sexta-feira, 26 de junho de 2009

Gato, esse incompreendido

Tenho três gatos (minha mulher insiste que esse número tem que aumentar mas ainda não estou plenamente convencido disso): Titilo, Brigite e Yuki. O Titilo é um gato bonachão, gordo e carinhoso; a Brigite é austera, séria e cheia de particularidades adoráveis; a Yuki... bem, a Yuki é indescritível! São todos muito caseiros, preferindo um pufe velho a uma visita à garagem. Apesar de um grande número de características compartilhadas com os demais felinos, os gatos domésticos também apresentam uma série de atributos que os fazem especiais, tanto para quem gosta dos bichanos quanto para os que querem entender um pouco da sua história evolutiva.

Gatos domésticos são mamíferos da família Felidae. Os primeiros carnívoros semelhantes aos felinos apareceram no Oligoceno (Cenozóico, a era mais recente quando olhamos a tabela do tempo geológico), há aproximadamente 35 milhões de anos. A subfamília Felinae, que reúne os gatos viventes, originou-se no Mioceno (cerca de 9 milhões de anos atrás) e tornou-se um dos grupos de mamíferos carnívoros de maior sucesso no planeta. Hoje em dia, podem ser encontrados em todos os continentes, exceto na Antártida. Atualmente, quatro linhagens de Felidae distribuem-se nas suas prováveis regiões de origem: a linhagem do gato de Borneo e a dos leopardos (na região Oriental), os caracals (na África) e as jaguatiricas (na região Neotropical). Além dessas linhagens endêmicas, há outras espalhadas pelos diferentes continentes: guepardos, pumas, panteras, jaguares, leões, gatos selvagens e gatos domésticos. No entanto, nem sempre esses nomes são utilizados de forma não ambígua na literatura especializada e há uma linha tênue entre a definição de uma e outra espécie. A ampla distribuição de alguns grupos, além disso, pode ter permitido um grande fluxo gênico entre agrupamentos filogeneticamente aparentados, o que contribui para que os limites entre as várias linhagens de felinos se assemelhe a um borrão.

Uma das questões que mais atormenta os evolucionistas diz respeito à origem da domesticação nos grupos animais. A questão da seleção artificial de linhagens com o objetivo de ressaltar determinados atributos úteis para o homem foi uma das principais linhas de argumentação utilizadas por Charles Darwin no “Origem das espécies”, lançado em 1859. Criadores vêm selecionando características animais provavelmente desde a aurora da nossa espécie. Esse processo é, em geral, análogo à seleção natural de variedades pré-existentes, responsável, juntamente com eventos aleatórios e mutações neutras, pela diversidade orgânica existente no planeta. Dentre todos os animais domesticados, o gato é o menos compreendido. Um estudo recente vem jogar alguma luz nessa controvérsia.

É de amplo conhecimento que os gatos convivem com nossa espécie desde pelo menos o Egito Antigo. Na mitologia egípcia, a deusa da fertilidade, protetora das mulheres grávidas, é Bastet, representada tradicionalmente como uma mulher com cabeça de gato (às vezes, apenas como um gato). Em Bubastis, centro de culto da deusa, no Delta do Nilo oriental, foram encontradas diversas múmias de felinos, que eram tratados em vida como seres sagrados. Se os gatos foram primeiramente domesticados no Egito, a convivência entre Homo sapiens e Felis silvestris catus remonta há algo em torno de 5000 anos. Uma descoberta arqueológica recente ampliou esse período em 4500 anos.

Foi desenterrado na ilha de Chipre, 70 quilômetros ao sul da Turquia, um esqueleto de um gato morto aos oito meses de idade há 9500 anos. Isso seria um achado arqueológico pouco relevante se junto a ele não tivesse sido encontrado o corpo humano de um adulto com cerca de 30 anos, enterrado na mesma posição do felino, juntamente com ferramentas e utensílios de pedra. Ambos estavam na mesma posição. Aliado a isso, sabe-se que os gatos não são cipriotas de origem, o que significa que eles foram levados até a ilha, provavelmente como animais domésticos. Ou quase domésticos...

