terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Desconstruindo Darwin

Esse texto foi publicado no número 3 da revista Biosferas (da Unesp-Rio Claro), uma edição especial em comemoração aos 150 anos do Origem das espécies.

Desconstruindo Darwin


Os manuscritos do mar Morto foram escritos entre o século III a.C. e o I d.C. Eles formam uma coleção de pergaminhos descobertos entre 1947 e 1956 em uma caverna em Israel. Em um deles, o escriba comentou: "Não existe nenhum homem capaz de contar a história inteira". Essa frase se encaixa perfeitamente na idéia que temos sobre a história do desenvolvimento da teoria evolutiva. Apesar de sua incomparável importância para o pensamento humano, o naturalista britânico Charles Darwin (1809-1882), nascido há exatos 200 anos, não é o único nome que deve ser lembrado quando discutimos evolução. Da mesma forma, referir-se ao evolucionismo apenas como darwinismo desconsidera uma série de autores essenciais para a história da biologia.

A obra seminal de Darwin é o "Sobre a origem das espécies", publicado em 1859. Nele podem ser identificadas pelo menos cinco diferentes teorias, todas elas compondo o corpo principal de um amplo projeto de pesquisa, o evolucionismo darwiniano. Nenhuma dessas cinco teorias é original de Darwin, nem mesmo a idéia de seleção natural como o mecanismo responsável pela diversificação das espécies.

A primeira das teorias baseia-se na concepção de que o mundo vivo não é estável e imutável como imaginava Aristóteles e grande parte dos religiosos que adotaram a visão de mundo desse filósofo grego. Darwin sustenta que a natureza está em um processo contínuo de transformação no tempo e que os organismos não foram criados por uma entidade sobrenatural. Essa idéia não é darwiniana: Jean Baptiste Lamarck (1744-1829) já falava sobre o transformismo das espécies, assim como Robert Chambers (1802-1871) no seu “Vestígios da história da criação”, de 1844, e George Louis de Buffon (1707-1788). Esse último, em sua obra longa e multifacetada “História Natural”, dizia que o centro de origem das espécies teria sido a Europa. A partir de dispersões para outras áreas, como o continente africano e a América do Sul, as espécies originais se degeneraram (ou seja, pioraram), dando origem a novas espécies.

Como complemento à concepção de uma natureza em processo constante de modificação no tempo, segundo outra das teorias presentes no “Origem”, o processo de descendência com modificação seria lento e gradual, não ocorrendo saltos para a origem de novos tipos. Dessa forma, as descontinuidades encontradas no mundo natural seriam meramente exceções – a inexistência de muitas formas intermediárias fósseis, por exemplo, refletiria apenas a imperfeição do registro paleontológico.

Darwin ainda apontou que as populações de qualquer espécie apresentam inúmeras variações. Os gatos (Felix catus) não são todos idênticos, assim como as moscas Drosophila melanogaster ou os diferentes Homo sapiens. Qualquer pessoa com um senso mínimo de observação da natureza pode perceber que essa idéia levantada por Darwin é óbvia, ainda que importantíssima no contexto da teoria evolutiva.

Uma das premissas revolucionárias do "Origem" é a hipótese de que todos os organismos encontrados na natureza compartilham um ancestral comum em algum nível hierárquico. Isso significa que, dadas quaisquer duas espécies (por mais distantes que sejam, como uma planária e um tiranossauro), elas sempre terão um ancestral em comum – mesmo que ele tenha vivido há centenas de milhões de anos. Esse é o raciocínio genealógico aplicado à compreensão das relações entre as espécies. A idéia de ancestralidade comum destrói qualquer pretensão humana em ocupar uma posição privilegiada na natureza: nossa espécie corresponde apenas a um raminho na imensa árvore evolutiva que reúne todas as milhões (bilhões?) de espécies existentes desde a origem da vida, há cerca de 3,8 bilhões de anos. Ainda no século XVIII, Buffon já havia tratado de ancestralidade comum.

Apesar da importância fundamental dessas quatro teorias para a concepção de evolução, o “Origem das espécies” é lembrado principalmente por trazer, de forma detalhada, a descrição do mecanismo pelo qual as espécies se modificariam no tempo, a seleção natural. Partindo dos trabalhos do economista britânico Thomas R. Malthus (1766-1834) com populações humanas, Darwin percebeu que, como deveriam ser produzido mais indivíduos do que os recursos disponíveis permitiriam – uma vez que a capacidade de reprodução dos organismos é alta – deve existir algo como uma luta pela existência entre os indivíduos das populações, resultando na sobrevivência de apenas parte dos filhotes de cada geração. O que define a sobrevivência ou não de um indivíduo é sua constituição hereditária. A esse processo de sobrevivência diferencial Darwin deu o nome de seleção natural. No correr das gerações, a seleção natural conduziria a uma mudança gradual e contínua das populações, isto é, à evolução e origem de novas espécies.

