segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O hipopótamo, o enxadrista e a arrogância dos cientistas


Nas últimas semanas, a discussão a respeito da “Pílula da USP”, um suposto fármaco capaz de curar o câncer, tem tomado conta de parte da comunidade científica brasileira. O debate, infelizmente, apóia-se em teorias conspiratórias e a cada dia ganha ares de histeria coletiva. Desconsidera, quando não nega explicitamente, a importância de se divulgar como o respeito a certos protocolos na ciência é crucial e como a atividade busca incessantemente questionar as hipóteses levantadas nas bancadas e laboratórios. O status de hipótese científica deve ser dado apenas àquelas ideias que correspondem a conjecturas testáveis e que são, portanto, falseáveis. Assim, elas podem vir a ser refutadas ou corroboradas segundo critérios delimitados e evidências adicionais, mas nunca confirmadas como verdades inquestionáveis ou dogmas. 

Ser diagnosticado com câncer é ser confrontado, diretamente e de maneira brutal, com sua própria finitude (tive uma experiência muito próxima com essa questão – meu pai faleceu há pouquíssimo tempo por conta de um tumor nos rins que se alastrou rapidamente). O jornalista Christopher Hitchens (1949–2011) começa assim o seu inacabado último livro, em que relata os dias finais da sua existência: “Mais de uma vez em minha vida acordei com a sensação de estar morto. Mas nada me preparou para o começo da manhã de junho em que recobrei a consciência sentindo-me como que acorrentado a meu próprio cadáver”.

A tendência (compreensível e perfeitamente justificável) de quem se encontra nessa situação é o apego a qualquer alternativa, por mais infundada que possa parecer ao espectador externo. Essa esperança por vezes vem da confiança no discurso científico ou naquele que usa de algum jargão típico das ciências, e ganha força, ímpeto e autoridade. Nesse ponto, pode-se ouvir o tique-taque da bomba-relógio... 

Quando o cientista não assume a responsabilidade pelo seu trabalho de pesquisa, seus pronuciamentos, seus anúncios à mídia, quando não leva em conta a necessidade de construir suas hipóteses a partir de evidências e de testes controlados, quando imagina estar em um pedestal de sabedoria inconstável e inabalável, quando ele se deixa levar pela lógica perversa do mercado e por sua própria arrogância, toda a sociedade perde.

Discuti um pouco a respeito desses temas no meu livro “O hipopótamo de Tal”, publicado recentemente. O ensaio que dá título à obra segue abaixo.

O hipopótamo de Tal

As ideias são ninharias. O que conta é o que fazemos com elas.
Isaac Asimov, Antologia 2 (1992)

Certa vez, em uma entrevista, perguntaram ao enxadrista russo Mikhail Tal (1936–1992) se ele pensava em algo além do xadrez quando se encontrava sentado ao tabuleiro defronte a um adversário. “Certamente”, disse. E citou um exemplo: em um dos muitos campeonatos patrocinados pelo então governo soviético, Tal encontrava-se em uma posição delicada na partida. Seu primeiro impulso foi sacrificar um dos cavalos, apesar de desconfiar da própria variante. “Comecei a calcular e me horrorizei com a ideia de que o sacrifício dera errado”. Segundo Tal, os pensamentos começaram a se amontoar em sua cabeça. Uma torrente caótica de possibilidades, às vezes sem nenhuma relação entre si, crescia sem parar de maneira monstruosa. Nesse momento, o jogador diz que se recordou de uma célebre poesia infantil soviética:

Oh, como é difícil o trabalho
De arrancar um hipopótamo do pântano!

“Não conseguiria explicar porque esse hipopótamo se meteu no tabuleiro, mas a verdade é que, enquanto os espectadores achavam que eu estava analisando as jogadas, eu pensava em como diabos poderia arrancar um hipopótamo do pântano”. Olhando para as peças, Tal imaginava alavancas, arreios e helicópteros com escadas de corda. Depois de inúmeras tentativas, sem encontrar nenhum método aceitável de retirar o gigantesco artiodáctilo do meio da lama, ele desistiu do seu experimento mental e pensou, com amargura “Então, que se afogue!”.