Qualquer pessoa que tem um gato (ou vários), ou apenas gosta desses bichos, sabe que eles são plenos em idiossincrasias. Nós não afagamos um gato. Eles só aceitam os carinhos quando querem. Foi Antonie Rivarol, escritor francês do século XVIII, quem disse: "O gato não nos acaricia; o que faz é acariciar-se em nós" (a literatura é plena de exemplos de aforismos “felinos”. Para o romancista norte-americano Mark Twain, “Se o homem pudesse ser cruzado com o gato, isto melhoraria o homem, mas deterioraria o gato". Jim Davis, o criador do Garfield, foi outro dos que capturou como poucos o que é ter um bichano em casa. Nas suas palavras: "Os gatos sabem o momento em que seus donos vão acordar - e os despertam dez minutos antes"). O que isso nos diz quanto à evolução desses animais? Muita coisa.

Cães e cavalos foram selecionados artificialmente por portarem inúmeros atributos interessantes ao homem. São animais que podem ser utilizados na caça ou no transporte, por exemplo. E os gatos? Os gatos não foram domesticados pelo homem. Na verdade, eles permitiram a domesticação! É claro que esse não é o raciocínio evolutivo mais correto, mas dá uma noção do que pode ter acontecido na história evolutiva dos Felidae. O que os evolucionistas têm interpretado é que, com o florescimento das sociedades e, conseqüentemente, com o aumento das aglomerações humanas, também deve ter aumentado a quantidade de lixo. Isso deve ter atraído ratos, abundantes também nas áreas de depósito de cereais e outros recursos alimentares. Se pensarmos em um cenário adaptativo, seria vantajoso para alguns grupos de gatos uma convivência pacífica com os humanos. Assim, eles teriam fontes abundantes de alimento, o que permitiria proles mais copiosas. Um cenário plausível para esses primeiros passos da domesticação felina é o Oriente Médio, na região do Crescente Fértil (que compreende Israel, Cisjordânia, Líbano, partes da Jordânia, da Síria, do Iraque, do Egito e do sudeste da Turquia). Gatos têm sido nossos companheiros há mais de 9000 anos.

Apesar dos meandros dessa domesticação ainda continuarem um tanto obscuros, novas descobertas têm permitido compreender melhor o que pode ter levado à nossa convivência tão próxima com esses animais. No convívio do dia-a-dia, é mais fácil entender o fascínio que sentimos por eles: ter sua atenção não é trivial; quando se consegue, percebe-se o que é o afeto verdadeiro e fiel.

As fotos que ilustram esse texto são de Patricia Kiss. Na ordem: Brigite, Titilo e Yuki.

Post scriptum: há vários artigos interessantes sobre o tema. Alguns técnicos, outros para divulgação ampla. Segue uma pequena lista de referências que podem guiar os interessados:
- Driscoll, C.A. Menotti-Raymond, M. Roca, A.L., Hupe, K. Johnson, W.E., Geffen, E., Harley, E.H., Delibes, M., Pontier, D. Kitchener, A.C., Yamaguchi, N. O’Brien, S.J. & Macdonald, D.W. 2007. The Near Eastern Origin of Cat Domestication. Science, 317, 519-523.
-
Driscoll, C.A., Clutton-Brock, J. Kitchener, A.C. & O’Brien, S.J. 2009. A longa (e incompleta) domesticação do gato. Scientific American Brasil, 86.
- Driscoll, C.A., Macdonald, D.W., O’Brien, S.J. 2009. From wild animals to domestic pets, an evolutionary view of domestication. PNAS, 106, 9971–9978.
- Johnson,W.E., Eizirik, E., Pecon-Slattery, J. Murphy, W.J., Antunes, A., Teeling, E. & O’Brien, S.J. 2006. The Late Miocene Radiation of Modern Felidae: A Genetic Assessment. Science, 311, 73-77.
- Pennisi, E. 2004. Burials in Cyprus Suggest Cats Were Ancient Pets. Science, 304, 189.
- Vigne, J.-D. Guilaine, J. Debue, K., Haye, L. & Gerard, P. 2004. Early Taming of the Cat in Cyprus. Science, 304, 259.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Artigos de Sistemática, Biogeografia, Evolução...

Abaixo, segue a lista dos meus artigos publicados (até o momento. Espero inserir outras entradas com o passar do tempo...). Eles podem ser baixados em pdf e representam parte dos meus interesses nas ciências naturais.

