Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Que os elos permaneçam perdidos!

Muito se fala a respeito de elos-perdidos. Esse talvez seja um dos maiores clichês utilizados pela grande mídia ao tratar da teoria da evolução, especialmente no contexto da descoberta de um novo fóssil de um grupo taxonômico importante. Há pouco, em março do presente ano, foi publicada a descrição de um novo anomalocarídeo, Hurdia victoria, uma espécie aparentada aos gigantes predadores dos mares do Cambriano, os Anomalocaris. Pela proximidade evolutiva, os Hurdia podem ser considerados artrópodes (ou pelo menos pertencentes a um possível grupo-irmão de Arhtropoda, os Lobopoda). As notícias dos jornais não costumam ser assim tão contidas: muitos tomaram os Hurdia como um novo "elo-perdido" da evolução dos animais com apêndices locomotores articulados e exoesqueleto rígido. Apesar de disseminados, a utilização desses lugares-comuns é oriunda principalmente do desconhecimento, por parte dos jornalistas, de alguns dos fundamentos da teoria da evolução, particularmente da sistemática filogenética, a principal ferramenta utilizada para sistematizar o conhecimento biológico em diagramas hierárquicos que refletem o processo de descendência com modificação a partir de um ancestral comum (uma pequena provocação: talvez não tenha sido assim tão ruim a desregulamentação da profissão de jornalista - pelo menos isso abre a possibilidade teórica do jornalismo científico ser feito por quem entende pelo menos um tanto sobre o que está falando...).

Por que não existem elos-perdidos? Alguém pode dizer, com um sorriso amarelo, que quando um elo-perdido é encontrado, ele deixa de ser perdido para ser elo-encontrado...

Quando os organismos são dispostos em cladogramas - árvores evolutivas resultantes de análises filogenéticas - apenas as relações colaterais de parentesco são reveladas. Um cladograma resolvido que apresenta três grupos terminais, como o da figura 1, só pode ser interpretado da seguinte maneira: o grupo A é mais próximo do grupo B em relação ao grupo C. Em um contexto evolutivo, pode-se dizer que A e B compartilham um ancestral comum exclusivo não compartilhado com C.

Analisando uma hipótese simplificada para o posicionamento do gênero extinto Hurdia, percebe-se que ele está próximo aos Panarthropoda, grupo formado por artrópodes, tardígrados e onicóforos (Figura 2). No entanto, os Arthropoda são mais próximos de Onycophora e Tardigrada do que de Hurdia. Nesse sentido, Panarthropoda tem um ancestral comum exclusivo não compartilhado por Hurdia. Em nenhum momento o raciocínio foi "Hurdia é o elo-perdido dos Arthropoda" ou "Hurdia é o ancestral dos Arthropoda". Na biologia evolutiva, nunca se pode delimitar um ancestral com certeza. O ancestral é SEMPRE uma hipótese! O ancestral é SEMPRE hipotético! Independentemente da quantidade de informações disponíveis, não somos aptos a determinar, de forma peremptória ou definitiva, se um determinado grupo foi o ancestral de qualquer outro grupo. Os fósseis, assim, sujeitam-se aos mesmos limites de interpretação dos organismos vivos.

No período entre os primeiros levantes da teoria sintética da evolução (em meados dos anos 1930) até o lançamento, em 1966, do Phylogenetic Systematics (Sistemática Filogenética) do entomólogo alemão Willi Hennig (1913-1976), imperou na biologia uma escola de pensamento sistemático chamada Taxonomia Evolutiva ou Taxonomia Clássica. Seu principal representante foi o ornitólogo Ernst Mayr (1904-2005). Para os taxonomistas clássicos, as árvores evolutivas poderiam representar as relações de ancestral-descendentes – Charles Darwin (1809-1882) pensava dessa forma, o mesmo valendo para o criador do termo filogenia, o alemão Ernst Haeckel (1834-1919). Para Mayr, não seria errado dizer que os Hurdia correspondem ao grupo ancestral do Panarthropoda. A sistemática filogenética demonstrou que essa interpretação está incorreta.

Um exemplo clássico, utilizando o grupo de estudo de Mayr, pode ilustrar bem o problema. Talvez um dos fósseis mais famosos do mundo, o Archaeopteryx lithographica é tido como a ave mais antiga dentre todas as conhecidas. O primeiro espécime fóssil de A. lithographica foi descoberto em 1861, na formação Solnhofen (sul da Alemanha), proveniente de rochas do período Jurássico, de 150 milhões de anos de idade. Foi um achado extraordinário. Em uma mesma espécie, apareciam características típicas dos répteis tradicionais juntamente com atributos exclusivos das aves! O espécime apresentava bico com dentes, estrutura esquelética em parte semelhante a do grupo dos lagartos, cobras e tartarugas e em parte a dos pássaros modernos, e penas (!). O Archaeopteryx era um candidato óbvio a elo-perdido entre os répteis e as aves. E assim foi tratado por muito tempo. Hoje sabe-se que Archaeopteryx é o grupo-irmão das aves recentes e compartilha com elas um ancestral comum exclusivo. Atentem para o que foi dito: Archaeopteryx é grupo-irmão das aves recentes, não o ancestral do grupo (Figura 3).

Há uma série de argumentos que justificam o porque da impossibilidade de se imputar o status de ancestral a qualquer espécie, fóssil ou recente. Alguns são de uma simplicidade flagrante. Sabemos que, para cada espécie animal viva (são mais ou menos um milhão de espécies animais descritas), provavelmente existiram outras 100. Isso significa que, desde a aurora dos metazoários, há cerca de 600 milhões de anos, devem ter passado pelo nosso planeta em torno de 100 milhões de espécies. Dessas, apenas uma parcela ínfima foi preservada nas rochas sob a forma de fósseis. O processo de fossilização não é trivial, por isso as descobertas paleontológicas, resultado de trabalho cuidadoso e detalhado, são quase sempre aclamadas, pela menos na comunidade acadêmica. É possível que no Jurássico tenham existido outras proto-aves, diferentes do Archaeopteryx, que não tiveram a oportunidade de se ver impressas na rocha. Em suma, muitas espécies não se fossilizaram. O que nos garante que uma dessas espécies não foi, de fato, a ancestral das aves recentes?

Façamos um experimento mental. O cenário é o seguinte: há um berçário com cinco bebês, sendo observados por três adultos. Esses adultos são duas enfermeiras e um médico. Os pais dos cinco bebês estão do lado de fora do berçário, ansiosos para abraçarem e beijarem seus rebentos queridos. Mas, de repente, uma catástrofe de proporções apocalípticas toma conta do planeta. É a vingança das plantas! Os cinco bebês e os três adultos do berçário são engolidos pela seiva de uma árvore monstruosamente gigante que fazia sombra à toda a cidade (não só ao hospital). Eles estão agora envoltos em âmbar. Os pais são esmagados por um galho e, pouco tempo depois, são comidos por chacais, seus restos se decompondo pela ação de fungos e bactérias. Toda a humanidade perece em questão de semanas.