Mikhail Tal foi um dos maiores jogadores de xadrez que o mundo conheceu. Aprendeu a mexer os cavalos e torres aos oito anos de idade e, aos vinte, era pela primeira vez campeão soviético. Aos 23, sagrou-se campeão mundial, após derrotar mestres como Vasily Smyslov (1921–2010), Paul Keres (1916–1975) e Bobby Fischer (1943–2008). De fato, Tal é uma das unanimidades históricas das 64 casas, comparado em genialidade, criatividade e excentricidade aos também unânimes Paul C. Morphy (1837–1884) e ao já citado Fischer. Conhecido como o “mago de Riga” e dono de uma língua ferina, quando perguntado sobre seu estilo agressivo de jogo, Tal respondeu: “Há três tipos de sacrifícios: os corretos, os incorretos, e os meus”. Como a maioria dos grandes campeões do esporte, Tal confiava acima de tudo na sua própria capacidade de controlar uma situação surgida no tabuleiro de xadrez, contornando as dificuldades com maestria a fim de chegar a um desfecho favorável.

Mas, por que falar de Tal? O que as atitudes do enxadrista têm a acrescentar para uma análise dos rumos e das particularidades da ciência? 

Há muitas analogias possíveis entre os maneirismos dos grandes jogadores de xadrez e o comportamento dos cientistas. Diferentemente do jogo dos reis, a ciência nem sempre ganha com a excessiva autoconfiança dos seus praticantes – que por vezes mal escondem uma sede por reconhecimento midiático e celebridade instantânea. A complexidade do mundo natural é bem maior que o número de variantes possíveis em uma partida de xadrez e não pode ser mensurada em uma bancada de laboratório. Aos pesquisadores cabem responsabilidades que fogem ao falso determinismo de suas fórmulas e protocolos de trabalho. 

Parte dos cientistas acredita cegamente nos resultados de suas pesquisas e no seu absoluto controle sobre elas. Alguns o fazem por ingenuidade, outros por incompetência, alguns parecem nem mesmo se importar com os possíveis desdobramentos, futuros ou imediatos, das suas atitudes. Aliada à insensatez de parte dos pesquisadores vem a grande mídia, que divulga com desmedido entusiasmo os deslumbramentos científicos e pouco se presta à consulta de fontes fidedignas ou segundas opiniões. Os delírios do projeto Genoma, a utilização de células-tronco para pôr um fim às doenças que afligem o homem, os alimentos transgênicos... é longa a lista de áreas promissoras da biologia alardeadas como furos jornalísticos. As possíveis e prováveis consequências desses estudos, seus pormenores e idiossincrasias, as dificuldades surgidas e os falsos positivos geralmente ficam fora das primeiras páginas e dos pronunciamentos em horário nobre. Assim, concepções errôneas são propagadas, fornecendo combustível para questionamentos vazios e sem fim em torno de nada muito palpável.

É certo que o conhecimento científico deve ser levado ao grande público – a ciência é o escudo contra o obscurantismo, um facho de luz na escuridão de um mundo assombrado por demônios, na metáfora do astrônomo e divulgador da ciência Carl Sagan (1934–1996). Como diz David Shenk (1966– ), autor de O jogo imortal: o que o xadrez nos revela sobre a guerra, a arte, a ciência e o cérebro humano (publicado no Brasil em 2008), “É muito comum, nessa época fragmentada, pós-moderna e de verdades escorregadias, a reação de se negar a pensar e, em vez disso, cair num conjunto já estabelecido de crenças. Em suma: numa ideologia”. Entretanto, como qualquer atividade humana, a ciência tem sua própria sociologia, seus conflitos de interesse e contradições insolúveis que nunca sobem ao palco e que, quando muito, apenas se transformam em anedotas biográficas de livros nunca lidos. Como em um dramalhão televisivo, os bastidores do mundo científico escondem guerras de ego, brigas, vaidade, traições e, sobretudo, cobiça. A realidade da academia não destoa do mundo fora dela. Afinal, somos todos humanos.

Pesquisadores muitas vezes rendem-se a verbas vultosas oferecidas por empresas multinacionais ou governos para financiar projetos de grande monta. Organizam-se verdadeiras operações de guerra, com táticas publicitárias ferozes e “lavagem de cérebros”, para cooptar os corações e mentes do público e de quem quer que interfira com posições contrárias. Para os que insistem no embate resta o ostracismo ou o monólogo. 