Biogeografia e Sistemática

Amorim, D.S., SANTOS, Charles Morphy D. & Oliveira, S.S. 2009. Allochronic taxa as an alternative model to explain circumantarctic disjunctions. Systematic Entomology, v. 34, p. 2-9.
SANTOS, Charles Morphy D. 2008. Geographical distribution of Tabanomorpha (Diptera, Brachycera): Athericidae, Austroleptidae, Oreoleptidae, Rhagionidae, and Vermileonidae. EntomoBrasilis, v. 1, p. 43-50.
SANTOS, Charles Morphy D. 2008. Os dinossauros de Hennig: sobre a importância do monofiletismo para a sistemática biológica. Scientiae Studia, v. 6, p. 179-200.
SANTOS, Charles Morphy D. & Amorim, D.S. 2007. Why biogeographical hypotheses need a well supported phylogenetic framework: a conceptual evaluation. Papéis Avulsos de Zoologia (São Paulo), v. 47(4), p. 63-73.
SANTOS, Charles Morphy D. 2007. On ancestral areas and basal clades. Journal of Biogeography, v. 34, p. 1470-1471, 2007.
SANTOS, Charles Morphy D. 2007. A0: Flawed assumption. Darwiniana, v. 45(s), p. 39-41, 2007.
SANTOS, Charles Morphy D. & Falaschi, R. 2007. Missing data in phylogenetic analysis: comments on support measures. Darwiniana, v. 45(s), p. 25-26.
SANTOS, Charles Morphy D. 2005. Parsimony Analysis of Endemicity: time for an epitaph? Journal of Biogeography, Inglaterra, v. 32, n. 7, p. 1284-1286.

Ensino de Evolução e Ciências

SANTOS, Charles Morphy D. & Calor, A.R. 2008. Using the logical basis of phylogenetics as the framework for teaching biology. Papéis Avulsos de Zoologia (São Paulo), v. 48, p. 199-211, 2008.
SANTOS, Charles Morphy D. & Calor, A.R. 2007. Ensino de biologia evolutiva utilizando a estrutura conceitual da sistemática filogenética - I. Ciência & Ensino (UNICAMP), v. 1, p. 1-8.
SANTOS, Charles Morphy D. & Calor, A.R. 2007. Ensino de biologia evolutiva utilizando a estrutura conceitual da sistemática filogenética - II. Ciência & Ensino (UNICAMP), v. 2, p. 1-8.
Calor, A.R. & SANTOS, Charles Morphy D. 2004. Filosofia e o ensino de ciências: uma convergência necessária. Ciência Hoje, São Paulo, v. 210, 29-31.

Taxonomia

SANTOS, Charles Morphy D. & Amorim, D.S. 2007. Chrysopilus (Diptera: Rhagionidae) from Brazil: redescription of Chrysopilus fascipennis Bromley and description of eleven new species. Zootaxa (Auckland), v. 1510, p. 1-33.
SANTOS, Charles Morphy D. 2006. Description of two new species of Neorhagio (Diptera, Tabanomorpha, Rhagionidae), and remarks on a controversial female character. Zootaxa (Auckland), v. 1174, p. 49-62.
SANTOS, Charles Morphy D. 2005. First record of genus Atherimorpha (Diptera: Rhagionidae) in Brazil, with description of a new species. Zootaxa (Online), v. 1021, p. 37-43.
Marques, A.C., Mergner, H., Höinghaus, R., SANTOS, Charles Morphy D. & Vervoort, W. 2000. Morphological study and taxonomical notes on Eudendriidae (Cnidaria: Hydrozoa: Athecatae / Anthomedusae). Zoölogische Mededelingen, v. 74, n. 5, p. 75-118.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Grande, feroz e ainda vivo

“Eu não conheço resposta melhor que a epítome de um colega psicólogo: “grande, feroz e extinto” – em outras palavras, irresistivelmente ameaçadores mas basicamente seguros” S.J.Gould (1993)

Um dos meus heróis intelectuais é o paleontólogo Stephen Jay Gould (1941-2002). Ele foi dos maiores divulgadores do evolucionismo da segunda metade do século XX, árduo defensor de uma visão materialista do mundo biológico, calcada nos trabalhos de Charles Darwin e dos evolucionistas que vieram depois dele. Gould não se afiliava totalmente à tradição neo-darwinista ortodoxa, representada por luminares como Ernst Mayr (1904-2005), Theodosius Dobzhansky (1900-1975) e George G. Simpson (1902-1984), pois a sua visão da evolução da vida dava muito mais peso ao componente estocástico. Para ele, eventos como extinções em massa - essencialmente aleatórias e não-previsíveis - teriam importância quase tão grande quanto a seleção natural de variedades pré-existentes, tida como o processo evolutivo fundamental para os proponentes da teoria sintética da evolução e por seus seguidores, como Richard Dawkins e outros ultra-darwinistas.