Milhões de anos se passam. No futuro longínquo, alienígenas paleontólogos descobrem aquele cenário fossilizado. Como foram encontrados adultos perto dos bebês, eles automaticamente consideram esses adultos como os progenitores (os ancestrais) dos recém-nascidos. Parece lógico, mas não é. Os pais verdadeiros (os verdadeiros ancestrais) não se fossilizaram! Se formos montar uma genealogia com os fósseis encontrados, o máximo que poderíamos dizer é que os adultos são mais próximos dos bebês em relação a outro grupo distantemente relacionado - e nem isso seria absolutamente certo. Se a identidade dos três adultos fossilizados fosse desconhecida, poderíamos interpretá-los como os pais das crianças. No entanto, dizer isso com certeza seria leviano. Da mesma forma que os pais não ficaram preservados no âmbar, talvez os verdadeiros ancestrais das aves também não se fossilizaram. Isso vale para qualquer grupo biológico posto sob escrutínio.

A sistemática filogenética é um método elegante e poderoso porque ele reflete a própria natureza do pensamento científico. Os cladogramas procuram reconstruir as relações de parentesco sem perder de vista a idéia de que o que fazemos é postular hipóteses, com base em evidências, sobre como se deu a evolução desse ou daquele grupo. Essas hipóteses podem ser modificadas à luz de novas evidências ou de outras hipóteses com maior poder explanatório. A idéia de encontrar elos-perdidos pode resultar em uma boa manchete de jornal, e até ajudar a vender alguns exemplares para incautos transeuntes, mas passa longe do que podemos considerar boa ciência.
Post-scriptum: Informações complementares sobre alguns dos tópicos discutidos acima podem ser encontradas em:

- Daley, A.C., Budd, G.E., Caron, J.-B., Edgecombe, G.D. & Collins, D. 2009. The Burgess Shale Anomalocaridid Hurdia and Its Significance for Early Euarthropod Evolution. Science, 323, 1597-1600.
- Gould, S.J. 1989 (1990) Vida maravilhosa. Companhia das Letras, São Paulo.
- Prum, R.O. & Brush, A.H. 2003. A controvérsia do que veio primeiro, penas ou pássaros? Scientific American Brasil (11).
- Santos, C.M.D. 2008. Os dinossauros de Hennig: sobre a importância do monofiletismo para a sistemática biológica. Scientiae Studia, v. 6, p. 179-200.

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Gato, esse incompreendido

Tenho três gatos (minha mulher insiste que esse número tem que aumentar mas ainda não estou plenamente convencido disso): Titilo, Brigite e Yuki. O Titilo é um gato bonachão, gordo e carinhoso; a Brigite é austera, séria e cheia de particularidades adoráveis; a Yuki... bem, a Yuki é indescritível! São todos muito caseiros, preferindo um pufe velho a uma visita à garagem. Apesar de um grande número de características compartilhadas com os demais felinos, os gatos domésticos também apresentam uma série de atributos que os fazem especiais, tanto para quem gosta dos bichanos quanto para os que querem entender um pouco da sua história evolutiva.

Gatos domésticos são mamíferos da família Felidae. Os primeiros carnívoros semelhantes aos felinos apareceram no Oligoceno (Cenozóico, a era mais recente quando olhamos a tabela do tempo geológico), há aproximadamente 35 milhões de anos. A subfamília Felinae, que reúne os gatos viventes, originou-se no Mioceno (cerca de 9 milhões de anos atrás) e tornou-se um dos grupos de mamíferos carnívoros de maior sucesso no planeta. Hoje em dia, podem ser encontrados em todos os continentes, exceto na Antártida. Atualmente, quatro linhagens de Felidae distribuem-se nas suas prováveis regiões de origem: a linhagem do gato de Borneo e a dos leopardos (na região Oriental), os caracals (na África) e as jaguatiricas (na região Neotropical). Além dessas linhagens endêmicas, há outras espalhadas pelos diferentes continentes: guepardos, pumas, panteras, jaguares, leões, gatos selvagens e gatos domésticos. No entanto, nem sempre esses nomes são utilizados de forma não ambígua na literatura especializada e há uma linha tênue entre a definição de uma e outra espécie. A ampla distribuição de alguns grupos, além disso, pode ter permitido um grande fluxo gênico entre agrupamentos filogeneticamente aparentados, o que contribui para que os limites entre as várias linhagens de felinos se assemelhe a um borrão.

Uma das questões que mais atormenta os evolucionistas diz respeito à origem da domesticação nos grupos animais. A questão da seleção artificial de linhagens com o objetivo de ressaltar determinados atributos úteis para o homem foi uma das principais linhas de argumentação utilizadas por Charles Darwin no “Origem das espécies”, lançado em 1859. Criadores vêm selecionando características animais provavelmente desde a aurora da nossa espécie. Esse processo é, em geral, análogo à seleção natural de variedades pré-existentes, responsável, juntamente com eventos aleatórios e mutações neutras, pela diversidade orgânica existente no planeta. Dentre todos os animais domesticados, o gato é o menos compreendido. Um estudo recente vem jogar alguma luz nessa controvérsia.

É de amplo conhecimento que os gatos convivem com nossa espécie desde pelo menos o Egito Antigo. Na mitologia egípcia, a deusa da fertilidade, protetora das mulheres grávidas, é Bastet, representada tradicionalmente como uma mulher com cabeça de gato (às vezes, apenas como um gato). Em Bubastis, centro de culto da deusa, no Delta do Nilo oriental, foram encontradas diversas múmias de felinos, que eram tratados em vida como seres sagrados. Se os gatos foram primeiramente domesticados no Egito, a convivência entre Homo sapiens e Felis silvestris catus remonta há algo em torno de 5000 anos. Uma descoberta arqueológica recente ampliou esse período em 4500 anos.

Foi desenterrado na ilha de Chipre, 70 quilômetros ao sul da Turquia, um esqueleto de um gato morto aos oito meses de idade há 9500 anos. Isso seria um achado arqueológico pouco relevante se junto a ele não tivesse sido encontrado o corpo humano de um adulto com cerca de 30 anos, enterrado na mesma posição do felino, juntamente com ferramentas e utensílios de pedra. Ambos estavam na mesma posição. Aliado a isso, sabe-se que os gatos não são cipriotas de origem, o que significa que eles foram levados até a ilha, provavelmente como animais domésticos. Ou quase domésticos...

