sábado, 6 de março de 2010

Apenas humanos

“(...) as teorias científicas são interpretações daquilo que percebemos e acreditamos existir no mundo dos fenômenos naturais. O mundo não oferece, de maneira clara, perceptível e inequívoca, os elementos necessários para que possamos compreendê-lo. Nenhuma teoria científica pode se pretender capaz de reproduzir integral e fidedignamente os fenômenos naturais. Toda e qualquer teoria científica, independendo do seu domínio de aplicação, é uma representação da natureza.”
Antonio Augusto Passos Videira (2000), Departamento de Filosofia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

“(...) todos os que deliberam sobre um caso duvidoso devem ser isentos de ódio, de amizade, de ressentimento e de compaixão: aquele obnubilado por essas prevenções tem muita dificuldade de discernir a verdade, e nunca alguém serviu ao mesmo tempo sua paixão e seus interesses. Se vosso espírito é livre, ele pode tudo. Se a paixão o possui, ela domina, e a inteligência nada mais pode.”
Caio Júlio César (5 de dezembro de 63 a.C.), imperator e ditador vitalício de Roma

A linguagem da ciência, como qualquer produto do intelecto humano, é mais do que apenas uma replicação do mundo. Em seu bojo, ela traz objetivos, intenções, desejos e conhecimentos prévios, que partem da premissa de que os discursos dos cientistas sobre a natureza – suas teorias – devem estabelecer diretamente relações de correspondência com a natureza sendo descrita. Assim, os conceitos utilizados pela ciência referem-se ao mundo. Nos últimos tempos, em algumas de minhas aulas ou em correspondências de alunos e curiosos, tenho sido reiteradamente perguntado se acredito que o ponto de vista científico é capaz de explicar a realidade. Minha resposta não poderia ser outra: sim. No entanto, isso não significa dizer que apenas o discurso científico é capaz de expressar o assombro dos homens perante a natureza, em suas mais diferentes manifestações. Além disso, qualquer cientista no século XXI sabe que nossa espécie apenas engatinha na tentativa de compreender o que observamos à nossa volta.


Não conhecemos detalhadamente a constituição de grande parte do universo. Há questões fundamentais pairando sobre assuntos tão díspares quanto a constituição da matéria escura, como se formam buracos negros, se existem “buracos de minhoca”, qual o discreto charme das partículas elementares, como são as interações entre as forças (fraca, forte, gravitacional e eletromagnética) na sua totalidade, se as supercordas compõem o tecido do cosmo, como se parecem os multiversos, onde e como nascem as estrelas... O quadro não se torna muito mais claro quando ao nos aproximarmos do que nos parece mais tangível. Temos várias hipóteses para explicar a origem da vida, muitas delas plausíveis (algo indesejável, uma vez que apenas uma dessas teorias pode estar correta). Qualquer um que acompanha a literatura técnica sabe que existem diversas reconstruções possíveis sobre como se deu a evolução das espécies desde a aurora dos seres vivos. Ainda não compreendemos o que nos estimula a amar e odiar, o que causa a empatia entre pessoas, quais os fatores que possibilitaram o desenvolvimento do nosso complexo comportamento social. Sabemos muita coisa, o que é pouco (pouquíssimo) perante a grandeza de um universo com no mínimo 15 bilhões de anos de idade. O Homo sapiens é uma espécie nova, perdida, cheia de medos e dúvidas, muitas das quais dificilmente serão respondidas antes da nossa extinção.


