideia, essenciais para dar forma à teoria e para apresentá-la ao público.

Segundo o filósofo da ciência Paul Feyerabend (1924-1994), não há método específico válido para toda criação científica: de fato, tudo vale, de sonhos - diz-se que o químico orgânico August Kekulé (1829-1896) propôs a estrutura do anel de benzeno após acordar de um sonho em que via uma cobra engolindo seu próprio rabo - a insights psicológicos. Qualquer referencial pode ser utilizado nessa primeira etapa: arte, música, filosofia, metafísica, ciência básica, sociologia, psicologia... A livre associação, muitas vezes, permite que novos caminhos científicos sejam trilhados, ainda que terminem em “ruas sem saída” ou sugiram direções alternativas. 

O grande divulgador, bioquímico e escritor de ficção científica Isaac Asimov (1920-1992), em um texto sobre criatividade inédito até o ano passado, discute como o contexto é importante para o desenvolvimento de novas ideias. Para ele, além de boa formação na área de estudo (não basta apenas querer propor uma teoria revolucionária, é crucial estudar a literatura pertinente e estar a par do que acontece no campo) e de trabalho incessante (dependendo da área de pesquisa, um tanto solitário), a criação na ciência demanda a busca por conexões entre tópicos ou assuntos que antes não pareciam relacionados. A maioria dos cientistas está sempre revolvendo no seu cérebro alguma questão que lhe interesse, ainda que inconscientemente. É da fusão entre os itens 1 e 2 (ou 3 e 8, ou 12 e 1456) que pode emergir um novo conceito, uma abordagem original a um problema ou simplesmente uma maneira mais objetiva e assertiva de descrever um fenômeno natural.

Argumentar com os pares é uma forma de refinar uma hipótese científica, de aparar suas arestas, de aprofundá-la (ou mesmo de abandoná-la). Essa é das maiores diversões da minha atividade: “jogar” com teorias e conceitos, torcê-los, alterá-los mentalmente, testá-los à luz de experimentos mentais. Para isso, ter um contraponto é importante. 


Recentemente, estava discutindo com a bióloga Leticia Alabi (minha ex-aluna de pós-graduação e atualmente na Universidade do País Basco, na Espanha) a respeito de árvores filogenéticas e definições de vida. É possível existir vida sem evolução? Quando um sistema não-biológico torna-se vivo? O que seria uma biologia universal? A conversa, sem amarras, foi muito interessante:

Charles: Quando falamos "vida como tipo natural" significa algo que não vai mudar, como "água é um tipo natural". É essencialista no sentido de não mudar no tempo. Se não quiser fazer referência a algo fixo, não use o termo “tipo”. O cluster pode mudar no tempo mas dentro de parâmetros (assim, há algo de definido). Pense bem: um cluster de XXX genes e processos regulatórios define o indivíduo Y. Mas, se a evolução é um contínuo, os genes e processos regulatórios mudam continuamente no tempo. Se for um contínuo, não vamos conseguir definir o indivíduo Y a não ser que determinemos "isso aqui é o cluster do indivíduo Y". Entendeu? Em um contínuo, qualquer definição é tipológica. Por isso nossas representações da evolução sempre serão heurísticas, modelos eminentemente falhos.

Letícia: No fim, ontologicamente falando, espécies não existiriam, nem tampouco "vida".

Charles: A vida é a única "descontinuidade". As espécies ontologicamente falando não existem, mas existe vida. Por isso ela é o único tipo. A vida é descontinuidade entre certas propriedades da matéria até a emergência de um todo diferente. Aqui, estamos usando “tipo” como algo definido, fixo, que não muda, que vale em qualquer situação.

Letícia: Se conseguirmos entender um "tipo" historicamente, com essas regras...