Qualquer pessoa que tem um gato (ou vários), ou apenas gosta desses bichos, sabe que eles são plenos em idiossincrasias. Nós não afagamos um gato. Eles só aceitam os carinhos quando querem. Foi Antonie Rivarol, escritor francês do século XVIII, quem disse: "O gato não nos acaricia; o que faz é acariciar-se em nós" (a literatura é plena de exemplos de aforismos “felinos”. Para o romancista norte-americano Mark Twain, “Se o homem pudesse ser cruzado com o gato, isto melhoraria o homem, mas deterioraria o gato". Jim Davis, o criador do Garfield, foi outro dos que capturou como poucos o que é ter um bichano em casa. Nas suas palavras: "Os gatos sabem o momento em que seus donos vão acordar - e os despertam dez minutos antes"). O que isso nos diz quanto à evolução desses animais? Muita coisa.

Cães e cavalos foram selecionados artificialmente por portarem inúmeros atributos interessantes ao homem. São animais que podem ser utilizados na caça ou no transporte, por exemplo. E os gatos? Os gatos não foram domesticados pelo homem. Na verdade, eles permitiram a domesticação! É claro que esse não é o raciocínio evolutivo mais correto, mas dá uma noção do que pode ter acontecido na história evolutiva dos Felidae. O que os evolucionistas têm interpretado é que, com o florescimento das sociedades e, conseqüentemente, com o aumento das aglomerações humanas, também deve ter aumentado a quantidade de lixo. Isso deve ter atraído ratos, abundantes também nas áreas de depósito de cereais e outros recursos alimentares. Se pensarmos em um cenário adaptativo, seria vantajoso para alguns grupos de gatos uma convivência pacífica com os humanos. Assim, eles teriam fontes abundantes de alimento, o que permitiria proles mais copiosas. Um cenário plausível para esses primeiros passos da domesticação felina é o Oriente Médio, na região do Crescente Fértil (que compreende Israel, Cisjordânia, Líbano, partes da Jordânia, da Síria, do Iraque, do Egito e do sudeste da Turquia). Gatos têm sido nossos companheiros há mais de 9000 anos.

Apesar dos meandros dessa domesticação ainda continuarem um tanto obscuros, novas descobertas têm permitido compreender melhor o que pode ter levado à nossa convivência tão próxima com esses animais. No convívio do dia-a-dia, é mais fácil entender o fascínio que sentimos por eles: ter sua atenção não é trivial; quando se consegue, percebe-se o que é o afeto verdadeiro e fiel.

As fotos que ilustram esse texto são de Patricia Kiss. Na ordem: Brigite, Titilo e Yuki.

Post scriptum: há vários artigos interessantes sobre o tema. Alguns técnicos, outros para divulgação ampla. Segue uma pequena lista de referências que podem guiar os interessados:
- Driscoll, C.A. Menotti-Raymond, M. Roca, A.L., Hupe, K. Johnson, W.E., Geffen, E., Harley, E.H., Delibes, M., Pontier, D. Kitchener, A.C., Yamaguchi, N. O’Brien, S.J. & Macdonald, D.W. 2007. The Near Eastern Origin of Cat Domestication. Science, 317, 519-523.
-
Driscoll, C.A., Clutton-Brock, J. Kitchener, A.C. & O’Brien, S.J. 2009. A longa (e incompleta) domesticação do gato. Scientific American Brasil, 86.
- Driscoll, C.A., Macdonald, D.W., O’Brien, S.J. 2009. From wild animals to domestic pets, an evolutionary view of domestication. PNAS, 106, 9971–9978.
- Johnson,W.E., Eizirik, E., Pecon-Slattery, J. Murphy, W.J., Antunes, A., Teeling, E. & O’Brien, S.J. 2006. The Late Miocene Radiation of Modern Felidae: A Genetic Assessment. Science, 311, 73-77.
- Pennisi, E. 2004. Burials in Cyprus Suggest Cats Were Ancient Pets. Science, 304, 189.
- Vigne, J.-D. Guilaine, J. Debue, K., Haye, L. & Gerard, P. 2004. Early Taming of the Cat in Cyprus. Science, 304, 259.

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Conversando sobre sistemática - parte II

de SARAH OLIVEIRA (USP-RP):
Acho que depois da resposta do Charles eu precisaria refletir mais. E, Renato, ainda não sei como fugir da dificuldade para o estabelecimento de homologias quando usamos ontogenias.

A meu ver, qualquer um dos critérios utilizados é problemático. Pensando que os critérios são utilizados para o estabelecimento de homologias primárias e que o teste de congruência é que as corrobora como secundárias, sendo que as homoplasias também são homologias, voltamos à questão de que tudo é homólogo num certo nível, já que todos os seres vivos compartilham um único ancestral comum, e o que reconhecemos na verdade são refinamentos dessas relações. É nesse ponto em que nos encontramos nesse momento. Lembrando sempre que lidamos com hipóteses e que não há uma absolutamente verdadeira.

Como já foi dito, há inúmeros exemplos que invalidam a “Lei de Dollo” e um aspecto bastante discutido é a questão do silenciamento genético. Para a maioria dos geneticistas, os genes são sim silenciados e são os mesmos até que ocorram mutações. Só a partir desse momento seriam linhagens diferentes, mesmo que os fenótipos fossem iguais. A partir daí, estaríamos lidando com outro ancestral direto comum. Eu não sei como reconhecer isso e não sei até que ponto a ontogenia refletiria tal coisa. Nessas circunstâncias é difícil dizer que a ontogenia seria a melhor solução, já que está sujeita a equívocos tais como os outros critérios utilizados. Um fator complicador são os inúmeros casos de heterocronia e pedomorfose, observados num primeiro momento como diferentes, mas que são etapas “intermediárias” de processos ontogenéticos que originam outras estruturas. Como fica a relação "ancestral direto e descendentes" nessas situações?

Como as exceções são crescentes conforme estudamos e refletimos sobre o assunto, acho que a melhor maneira de se estabelecer homologias seria a utilização da maior quantidade de informações possível, de uma forma bem criteriosa, num escopo amplo de abordagens, de forma que os testes de congruência definam se essas homologias são compartilhadas por grupos ou não. E o mesmo zelo ao se utilizar critérios topográficos deve ser dedicado aos ontológicos e outros mais, já que todos são importantes e podem levar a interpretações equivocadas.

de CHARLES MORPHY (UFABC):
Essas questões remetem à dificuldade de se trabalhar com conjuntos de evidências distintas quando os táxons terminais são os mesmos.

Há sentido em se fazer análise do tipo “evidência total”? Uma classe de dados pode interferir na resolução sugerida por outra classe de dados!

Uma perspectiva que leve em consideração as sugestões de agrupamentos de TODOS os tipos de dados parece a mais válida - há apenas uma árvore da vida e nosso objetivo é reconstruí-la da melhor maneira possível. No entanto, analisar TUDO AO MESMO TEMPO pode ser uma fria. Algum tipo de análise comparativa talvez dê melhores resultados, como as análises de componentes na biogeografia (ou análises de sensibilidade). Ela pode nos ajudar a diferenciar o que dá para ser considerado como compartilhado de fato - de origem comum – em relação aquilo que, apesar de aparentemente ter a mesma origem ou os mesmos componentes, não pode ser visto como um caráter de fato homólogo (na acepção sinapomórfica do termo).