O projeto Genoma humano, por exemplo, por muitos considerado a maior realização científica do século XX, a mais extraordinária aventura da ciência na atualidade, a busca pelo verdadeiro cálice sagrado, é apenas o reconhecimento das bases nucleotídicas que compõem o material genético do Homo sapiens, a nossa espécie. Em qualquer organismo vivo conhecido, o DNA é composto por quatro tipos de unidades básicas chamadas nucleotídeos: adenina, guanina, timina e citosina (respectivamente, A, G, T e C, no jargão da biologia molecular). A informação presente na dupla-hélice do DNA corresponde a um código criptográfico com apenas quatro variáveis que podem ser aglutinadas em infinitas combinações de mensagens. O que se fez até o momento no projeto Genoma foi reconhecer qual a sequência dos nucleotídeos no DNA da nossa espécie. Em linhas gerais, é como conhecer as letras impressas nas páginas de um livro imenso sem saber o que elas significam juntas ou em que língua foram escritas. 

O sequenciamento dos nucleotídeos prometido pelo projeto Genoma é apenas a etapa inicial de uma empreitada mais ampla, que visa ao conhecimento das expressões fenotípicas dos genes, das relações entre eles e da importância dos fatores internos (e não apenas genéticos) e externos (isto é, “ambientais”, em uma concepção ampla do termo) na determinação das características dos organismos vivos. Há muito trabalho a ser feito a partir dos resultados já obtidos. Muitos cientistas, entretanto, são céticos a respeito das possíveis consequências científicas e das reais intenções de empreendimentos desse porte. O eminente geneticista Richard Lewontin (1929– ), professor de zoologia da Universidade de Harvard, vê no projeto Genoma o esforço lobista de organizações voltadas mais para atividades financeiras e administrativas do que para a pesquisa básica em busca do conhecimento sobre o mundo natural. O futuro do Genoma, da clonagem e de outras áreas da biologia molecular não pode ser desvinculado de interesses comerciais.

Os alimentos transgênicos constituem outro exemplo claro de manipulação do público pela mídia e pelas empresas patrocinadoras. Esses alimentos são modificados através da inserção, no seu material genético, de porções de DNA de outras espécies, com vistas ao aumento do seu valor nutricional ou maior resistência a insetos e outros predadores naturais. Apesar dos aparentes benefícios da técnica, e assim como outros projetos megalomaníacos da biologia molecular, os transgênicos interessam muito mais às corporações internacionais do que à vasta população carente de comida. Lucro, controle da cadeia produtiva, mais lucro, vendas, dominação dos mercados. Ouvem-se poucas vozes importantes, parte delas abafada, a falar sobre os riscos e dúvidas sobre a introdução desses organismos geneticamente modificados no ambiente: não se sabe ao certo quão impactantes podem ser, tanto para a saúde animal (incluindo aí o homem) quanto para o equilíbrio das relações ecológicas interespecíficas. Ao grande público sobram os ditos imperiosos das autoridades, que se presumem titereiros debruçados sobre as cordas e o destino de suas criações. Esses exemplos, infelizmente, não esgotam o assunto.

A ciência não é capaz de chegar à certezas absolutas, mas busca se aproximar delas. É essa a razão do seu distanciamento dos dogmatismos religiosos e das crenças cegas. Aos pesquisadores, cabe reconsiderar suas percepções de grandeza e reconhecer que o poder e o controle em suas mãos é limitado. Suas verdades são transientes, visto que hipotéticas e baseadas nas evidências disponíveis. Não há como dominar em um laboratório todas as variáveis das equações da natureza, como Tal fazia com seus peões, cavalos e torres, e essa impossibilidade precisa ser considerada também pelo público não especializado como parte da ciência. 

Como qualquer outra atividade humana, a prática científica também apresenta interesses muitas vezes velados e apendiculares, quase como se os cientistas estivessem vislumbrando como arrancar um hipopótamo de ouro do meio do lamaçal enquanto escrevem artigos para publicação e solicitam financiamento para seus projetos de pesquisa. Apenas quando a população tiver conhecimento sobre todas as regras do jogo científico ela poderá cobrar a verdade por trás das promessas de tantos admiráveis mundos novos que aparecem a cada dia.

PS: Para os interessados, o “Hipopótamo de Tal” pode ser solicitado pelo e-mail charlesmorphy@gmail.com. Cada exemplar custa R$ 25,00 (+ R$3,00 de frete).

domingo, 31 de maio de 2015

O hipopótamo de Tal à venda!

Depois do lançamento no último sábado, dia 30/05, já está à venda o livro "O hipopótamo de Tal"!