Charles Darwin foi o "descobridor" da seleção natural? Difícil dizer com certeza. Ele foi um grande compilador, com um talento inegável para correlacionar evidências e dados de observação para sustentar suas teorias. No entanto, a história do pensamento evolutivo mostra que muitos outros autores quase "chegaram lá".

Em 1831, o naturalista escocês Patrick Matthew (1790-1874) esboçou a primeira descrição da seleção natural: “Há uma lei universal na natureza que tende a conferir a todo ser reprodutivo as melhores condições possíveis (...) modelando seus poderes físicos, mentais ou instintivos à sua perfeição”. Antes de Matthew, no século XVIII, Buffon já havia comentado algo a respeito. William Charles Wells (1757-1817) foi outro que discutira a seleção natural na espécie humana, no começo do século XIX. Além desses, também o naturalista britânico Alfred R. Wallace (1823-1913) levantou a hipótese da seleção natural independentemente de Darwin, o que resultou em uma publicação conjunta de ambos na revista da Sociedade Real britânica, no ano de 1858. Wallace contou com a ajuda de Henry W. Bates (1825-1892). Ambos, trabalhando na Amazônia, chegaram à mesma conclusão darwiniana a respeito do processo evolutivo, considerando ainda a importância da distribuição geográfica no processo de especiação.

Wallace e Bates trabalhavam de forma obsessiva-compulsiva, chegando a passar 16, 18 horas seguidas coletando no infernal calor amazônico. Bates viveu no Brasil por onze anos, enviando mais de oito mil novas espécies de insetos para a Inglaterra durante esse tempo! Além da Amazônia, Wallace passou um longo período no arquipélago Malaio, sempre compilando toneladas de informações em trabalhos amplos. Ele não tinha a mesma reputação científica que Darwin, já conhecido como naturalista por conta de obras importantes como sua monografia sobre cracas. A pequena fama de Wallace à época do lançamento do “Origem das espécies”, e mesmo depois, pouco tem a ver com a qualidade do seu trabalho e mais com a genealogia: Darwin era de família abastada, Wallace não. O primeiro trabalhava em sua casa de campo; o segundo ganhava a vida no campo de fato. Também pode tê-lo afastado das primeiras sínteses históricas do evolucionismo o pendor espiritualista de Wallace, para quem todos os organismos passavam pelo processo da seleção natural, menos o homem, que teria sido "ungido" por Deus com sua inteligência extraordinária.

A história da teoria evolutiva nos mostra que muitos autores anteriores à Darwin haviam chegado a concepções muito semelhantes às suas. A teoria da evolução, atualmente, está anos à frente do que Darwin dizia ou mesmo do que ele teria condições de pensar, com base na ciência do seu período. Hoje se sabe, por exemplo, que o papel do acaso é tão (ou, para alguns, mais) determinante que a seleção natural. Pode-se estudar evolução em outros níveis que não o estritamente populacional – parece haver competição até mesmo entre genes!

Darwinismo, portanto, não deve ser visto como sinônimo de evolucionismo. Dizer isso não é desrespeitar o legado de Darwin mas sim preservar a importância da sua obra dentro do contexto histórico. Não há heróis absolutos, sem falhas, perfeitos em todos os seus quesitos, detentores da sabedoria completa de uma área do conhecimento. Como citado em um dos manuscritos do mar morto, ninguém pode escrever sozinho a história. Devemos desconstruir nossos heróis intelectuais para que a essência do seu gênio prevaleça.

10 comentários:

Rafael Bento da Silva Soares disse...

Concordo que manter uma visão historicamente contextualisada é algo importante. Mas não creio que você tenha desconstruido para elevar o gênio de Darwin.
Ficou parecendo que ele não passou de um simples compilador. E acho q houve mais do que isso na criação de suas teorias.
Citar autores que "quase chegaram lá" não dá muito do mérito a eles.
Desculpe, é que não gosto muito quando vejo a comapração de Darwin com Wallace: aquele abastado e este um "proletário" da ciência. E querer dar mais mérito ao ultimo.
Acho até ter mais mérito alguém abastado se interessar tanto por besouros e cracas.

Queria lembrar também a idéia original de Darwin que, ao que me consta, nunca havia sido desenvolvida antes e duvido que seria desenvolvida tão cedo depois: a seleção sexual.
Esta sim é a teoria que prova a genialidade de Darwin.