Em certo sentido, o que a Sarah disse é correto: no final das contas, todos os animais compartilham uma maquinaria gênica comum, com vários dos genes, vias metabólicas e etapas do desenvolvimento praticamente iguais – afinal, todos derivam de um ancestral comum. Esse tipo de reductio ad infinitum, entretanto, vai certamente nos levar a considerar quase todos os atributos existentes como homólogos. É preciso fazer um corte senão perdermos de vista o que significa homologia.

Há uma série de livros interessantes saindo sobre o uso de ontogenias para estudo da evolução. Um deles é o "The Changing Role of the Embryo in Evolutionary Thought", do Ron Amundson, que me foi bem recomendado.

de RENATO CAPELLARI (USP-RP):
Algumas distinções já feitas pelos colegas sistematas são de fundamental importância, especialmente no âmbito semântico e da lógica. [A] Como o Charles muito bem lembrou, uma sinapomorfia pode ser tanto homogenética (homologia secundária sensu de Pinna, 91) como homoplástica. Dessa forma, no caso em questão, os espiralamentos das conchas seriam homólogos da mesma forma, embora homoplásticos.

Como a Sarah disse e o Charles complementou, uma regressão ao infinito pode trazer à tona uma variedade de traços que são homólogos "profundamente". [B] A homologia profunda entre genes, por exemplo, é bastante comum e umas das mais interessantes. Os casos Hox e Pax são exemplos interessantes. Genes hox, em Bilateria, coordenam a formação do eixo antero/posterior, mas genes ortólogos também estão presentes em Cnidaria, onde se relacionam à organogênese. Provavelmente foram cooptados das funções organogênicas e associados, em Bilateria, à estruturação do eixo A/P. São homólogos os Hox entre Cnidaria e Bilateria? Sim (profundamente), mas apenas um refinamento (contra regressio ad infinitum) no estudo desses genes (como a contextualização dentro das redes gênicas das quais participam) poderia mostrar quais estados do ambíguo caráter "Hox" são uma bona fide para o estabelecimento de grupos. Embora sejam homólogos, tratam-se de plesiomorfias quando vistos nesse nível de profundidade. Assim, minha afirmação categórica arriscada é a seguinte: o estabelecimento de homologia profunda geralmente lida com plesiomorfias.

Diante do que vejo, o uso de [B] é, no geral, impróprio para o estabelecimento de grupos, uma vez que estamos lidando com simplesiomorfias.

Em [A] a situação é outra. Homoplasias delimitam grupos, uma vez que também se tratam de caracteres em estados derivados (mesmo quando a derivação se trata da volta ao estado plesiomórfico do caráter). O cuidado a se ter é a diferenciação entre homologias homogenéticas (sinapomorfias "verdadeiras") e homoplásticas. Concordo quanto à questão do somatório de evidências. Apenas um grande conjunto de evidências pode mostrar que um caráter é homoplástico (aliás, esse foi o caso com os moluscos). Assim se retorna à proposição da homologia e a iluminação recíproca salva o mundo.

Quanto à evidência total, não tenho muito a falar. Nesse momento, tenho acreditado pouco na especial combinação de morfologia e análise de seqüências de DNA. Quanto a esse tipo de evidência total, tenho reservas, e sou, hoje, a favor apenas da comparação entre resultados independentes gerados por esses conjuntos de dados, e não da utilização conjunta na mesma matriz.

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Conversando sobre sistemática - parte I

de RENATO CAPELLARI (USP-RP):
Senhores, convido-os a um debate.

1-"Homólogos" são os mesmos caracteres presentes em grupos distintos devido à ancestralidade direta comum.

2-Um dos critérios de estabelecimento de homologia é o topográfico. Desse modo, acompanhar o desenvolvimento ontogenético dos organismos seria uma fonte segura para se rastrear essa relação, já que caracteres homólogos possuiriam, em linhas gerais, a mesma ontogênese.

3-Ao se propor homologia entre os mesmos caracteres entre táxons distintos, indiretamente postula-se uma ontogênese semelhante em ao menos algum ponto do processo (derivados de um mesmo conjunto celular, ou desenvolvimento controlado por uma mesma rede gênica, p.ex.)

4-Alguns caracteres tidos como homólogos, e possuidores da mesma ontogênese, estão presentes em táxons que não partilham o mesmo ancestral direto comum:
4.1-Exemplo: a concha espiralada, traço plesiomórfico em Calyptraeidae (Mollusca), sofre reversão nesse clado. Dentro desse grupo, há o retorno, ao menos no gênero Trochita, à condição espiralada. Esse caráter, tanto na base de Calyptraeidae como em Trochita, é determinado pelo mesmo conjunto gênico, o qual é silenciado nos Calyptraeidae sem concha espiralada (mas novamente ativo em Trochita). O padrão ontogenético determinado por esse conjunto gênico é, por assim dizer, o mesmo. Ref.: Pagel, 2004.
4.1.1-O exemplo supracitado é uma violação da Lei de Dollo.

5-Ao se olhar o recorte de tempo atual, e mesmo ao se estudar o desenvolvimento ontogenético, as evidências levariam a postular a homologia entre as conchas espiraladas dos moluscos na base de Calyptraeidae e a de Trochita. Apesar de a ontogênese em ambos os casos apresentar o mesmo padrão, inclusive governada pelos mesmos genes de desenvolvimento, esses caracteres não foram herdados por um ancestral direto comum aos dois grupos.

6-Independente de a descrição do exemplo citado ser ou não real (genes envolvidos, padrões de desenvolvimento, filogenia representando a verdadeira história evolutiva do grupo,...), imagine uma situação hipotética que satisfaça essas condições. Um traço, após sofrer reversão (por silenciamento gênico), volta a se apresentar em espécies desse grupo onde o traço havia sofrido reversão (pela ativação do mesmo conjunto gênico e mostrando o mesmo padrão ontogenético). Tais caracteres não podem ser considerados homólogos por não satisfazer a condição de ancestralidade direta comum [1], mesmo satisfazendo o critério topográfico [2].

7 - De que modo o estudo da ontogênese pode não esbarrar na dificuldade de estabelecimento de homologia em casos como esse?

de CHARLES MORPHY (UFABC):
Pensando rapidamente na questão - que merece uma análise criteriosa (parabéns, Mestre Capellari!), é preciso deixar clara uma coisa: os critérios de estabelecimento de homologias (posição, forma, posição em relação à estruturas próximas, etc...) são utilizados no levantamento de homologias primárias. O teste de congruência é que define se essas homologias são compartilhadas por grupos (portanto, sinapomorfias) ou se constituem homoplasias.