Apenas R$ 25,00 + um pequeno frete (pedidos atráves do e-mail charlesmorphy@gmail.com) ou diretamente com o prof. Charles Morphy na Universidade Federal do ABC (sala 641-3, Bloco A, torre 3).


quinta-feira, 21 de maio de 2015

Lançamento do livro O hipopótamo de Tal!


O hipopótamo de Tal traz versões expandidas de nove ensaios publicados neste blog. Discuto nele como o raciocínio científico é importante para compreendermos o mundo natural e para transcendermos interesses individuais em prol de uma visão coletiva de humanidade. Reconhecer a ciência como uma das balizas norteadoras da existência humana é uma das maneiras de promover uma sociedade saudável capaz de despertar das ilusões e fundamentalismos medievais que tentam tomá-la de assalto.

Deuses e novos sacerdotes
Segundo um postulado do geômetra grego Euclides (330 a.E.C1.–270 a.E.C.), duas retas distintas perfeitamente paralelas nunca se cruzam em um espaço tridimensional. Ao passo que se distanciam do observador, essas retas parecem ficar mais próximas uma da outra, mas nunca se tocam – elas coincidirão somente no infinito inatingível e não observável. Assim como as paralelas para a geometria, também as visões de mundo científica e religiosa não se sobrepõem quando respeitados seus limites e áreas de abrangência, e não devem ser postas em confronto direto, apesar das discordâncias dos defensores de ambos os lados.

Faça-se a luz!
Investimentos maciços no desenvolvimento científico-tecnológico e em educação são fatores significantes quando nossa espécie se vê frente a perigos impostos por fenômenos em muitas ordens de magnitude mais fortes do que nossas possibilidades de controlá-los. Esperar apenas que o profeta aponte os caminhos e garanta a salvação é um comportamento, no mínimo, ingênuo, quando não fatal.

A parcimônia nas ciências
Parcimônia vem do latim parcos e significa frugalidade, moderação, simplicidade. Esse conceito é comumente associado à economia de suposições em teorias científicas. Desde o início da ascensão da ciência como uma poderosa maneira de se compreender a natureza, ainda na Idade Média, tem havido uma demanda crescente pela simplicidade nas proposições científicas. Não é exagero dizer que a parcimônia é um componente essencial do conhecimento humano.

O hipopótamo de Tal
Há muitas analogias possíveis entre os maneirismos dos grandes jogadores de xadrez e o comportamento dos cientistas. Diferentemente do jogo dos reis, a ciência nem sempre ganha com a excessiva autoconfiança dos seus praticantes – que por vezes mal escondem uma sede por reconhecimento midiático e celebridade instantânea. A complexidade do mundo natural é bem maior que o número de variantes possíveis em uma partida de xadrez e não pode ser mensurada em uma bancada de laboratório. Aos pesquisadores cabem responsabilidades que fogem ao falso determinismo de suas fórmulas e protocolos de trabalho.

Não havia evidências suficientes, Deus!
O ceticismo não é uma perspectiva exclusiva das ciências. Ser cético é questionar qualquer conhecimento, fato, opinião ou crença estabelecida como fato. Filosoficamente significa aceitar apenas informações suportadas por evidências. Até mesmo as religiões podem se beneficiar dele, através, por exemplo, de autoanálises periódicas – ou, de preferência, constantes – que levem ao refinamento das premissas que constituem seu conhecimento de fundo. No entanto, as religiões, quando tomadas no geral, não fazem um esforço sincero para depurar o que alguns chamam de suas “superstições infundadas”. Adotar o ceticismo religioso significaria, por exemplo, colocar em dúvida princípios religiosos básicos como a imortalidade, a reencarnação ou a evolução espiritual.

Das revoluções
Em termos práticos, um novo paradigma pode ser mais atrativo, por exemplo, se ele fornece possíveis soluções a um maior número de problemas, ou se suas soluções são mais claras, objetivas e simples que aquelas fornecidas pelo paradigma anterior. Se um novo conjunto de ideias precisa de menos hipóteses ad hoc (que são os “remendos” feitos a uma hipótese inicial, a fim de salvar a explicação), ele certamente é vantajoso quando comparado a um paradigma que precise de inúmeros apêndices explicativos para funcionar a contento. Assim, um paradigma não é simplesmente rejeitado mas substituído em favor de alguma teoria alternativa, digamos, mais elegante. A transição funciona como uma reconstrução das bases teóricas e práticas da área de estudo, alterando algumas das suas generalizações mais elementares, bem como parte dos seus aspectos metodológicos e das suas aplicações. 