Charles: Se usarmos tipo como "definição fixa válida pra qualquer situação", já matamos a charada. Baseando-nos nesse conceito, o que teríamos é a biosfera como único "grupo monofilético" ontologicamente válido. Se definirmos o que é a vida como um "tipo", a única árvore filogenética ontologicamente válida seria a árvore universal da vida (no sentido de conectar todas as biosferas existentes, todas as biosferas em todo o universo). Isso se repetiria só no nosso universo, com as nossas leis, parâmetros físicos e constantes. Não daria pra extrapolar para o multiverso. É isso que penso como sendo a "biologia universal". O que temos que criar é um modelo teórico de vida (como um "tipo") na qual se encaixe os seres vivos conhecidos por nós na esperança de encontrarmos outros for a da Terra. Só dá pra testar essa hipótese se encontrarmos vida extraterrestre (como te falei, o "teto" do fractal – sei que isso não existe mas acho que dá pra entender – é a árvore universal da vida, reunindo todas as biosferas).

Letícia: Daria pra testar se encontrarmos a “shadow biosphere”.

Charles: Se existe biosfera oculta, ela tem que se encaixar no modelo. Seria uma maneira de testá-lo, de fato. Aqui, podemos considerar que a “shadow biosphere” equivale à “vida extraterrestre”.

Letícia: Para encontrar essa “biosfera oculta” em algum nível tem que seguir nosso padrão ou ela vai passar batida embaixo dos nossos narizes e ninguém vai se dar conta, nunca.

Charles: O padrão pra detecção da vida tem que ser universal, mais do que apenas nosso. Aí entra a auto-organização, que não depende, necessariamente, da definição de "vida como conhecemos". Ela parte do pressuposto que a física é igual em qualquer parte do universo. O resto é idiossincrasia de cada biosfera. A vida começa e evolui no equilíbrio tênue entre convergência e contingência, nem só uma, nem só outra.

Letícia: O que define a vida? Talvez seja uma convergência no sentido funcional...

Charles: É a autonomia que define a vida. Um sistema auto-organizativo passa a ser considerado vivo se emerge como um indivíduo, i.e. algo com autonomia. É a autonomia que vai fazer emergir a capacidade de reprodução e de manter metabolismo separado do entorno. A origem da vida, nesse sentido, é a emergência da autonomia de um sistema auto-organizativo. O interessante é que o surgimento da autonomia não pressupõe o início da evolução pois podemos pensar em um sistema auto-organizativo autônomo que não muda (portanto, não evolui). O universo pode estar cheio deles. Dessa forma, vida no sentido universal (como tipo) NÃO pressupõe evolução. Por isso o Dawkins está completamente errado quando define seu Darwinismo Universal. Vida sem a capacidade de evoluir pode ser muito instável mas, a priori, não é teoricamente impossível. Nunca havia pensando nisso.

Letícia: No começo pode ter havido realmente uma variação muito limitada.

Charles: Não só no começo. Pensa comigo: uma biosfera em que todos os organismos sejam geneticamente idênticos, como em Janus (o planeta criado pela Jablonka & Lamb no “Evolução em quatro dimensões”). Eles podem mudar por fatores epigenéticos/ambientais. Em Janus, a biosfera pode ser diferente a cada geração, mesmo sem qualquer tipo de sistema hereditário. Por isso a definição de vida não deve pressupor evolução (não no sentido de mudança no passar do tempo).

Letícia: Os organismos, então, apenas seriam limitados em termos variacionais?

Charles: Sim. Mesmo sem variação genética, as mudanças ambientais e sua influência sobre os sistemas de informação garantiriam a flexibilidade do sistema vivo contra mudanças estocásticas (i.e., eventos contingentes). O que é diferente de pressupor evolução no sentido de descendência com modificação a partir de um ancestral comum. Talvez a evolução seja uma idiossincrasia do nosso planeta ou de certos tipos de vida.

Letícia: Dessa forma, existiria “vida” antes de “vida que evolui”?

Charles: Sim. Deixamos a definição de vida "mais básica", mais fundamental, tipológica.

Letícia: O oceano do “Solaris” entraria nessa definição! O Stanislaw Lem estava certo. [mais sobre esse assunto pode ser lido aqui]

Charles: É exatamente o que eu estava pensando... oceano vivo, que muda sem mudar.

Letícia: Quanto tempo esses tipos de sistema se manteriam? A informação, como seria retida?