Por isso, a frase: "Tais caracteres não podem ser considerados homólogos por não satisfazer a condição de ancestralidade direta comum [1], mesmo satisfazendo o critério topográfico [2]" é falaciosa. Um caráter pode ser considerado homólogo (homologia primária) ao satisfazer o critério topográfico mas não ser congruente com outras hipóteses (o que significaria que ele aparentemente não foi herdado do ancestral comum mais recente do grupo em questão). Lembrem-se que homoplasia É um tipo de homologia! Isso mostra porque o raciocínio popperiano não se aplica à sistemática filogenética - homoplasias não são negações de hipóteses de homologia. São homologias primárias não congruentes com outras hipóteses de homologia primária.

De qualquer forma, a "lei" de Dollo é contrariada por vários outros exemplos na evolução dos Metazoa - claro que se considerarmos que nossas hipóteses mais robustas se aproximam minimamente do que foi a história desses grupos desde o seu aparecimento milhões de anos atrás. Cito um exemplo. Há várias reconstruções do último ancestral comum dos Bilateria (Urbilateria) como um organismo segmentado, reconstruções estas feitas com base na disposição e no compartilhamento da presença de Hox genes relacionados à segmentação, os quais aparecem em vários grupos de Bilateria mais derivados e que têm segmentos verdadeiros. A segmentação se perderia na base de Lophotrochozoa e reapareceria em Annelida (ou, talvez, também em moluscos poliplacóforos e monoplacóforos). Ela se manteria nos Ecdysozoa, com uma reversão em Cycloneuralia. Ela também se perderia na base de Deuterostomia e reapareceria em Chordata. A maquinaria gênica responsável pela segmentação parece a mesma nos vários grupos de animais bilaterais e sua presença respeitaria, nesse caso, o critério ontogenético para o reconhecimento de homologias. Organismos metaméricos verdadeiros portariam repetições externas e de órgãos internos, o que acontece em todos os grupos considerados segmentados. A proposta de homologia primária (presença de segmentação) por vezes é corroborada nos testes de congruência, mas a interpretação do caráter é tortuosa - a segmentação deve ter aparecido em Urbilateria, perdeu-se nos grupos mais basais de Lophotrochozoa (mas não em Ecdysozoa) e de Deuterostomia e reapareceu em Mollusca + Annelida e em Chordata.

A ontogenia é fonte útil de informações mas também pode levar a aparentes cul-de-sacs. Dá para se estabelecer paralelos quase incontestáveis no desenvolvimento de certas estruturas em grupos não proximamente relacionados. Os genes responsáveis pela expressão de expansões corpóreas externas - pernas, patas, apêndices ambulatoriais, lobopódios, pés ambulacrais - são os mesmos entre todos os organismos bilaterais. Isso é suficiente para dizer que as estruturas expressas por esses genes são homólogas? Talvez homologias primárias. Seriam sinapomorfias? Difícil dizer.

Continuamos discutindo.

Terça-feira, 9 de Junho de 2009

Artigos de Sistemática, Biogeografia, Evolução...

Abaixo, segue a lista dos meus artigos publicados (até o momento. Espero inserir outras entradas com o passar do tempo...). Eles podem ser baixados em pdf e representam parte dos meus interesses nas ciências naturais.

Biogeografia e Sistemática

Amorim, D.S., SANTOS, Charles Morphy D. & Oliveira, S.S. 2009. Allochronic taxa as an alternative model to explain circumantarctic disjunctions. Systematic Entomology, v. 34, p. 2-9.
SANTOS, Charles Morphy D. 2008. Geographical distribution of Tabanomorpha (Diptera, Brachycera): Athericidae, Austroleptidae, Oreoleptidae, Rhagionidae, and Vermileonidae. EntomoBrasilis, v. 1, p. 43-50.
SANTOS, Charles Morphy D. 2008. Os dinossauros de Hennig: sobre a importância do monofiletismo para a sistemática biológica. Scientiae Studia, v. 6, p. 179-200.
SANTOS, Charles Morphy D. & Amorim, D.S. 2007. Why biogeographical hypotheses need a well supported phylogenetic framework: a conceptual evaluation. Papéis Avulsos de Zoologia (São Paulo), v. 47(4), p. 63-73.
SANTOS, Charles Morphy D. 2007. On ancestral areas and basal clades. Journal of Biogeography, v. 34, p. 1470-1471, 2007.
SANTOS, Charles Morphy D. 2007. A0: Flawed assumption. Darwiniana, v. 45(s), p. 39-41, 2007.
SANTOS, Charles Morphy D. & Falaschi, R. 2007. Missing data in phylogenetic analysis: comments on support measures. Darwiniana, v. 45(s), p. 25-26.
SANTOS, Charles Morphy D. 2005. Parsimony Analysis of Endemicity: time for an epitaph? Journal of Biogeography, Inglaterra, v. 32, n. 7, p. 1284-1286.

Ensino de Evolução e Ciências

SANTOS, Charles Morphy D. & Calor, A.R. 2008. Using the logical basis of phylogenetics as the framework for teaching biology. Papéis Avulsos de Zoologia (São Paulo), v. 48, p. 199-211, 2008.
SANTOS, Charles Morphy D. & Calor, A.R. 2007. Ensino de biologia evolutiva utilizando a estrutura conceitual da sistemática filogenética - I. Ciência & Ensino (UNICAMP), v. 1, p. 1-8.
SANTOS, Charles Morphy D. & Calor, A.R. 2007. Ensino de biologia evolutiva utilizando a estrutura conceitual da sistemática filogenética - II. Ciência & Ensino (UNICAMP), v. 2, p. 1-8.
Calor, A.R. & SANTOS, Charles Morphy D. 2004. Filosofia e o ensino de ciências: uma convergência necessária. Ciência Hoje, São Paulo, v. 210, 29-31.

Taxonomia

SANTOS, Charles Morphy D. & Amorim, D.S. 2007. Chrysopilus (Diptera: Rhagionidae) from Brazil: redescription of Chrysopilus fascipennis Bromley and description of eleven new species. Zootaxa (Auckland), v. 1510, p. 1-33.
SANTOS, Charles Morphy D. 2006. Description of two new species of Neorhagio (Diptera, Tabanomorpha, Rhagionidae), and remarks on a controversial female character. Zootaxa (Auckland), v. 1174, p. 49-62.
SANTOS, Charles Morphy D. 2005. First record of genus Atherimorpha (Diptera: Rhagionidae) in Brazil, with description of a new species. Zootaxa (Online), v. 1021, p. 37-43.
Marques, A.C., Mergner, H., Höinghaus, R., SANTOS, Charles Morphy D. & Vervoort, W. 2000. Morphological study and taxonomical notes on Eudendriidae (Cnidaria: Hydrozoa: Athecatae / Anthomedusae). Zoölogische Mededelingen, v. 74, n. 5, p. 75-118.

Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

Grande, feroz e ainda vivo

“Eu não conheço resposta melhor que a epítome de um colega psicólogo: “grande, feroz e extinto” – em outras palavras, irresistivelmente ameaçadores mas basicamente seguros” S.J.Gould (1993)

Um dos meus heróis intelectuais é o paleontólogo Stephen Jay Gould (1941-2002). Ele foi dos maiores divulgadores do evolucionismo da segunda metade do século XX, árduo defensor de uma visão materialista do mundo biológico, calcada nos trabalhos de Charles Darwin e dos evolucionistas que vieram depois dele. Gould não se afiliava totalmente à tradição neo-darwinista ortodoxa, representada por luminares como Ernst Mayr (1904-2005), Theodosius Dobzhansky (1900-1975) e George G. Simpson (1902-1984), pois a sua visão da evolução da vida dava muito mais peso ao componente estocástico. Para ele, eventos como extinções em massa - essencialmente aleatórias e não-previsíveis - teriam importância quase tão grande quanto a seleção natural de variedades pré-existentes, tida como o processo evolutivo fundamental para os proponentes da teoria sintética da evolução e por seus seguidores, como Richard Dawkins e outros ultra-darwinistas.

O primeiro artigo que li de S.J.Gould intitulava-se Dinomania. Originalmente publicado na The New York Review of Books de 12 de agosto de 1993, esse texto foi traduzido para o português pela Folha de São Paulo no ano seguinte (ou no mesmo ano, não me lembro ao certo). A prosa gouldiana me impressionou. Seu estilo elegante, ainda que muitas vezes prolixo, parecia algo a ser tomado como referência para um trabalho futuro. Foi a partir daí que comecei a delinear minha futura carreira e perceber que eu trabalharia com algum aspecto das ciências naturais. Esse artigo foi republicado na sétima coletânea de ensaios de Gould, “Dinossauro
no palheiro”, originalmente lançada em 1995 sob o nome “Dinosaur in a Haystack”.

Apesar de ser uma influência constantemente presente na minha visão de mundo científico e de ser um dos textos mais saborosos – senão o mais saboroso – entre todos os divulgadores científicos, S.J. Gould cometeu muitas falhas durante a sua carreira, foi intransigente, quase leviano, e um tanto personalista. Chegou a dedicar mais da metade de um dos seus livros ("Full House: the spread of excellence from Plato to Darwin", de 1996, traduzido aqui como "Lance de Dados", em 2001), pretensamente dedicado a sintetizar a história do pensamento evolutivo de Platão à Darwin, à análise de estatísticas de beisebol, um esporte que pouco diz à grande maioria do mundo civilizado fora do EUA e adjacências (com exceção talvez do Japão, Cuba e Venezuela). Por mais que as idéias de Gould sejam interessantes a esse respeito, é difícil chegar ao fim das suas 250 páginas sem um misto de desconforto e sensação de tempo desperdiçado. Richard Dawkins ironiza em um ensaio do seu “Capelão do Diabo” essa obra menor de Gould.

Outro ponto considerado por muitos como falho na carreira desse evolucionista foi seu feroz ataque ao darwinismo a partir do final dos anos 1970 até quase meados da década de 1980. Juntamente com seu colega paleontólogo Niles Eldredge, em 1973 Gould propôs a hipótese do equilíbrio pontuado. Em linhas gerais, a idéia era contrapor o processo evolutivo contínuo e gradual dos teóricos sintéticos da evolução ao registro fóssil, essencialmente lacunoso, e que mostra, no geral, modificações ocorrendo em curtos períodos de tempo geológico, seguidos de longos períodos de estase, com pouquíssimas alterações perceptíveis nas espécies. Gould chegou a proferir que o darwinismo estava morto em um trabalho publicado em 1980 na revista Paleobiology. Essa demonstração de pretensão e arrogância obviamente não foi bem vista pela comunidade acadê
mica, o que dificultou a discussão isenta do equilíbrio pontuado como um processo alternativo (ou complementar) ao gradualismo darwiniano. Atualmente, há correntes que interpretam o equilíbrio pontuado como um gradualismo ocorrendo em curtos intervalos de tempo, seguidos por períodos longos em que as modificações se acumulariam, mas não se refletiriam em explosões de diversidade.

O discurso de Gould perdeu muito do caráter corrosivo a partir do final dos anos 1980, o que, em conjunto com o sucesso de seus livros e a popularização da paleontologia através de filmes como Jurassic Park (que foi o mote do ensaio Dinomania supracitado), transformaram-no em um ícone pop, levando-o inclusive a aparecer no desenho Simpsons. Isso não significa que as controvérsias e polêmicas cessaram: poucos meses depois da sua participação na série animada, Gould se viu imiscuído a uma polêmica com autores do quilate de Daniel Dennet e Dawkins, acerca da sua crítica exacerbada ao que ele chamou de fundamentalismo darwinista, representado por aqueles que resumiam TODA a evolução como a ocorrência de adaptação via seleção natural.

Infelizmente, S.J Gould morreu aos 60 anos de idade, em decorrência de um câncer de pulmão que foi seu adversário por mais de duas décadas. Deixou uma obra fascinante, longa, abrangente, que merece ser lida com isenção e analisada por qualquer pessoa que se interesse pelas labirínticas maravilhas da vida e do pensamento humano.

Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

Os dinossauros de Hennig

Acabou de sair um artigo meu discutindo alguns aspectos da história da sistemática biológica e da importância do conceito de monofiletismo para a prática de organizar e classificar a natureza. O pdf do artigo, publicado na revista Scientiae Studia, pode ser baixado aqui.

A referência completa é:
Santos, C.M.D. 2008. Os dinossauros de Hennig: sobre a importância do monofiletismo para a sistemática biológica. Scientiae Studia, 6(2), 179-200.


Abaixo segue o resumo do artigo:
A sistemática biológica é o ramo das ciências naturais que lida com a nomenclatura, descrição e organização da diversidade biológica em esquemas hierárquicos. Ela vem sendo desenvolvida desde os primeiros esforços humanos em direção à sumarização da informação biológica com vistas ao agrupamento dos organismos em classes, e à identificação, entre elas, de quais seriam entidades naturais. De Aristóteles à Hennig, muitas maneiras de sistematizar o conhecimento biológico foram propostas, com a intenção de delimitar e representar as afinidades naturais entre os organismos. Mesmo depois da teoria de Darwin-Wallace, a sistemática biológica apresentou poucas mudanças nos seus fundamentos, até os trabalhos do entomólogo alemão Willi Hennig. Ele introduziu um método que era tão objetivo e explícito quanto à fenética, e profundamente conectado à perspectiva evolutiva Darwiniana. A filogenética Hennigiana visa à criação de um sistema classificatório de referências que reflita a evolução. Nesse sentido, Hennig propôs que apenas grupos monofiléticos são naturais, uma vez que eles seriam os únicos que realmente respeitam o conceito evolutivo da ancestralidade comum. Um grupo monofilético é definido como a reunião de todos os descendentes de um ancestral comum, este incluso. Baseado no reconhecimento dos grupos monofiléticos (naturais), a sistemática filogenética é uma poderosa ferramenta para reconstruir a evolução dos organismos a partir de critérios científicos e objetivos, auxiliando na solução do problema de sistematizar a informação biológica que tem preocupado o homem desde a aurora da linguagem.