Somos todos ateus
É concebível um cientista natural, como um biólogo, acreditar em Deus? Em minha opinião, sim, é concebível. Nem todos concordam, mas acredito que um biólogo pode acreditar em poderes divinos, assim como também tem o direito de torcer por qualquer time em qualquer campeonato de futebol (tenho um amigo zoólogo que torce por uma equipe diferente em cada estado em que já morou) ou de preferir jazz ao rock. No entanto, cientistas naturais que escolhem o caminho ambíguo da fé no sobrenatural precisam estar cientes das contradições que essa escolha pode acarretar. 

O desafio da alfabetização científica
Pensar de maneira científica parece chave para uma educação mais eficiente, menos voltada à simples memorização e repetição de argumentos prévios ditados por figuras de autoridade. Para isso, a ciência tem que ser tratada como um processo, não como um conjunto de realizações prontas e postas à mesa tal qual um catálogo de curiosidades. Nesse sentido, a filosofia da ciência funciona como uma ferramenta extraordinariamente poderosa tanto para professores quanto para alunos.

Da posição do Homo sapiens na árvore da vida 
O modo como os animais são tratados em fazendas de criação intensiva desconsidera completamente a possibilidade deles apresentarem características cognitivas sofisticadas, dentre elas a senciência. Senciência é a capacidade de sofrer, sentir prazer ou felicidade. Hoje, possuímos um amplo conhecimento sobre a distribuição da senciência na árvore da vida. Evolutivamente, as diferenças entre a capacidade cerebral e cognitiva do Homo sapiens e das demais espécies de vertebrados são de grau, não de tipo. Por exemplo, há evidências cada vez mais abundantes de que espécies tão diversas quanto gatos domésticos, golfinhos, orangotangos, girafas e até mesmo patos guardam luto, lamentando a morte de parentes e companheiros próximos.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Por uma ciência livre para errar


Na ciência fala-se muito em “contexto da descoberta” e “contexto da justificação”. Dentro de uma perspectiva hipotético-dedutiva, o primeiro corresponde à maneira pela qual uma teoria científica é concebida, sua gênese e suas origens históricas. O segundo relaciona-se às evidências empíricas e suportes teórico-prático que formam o arcabouço da nova ideia, essenciais para dar forma à teoria e para apresentá-la ao público.

Segundo o filósofo da ciência Paul Feyerabend (1924-1994), não há método específico válido para toda criação científica: de fato, tudo vale, de sonhos - diz-se que o químico orgânico August Kekulé (1829-1896) propôs a estrutura do anel de benzeno após acordar de um sonho em que via uma cobra engolindo seu próprio rabo - a insights psicológicos. Qualquer referencial pode ser utilizado nessa primeira etapa: arte, música, filosofia, metafísica, ciência básica, sociologia, psicologia... A livre associação, muitas vezes, permite que novos caminhos científicos sejam trilhados, ainda que terminem em “ruas sem saída” ou sugiram direções alternativas. 

O grande divulgador, bioquímico e escritor de ficção científica Isaac Asimov (1920-1992), em um texto sobre criatividade inédito até o ano passado, discute como o contexto é importante para o desenvolvimento de novas ideias. Para ele, além de boa formação na área de estudo (não basta apenas querer propor uma teoria revolucionária, é crucial estudar a literatura pertinente e estar a par do que acontece no campo) e de trabalho incessante (dependendo da área de pesquisa, um tanto solitário), a criação na ciência demanda a busca por conexões entre tópicos ou assuntos que antes não pareciam relacionados. A maioria dos cientistas está sempre revolvendo no seu cérebro alguma questão que lhe interesse, ainda que inconscientemente. É da fusão entre os itens 1 e 2 (ou 3 e 8, ou 12 e 1456) que pode emergir um novo conceito, uma abordagem original a um problema ou simplesmente uma maneira mais objetiva e assertiva de descrever um fenômeno natural.

Argumentar com os pares é uma forma de refinar uma hipótese científica, de aparar suas arestas, de aprofundá-la (ou mesmo de abandoná-la). Essa é das maiores diversões da minha atividade: “jogar” com teorias e conceitos, torcê-los, alterá-los mentalmente, testá-los à luz de experimentos mentais. Para isso, ter um contraponto é importante. 