Mas obrigado por colocar este contra-ponto da visão idealizada Darwin. Mas acho q precisamos um pouco de heróis sim, principalmente na história da ciÊncia

Charles Morphy disse...

Grande Rafael,
Obrigado pelos comentários!
Bem, o texto foi escrito no contexto de um jornal de divulgação sobre a teoria evolutiva. Assim, muitas das idéias foram abreviadas aqui (fazem referência a um curso longo que já ministrei algumas vezes).
Realmente Darwin não foi apenas um simples compilador. No entanto, acredito que, se ele não tivesse existido, teríamos uma teoria evolutiva robusta bem antes do final do século XIX. Esse, por exemplo, não é o caso da teoria da relatividade estrita einsteniana (e, conseqüentemente, sua teoria da relatividade geral).
Além disso, a influência darwiniana nem sempre foi benéfica: basta analisar o estado da biogeografia que, por anos, desconsiderou a hipótese da deriva continental e que, ainda para muitos, não depende da vicariância para explicar a distribuição dos organismos no planeta. Joseph Hooker deixou de defender sua idéia correta de que as floras circum-antárticas eram semelhantes por conta de uma possível conexão dessas áreas no passado em prol da biogeografia "pouco criativa" de Darwin. O mesmo aconteceu com Wallace, que tinha idéias brilhantes a respeito do componente geográfico da diversidade, as quais foram deixadas de lado quando ele se aproximou da biogeografia darwiniana.
Não quis aqui dar mais mérito ao Wallace - não podemos negar, no entanto, que ele de fato pertencia a uma família de posses como a de Darwin. E ele foi importante! Seu trabalho de 1858 é extremamente elegante e conciso, um resumo (um abstract?) de muito do que Darwin também pensava.
Agora, não sei porque teria mais mérito alguém abastado se interessar por besouros e cracas...
Quanto aos heróis, tenho cá minhas dúvidas. Acho importante que tenhamos pessoas inspiradoras, mentes que trazem luz à uma área, figuras que possam estimular a participação e o trabalho de outros. Não são necessariamente heróis. Heróis me lembram figuras intocáveis, supra-humanas, com poderes transcedentais. Já ouvi muitos alunos meus se dizerem incapazes de se tornar cientistas porque não são gênios, não têm insights brilhantes ou memória prodigiosa! E daí? A ciência é uma atividade democrática, feita por pessoas que cometem erros, têm problemas e fraquezas como qualquer outra atividade da nossa espécie...
Abraço!

Luiz Bento disse...

Acho que a ideia de que precisamos de heróis na ciência foi a que desconstruiu figuras muito importantes. Dei minha pequena contribuição num post sobre Lamarck. Até vemos Lamarck sendo ensinado como o "cara que teve uma ideia errada". Como assim errada? Parece que Darwin foi o único a pensar no tema, que apareceu do nada e criou algo completamente diferente de todas as ideias "burras" anteriores. É isso que é ensinado para nossas crianças.

Além de cientificamente errado, acho que isso pode ter consequências na formação do carácter do aluno. Se ele entender que a história da ciência não é formada apenas pela revolução, alteração completa do paradigma anterior, acho que será muito mais fácil a obtenção de um aluno com pensamento crítico. Acho que é mais fácil explicar que Lamarck é errado e Darwin era certo.

Minha pequena contribuição de desconstrução de mitos:

http://scienceblogs.com.br/discutindoecologia/2009/11/150_anos_de_origem_das_especie.php

Abraços.

Charles Morphy disse...

Grande Luiz,
Obrigado pelo comentário! Seu texto é indicadíssimo para quem quer enxergar a história da ciência como um processo de acúmulo de conhecimento e amadurecimento de idéias, feito por homens que não são perfeitos, que erram, tem falhas e que, acima de tudo, são produtos do seu tempo.
Abraço

Davi Barrrto disse...

Herege!
Rsrs brincadeira..
Seu texto e os comentários ressaltam muito bem a importância de se entender ciência com um processo contínuo e de acúmulo.
Mas não acredito que valorizar trabalhos anteriores ou comtemporâneos aos de Darwin desmereça (ou descnstrua)sua tremenda importãncia histórica.
A publicação do "Origem" (Óh a intimidade.. rsrs) não teve apenas sua importância científica, mas foi um marco na sociedade, e serviu de embasamento para todo um movimento social de contestação à força e o poder de vários setores (como por exemplo a igreja).
Acho que o que o Rafael quis dizer com "herói" foi isso, Darwin foi determinante (e ainda o é) para a construção do pensamento contemporâneo de mundo.
Acho que era isso que eu queria dizer, minha opinião pessoal.
Abraço.