Segunda-feira, 27 de Abril de 2009

O que é a evo-devo?

Em linhas gerais, a evo-devo (evolutionary developmental biology ou biologia evolutiva do desenvolvimento) estuda como evoluiu o desenvolvimento e como as modificações do desenvolvimento afetaram as mudanças evolutivas. Recentemente, conceitos relacionados à embriologia, desenvolvimento e genética têm sido utilizados em conjunto com estudos de paleontologia na tentativa de se compreender a evolução de estruturas morfológicas e de grupos taxonômicos com origem controversa. Se evidências fósseis de estágios intermediários entre estruturas muito díspares, mas hipoteticamente homólogas, não são encontradas, a paleontologia pode contar com a abordagem da evo-devo a fim de “completar” esses intervalos nos quais não há evidências da estrutura ou conjunto de estruturas de interesse. Assim, procura-se encontrar paralelos entre o desenvolvimento individual de um organismo e a história evolutiva de um mecanismo ou atributo em determinado grupo.

A biologia evolutiva do desenvolvimento reflete uma longa busca para se compreender as relações entre as transformações de um organismo em uma única geração – o seu desenvolvimento, ou, em outras palavras, sua ontogenia – e as transformações que ocorrem entre gerações – i.e., evolução, representada pelas filogenias. A evo-devo é uma síntese da biologia evolutiva (que, em suma, procura compreender como aconteceram as mudanças de tamanho e forma apresentadas durante a história evolutiva dos organismos) com a biologia do desenvolvimento (que tenta distinguir os mecanismos de desenvolvimento responsáveis por essas mudanças). A perspectiva da evo-devo possibilita o estudo de propriedades não encontradas partindo-se de cada uma dessas áreas em separado. Ao incorporarem essa visão integrada, a biologia evolutiva, em geral, e a paleontologia, em particular, têm a chance de enriquecer o que se conhece sobre como os organismos, órgãos, tecidos e células evoluíram.

Dentre os tópicos fundamentais da biologia, a origem de novas estruturas durante a evolução levanta algumas questões importantes. Como aparecem essas (por vezes) chamadas novidades evolutivas? Elas podem evoluir de novo ou sempre derivam de estruturas ou mecanismos pré-existentes? A interface entre a biologia do desenvolvimento e as demais áreas das ciências biológicas contribui de forma positiva para o debate, como pode ser visto em recentes estudos sobre os mecanismos de desenvolvimento subjacentes à formação de estruturas complexas como patas e penas. Esses estudos também têm fornecido preciosas informações sobre como os processos de desenvolvimento modificam-se quando órgãos desaparecem durante a evolução, suportando a idéia de que a ausência de órgãos no adulto não implica na completa ausência do potencial para o desenvolvimento dos mesmos. Isso fica evidente na análise de alguns grupos de serpentes, os quais, apesar de não apresentarem membros anteriores ou posteriores, ainda portam a maquinaria genética responsável pela sua formação. A regulação da expressão gênica durante a formação dos embriões é muito complexa e mudanças aparentemente simples, como inversões temporais ou espaciais na expressão de um gene, podem levar a profundas alterações na formação de estruturas complexas – que não requerem, necessariamente, a ausência de todos os elementos do sistema regulador.

Nesse interim, a evo-devo procura compreender como se dá a origem e evolução do desenvolvimento embrionário e qual o papel que as alterações nesses mecanismos de desenvolvimento, mesmo que pontuais ou pouco relevantes em um primeiro momento, têm para o aparecimento de novas estruturas. Além disso, a evo-devo tem como metas entender a plasticidade do desenvolvimento na história evolutiva dos organismos, como os fatores exógenos (ambientais, de um modo geral, ou ecológicos) afetam esses mecanismos, e quais as bases embriológicas dos caracteres homólogos (atributos que têm a mesma origem evolutiva em grupos relacionados genealogicamente e que se modificam através do tempo – por exemplo, os ossos dos braços de um Homo sapiens e os ossos das asas de uma ave) e homoplásticos (caracteres com origens evolutivas múltiplas, mas que convergem na sua estrutura ou mecanismo – um exemplo é a morfologia hidrodinâmica de peixes e golfinhos). Das grandes áreas da biologia, a paleontologia e a sistemática estão entre as maiores beneficiadas pela biologia do desenvolvimento, uma vez que elas centram seus esforços na compreensão das novas organizações estruturais surgidas durante a evolução. Os registros fósseis são evidências importantes para se compreender a história da vida, constituindo fontes de informação únicas para estudos de evo-devo – o inverso também é verdadeiro. Por exemplo, a descoberta de fósseis de tetrápodes com oito dedos levou a novas considerações sobre o desenvolvimento e evolução desses membros.

É certo que o florescimento de uma disciplina que conecte a biologia do desenvolvimento aos estudos paleontológicos e filogenéticos pode contribuir para um melhor entendimento das questões relacionadas à história evolutiva dos organismos, manifestando uma longa conexão entre estudos de paleontologia, embriologia e evolução que remonta à síntese da teoria evolutiva de meados do século XX. Essas discussões, no entanto, não são recentes: o próprio Charles Darwin dedicou capítulos inteiros de sua obra-prima, Sobre a origem das espécies, à discussões detalhadas sobre como evidência embriológicas forneceriam suporte à suas teorias; Ernst Haeckel, ainda no século XIX, defendeu a idéia de que a ontogenia recapitula a filogenia (sua “lei biogenética”).

Para alguns evolucionistas mais entusiasmados, os avanços conceituais proporcionados pela evo-devo irão, por exemplo, inserir novamente a paleontologia na ciência contemporânea, modificando os fundamentos da nossa compreensão sobre a origem e diversificação da vida. Nos últimos anos, os estudos evolutivos, principalmente aqueles às voltas com classificações biológicas e reconstruções filogenéticas, têm assumido a perspectiva de uma grande disciplina integrada, utilizando informações das mais diferentes fontes, em particular da morfologia comparada, genética, biologia do desenvolvimento e paleontologia. Nenhuma dessas abordagens se mostrou superior às outras, e a contribuição dos diferentes campos abriu novos horizontes para a solução de problemas que não podem ser esgotados em uma única disciplina. Apesar de um certo exagero das expectativas, como é de praxe em qualquer nova área da ciência que aporte um grande número de pesquisadores, esforço conjunto e dinheiro, o uso da evo-devo ligada a estudos de paleontologia e sistemática, desde que corretamente utilizados os conceitos dessas áreas tradicionais, promete bons resultados para o entendimento de questões que há tempos atormentam os evolucionistas.

