sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Aristóteles e o Nome da rosa

Uma das obras que melhor traduziram para um público amplo a importância do aristotelismo para o pensamento cristão da Idade Média foi O nome da rosa (1986), do filósofo e escritor italiano Umberto Eco (1932- ). Toda a trama da obra de Eco, tanto do livro quanto do filme nele inspirado, gira em torno de um livro misterioso, que acaba por levar vários monges à morte em uma abadia medieval. Ao final, percebe-se a importância da obra, um tratado do filósofo grego Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) sobre como o riso pode auxiliar na busca pela verdade. O monge ancião responsável pela biblioteca do mosteiro para o qual se encaminham William de Baskerville e seu aprendiz Adso de Melk, chamado Jorge de Burgos (uma alusão ao escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), que morreu cego e ficou celebrizado por seus contos labirínticos e suas inúmeras referências a obras literárias), diz em suas falas finais que a obra deveria ser destruída justamente por ter sido escrita por Aristóteles. A influência do pensador grego era tamanha que, ao endossar o riso e o escárnio como fontes válidas para se chegar ao conhecimento, Aristóteles poderia desencadear o caos na sociedade, uma vez que, ao rirem do mundo, os homens espantariam o temor, o medo. Ao deixarem de temer (ao demônio, nas palavras do bibliotecário), os homens perceberiam como deus era desnecessário e o mundo entraria em colapso.

A filosofia de Aristóteles, sempre presente no Ocidente, mas particularmente relevante após o século XIII, foi umas das grandes barreiras a ser vencida pelo pensamento científico moderno, que se origina, entre outros, com Nicolau Copérnico (1473-1543), Francis Bacon (1561-1626), Galileu Galilei (1564-1642) e René Descartes (1596-1650). Na biologia, o essencialismo aristotélico perdurou ainda mais, e só sofreu severas avarias a partir da teoria da evolução através da seleção natural, de Charles Darwin (1809-1882) e Alfred Wallace (1823-1913), em meados do século XIX. Algumas das práticas utilizadas por Aristóteles, entretanto, permanecem em certas áreas da biologia atual, como na classificação de organismos a partir de dicotomias (prática corrente na construção de chaves de identificação da sistemática biológica) e na manutenção de um determinado espécime (o holótipo) como conrrespondente à "essência" de uma nova espécie descrita.

Em O nome da rosa, há outras referências interessantes aos estudantes de filosofia da ciência. O personagem vivido por Sean Connery, o frei franciscano William de Baskerville, tem seu nome derivado do escolástico William de Ockham, celebrizado pelo conceito da parcimônia ontológica, segundo o qual as entidades explicativas não devem se multiplicar sem necessidade. Tal princípio, um dos fundamentos da ciência moderna, também remonta à Aristóteles, para o qual “a Natureza não faz nada em vão, nem faz nada de supérfluo”, como se pode ler no seu tratado Partes do animais. O frei William trabalha como um detetive, procurando evidências para corroborar suas hipóteses sobre quem é o assassino dos monges da abadia. Em contraposição à percepção metafísica “exagerada” (como provavelmente diria Ockham) dos monges, que relacionavam as mortes ao livro do Apocalipse e à chegada do fim do mundo, Baskerville procurava nos fatos observáveis o apoio para as suas explicações mais simples para os fenômenos observados. Fica evidente que o frei emprega o que hoje se convencionou chamar de raciocínio hipotético-dedutivo, que parte de premissas gerais, as quais orientam a busca por evidências, que auxiliarão no desenvolvimento e no aperfeiçoamento das hipóteses iniciais, por vezes levando ao descarte destas em prol de explicações alternativas.

Há outros exemplos na obra do uso e da importância da parcimônia. Quando estão perdidos no interior do labirinto que leva à biblioteca na torre do convento, frei William e seu aprendiz Adso procuram uma forma de escapar do lugar. William tenta usar o raciocínio para buscar uma saída, mas é interrompido pelo jovem aprendiz, que mostra uma solução muito mais simples - mais parcimoniosa, em um sentido quase popularesco - para o problema.

O nome da rosa é importante também por contextualizar parte da realidade do século XIV, enfatizando o controle da igreja sobre praticamente todas as formas de conhecimento, incluindo as obras heréticas e não-religiosas, que eram copiadas, comentadas e ilustradas pelos monges enclausurados. Ninguém fora dos salões e dos escritórios eclesiásticos tinha acesso ao que já se havia produzido na ciência, na teologia, na metafísica ou na política. O monopólio da igreja só começaria a perder força com a popularização da imprensa e a invenção dos tipos móveis por Johannes Gutenberg (1400-1468). Além disso, o filme mostra um debate entre escolásticos da ordem franciscana e religiosos ligados ao poder papal, enfatizando as disputas verbais típicas do período, no qual ainda se acreditava que o conhecimento viria apenas do debate racional de idéias, e não da experimentação ou da observação do mundo natural.

A obra de Umberto Eco, muito mais rica em sua versão escrita (lançada em 1980) do que na cinematográfica, é leitura recomendada. É um livro que diverte sem ser estúpido - como é o caso do execrável Código da Vinci, escrito (?) pela fraude literária que atende por Dan Brown - e a partir do qual é possível vislumbrar como foi o mundo sob a influência dominadora da Igreja durante a Idade Média, e também quais foram as pré-condições, existentes à época, que possibilitaram a revolução científica do século XV, uma das bases fundamentais para a visão de mundo dos nossos dias.

5 comentários:

João Carlos disse...

Comparar o filme ao livro, já foi um pecado venial grave!... (Como penitência, sugiro a leitura de "A Ilha do Dia Anterior" - este, sim, um compêndio sobre o que passava por "ciência" no Medievo)

Mas, comparar com Dan Brown???!!! O fantasma de Jorge de Burgos não vai lhe dar sossego!

Charles Morphy disse...

Hehehe...
Disse isso porque já ouvi a comparação do Nome da Rosa com o Código da Vinci... inclusive em um desses programas sobre literatura "Se você gostou do livro do Umberto Eco, leia também o do Dan Brown".
Acredito que assistir ao filme possa ser uma primeira aproximação do interessado no assunto. Fiz isso em alguns cursos sobre filosofia da ciência e epistemologia, com resultados variados. Mas toda a experiência cinematográfica é facilmente superada logo de cara pela leitura do primeiro capítulo da obra, com a estupenda exposição sobre o método hipótetico-dedutivo do frei William aos monges assustados à procura do cavalo desaparecido...

Sarah Oliveira disse...

Muito legal este ensaio, assim como todos os outros.
Um estímulo para quem ainda não leu o livro.
Você poderia aproveitar a sessão cinema e escrever sobre alguns documentários de divulgação científica, cujos autores são bons escritores (Richard Dawkins e Carl Sagan).
Parabéns!

Anônimo disse...

Estava escrevendo sobre a influência de Aristóteles na cultura ocidental (até aos dias de hoje)...por mera curiosidade procurei no google "nome da rosa" e aristoteles e caí direto no seu artigo.
Muito bom, pois desperta o interesse em quem nem leu o livro nem viu o filme.
Vale a pena lembrar a homenagem que Eco faz a Doyle com seu franciscano detetive e correspondente discípulo.

I LOVE YOU disse...

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