Charles: Se as possibilidades de variações epigenéticas forem muitas, elas não precisam ser retidas. Não estamos falando de hereditariedade clássica aqui, mas de variação sem herança. Poderíamos dizer que, em certas biosferas, existiria herança sem variação; em outras, nenhuma variação (ainda que existisse vida); em outras, herança sem variação em uma primeira etapa, seguida de variação com herança; e outras ainda, em um primeiro momento a vida apareceria como um sistema sem possibilidade de variação, depois surgiria variação sem herança (sem qualquer tipo de molécula informacional ou material genético), seguida de variação com herança (genética mais epigenética). Acho que é isso.

Letícia: Gostei da discussão. Ideias, ideias!


Vida sem evolução? Variação sem base hereditária? Biologia universal? Essas coisas podem realmente existir? Não sei ao certo. Na ciência, o processo é tão importante quanto o resultado, e as perguntas, mais fundamentais que as respostas. A partir da dúvida, seguimos em frente.

Infelizmente, a imagem do cientista difundida pelo cinema e pelas mídias de massa não corresponde à rotina dos laboratórios, universidades e institutos de pesquisa. A ciência não precisa ser vetusta ou carrancuda. Às vezes miramos em alvos móveis que não temos a menor certeza se serão ou não atingidos. Isso não importa tanto. Pelo contrário: questionar os pilares da nossa realidade e tentar explicá-los cientificamente é uma atividade prazerosa e divertida.

Não devemos temer o erro. Como disse o professor Dráulio Barros de Araújo, neurocientista da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em um encontro da Academia Brasileira de Ciências ano passado: “o risco é inerente à boa pesquisa. Ciência não é sobre papers, é sobre curiosidade e descoberta”. Fracassar é parte indissociável do processo de construção de conhecimento. 

O caminho que temos para desvendar os mistérios do mundo natural é nos aventurarmos além dos limites do possível, permitindo à nossa imaginação adentrar os domínios do que alguns julgam impossível (ou improvável). Fica a mensagem do físico Richard Feynman (1918-1988): a natureza é tão absurdamente extraordinária que ela nunca vai deixar nossas mentes relaxarem.

Figuras
http://en.wikipedia.org/wiki/Self-organization
http://17rg073sukbm1lmjk9jrehb643.wpengine.netdna-cdn.com/wp-content/uploads/2014/11/calories10.gif