O primeiro artigo que li de S.J.Gould intitulava-se Dinomania. Originalmente publicado na The New York Review of Books de 12 de agosto de 1993, esse texto foi traduzido para o português pela Folha de São Paulo no ano seguinte (ou no mesmo ano, não me lembro ao certo). A prosa gouldiana me impressionou. Seu estilo elegante, ainda que muitas vezes prolixo, parecia algo a ser tomado como referência para um trabalho futuro. Foi a partir daí que comecei a delinear minha futura carreira e perceber que eu trabalharia com algum aspecto das ciências naturais. Esse artigo foi republicado na sétima coletânea de ensaios de Gould, “Dinossauro
no palheiro”, originalmente lançada em 1995 sob o nome “Dinosaur in a Haystack”.

Apesar de ser uma influência constantemente presente na minha visão de mundo científico e de ser um dos textos mais saborosos – senão o mais saboroso – entre todos os divulgadores científicos, S.J. Gould cometeu muitas falhas durante a sua carreira, foi intransigente, quase leviano, e um tanto personalista. Chegou a dedicar mais da metade de um dos seus livros ("Full House: the spread of excellence from Plato to Darwin", de 1996, traduzido aqui como "Lance de Dados", em 2001), pretensamente dedicado a sintetizar a história do pensamento evolutivo de Platão à Darwin, à análise de estatísticas de beisebol, um esporte que pouco diz à grande maioria do mundo civilizado fora do EUA e adjacências (com exceção talvez do Japão, Cuba e Venezuela). Por mais que as idéias de Gould sejam interessantes a esse respeito, é difícil chegar ao fim das suas 250 páginas sem um misto de desconforto e sensação de tempo desperdiçado. Richard Dawkins ironiza em um ensaio do seu “Capelão do Diabo” essa obra menor de Gould.

Outro ponto considerado por muitos como falho na carreira desse evolucionista foi seu feroz ataque ao darwinismo a partir do final dos anos 1970 até quase meados da década de 1980. Juntamente com seu colega paleontólogo Niles Eldredge, em 1973 Gould propôs a hipótese do equilíbrio pontuado. Em linhas gerais, a idéia era contrapor o processo evolutivo contínuo e gradual dos teóricos sintéticos da evolução ao registro fóssil, essencialmente lacunoso, e que mostra, no geral, modificações ocorrendo em curtos períodos de tempo geológico, seguidos de longos períodos de estase, com pouquíssimas alterações perceptíveis nas espécies. Gould chegou a proferir que o darwinismo estava morto em um trabalho publicado em 1980 na revista Paleobiology. Essa demonstração de pretensão e arrogância obviamente não foi bem vista pela comunidade acadê
mica, o que dificultou a discussão isenta do equilíbrio pontuado como um processo alternativo (ou complementar) ao gradualismo darwiniano. Atualmente, há correntes que interpretam o equilíbrio pontuado como um gradualismo ocorrendo em curtos intervalos de tempo, seguidos por períodos longos em que as modificações se acumulariam, mas não se refletiriam em explosões de diversidade.

O discurso de Gould perdeu muito do caráter corrosivo a partir do final dos anos 1980, o que, em conjunto com o sucesso de seus livros e a popularização da paleontologia através de filmes como Jurassic Park (que foi o mote do ensaio Dinomania supracitado), transformaram-no em um ícone pop, levando-o inclusive a aparecer no desenho Simpsons. Isso não significa que as controvérsias e polêmicas cessaram: poucos meses depois da sua participação na série animada, Gould se viu imiscuído a uma polêmica com autores do quilate de Daniel Dennet e Dawkins, acerca da sua crítica exacerbada ao que ele chamou de fundamentalismo darwinista, representado por aqueles que resumiam TODA a evolução como a ocorrência de adaptação via seleção natural.

Infelizmente, S.J Gould morreu aos 60 anos de idade, em decorrência de um câncer de pulmão que foi seu adversário por mais de duas décadas. Deixou uma obra fascinante, longa, abrangente, que merece ser lida com isenção e analisada por qualquer pessoa que se interesse pelas labirínticas maravilhas da vida e do pensamento humano.