sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Ensinando evolução através de filogenias - III

A postagem a seguir é a última parte de uma discussão iniciada aqui e continuada aqui.

A ciência está longe de ser um instrumento perfeito de conhecimento.
É apenas o melhor que temos

Carl Sagan

Filogenias e filosofia da ciência

A utilização de filogenias nas salas de aula, além de permitir a organização do conteúdo programático da biologia dentro de um arcabouço evolutivo, também levanta a possibilidade de se trabalhar conteúdos de filosofia da ciência. Pode parecer uma excentricidade incluir conceitos filosóficos em disciplinas científicas desde antes do ensino médio, mas não é. Como exposto em um trabalho publicado há cinco anos (e discutido anteriormente nesse blog):

A importância da filosofia para o ensino de ciências tem sido há muito negligenciada. Muitas das discussões de pensadores como Popper, Kuhn, Lakatos e Feyerabend permitem sugerir modelos pedagógicos que rompam com o tradicional caráter linear e atemporal do ensino, substituindo-as por uma visão mais dinâmica do processo ensino-aprendizagem.
Calor & Santos (2004, p 59)

Essa perspectiva está de acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais brasileiros para o Ensino Médio, que ratifica a importância de se apresentar as disciplinas científicas em um contexto histórico-filosófico. Isso possibilitaria aos estudantes um contato mais próximo a algumas das particularidades da produção científica. Trabalhar o ensino de ciências a partir da perspectiva de que o campo é rico justamente por conta da existência de inúmeras idéias conflitantes, uma vez que a ciência é, na sua essência, um campo aberto e dinâmico, é uma forma de introduzir os alunos ao mundo científico e de fornecer-lhes ferramentas para melhor compreenderem a realidade que os cerca. Dessa forma, o ensino de biologia passa a ser encarado como um exercício constante de avaliação e discernimento de hipóteses científicas. Não há um cânone científico que sirva de baliza ou medida de comparação – apesar encontrarmos no discurso termos como dogma central da biologia molecular, qualquer conceito nas ciências é passível de questionamento e pode ser modificado.

Infelizmente, a adoção de uma postura crítica por parte dos estudantes pouco é estimulada durante as aulas. Os docentes, no geral, não se preocupam em expor critérios que permitam avaliar hipóteses científicas ou de que forma evidências são levantas a fim de descartar ou corroborar essa ou aquela teoria.

Onde as filogenias entram nisso tudo? Como qualquer hipótese científica, filogenias são idéias a respeito de quais são as relações de parentesco entre as espécies (ou entre grupos mais inclusivos, como gêneros, famílias, etc). Elas correspondem a reconstruções sobre como pode ter sido a evolução dos grupos considerados e estão sujeitas à corroboração ou refutação de acordo com evidências adicionais. Uma vez que teorias científicas são transitórias, as filogenias, por mais que sejam baseadas em grandes conjuntos de dados, nunca representam cenários conclusivos sobre a história evolutiva.

Ao apresentar o conhecimento científico como dinâmico e não absoluto no contexto das filogenias, o professor é capaz de trazer a filosofia da ciência para dentro da sala de aula, especialmente sobre a natureza transitória das teorias e a importância do criticismo em relação aos métodos e hipóteses. Os alunos são estimulados a utilizar a argumentação para escolher entre hipóteses rivais, ultrapassando a mera assimilação de conteúdos conceituais e factuais. Por exemplo, quais evidências sustentam a hipótese de que as aves são, na verdade, dinossauros? Por que essa idéia é mais informativa do que pontos-de-vista tradicionais, que traziam as aves como um grupo distinto dos répteis? Tomemos o grupo conhecido como celenterados, que reúne cnidários e carambolas-do-mar (ctenóforos). Por que não se pode, a partir do conhecimento atual sobre esses animais, defender a existência desse grupo? Além de fornecer respostas embasadas fortemente na teoria evolutiva, as filogenias levantam novas questões, o que está de acordo com o pensamento de Theodore Sturgeon (1918-1985): faça a próxima pergunta, sempre.