sexta-feira, 6 de março de 2015

O avesso da vida - II

Quanto àqueles que negam os Nossos versículos, introduzí-los-emos no fogo infernal. Cada vez que a sua pele se tiver queimado, trocá-la-emos por outra, para que experimentem mais e mais o suplício. Sabei que Deus é Poderoso, Prudentíssimo.
Alcorão (4, 56)
A maior parte daquilo que atualmente consideramos sagrado só é sagrado por uma única razão: porque foi considerado sagrado ontem.
Nós temos nomes para definir pessoas que têm muitas convicções para as quais não há justificativa racional. Se essas convicções forem extremamente comuns, chamamos essas pessoas de “religiosas”; caso contrário, provavelmente serão chamadas de “loucas”, “psicóticas” ou “delirantes”. (...) a maioria das religiões meramente canonizou algumas manifestações de ignorância e loucura ancestrais e as passou para nós como se fossem verdades primordiais.
E assim é que, quando um terrorista muçulmano suicida destrói sua vida, juntamente com dezenas de inocentes em uma rua de Jerusalém, o papel que a fé religiosa desempenha nas suas ações é invariavelmente minimizado. O que se diz é que seus motivos devem ter sido políticos, econômicos, ou inteiramente pessoais; e que, mesmo excluindo a fé, pessoas desesperadas também fariam coisas terríveis.
Sam Harris (2004) A morte da fé: religião, terror e o futuro da razão
Durante quase duzentos anos, nós, norte-americanos, expulsamos ou exterminamos populações indígenas, isto é, milhões de pessoas; conquistamos a metade do México; saqueamos a região do Caribe e da América Central; invadimos o Haiti e as Filipinas - matando, na ocasião, 100 mil filipinos. Depois, após a II Guerra Mundial, estendemos nosso domínio sobre o mundo da maneira que se conhece.
Noam Chomsky (2001) Terrorismo: a arma dos poderosos
O governo dos Estados Unidos se recusa a julgar a si mesmo segundo os mesmos padrões morais com que julga os outros. (...) Sua técnica é posicionar-se como um gigante bem intencionado cujas boas ações são mal compreendidas pelos ardilosos nativos de países cujos mercados os Estados Unidos estão tentando libertar, cujas sociedades estão tentando modernizar, cujas mulheres estão tentando liberar, cujas almas estão tentando salvar. (...) O governo dos Estados Unidos conferiu a si mesmo o direito e a liberdade de assassinar e exterminar as pessoas “para o próprio bem delas”.
Arundhati Roy (2003), War talk 
De manhã cedo os soldados aterrissaram de helicóptero na aldeia [My Lai, no Vietnã]. Muitos disparavam enquanto se espalhavam, matando pessoas e animais. Não havia sinal do batalhão vietcongue e nenhum tiro foi disparado contra a Charlie Company o dia todo, mas eles prosseguiram. Queimaram todas as casas. Estupraram mulheres e meninas e depois as mataram. Esfaquearam algumas mulheres na vagina e evisceraram outras, ou cortaram-lhes as mãos e o escalpo. Mulheres grávidas tiveram o ventre rasgado e foram abandonadas à morte. Houve estupros organizados em gangues e matanças a tiros ou com baionetas. Houve execuções em massa. Dezenas de pessoas de uma só vez, inclusive velhos, mulheres e crianças, foram metralhadas numa vala. Em quatro horas, cerca de quinhentos aldeões foram assassinados.
Jonathan Glover (1999) Humanity: a moral history of the twentieth century
A intolerância é a companheira natural da fé vigorosa; a tolerância só viceja quando a fé perde a certeza; a certeza é assassina.
Will Durant (1950) The age of faith
Os condenados são então imediatamente levados para Riberia, o local da execução, onde há tantas estacas quanto são os prisioneiros a serem queimados. O ser relapso e negativo é primeiro estrangulado e depois queimado; os peritos montam as estacas perto de uma escada, e os jesuítas, depois de várias repetidas exortações para se reconciliarem com a Igreja, consignam-nos à destruição eterna, e depois deixam-nos com o demônio, que dizem estar ao lado delas para conduzí-los por seus tormentos. Nisso eleva-se um alto brado, e o brado é: “Vamos fazer a barba dos cães”; o que é feito aplicando-se tufos de arbustos em chamas, amarrados a longas varas, em suas barbas, até que seus rostos queimam até a negritude, a população ao redor enchendo o ar com as mais sonoras aclamações de alegria. Finalmente é ateado fogo aos arbustos ao pé da estaca, nas quais as vítimas estão acorrentadas, tão no alto que as chamas mal chegam ao assento onde estão posicionadas, e assim elas são mais assadas do que queimadas. Embora não possa haver um espetáculo mais lamentável e os sofredores gritem continuamente, enquanto conseguem, “Piedade pelo amor de Deus!”, ele é assistido por pessoas de todas as idades e de ambos os sexos, enlevadas de alegria e satisfação.
John Swain (1931) The pleasures of the torture chamber [narrando um auto de fé espanhol]
Mesmo para os padrões do Estados Islâmico, o mais recente vídeo de propaganda é particularmente macabro. A filmagem alterna imagens do piloto enquanto ele está vivo, com sequências mostrando os escombros de edifícios destruídos e os corpos queimados de sírios supostamente mortos em ataques aéreos da coalizão. Membros do Estado Islâmico foram ao Twitter para aplaudir a morte do piloto, chamando-a de "olho por olho". No final do vídeo de 22 minutos, um guerilheiro do Estado Islâmico acende o rasto de pólvora enquanto o tenente Kasasbeh assiste, suas roupas encharcadas de combustível. As chamas correm para dentro da jaula e o engolfam. A câmera se demora mostrando close-ups de sua agonia, antes de concluir com fotos do que o Estado Islâmico reivindicou serem outros pilotos da Jordânia e uma oferta de recompensa de 100 moedas de ouro para quem quer que mate um deles.
Rod Nordland e Ranya Kadri, New York Times, 3 de fevereiro de 2015