Charles Morphy disse...

Caro Davi,
Obrigado pelo comentário!
Você tem absoluta razão ao dizer que a publicação do "Sobre a origem das espécies" foi impactante muito além do pensamento acadêmico científico. Eu jamais poderia discordar dessa constatação. Não é a toa que muitos dizem que esse livro é a "bíblia" da biologia (só espero que seja lido de forma mais inteligente que a Bíblia o é).
Darwin é um herói? Sim, ele é (é um dos meus heróis intelectuais, juntamente com Carl Sagan, S.J.Gould, Isaac Asimov, Martin Amis, Bertrand Russell, Stanley Kubrick, Alan Moore...). Gosto muito de histórias em quadrinhos e, como muita gente da minha geração, cresci lendo os gibis em formatinho da editora Abril. Se analisarmos a história das HQs de super-heróis, veremos que as chamadas eras dourada e de prata (anteriores aos anos 70), traziam heróis infalíveis, perfeitos, que se preocupavam apenas em derrotar o vilão e salvar o mundo (me pergunto se eles iam ao banheiro). Nos últimos 30 anos, especialmente após alguns trabalhos seminais da década de 1980 (Cavaleiro das trevas, de Frank Miller; Watchmen, de Alan Moore; o Super-Homem do John Byrne etc), as histórias ganharam em "realidade" e os personagens passaram a se questionar, a falhar, mostrando-se cada vez mais humanos. No entanto, quem ousaria dizer que o Batman não é mais um dos "mocinhos"?
Acho que não precisamos transformar Darwin em um super-herói da era de ouro para cantarmos sua importância e genialidade...
É bem verdade que ele não foi apenas um compilador mas mesmo se tivesse sido, teria posição garantida entre as grandes mentes humanas de todos os tempos. Não podemos esquecer que compilar informações tão díspares em um corpo coeso de idéias, na primeira metade do século XIX, era beeeem mais complicado que fazer o mesmo hoje, com google, wikipedia, blogs e acesso gratuito a zilhões de bases de dados.
Abraço!

Rafael Bento da Silva Soares disse...

Para mim herois não são intocáveis, isto são deidades. Heróis são esses q vc citou mesmo. Até Alam Moore, pq não?!
São pessoas extraordinárias que nos inspiram.

E acho importante a noção de que a opulência, que geralmente deixa o ser humano acomodado ou tendendo ao hedonismo, não teve este efeito em Darwin. Na verdade o cara tinha problemas sérios, maniaco compulsivo mesmo. hehe

E ressalto aqui minha opinião que a idéia genial de Darwin foi a Seleção Sexual. Esta não se desenvolveria como a seleção natural provavelmente desenvolveria a despeito de Darwin.

Abraço

Charles Morphy disse...

Caro Rafael,
Não acho que pessoas opulentas tendem ao comodismo e ao hedonismo. Acho que as pessoas, no geral, (independentemente da sua classe social) agem dessa forma...
Darwin é uma pessoa inspiradora, como outros antes e também depois dele. Mas o sujeito, como você mesmo pontua, esteve longe de ser uma divindade ou qualquer coisa do tipo. No entanto, muitos ainda o "divinizam": no recém-traduzido "A causa sagrada de Darwin", há uma passagem interessante em que os autores dizem que Darwin aceitou prontamente os ditames de uma tal sociedade contra a crueldade animal, que surgiu na Inglaterra no século XIX. Moore & Desmond continuam, dizendo que Darwin gostava tanto de animais que ele até processou alguém por maus tratos a carneiros! Quem lê esse tipo de coisa com olhos desavisados vai mesmo pensar que Darwin era uma pessoa amabilíssima, quase um anjo. Eu não compro essa. Qualquer biografiazinha mixuruca mostra que uma das maiores paixões darwinianas era a caça! E não para fins alimentícios...
É importante oferecermos um contraponto às discussões sobre a teoria da evolução e a importância de Darwin para o pensamento humano moderno. Mas, parafraseando o que o Public Enemy dizia: "Desconfie do hype".

Abraço,
Charles

PS: A idéia de seleção sexual é uma derivação da seleção natural. Talvez ela tivesse demorado um tanto mais para ser proposta mas fatalmente isso aconteceria ainda no século XIX.

Biosfera disse...

Brilhante apresentação. Penso que uma das lições que devem ser fixadas é que para a ciência nada é permanente, fixado, criado e mantido. Com as constantes descobertas tecnológicas e outros avanços, as teorias e leis são repensadas e retestadas, sofrendo variação ou não.

Biosfera disse...

Ahhh outra coisa, gostei de saber que existe uma revista com o mesmo nome do nosso blog hehehe