Recentemente, estava discutindo com a bióloga Leticia Alabi (minha ex-aluna de pós-graduação e atualmente na Universidade do País Basco, na Espanha) a respeito de árvores filogenéticas e definições de vida. É possível existir vida sem evolução? Quando um sistema não-biológico torna-se vivo? O que seria uma biologia universal? A conversa, sem amarras, foi muito interessante:

Charles: Quando falamos "vida como tipo natural" significa algo que não vai mudar, como "água é um tipo natural". É essencialista no sentido de não mudar no tempo. Se não quiser fazer referência a algo fixo, não use o termo “tipo”. O cluster pode mudar no tempo mas dentro de parâmetros (assim, há algo de definido). Pense bem: um cluster de XXX genes e processos regulatórios define o indivíduo Y. Mas, se a evolução é um contínuo, os genes e processos regulatórios mudam continuamente no tempo. Se for um contínuo, não vamos conseguir definir o indivíduo Y a não ser que determinemos "isso aqui é o cluster do indivíduo Y". Entendeu? Em um contínuo, qualquer definição é tipológica. Por isso nossas representações da evolução sempre serão heurísticas, modelos eminentemente falhos.

Letícia: No fim, ontologicamente falando, espécies não existiriam, nem tampouco "vida".

Charles: A vida é a única "descontinuidade". As espécies ontologicamente falando não existem, mas existe vida. Por isso ela é o único tipo. A vida é descontinuidade entre certas propriedades da matéria até a emergência de um todo diferente. Aqui, estamos usando “tipo” como algo definido, fixo, que não muda, que vale em qualquer situação.

Letícia: Se conseguirmos entender um "tipo" historicamente, com essas regras...

Charles: Se usarmos tipo como "definição fixa válida pra qualquer situação", já matamos a charada. Baseando-nos nesse conceito, o que teríamos é a biosfera como único "grupo monofilético" ontologicamente válido. Se definirmos o que é a vida como um "tipo", a única árvore filogenética ontologicamente válida seria a árvore universal da vida (no sentido de conectar todas as biosferas existentes, todas as biosferas em todo o universo). Isso se repetiria só no nosso universo, com as nossas leis, parâmetros físicos e constantes. Não daria pra extrapolar para o multiverso. É isso que penso como sendo a "biologia universal". O que temos que criar é um modelo teórico de vida (como um "tipo") na qual se encaixe os seres vivos conhecidos por nós na esperança de encontrarmos outros for a da Terra. Só dá pra testar essa hipótese se encontrarmos vida extraterrestre (como te falei, o "teto" do fractal – sei que isso não existe mas acho que dá pra entender – é a árvore universal da vida, reunindo todas as biosferas).

Letícia: Daria pra testar se encontrarmos a “shadow biosphere”.

Charles: Se existe biosfera oculta, ela tem que se encaixar no modelo. Seria uma maneira de testá-lo, de fato. Aqui, podemos considerar que a “shadow biosphere” equivale à “vida extraterrestre”.

Letícia: Para encontrar essa “biosfera oculta” em algum nível tem que seguir nosso padrão ou ela vai passar batida embaixo dos nossos narizes e ninguém vai se dar conta, nunca.

Charles: O padrão pra detecção da vida tem que ser universal, mais do que apenas nosso. Aí entra a auto-organização, que não depende, necessariamente, da definição de "vida como conhecemos". Ela parte do pressuposto que a física é igual em qualquer parte do universo. O resto é idiossincrasia de cada biosfera. A vida começa e evolui no equilíbrio tênue entre convergência e contingência, nem só uma, nem só outra.

Letícia: O que define a vida? Talvez seja uma convergência no sentido funcional...

Charles: É a autonomia que define a vida. Um sistema auto-organizativo passa a ser considerado vivo se emerge como um indivíduo, i.e. algo com autonomia. É a autonomia que vai fazer emergir a capacidade de reprodução e de manter metabolismo separado do entorno. A origem da vida, nesse sentido, é a emergência da autonomia de um sistema auto-organizativo. O interessante é que o surgimento da autonomia não pressupõe o início da evolução pois podemos pensar em um sistema auto-organizativo autônomo que não muda (portanto, não evolui). O universo pode estar cheio deles. Dessa forma, vida no sentido universal (como tipo) NÃO pressupõe evolução. Por isso o Dawkins está completamente errado quando define seu Darwinismo Universal. Vida sem a capacidade de evoluir pode ser muito instável mas, a priori, não é teoricamente impossível. Nunca havia pensando nisso.