Cientistas estão à procura de evidências. Richard Dawkins, em sua entrevista na Feira Literária de Paraty (no Rio de Janeiro), ano passado, disse que, se confrontado com Deus (na possibilidade de que ele exista) às portas do céu (ou do inferno?), ele diria algo como “Desculpe-me, Deus, mas simplesmente não havia evidências suficientes”. Para a ciência, testemunhos não são evidências fortes, por vezes nem mesmo sugerem possíveis caminhos a se percorrer para a resolução de algum problema. Válidos nos tribunais, testemunhos pouco podem fazer no contexto do escrutínio científico. A ciência deve ser falseável e repetível e observadores independentes precisam chegar aos mesmos resultados previstos na hipótese inicial. Argumentos de autoridade, baseados exclusivamente na presumida experiência dos envolvidos, devem ser extirpados do discurso científico como tumores malignos. Na biologia, a questão da autoridade imiscuiu-se em áreas de pesquisa tão importantes quanto a taxonomia tradicional, com resultados vexatórios. Em “Biologia, uma ciência única” (publicado no Brasil em 2006), o ornitólogo Ernst Mayr escreveu que a teoria da tectônica de placas não causara grande impacto nas ciências biológicas. Um dos grandes evolucionistas do século passado e dispersalista confesso, com enorme dificuldade em aceitar que os continentes nem sempre estiveram na posição em que se encontram no presente, Mayr simplesmente desconsiderou quase 100 anos de pesquisa geológica e de evidências cumulativas que corroboram a hipótese inicial de Alfred Wegener (1880-1930), um dos primeiros defensores abertos da deriva continental. Mayr também nunca aceitou a sistemática filogenética de Willi Hennig (1913-1976). Por maior que tenha sido a contribuição do velho ornitólogo para a teoria da evolução, utilizar de argumentos de autoridade, tão refinados quanto “eu sei e você não”, é procedimento anticientífico. Com eles, corremos o risco de manipulações, falta de coerência, vaidade excessiva ou mesmo de incorrermos em falhas inconscientes (nem por isso menos irrelevantes).

Há inúmeros relatos de testemunhos de OVNIs, estátuas que choram sangue ou lágrimas verdadeiras, aparições de santos, espíritos, fantasmas, ou milagres. Muitos – talvez a grande maioria, como aponta Carl Sagan em “O mundo assombrado por demônios” (publicado no Brasil pela primeira vez em 1996 e ainda em catálogo) – são frutos de fraudes explícitas. Outros não. Alguém que passou por alguma dessas experiências aparentemente inexplicáveis pode se perguntar: "Como assim? Eu VI essas coisas!". Será mesmo? Nossas observações nunca são livres de hipóteses prévias. Muitas vezes, vemos apenas o que queremos, ou o que o entorno nos sugere. Pessoas em grupos de religiosos (ou fanáticos torcedores de futebol ou amantes da arte ou seguidores de uma tendência política ou cientistas em um congresso de sua área) tendem a adotar linhas de pensamento mais ou menos semelhantes. Como dito acima, comportamentos como o de manada, em que todos correm para o mesmo lado como búfalos fugindo de leões, nem sempre surgem a partir de elucubrações conscientes.

E curas milagrosas? O sujeito entra enfermo em uma igreja e sai um maratonista, pleno de saúde. Descontados a pletora de charlatões em busca de cinco minutos de fama ou de cinco notas de dez, como se explica esse tipo de coisa? Não me atrevo a responder, uma vez que minha área de atuação não é essa. No entanto, ainda não compreendemos as reais capacidades do nosso cérebro. É conhecido o efeito placebo, quando medicamentos sem princípio ativo – compostos de farinha ou apenas água – acabam funcionando. Nosso corpo tem acentua
da capacidade de auto-reparo, o que pode ser potencializado por processos fisiológicos ainda não conhecidos. É comum, por exemplo, adoecermos quando nosso estado de espírito não está exatamente festivo, assim como não é incomum nos sentirmos bem fisicamente quando estamos tranqüilos ou nos sentimos realizados. Evidência do sobrenatural? Não.Nesse contexto, ouvem-se de, maneira recorrente, certas opiniões a respeito de pacientes “desenganados” pela medicina, ou que foram comprovadamente curados após uma levada de cantorias no momento exato em que Jesus Cristo se fez presente no tablado do templo. Para alguns, dizer que algo foi “provado” pela medicina dá ao fato uma aura de segurança e confiabilidade que é ingênua. Na ciência, nada é provado, apenas corroborado momentaneamente. Quanto mais vezes uma hipótese ou teoria se mostra correta, maior o seu poder explanatório e sua capacidade de previsão, o que absolutamente não significa que ela foi provada. Médicos no geral não são bons cientistas. Muitos são crédulos, outros ignorantes. Na minha concepção pessoal, o rótulo "desenganado pela medicina” significa tanto quanto “relógio à prova d’água”. Conto um caso que aconteceu comigo apenas como ilustração divertida: certa vez, fui a um hospital especializado em ortopedia na cidade de Ribeirão Preto-SP. Havia quebrado o dedo indicador da mão esquerda. O sujeito, experiente, observou minha mão, viu meu dedo mindinho (que é torto por natureza, como o do meu pai) e falou: "É, vamos precisar mesmo operar esse seu dedo quebrado...". Mostrei para ele o outro dedo, arroxeado: "O dedo quebrado é esse". O sujeito (repito, um médico de um centro avançado de ortopedia!) ficou bastante encabulado... A maioria dos médicos segue fórmulas e, quando a situação foge ao seu conhecimento restrito, sempre é mais fácil apelar para o imponderável e o desconhecido.

