quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Pseudo-ciência e as intenções do Design Inteligente

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As pessoas vão se agarrando às cegas a tudo que existe: comunismo, comida natural, zen, surf, balé, hipnotismo, encontros grupais, orgias, ciclismo, ervas, catolicismo, halterofilismo, viagens, retiros, vegetarianismo, Índia, pintura, literatura, escultura, música, carros, mochila, ioga, cópula, jogo, bebida, andar por aí, iogurte congelado, Beethoven, Bach, Buda, Cristo, heroína, suco de cenoura, suicídio, roupas feitas à mão, vôos a jato, Nova York, e aí tudo se evapora, se rompe em pedaços. As pessoas têm de achar o que fazer enquanto esperam a morte.
Charles Bukowski (1978)
Em aulas ou palestras, já me perguntaram várias vezes se acredito na existência de um designer inteligente. Sempre respondo que sim a esse questionamento, afinal, minha mulher é designer E inteligente… 

O Design Inteligente foi uma tentativa, até agora frustrada, de grupos religiosos inserirem o "criacionismo científico" no ensino de ciências dos EUA. O movimento foi criado no final dos anos 1980, não por cientistas, mas por um advogado, Phillip Johnson, professor de direito em Berkeley (um sujeito que, além de não aceitar a evolução, também negava que o HIV era o causador da AIDS). É uma pilha de contradições, não se fundamenta em evidências e todos os seus frágeis argumentos foram desconstruídos sem muito esforço nas últimas décadas. Não obstante, tem sido muito mais utilizado no discurso de políticos e líderes religiosos do que por quem trabalha com teoria evolutiva e áreas afins.

Após a publicação do seu magnum opus - On the origin of species by means of natural selection, or the preservation of favoured races in the struggle for life - em 1859, Charles Darwin (1809-1882) e seus contemporâneos iniciaram a maior revolução científica de todos os tempos, levando à uma mudança radical do conceito que o homem fazia de si mesmo e do mundo natural. Mesmo hoje, mais de um século e meio após a primeira edição do Origin ter esgotado rapidamente nas livrarias britânicas, as controvérsias ainda ressoam. No entanto, nas ciências, há pouquíssimas vozes discordantes da realidade da evolução (quando existem, são apenas retórica carregada de intenções sub-reptícias). 

Evolução é um fato. O mundo natural não é estático e sim o produto contínuo de mudanças, sejam elas graduais ou aceleradas, que vêm acontecendo desde a origem da vida na Terra há quatro bilhões de anos.

Após o Origin e a delimitação de uma área das ciências naturais chamada Biologia Evolutiva, verificou-se uma série de implicações muito claras. O livro de Darwin e seus comentários e refinamentos subsequentes colocaram fim à uma visão de mundo calcada explicitamente no fixismo criacionista, substituindo-a por uma natureza dinâmica, plena de variações por toda a sua história. O mecanismo discutido por Darwin, a seleção natural, não deu qualquer importância à forças sobrenaturais intangíveis. Ele é capaz de explicar a diversidade biológica através de um processo materialista baseado na interação entre variação pré-existente e sucesso reprodutivo. Com isso, os deuses tornaram-se tão obsoletos quanto os papiros ou a fita cassete! Como corolário à ideia de que todos os organismos derivam de ancestrais comuns por um processo contínuo de ramificação - dessa forma, a ancestralidade comum conecta o mundo orgânico - completou-se a revolução iniciada com Copérnico, retirando as poucas justificativas ainda existentes para um antropocentrismo absoluto. O Homo sapiens, após Darwin, não é mais do que um galhinho na imensa árvore da vida, com seus quase um bilhão de ramos, consideradas as espécies recentes e extintas.

Obviamente, o materialismo evolutivo não é contrário aos deuses, simplesmente porque estes não são objetos de estudo científico e, portanto, não podem ser interpretados à luz do raciocínio lógico preconizado pela teoria da evolução. Parafraseando a lendária resposta do astrônomo Pierre-Simon Laplace, deus é uma hipótese irrelevante para a biologia, assim como é irrelevante também para as demais ciências naturais. O paleontólogo norte-americano Niles Eldredge (1943– ), em seu livro O triunfo da evolução e a falência do criacionismo (publicado no Brasil em 2010), sintetiza de forma brilhante a nossa impossibilidade de experimentar diretamente, através dos nossos sentidos, o sobrenatural divino. Para ele, “(...) no empreendimento chamado ciência, não há afirmação ontológica de que não exista um Deus (...), mas sim um reconhecimento epistemológico de que, mesmo se esse Deus realmente existisse, não haveria como experimentá-lo, apesar dos meios impressionantes, embora ainda limitados, que estão à disposição da ciência”.