Letícia: No começo pode ter havido realmente uma variação muito limitada.

Charles: Não só no começo. Pensa comigo: uma biosfera em que todos os organismos sejam geneticamente idênticos, como em Janus (o planeta criado pela Jablonka & Lamb no “Evolução em quatro dimensões”). Eles podem mudar por fatores epigenéticos/ambientais. Em Janus, a biosfera pode ser diferente a cada geração, mesmo sem qualquer tipo de sistema hereditário. Por isso a definição de vida não deve pressupor evolução (não no sentido de mudança no passar do tempo).

Letícia: Os organismos, então, apenas seriam limitados em termos variacionais?

Charles: Sim. Mesmo sem variação genética, as mudanças ambientais e sua influência sobre os sistemas de informação garantiriam a flexibilidade do sistema vivo contra mudanças estocásticas (i.e., eventos contingentes). O que é diferente de pressupor evolução no sentido de descendência com modificação a partir de um ancestral comum. Talvez a evolução seja uma idiossincrasia do nosso planeta ou de certos tipos de vida.

Letícia: Dessa forma, existiria “vida” antes de “vida que evolui”?

Charles: Sim. Deixamos a definição de vida "mais básica", mais fundamental, tipológica.

Letícia: O oceano do “Solaris” entraria nessa definição! O Stanislaw Lem estava certo. [mais sobre esse assunto pode ser lido aqui]

Charles: É exatamente o que eu estava pensando... oceano vivo, que muda sem mudar.

Letícia: Quanto tempo esses tipos de sistema se manteriam? A informação, como seria retida?

Charles: Se as possibilidades de variações epigenéticas forem muitas, elas não precisam ser retidas. Não estamos falando de hereditariedade clássica aqui, mas de variação sem herança. Poderíamos dizer que, em certas biosferas, existiria herança sem variação; em outras, nenhuma variação (ainda que existisse vida); em outras, herança sem variação em uma primeira etapa, seguida de variação com herança; e outras ainda, em um primeiro momento a vida apareceria como um sistema sem possibilidade de variação, depois surgiria variação sem herança (sem qualquer tipo de molécula informacional ou material genético), seguida de variação com herança (genética mais epigenética). Acho que é isso.

Letícia: Gostei da discussão. Ideias, ideias!


Vida sem evolução? Variação sem base hereditária? Biologia universal? Essas coisas podem realmente existir? Não sei ao certo. Na ciência, o processo é tão importante quanto o resultado, e as perguntas, mais fundamentais que as respostas. A partir da dúvida, seguimos em frente.

Infelizmente, a imagem do cientista difundida pelo cinema e pelas mídias de massa não corresponde à rotina dos laboratórios, universidades e institutos de pesquisa. A ciência não precisa ser vetusta ou carrancuda. Às vezes miramos em alvos móveis que não temos a menor certeza se serão ou não atingidos. Isso não importa tanto. Pelo contrário: questionar os pilares da nossa realidade e tentar explicá-los cientificamente é uma atividade prazerosa e divertida.

Não devemos temer o erro. Como disse o professor Dráulio Barros de Araújo, neurocientista da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em um encontro da Academia Brasileira de Ciências ano passado: “o risco é inerente à boa pesquisa. Ciência não é sobre papers, é sobre curiosidade e descoberta”. Fracassar é parte indissociável do processo de construção de conhecimento. 

O caminho que temos para desvendar os mistérios do mundo natural é nos aventurarmos além dos limites do possível, permitindo à nossa imaginação adentrar os domínios do que alguns julgam impossível (ou improvável). Fica a mensagem do físico Richard Feynman (1918-1988): a natureza é tão absurdamente extraordinária que ela nunca vai deixar nossas mentes relaxarem.

Figuras
http://en.wikipedia.org/wiki/Self-organization
http://17rg073sukbm1lmjk9jrehb643.wpengine.netdna-cdn.com/wp-content/uploads/2014/11/calories10.gif