Figura 1. http://jesusismuslim.com/
Figura 2. http://images2.alphacoders.com/147/147450.jpg
Figura 3. http://planetoftheapes.wikia.com/
Figura 4. http://waterboarding.org
Figura 5. http://www.livetradingnews.com/

sábado, 28 de fevereiro de 2015

O avesso da vida

Pensem sobre as coisas perversas que são decretadas pela religião. A mutilação dos genitais de crianças, por exemplo. Quem faria isso, se não fosse, visivelmente, uma promessa selada com Deus? Quem iria dizer, ao receber um recém-nascido, ‘Parece perfeito, mas precisa ser mutilado na genitália antes de ficar realmente ok’? Somente a religião levaria as pessoas a fazer algo tão horrível, tão insano.
Os que alegam conhecer a mente de Deus estão tentando investir-se de autoridade humana - a sua própria - sob um disfarce divino. E não fazem isso porque querem poder no outro mundo, senhoras e senhores, irmãs e irmãos. Fazem isso porque querem poder neste mundo.
Quem alega saber de fato já dispõe de toda a informação da qual precisa e não quer que mais perguntas sejam formuladas. Quem diz, como diriam os muçulmanos: “Já temos um Livro, o que mais vocês querem?” “Temos a última palavra e a palavra final”. “Todas as demais perguntas são desnecessárias”, esses são os inimigos da liberdade, os inimigos do pensamento, os inimigos da sociedade.
Christopher Hitchens (2007), Deus não é grande

‘Se há um Deus que desempenha um papel no nosso mundo, eu comerei todos os chapéus desta cidade’ – e no entanto não pude evitar ser pego pelo espetáculo desta adoração à rocha, exemplo, para mim, do aspecto mais pavorosamente retardado da mente humana.
Você pode sair por aí beijando todos os muros do mundo, e todas as cruzes, e fêmures, e tíbias de todos os santos mártires abençoados que já foram trucidados pelos infiéis e, de volta ao escritório, ser um filho da puta para os seus funcionários e em casa um perfeito pentelho para a família.
Philip Roth (1986), O avesso da vida

Com grande freqüência os líderes espirituais cerraram fileiras no sentido de apoiar o escravismo, direta ou indiretamente. Não eram poucos os que justificavam o seqüestro forçado dos negros africanos para a escravidão americana, dizendo que estes, dessa forma, eram convertidos ao cristianismo e que a salvação de suas almas compensava amplamente a escravidão de seus corpos.(...) E quem é o maior beneficiário de uma religião que se propõe a suprir as necessidades espirituais de escravos e servos, assegurando a estes que sua condição terrena representa a vontade de Deus e prometendo-lhes uma vida de eterna bem-aventurança após a morte, contanto que não cometam o pecado de se rebelar contra essa vontade? Será o escravo, cuja vida poderá tornar-se mais suportável pela contemplação dos Céus? Ou será o senhor de escravos, que poderá ficar menos preocupado em mitigar o pesado fardo dos oprimidos e despreocupado quanto a uma possível revolta.
Issac Asimov (1989), Antologia 2: os melhores ensaios científicos de Asimov

Os desígnios de deus são inescrutáveis, nem nós, anjos, podemos penetrar no seu pensamento, Estou cansado da lengalenga de que os desígnios do senhor são inescrutáveis, respondeu caim, deus deveria ser transparente e límpido como cristal em lugar dessa contínua assombração, deste constante medo, enfim, deus não nos ama, Foi ele quem te deu a vida, A vida deram-ma meu pai e minha mãe, juntaram carne à carne e eu nasci, não consta que deus estivesse presente no acto, Deus está em todo lado, Sobretudo quando manda matar, uma só criança das que morreram feitas tições em sodoma bastaria para o condenar sem remissão, mas a justiça, para deus, é uma palavra vã (...)
José Saramago (2009), Caim 

Os filósofos ampliam o significado das palavras até que elas pouco conservem de seu significado original: ao chamar de “Deus” alguma abstração vaga que criaram para si mesmos, eles se apresentam como deístas, crentes, ante o mundo; podem até se orgulhar de terem atingido uma ideia mais elevada e mais pura de Deus, embora o Deus deles não passe de uma sombra sem substância e não seja mais a personalidade poderosa da doutrina religiosa.
Sigmund Freud (1927), O futuro de uma ilusão