Para saber mais sobre a evo-devo, comece pelo Infinitas formas de grande beleza, livro escrito por Sean Carroll e traduzido para o português. Muitos artigos mais técnicos podem ser encontrados na internet, especialmente em revistas como Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) e International Journal of Developmental Biology. No site da PLoS Biology, há um ensaio do Dr. Carroll (em inglês) sobre o tema (Evolution at two levels: on genes and form), no número 7, volume 3, p. 1159-1166. É de acesso gratuito no endereço (pode ser baixado também o pdf): http://biology.plosjournals.org/perlserv/?request=get-document&doi=10.1371%2Fjournal.pbio.0030245

Há também um outro artigo, dos mesmos autores do Jogo da Evolução (comentado nesse blog em maio de 2008), na revista Proceedings of the National Academy of Sciences USA, de maio de 2007 (vol. 104, suplemento 1, p.8605-8612), chamado Emerging principles of regulatory evolution, que pode ser encontrado no site:http://www.pnas.org/content/vol104/suppl_1/ Esse artigo fez parte do especial In the Light of Evolution I: Adaptation and Complex Design, que ocupou todo o volume da revista, e que conta com vários textos de temas recentes e revelantes para a compreensão da evolução. Recomendo a todos que se interessam por biologia evolutiva.

Sexta-feira, 20 de Março de 2009

Ainda a seleção natural



A história do pensamento evolutivo mostra que muitos outros autores quase "chegaram lá" quando o assunto é seleção natural: antes do naturalista escocês Patrick Matthew, (1790-1874) sobre o qual comenta Osame Kinouchi no seu blog SemCiência, no século XVIII, o naturalista, cosmólogo, matemático e enciclopedista Georges Louis de Buffon (1707-1788) havia aventado essa possibilidade no seu monumental Histoire Naturelle (apesar dos escritos desse francês não primarem pela consistência). William Charles Wells (1757-1817) já havia falado de seleção natural na espécie humana, no começo do século XIX (e, inclusive, Charles Darwin (1809-1882) o cita nominalmente no sua obra magna Sobre a origem das espécies). Não só Alfred Russel Wallace, (1823-1913) mas também Henry Walter Bates (1825-1892), trabalhando na Amazônia, chegaram à mesma conclusão de Darwin a respeito do processo evolutivo, especialmente considerando a importância da distribuição geográfica no processo de especiação
.

Agora, como aponta o professor Kinouchi, quais são as condições para se reconhecer quando alguém é o "descobridor" de uma idéia?

Wallace e Bates trabalharam de forma obsessiva-compulsiva, talvez até mais do que Darwin (Darwin fez apenas UMA viagem relevante na sua vida, no Beagle). Tanto Wallace quanto Bates trabalharam infinitas horas no calor amazônico (há relatos de coletas por 18 horas seguidas!). Bates viveu no Brazil durante onze anos, enviando mais de 8 mil novas espécies de insetos para a Inglaterra durante o período - mesmo os não zoólogos e quem não trabalha com descrição de espécies percebe que esse número é astronômico.
Wallace passou outro longo período no arquipélago Malaio, sempre compilando suas toneladas de informações em trabalhos de grande monta. Ele talvez não tivesse a reputação científica suficiente, é verdade (que vem sendo resgatada recentemente). No entanto, isso nada teria a ver com a qualidade do seu trabalho e sim com a genealogia: Darwin era de família abastada, Wallace não era. O primeiro trabalhava em sua casa de campo; o segundo ganhava a vida no campo de fato.

O pendor espiritualista de Wallace (ele aceitava que todos os organismos passavam pelo processo da seleção natural, menos o homem, "ungido" pelo divino com sua capacidade cognitiva extraordinária) pode ser colocado como algo que o deixou um pouco longe das primeiras sínteses históricas do evolucionismo. Mas o homem trabalhou, e muito! Além do que, as principais referências sobre a história da teoria da evolução, especialmente para os não familiarizados com a literatura técnica da área, vem dos trabalhos dos teóricos sintéticos da evolução, do qual o ornitólogo alemão Ernst Mayr (1904-2005) é seu maior representante. Os livros de Mayr são bastante tendenciosos - ele, por exemplo, pouco considerava a importância da sistemática filogenética de Willi Hennig para a biologia, e dizia que a teoria da deriva continental, do meteorologista alemão Alfred Wegener, não havia provocado tanto impacto nos estudos da evolução (o que está longe de corresponder a verdade, como qualquer pessoal que estuda a distribuição dos organismos pelo globo pode comprovar).

Quando falamos em ciência biológica do século XIX, é óbvio que um livro chamaria muito mais atenção que um artigo (que Wallace publicou em 1858, juntamente com um texto de Darwin). Tanto isso é verdade que o presidente da Royal Society à época disse que no ano de 1858 nenhuma novidade científica relevante havia sido proposta...

Charles Darwin foi o "descobridor" da seleção natural? Difícil dizer ao certo. Darwin foi um grande compilador, além de um pensador original, e soube comparar o que parece intangível (a seleção natural) com algo que todos sabiam do que se tratava (a seleção artificial de variedades animais e vegetais).

Vale dizer, contudo, que muito espaço é dado para discussões a respeito da seleção natural, quando hoje se sabe que ela é apenas um dos processos relacionados à descendência com modificação a partir de ancestrais comuns. Darwinismo NÃO é sinônimo de Evolucionismo! A teoria da evolução, atualmente, está anos à frente do que Darwin dizia (ou mesmo do que ele teria condições de pensar, com base na ciência do seu período).

Muitos tentam relacionar alguns comentários de Darwin como possíveis precursores de descobertas das quais ele reconhecidamente não fez parte - como os primórdios da genética mendeliana. Dizer que essas extrapolações apenas aumentam, de forma falaciosa, o mito ao redor de Darwin não é desrespeitar o legado desse fantástico cientista mas sim preservar a importância sua obra sem deturpações whiggistas (uma perspectiva que analisa a história a partir do referencial moderno). Devemos desconstruir Darwin para que a essência do seu gênio prevaleça.

(Este post faz parte da discussão de março do "Roda de Ciências". Por favor, comentários aqui)

Domingo, 1 de Março de 2009

Pequeno mundo blogueiro

Essa vale também para alguns (muitos?) blogs de ciência...









Do site Malvados, de André Dahmer.