de http://store.xkcd.com/xkcd/#StandBackScience

É preciso deixar claro que a abordagem aqui proposta exige do professor um conhecimento adequado das bases da sistemática filogenética e das suas implicações – informações a esse respeito podem ser encontraras na internet ou em livros-textos de ampla circulação. É importante evitar caricaturas e simplificações demasiadas (mesmo que não se vá aplicar em sala de aula o método filogenético). Como em qualquer área do conhecimento, leitura e atualização constantes, incluindo consultas a obras, compêndios e sites confiáveis sobre os tópicos estudados, são de grande importância para que os professores tornem-se cada vez mais refinados na sua argumentação.

O objetivo central das propostas aqui apresentadas é o de permitir que os estudantes de ciências sejam participantes ativos do mundo científico, não apenas receptores passivos de teorias prontas e inquestionáveis. Alunos de ciências precisam ter desenvolvida a sua capacidade de criticar conceitos e hipóteses sob a luz da metodologia científica, minimizando, assim, suas próprias concepções errôneas.

Alguém pode se levantar na platéia e gritar: “Mas estudantes ainda não são cientistas!”. Isso é parcialmente verdade. No entanto, os alunos não precisam ser tratados como pesquisadores no sentido estrito para que seja trabalhada a ênfase no desenvolvimento de espírito crítico. O cerne da proposta é possibilitar aos alunos visualizar problemas evolutivos reais através de filogenias, além de muni-los das ferramentas metodológicas necessárias para a comparação entre hipóteses alternativas que explicam problemas derivadas da análise de diagramas ramificados, aproximando-os da epistemologia e da prática científica.

O físico italiano Enrico Fermi (1901-1954) certa vez disse que nunca deve ser subestimado o valor de se ouvir a mesma coisa repetidas vezes. Por isso, repito: o uso de filogenias como base para as aulas, além de solucionar interpretações incorretas sobre a teoria evolutiva, ajuda os professores e alunos a compreender a evolução como um processo histórico profundamente atuante na história da vida. Além de filosoficamente profunda, a apresentação da diversidade biológica através de filogenias é uma maneira elegante de enxergar as maravilhas da natureza.

Bibliografia sugerida
Gregory, T. (2008). Understanding Evolutionary Trees Evolution: Education and Outreach, 1 (2), 121-137 DOI: 10.1007/s12052-008-0035-x
Lombrozo, T. & Thanukos, A. & Weisberg, M. 2008. The importance of understanding the nature of science for accepting evolution. Evolution, Education and Outreach 1:290–298.
Santos, C.M.D. & Calor, A.R. 2007. Ensino de biologia evolutiva utilizando a estrutura conceitual da sistemática filogenética - I. Ciência & Ensino 1, 1-8.
Santos, C.M.D. & Calor, A.R. 2007. Ensino de biologia evolutiva utilizando a estrutura conceitual da sistemática filogenética - II. Ciência & Ensino 2, 1-8.
Santos, C.M.D. & Calor, A.R. 2008. Using the logical basis of phylogenetics as the framework for teaching biology. Papéis Avulsos de Zoologia 48, 199-211.
Thanukos, A. 2008. Bringing homologies into focus. Evolution, Education and Outreach 1:498–504.

2 comentários:

Jerzy disse...

Olá, Charles,

Então, sou o André que está fazendo doutorado aqui na UFSC sobre essencialismo vs. espécies são indivíduos. (É que resolvi atualizar meu perfil do blogger, colocando meu nome verdadeiro heheheh)

Obrigado por suas considerações sobre o PhyloCode. Quanto à minha tese, planejo defender em meados de 2010, mas talvez essa data acabe se transformando em "fim de 2010".

Bem, gostaria de continuar a discussão e te informar um pouco melhor sobre meu argumento, mas para isso acharia melhor estabelecer um contato por e-mail. É possível?

Abraço,
Jerzy

Charles Morphy disse...

Caro Jerzy,
Sim, podemos manter contato por e-mail!
Ficarei aguardando sua mensagem.
Abraço!