A meu ver, o sobrenatural não é apenas algo ainda incompreendido. Antes da história escrita, ou mesmo nos seus primórdios, acreditava-se que a chuva, os trovões, os raios e os outros fenômenos da natureza eram demonstrações da atividade dos deuses (portanto, "sobrenaturais"). Hoje ninguém mais pensa assim. Há infinitos exemplos como esse.

Não acredito em milagres ou na intervenção divina sobre o homem. Existem questões teológicas muito, muito profundas nesse ponto. Santos são apenas criações humanas (o papa Bento XVI já canonizou mais de dez pessoas durante o seu papado), assim como a tal infalibilidade do papa. As igrejas evangélicas baseiam-se em interpretações humanas sobre textos escritos pelo homem (e apenas por ele) - a Bíblia é cheia de incoerências e incorreções e tem sua raiz em textos muito mais antigos que ela.

Somos todos humanos. Dessa forma, criamos deuses, milagres e lugares inatingíveis pra aplacar um pouquinho da nossa insignificância.

Referências

- Chalmers, A.F. 1993. O que é ciência, afinal? Editora Brasiliense, São Paulo.
- Dawkins, R. 2001. O relojoeiro cego. Companhia das Letras, São Paulo.
- El-Hani, C.H. & Videira, A.A.P. 2000. O que é vida? Para entender a Biologia do Século XXI. Relume Dumará, Rio de Janeiro.
- Mayr, E. 2006. Biologia, ciência única. Companhia das Letras, São Paulo.
- Nelson, G. & Platnick, N. I. 1981. Systematics and biogeography: Cladistics and vicariance. Columbia University Press, New York.
- Sagan, C. 1996. O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. Companhia das Letras, São Paulo.
- Schmidt, J. 2006. Júlio César. Editora L&PM, Porto Alegre.

14 comentários:

Gilberto Miranda Jr. disse...

Gostaria de te dar os parabéns para esse artigo. Muito beme scrito e argumentado. É bom acompanhar o pensamento de quem está envolvido diretamente na atividade científica. Embora eu não seja um "cientista", em minha área (Filosofia) é impossível analisar a ciência sem essa estreita ligação com as pessoas que estão, em seu dia a dia, embrenhadas na prática honesta dessa atividade. Parabéns...

Se puder dar uma olhadinha em meu log, tenho alguns artigos sobre epistemologia que podem te interessar e reforça muitas das posições que você defende em seu artigo.

Abraços

Gilberto

Fernando disse...

Uhhuuulll atualização... hahuahuahua tava na hora hein, doutor

Charles Morphy disse...

Caro Gilberto,
Obrigado pelo comentário! Visitei seu blog e gostei do que vi. Prometo passar por lá constantemente!

Caro Fernando,
As atualizações demoram mas chegam!

Abraços

Well disse...

Excelente Post...A ciência, mais do qualquer outra atividade humana, nos dá idéia do quanto somos pequenos...Apenas Humanos

PS: Referências = lista de livros para ler =]

Drica Bonaldo disse...

Pois é, prof. Charles. Apesar das incongruências relativas à criação & acaso/evolução, a VIDA é pura elegância, sem nenhum “projeto inteligente” (assim acredito), que nos enche de curiosidade e admiração nesse mundo assombrado por demônios bem conhecidos – ignorância, preguiça de pensar, insensatez, fanatismo religioso e estupidez. Sagan sempre soube o que dizia!!!