O Design Inteligente é um conjunto de afirmações sem sentido que tenta, a todo custo, mudar esse quadro. Eles postulam algo chamado criacionismo científico, uma contradição absoluta. Essa pseudo-ciência, tão válida quanto a ufologia, a astrologia e a saúde quântica, baseia-se na existência de uma certa "complexidade irredutível" nos sistemas biológicos, que os impediria e terem se originado por etapas através de um mecanismo lento e gradual como o da seleção natural. Como a evolução gradualista não seria possível, nas palavras dos proponentes e defensores do movimento, toda a vida no planeta teria que ser obra de um designer ou projetista que tivesse pensado, a priori, no encaixe perfeito entre todos os componentes constituintes dos sistemas biológicos. É a retomada da Teologia Natural, anterior à Darwin, segundo a qual as relações entre as partes orgânicas dos seres vivos e entre estes no ambiente seriam evidência irrefutável para um deus interventor responsável por toda a criação.

Para o bioquímico Michael Behe, da Universidade de Lehigh, autor do famigerado (e cientificamente canhestro) A caixa preta de Darwin, o funcionamento de uma estrutura como o flagelo de uma bactéria, responsável pela sua movimentação, estaria tão finamente relacionado a diferentes microestruturas e processos bioquímicos, que só poderia ter sido fruto de um planejamento prévio feito por alguém (ou algo) de inteligência inescrutável. O conceito de Behe revela nada mais do que a formação acadêmica capenga do seu autor. A literatura especializada traz muitos exemplos de precursores do flagelo que de fato tem “partes faltantes” (ao menos quando comparados ao sistema irredutível apresentado por Behe) e, ainda assim, plenamente funcionais.

Behe fala de outras estruturas, como o olho, também inexplicáveis para ele dentro de uma perspectiva evolutiva. No seu entendimento torto da natureza, nossas estruturas fotorreceptoras não poderiam ter surgido "por partes", uma vez que seriam sistemas irredutivelmente complexos. Se retirássemos quaisquer dos seus componentes, todo o sistema colapsaria e perderia funcionalidade. Bobagem! Existem olhos muito menos complexos, diferentes dos nossos, que funcionam e garantem a sobrevivência dos seus portadores (basta nos lembrarmos de planárias e seus ocelos “vesgos”). No mais, existem espécies com acuidade visual muito maior que a do Homo sapiens, o que refuta a hipótese de que somos o ápice da evolução. 

A questão do surgimento dos olhos nos animais é interessante. O gene Pax6 (referido como Eyeless em moscas, Aniridia em humanos e Small eyes em camundongos) está presente em todas as espécies portadoras de olhos ou ocelos, não apenas nos mamíferos mais derivados. Esse gene é capaz de induzir a formação de estruturas fotorreceptoras e exerce funções diferentes quando expresso em outros tecidos. Assim, vertebrados e insetos compartilham o mesmo gene fundamental e pelo menos parte das sequências de desenvolvimento que levam à expressão dos olhos, o que indica um alto grau de conservação evolutiva.

Estima-se que nos animais o início da diversificação de genes como o Pax6 deu-se no período Cambriano, há cerca de 520 milhões de anos. Muitos dos sistemas gênicos que surgiram nesse período são, hoje, compartilhados por diferentes grupos animais. Esses e outros exemplos podem ser encontrados em livros de ampla divulgação como o Infinitas formas de grande beleza, de Sean Carroll (de 2006) e O maior espetáculo da Terra, de Richard Dawkins (de 2009), ou ainda na internet. Aqui, e em qualquer outro tópico relacionado à biologia evolutiva, não há necessidade alguma de apelar para explicações sobrenaturais ou pseudo-científicas como fazem os defensores do Design Inteligente.

Em suma, não existem sistemas de complexidade irredutível porque os atributos biológicos que surgem e se disseminam são locais, baseadas na relação entre os portadores desses atributos e o ambiente no seu entorno. Algo que garanta altas taxas de sobrevivência e reprodução em um período, se modificadas as condições do entorno e as pressões seletivas, pode se tornar um entrave à perpetuação dos descendentes tempos depois. O Design Inteligente parte da premissa burra de que tudo o que existe no mundo natural é perfeitamente ajustado. Evolução, no entanto, não diz respeito à perfeição, e sim ao que funciona.