Fig1: http://en.wikipedia.org/wiki/Crusades#mediaviewer/File:Philippe_Auguste_arrivant_en_Palestine.jpg
Fig2: http://www.smh.com.au
Fig3: http://nypost.com
Fig4: http://colunas.revistaepoca.globo.com
Fig5: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Inquisition.jpg

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Treinando macacos para o circo


Dê uma boa olhada nessa foto. Analise a expressão do macaco esperando ser ensinado pelo seu professor a fazer malabarismos e agradar às milhares de pessoas ávidas por diversão e entretenimento. Tente imaginar o que se passa na sua mente dita primitiva.

Nossa espécie, o Homo sapiens, é apenas um dentre mais de um bilhão de ramos da árvore da vida que viceja no planeta Terra. Infelizmente, nossos sistemas sociais ainda baseiam sua organização ética na centralidade humana, o que ignora realidades já compreendidas pela ciência e justifica a utilização instrumental que o homem faz da natureza. Essa prática especista dá ao Homo sapiens o auto-instituido direito de subjugar quaisquer outros organismos, explorando-os de forma cruel, escravizando-os e, muitas vezes, assassinando-os sem cerimônia.

Há mais de 130 anos, Charles Darwin (1809-1882) escreveu no The Descent of Man (A ancestralidade do homem): "O fato de que os animais inferiores são estimulados pelas mesmas emoções que nós mesmos está tão bem estabelecido que não será necessário cansar o leitor com detalhes. Atos de terror agem da mesma maneira neles e em nós, causando tremores nos músculos, o coração a palpitar, o relaxamento dos esfíncteres e o arrepio dos cabelos". A despeito do uso do termo inferior, Darwin nos dizia que todas as espécies do planeta compartilham atributos, mesmo que elas estejam evolutivamente muito distantes. Nós temos características em comum com amebas, planárias, baobás, cogumelos, moluscos, baratas, caranguejos, tartarugas, golfinhos, gatos, vacas e pandas. E macacos.

Agora dê outra boa olhada na foto acima. 

Em Suzhou, na província de Anhui (na China), onde a foto foi tirada, existem mais de 300 trupes de circo. O fotógrafo responsável pelo registro é Yongzhi Chu, premiado na categoria Natureza na World Press Photo of the Year (2014).

sábado, 22 de novembro de 2014

Breves resenhas: Thomas Piketty e o segredo dos ricos

Em 2013, o economista francês Thomas Pikkety publicou "O capital no século XXI", um estudo sobre a crescente concentração de renda e a evolução da desigualdade nos últimos cem anos. A obra de Piketty foi traduzida para o português e publicada recentemente. Também este ano, o LeMonde Diplomatique lançou uma coletânea de breves ensaios discutindo alguns dos aspectos centrais da obra do economista francês. O livro é de fácil compreensão e traz dados estarrecedores (incluindo informações sobre o Brasil), corroborando a hipótese de que o aumento da desigualdade no século XX tem sido brutal, e apontando algumas das suas possíveis consequências sociais, políticos e econômicas.