Um forte abraço
Adriana A. Bonaldo

Charles Morphy disse...

Caros Well e Adriana,

Obrigado pela visita e pelos comentários. Para mim, Carl Sagan é um clássico autor de divulgação - mais do que isso, ele foi um grande popularizador do espírito científico. Seria fantástico se mais gente tivesse acesso às suas palavras, que poderiam funcionar como estimúlo para outras leituras e outros questionamentos... Apesar dos problemas, sigo com esperanças!
Abraços

Rafael Tadeu de Matos Ribeiro disse...

Quero parabenizá-lo pelo artigo e pelo blog em geral. Fantástico.
Sobre um dos autores que você citou, Antônio Augusto Passos Videira, eu li um livro de autoria dele do qual gostei muito: "Henrique Morize e o Ideal de Ciência Pura", pela editora FGV. Incrível o livro.
A propósito, conheça meu blog de educação/divulgação científica, ciências exatas/naturais e estudos epistemológicos. Há um artigo com uma temática bastante semelhante a essa que você abordou.
O endereço é:
www.imperativocientifico.blogspot.com
Abraços!

Dedalus disse...

Caro Charles,

"Somos todos humanos. Dessa forma, criamos deuses, milagres e lugares inatingíveis pra aplacar um pouquinho da nossa insignificância." E há ainda a maior criação de todas, uma ficção de quatro letras, quatro letrinhas que nem cabem num texto que se quer quase científico...

Um abraço!

Charles Morphy disse...

Caro Dedalus,
Não só é a maior criação de todas como talvez seja o eixo que nos sustenta nesse planeta... da ciência que fazemos à música que compomos, dos deuses que louvamos ao crime que cometemos, parece-me que tudo é feito tendo em mente essa ficção...
Abraço!

Suzuki disse...

Muito bom. Muito bom mesmo!

Charles Morphy disse...

Cara Srta. Suzuki,

Obrigado pelos comentários!
Continue visitando o blog. As atualizações às vezes demoram mas sempre aparecem...

Anônimo disse...

Somos as coisas insignificantes mais raras já vistas!!Devíamos aprender a preservar tamanha insignificância para que um dia isso ganhe o significado de importância que temos.

Podemos ser uma medida pequena mas tão pequena perante o universo que é contraditório pensar o quanto somos capazes de medir este nosso significado em tão pouco tempo de existência humana.

Medições em todos os seus sentidos de entendimento e funcionamento do Universo.

Uma façanha que só os humanos conseguiram que até deviam criar sua idiossincrática assinatura:


Somos apenas humanos.



É isso ae Morphê, Parabéns pelo texto! Continue escrevendo ..que suas pequenas palavras podem ter conseqüências astronômicas!!



Um grande abraço,

Anônimo disse...

Só por curiosidade posso chutar o que seriam as 4 letrinhas do comentário do Caro Dedalus??Será que é o que penso agora??

Poderia fazer uma sopa dessas 4 letrinhas que constituem o palimpsesto da vida e nunca deixar acabar esta ficção..


A-T-G-C??!!


Se bem que pode ser tantas outras combinações de 4 letras.. que acho melhor ficar a imaginação de cada um.rs.

Anônimo disse...

Caro Charles,
há alguns anos um professor de evolução entrou em minha turma e afirmou que para ele era inconcebível estar diante de futuros biólogos que acreditassem em Deus. Hoje, já formada, continuo tendo a mesma opinião sobre este assunto, o qual recordei-me após ler seu texto. Para mim, toda e qualquer religião tem suas falhas, assim como a própria ciência. Ter religiosidade, é completamente diferente. As experiências de vida de cada ser humano jamais poderão ser vividas por outro, sendo assim, é impossível, por exemplo, que eu convença você a ver o mundo sob minha óptica.
Concordo que a humildade paira na dúvida e tentar encontrar respostas, mesmo que por vezes sejam verdades momentâneas, é o que nos impulsiona no mundo da pesquisa. Por isso mesmo acho fascinante que seu ponto de vista, em alguns aspectos diferente do meu, também possa ser colocado em dúvida.
Parabéns pelo seu texto, muito bem escrito!