Alguém poderia dizer que os “teóricos” do Design Inteligente, assim como os “teóricos” dos alienígenas do passado (ou do Antigo Astronauta), têm todo o direito de se expressar. Isso é óbvio. O que é temerário não é a existência de panfletos defendendo a realidade de um projetista para a vida ou encontros de “pesquisadores” sobre o tema. O que não se pode é misturar maçãs e laranjas: o Design Inteligente NÃO é ciência e, portanto, NÃO deve ser ensinado como tal. Ele não é uma explicação alternativa à teoria evolutiva. O Design Inteligente é retórica criacionista, uma forma de introduzir o literalismo bíblico nas aulas de ciências, que deveriam ter por objetivo permitir aos estudantes discutir e examinar evidências científicas utilizadas para compreender o mundo natural.

Quem entraria em uma padaria para encher o tanque do seu carro? Ou procuraria na loja de materiais de construção por um maço de alface? É muito simples: se não é ciência, não deve ser ensinado ou discutido como ciência. Não existem artigos sobre Design Inteligente publicados em revistas confiáveis - aquelas que passam por um processo de revisão por pares -, nem experimentos ou observações capazes de testar as premissas dessa pseudo-ciência.

Se alguém imagina que o criacionismo judaíco-cristão deva ser ensinado em aulas de ciências, que defenda também o ensino dos mitos de criação indígenas, dos vikings e o Pastafarianismo, além de todas as mais de 6.000 crenças religiosas existentes no planeta. Foi mais ou menos esse o argumento levantado por Bobby Henderson em 2005. Ele era um estudante de física da Oregon State University, nos EUA, e mandou uma carta aberta ao conselho de educação do estado do Oregon, que discutia a possibilidade de incluir o Design Inteligente no currículo escolar. Sua carta é um estupendo exemplo de ironia e sarcasmo (faço aqui uma tradução livre. O original pode ser encontrado em http://www.venganza.org/about/open-letter/):

“Estou muito preocupado após ouvir a respeito da sua audiência para decidir se a teoria alternativa do Design Inteligente deve ser ensinada juntamente com a teoria da evolução. Penso que todos concordamos que é importante para os estudantes ouvir múltiplos pontos de vista para que os próprios possam escolher a teoria que faz mais sentido para eles. Estou preocupado, no entanto, que os estudantes ouçam apenas UMA teoria do Design Inteligente.

Vamos lembrar que existem múltiplas teorias do Design Inteligente. Eu e muitos outros ao redor do mundo aceitamos fortemente que o universo foi criado por um Monstro Espaguete Voador. Foi Ele quem criou tudo o que vemos e o que sentimos. Sentimos fortemente que as extraordinárias evidências científicas que defendem a existência de processos evolutivos não são mais do que coincidências, colocadas lá por Ele.

É por essa razão que estou lhes escrevendo hoje, para formalmente requisitar que essa teoria alternativa seja ensinada em suas escolas, juntamente com as outras duas teorias. De fato, eu iria longe o suficiente para processá-los caso vocês não concordem com isso. Estou certo que vocês estão percebendo para onde vamos. Se a teoria do Design Inteligente não é baseada na fé, mas é apenas outra teoria científica, como ela clama, então vocês devem permitir que nossa teoria seja ensinada, uma vez que ela também se baseia na ciência, e não na fé.

Alguns acham difícil acreditar por isso talvez seja útil contar-lhes um pouco sobre nossas crenças. Nós temos evidências que um Monstro Espaguete Voador criou o universo. Nenhum de nós, é claro, estávamos lá para ver, mas temos escritos que contam a respeito. Temos inúmeros volumes grossos explicando todos os detalhes do Seu poder. Ainda, vocês devem se surprender ao ouvir que há mais de 10 milhões de nós, e os números estão crescendo. Somos seletivos porque muitas pessoas dizem que nossas crenças não são apoiadas por evidências observáveis.