Um dos ensaios deste livreto é especialmente interessante. O autor - Hervé Kempf, jornalista francês - apresenta quais podem ser os efeitos dessa crescente desiguldade global no meio ambiente e nas políticas ambientais. Seguem trechos selecionados de "Como os ricos estão destruindo o mundo" (os destaques são meus):
Em nível mundial, o número de pessoas em situação de pobreza absoluta, ou seja, que vivem com menos de dois dólares por dia, é da ordem de dois bilhões, enquanto a Organização para a Alimentação e Agricultura estima em 820 milhões o número de seres humanos desnutridos. (p.45)
[Nos EUA], até a década de 1970, os executivos das [500 maiores] empresas ganhavam cerca de 35 vezes o salário médio de seus empregador (...) nos anos 2000, o salário dos executivos correspondia a cerca de 130 vezes o da média dos empregados. (...) A oligarquia acumulou rendimentos e patrimônio em um grau que não se via há um século. (p.45)
[O economista Thorsten] Veblen afirma que a tendência à competição é inerente à natureza humana. Cada um de nós tem uma propensão a se comparar com os outros, procurando manifestar, por meio de traços exteriores, uma pequena superioridade, uma diferença simbólica em relação às pessoas com quem vivemos. Veblen não afirmou que a natureza humana resume-se à essa caracteristica, e não fazia um julgamento moral, apenas uma constatação. Baseando-se em numerosos depoimentos de etnógrafos de sua época, ele também observou que essa forma de rivalidade simbólica é observada em todas as sociedades. (...) todas as sociedades produzem com bastante facilidade a riqueza necessária para atender suas necessidades de alimentação, habitação, educação das crianças, convívio, etc. No entanto, costumam produzir uma quantidade de riqueza bem superior à satisfação dessas necessidades. Por quê? Porque se trata de permitir que seus membros distingam-se uns dos outros. (p.47)
Veblen (...) observou que existem frequentemente várias classes dentro de uma sociedade. Cada uma delas é regida pelo princípio da rivalidade ostentatória. E, em cada classe, os indivíduos tomam como modelo o comportamento vigente na classe social superior, que mostra o que é bom, o que é chique fazer. A camada social imitada toma como exemplo aquilo que se localiza acima dela na escala da fortuna. Essa imitação reproduz-se de baixo até o alto, de modo que a classe no topo define o modelo cultural geral daquilo que é prestigiado, daquilo que impressiona. (p.47)
Como a oligarquia bloqueia as mudanças necessárias para prevenir o agravamento da crise ambiental? Diretamente (...), pelos poderosos instrumentos – políticos, econômicos e midiáticos – de que dispõe e que utiliza para manter seus privilégios. Mas também indiretamente, o que tem a mesma importância, por meio desse modelo cultural de consumo que impregna toda a sociedade e define sua normalidade. (p.48)
Prevenir o agravamento da crise ambiental, e até começar a recuperar o meio ambiente, é um princípio bastante simples: basta que a humanidade reduza seu impacto sobre a biosfera. Chegar a isso também é um princípio muito simples: significa reduzir nossas retiradas de minerais, madeira, água, ouro, petróleo, etc., e reduzir nossas emissões de gases de efeito estufa, resíduos químicos, materiais radioativos, embalagens, etc. Ou seja, reduzir o consumo material global de nossas sociedades. Essa redução é a alavanca essencial para mudar a situação ambiental. (p.48)
Estima-se que 20% a 30% da população mundial consumam de 70% a 80% dos recursos retirados anualmente da biosfera. Portanto, é desses 20% a 30% que a mudança tem de vir(...) [nas] socidades superdesenvolvidas, não é aos pobres, aos beneficiários de programas sociais, aos modestos assalariados que vamos propor uma redução do consumo material. Mas também não são apenas os super-ricos que precisam fazer esse redução (...) É ao conjunto da classe média ocidental que deve ser proposta a redução do consumo material. Vemos aqui que a questão da desigualdade é central: a classe média não aceitará seguir a direção do menor consumo material se perdurar a atual situação de desigualdade, se a mudança necessária não for equitativamente adotada. (p.49)
Uma civilização que escolha a redução do consumo material abrirá as portas para outras políticas. Com a transferência de riqueza que reduziria as desigualdades, ela poderia estimular as atividades humanas socialmente úteis e de baixo impacto ambiental. Saúde, educação, transportes, energia, agricultura – são muitos os domínios em que as necessidades sociais são grandes e as possibilidades de ação, importantes. Trata-se de renovar a economia pela ideia da utilidade humana, em vez da obsessão pela produção material; de promover os laços sociais, em vez da satisfação individual. Diante da crise ambiental, temos de consumir me nos para distribuir melhor. Para podermos viver melhor juntos, em vez de consumir sozinhos. (p.50)

Referência:
Kempf, H. Como os ricos estão destruindo o mundo. Em: Bava, Sílvio Caccia (Org.). 2014. Thomas Piketty e o segredo dos ricos, p.42-50. São Paulo: Editora Veneta.