O que essas pessoas não entendem é que Ele criou o mundo para nos fazer pensar que a Terra é mais velha do que ela realmente é. Por exemplo, um cientista pode executar uma datação por carbono em uma amostra. Ele descobre que aproximadamente 75% do carbono-14 decaiu para nitrogênio-14, e infere que essa amostra tem cerca de 10.000 anos de idade, e que a meia-vida do carbono-14 deve ser de 5.730 anos. Mas o que nosso cientista não percebe é que, toda vez que ele faz uma medida, o Monstro Espaguete Voador está lá mudando os resultados com seus apêndices macarrônicos. Nós temos inúmeros textos que descrevem em detalhes como isso é possível e as razões pelas quais Ele faz isso. Ele é obviamente invisível e pode passar através da matéria como facilidade.

Tenho certeza que vocês agora percebem como é importante que seus estudantes sejam ensinados sobre essa teoria alternativa. É absolutamente imperativo que eles percebam que a evidência observável está a critério do Monstro Espaguete Voador. Além do mais, é desrespeitoso ensinar nossas crenças sem vestir a Sua roupa escolhida, que, claro, é um traje completo de pirata. Eu não posso mensurar suficientemente a importância disso, e infelizmente não posso descrever em detalhes porque isso tem que ser feito pois temo que essa carta já esteja ficando muito longa. A explicação concisa é que Ele fica irritado se não os fizermos.

Vocês devem querer saber que o aquecimento global, terremotos, furacões e outros desastres naturais são efeito direto da diminuição do número de piratas desde o início do século XIX. Eu incluo aqui um gráfico que mostra aproximadamente o número de piratas versus as temperaturas médias globais nos últimos 200 anos. Como podem ver, há uma relação estatisticamente significante e inversa entre o número de piratas e a temperatura global.


Para concluir, obrigado por gastarem seu tempo ouvindo nossas perspectivas e crenças. Espero ter conseguido convencê-los da importância de ensinar esta teoria para seus estudantes. Nós estaremos aptos a treinar os professores sobre ela. Aguardo ansiosamente sua resposta e espero que nenhuma ação legal precise ser tomada. Penso que todos podemos vislumbrar um dia em que, para essas três teorias, será dado o mesmo tempo nas aulas de ciência por todo nosso país e, eventualmente, pelo mundo. Um terço para o Design Inteligente, um terço para o Monstrismo do Espaguete Voador (Pastafarianismo) e um terço para conjecturas lógicas baseadas em extraordinárias evidências observáveis. 

Sinceramente,
Bobby Henderson, cidadão preocupado.

PS: Incluo um desenho artístico Dele criando uma montanha, árvores e um anão. Lembre-se, somos todos Suas criaturas.”


Para quem se interessou pelo Pastafarianismo, visite o site oficial da “igreja”: http://www.venganza.org/ 

O Design Inteligente é tão científico quanto o Monstro Espaguete Voador e não pode ser ensinado em aulas de ciências, de nenhum nível, seja fundamental, médio ou superior. Design Inteligente é uma tática desonesta que tem por objetivo tornar obrigatório aos estudantes entrarem em contato com uma visão de mundo criacionista compartilhada por um grupo, em detrimento à milhares de outras igualmente absurdas do ponto de vista científico. 

Incluir o Design Inteligente nos currículos escolares é um crime contra o Estado laico, contra a ciência e até contra a liberdade religiosa (se o sujeito é hindú, ou xintoísta, ou pastafariano, por que tem que estudar o mito de criação de uma outra religião e não da sua?). No Brasil, nada poderia ser mais inconstitucional.

As aulas de ciências são espaços próprios para se discutir a necessidade de evidências que suportem nossas afirmações. Crianças e adolescentes devem ser incitados a não acreditarem em proposições quando não existem fundamentos para supô-las verdadeiras: sem ceticismo não há alfabetização científica. Tentar impor a estudantes em formação a ideia de que um projetista foi responsável por tudo o que existe no universo é advogar abertamente a favor da irracionalidade e do obscurantismo.

Referências adicionais

Michael Behe. 1996. Darwin’s black box (no Brasil: A caixa preta de Darwin. Jorge Zahar Editor). 
Niles Eldredge. 2010. O triunfo da evolução e a falência do criacionismo. Funpec Editora.
Richard Dawkins. 2009. O maior espetáculo da Terra. Companhia das Letras. 
Sean Carroll. 2006. Infinitas formas de grande beleza. Jorge Zahar Editor.
William Dembsky & Michael Ruse. 2008. Debating design: from Darwin to DNA. Cambridge University Press.

Imagem: http://www.panicmotion.net/wp-content/uploads/2014/04/flying-spaghetti-monster-on-speed.jpg