sexta-feira, 6 de março de 2015

O avesso da vida - II

Quanto àqueles que negam os Nossos versículos, introduzí-los-emos no fogo infernal. Cada vez que a sua pele se tiver queimado, trocá-la-emos por outra, para que experimentem mais e mais o suplício. Sabei que Deus é Poderoso, Prudentíssimo.
Alcorão (4, 56)
A maior parte daquilo que atualmente consideramos sagrado só é sagrado por uma única razão: porque foi considerado sagrado ontem.
Nós temos nomes para definir pessoas que têm muitas convicções para as quais não há justificativa racional. Se essas convicções forem extremamente comuns, chamamos essas pessoas de “religiosas”; caso contrário, provavelmente serão chamadas de “loucas”, “psicóticas” ou “delirantes”. (...) a maioria das religiões meramente canonizou algumas manifestações de ignorância e loucura ancestrais e as passou para nós como se fossem verdades primordiais.
E assim é que, quando um terrorista muçulmano suicida destrói sua vida, juntamente com dezenas de inocentes em uma rua de Jerusalém, o papel que a fé religiosa desempenha nas suas ações é invariavelmente minimizado. O que se diz é que seus motivos devem ter sido políticos, econômicos, ou inteiramente pessoais; e que, mesmo excluindo a fé, pessoas desesperadas também fariam coisas terríveis.
Sam Harris (2004) A morte da fé: religião, terror e o futuro da razão
Durante quase duzentos anos, nós, norte-americanos, expulsamos ou exterminamos populações indígenas, isto é, milhões de pessoas; conquistamos a metade do México; saqueamos a região do Caribe e da América Central; invadimos o Haiti e as Filipinas - matando, na ocasião, 100 mil filipinos. Depois, após a II Guerra Mundial, estendemos nosso domínio sobre o mundo da maneira que se conhece.
Noam Chomsky (2001) Terrorismo: a arma dos poderosos
O governo dos Estados Unidos se recusa a julgar a si mesmo segundo os mesmos padrões morais com que julga os outros. (...) Sua técnica é posicionar-se como um gigante bem intencionado cujas boas ações são mal compreendidas pelos ardilosos nativos de países cujos mercados os Estados Unidos estão tentando libertar, cujas sociedades estão tentando modernizar, cujas mulheres estão tentando liberar, cujas almas estão tentando salvar. (...) O governo dos Estados Unidos conferiu a si mesmo o direito e a liberdade de assassinar e exterminar as pessoas “para o próprio bem delas”.
Arundhati Roy (2003), War talk 
De manhã cedo os soldados aterrissaram de helicóptero na aldeia [My Lai, no Vietnã]. Muitos disparavam enquanto se espalhavam, matando pessoas e animais. Não havia sinal do batalhão vietcongue e nenhum tiro foi disparado contra a Charlie Company o dia todo, mas eles prosseguiram. Queimaram todas as casas. Estupraram mulheres e meninas e depois as mataram. Esfaquearam algumas mulheres na vagina e evisceraram outras, ou cortaram-lhes as mãos e o escalpo. Mulheres grávidas tiveram o ventre rasgado e foram abandonadas à morte. Houve estupros organizados em gangues e matanças a tiros ou com baionetas. Houve execuções em massa. Dezenas de pessoas de uma só vez, inclusive velhos, mulheres e crianças, foram metralhadas numa vala. Em quatro horas, cerca de quinhentos aldeões foram assassinados.
Jonathan Glover (1999) Humanity: a moral history of the twentieth century
A intolerância é a companheira natural da fé vigorosa; a tolerância só viceja quando a fé perde a certeza; a certeza é assassina.
Will Durant (1950) The age of faith
Os condenados são então imediatamente levados para Riberia, o local da execução, onde há tantas estacas quanto são os prisioneiros a serem queimados. O ser relapso e negativo é primeiro estrangulado e depois queimado; os peritos montam as estacas perto de uma escada, e os jesuítas, depois de várias repetidas exortações para se reconciliarem com a Igreja, consignam-nos à destruição eterna, e depois deixam-nos com o demônio, que dizem estar ao lado delas para conduzí-los por seus tormentos. Nisso eleva-se um alto brado, e o brado é: “Vamos fazer a barba dos cães”; o que é feito aplicando-se tufos de arbustos em chamas, amarrados a longas varas, em suas barbas, até que seus rostos queimam até a negritude, a população ao redor enchendo o ar com as mais sonoras aclamações de alegria. Finalmente é ateado fogo aos arbustos ao pé da estaca, nas quais as vítimas estão acorrentadas, tão no alto que as chamas mal chegam ao assento onde estão posicionadas, e assim elas são mais assadas do que queimadas. Embora não possa haver um espetáculo mais lamentável e os sofredores gritem continuamente, enquanto conseguem, “Piedade pelo amor de Deus!”, ele é assistido por pessoas de todas as idades e de ambos os sexos, enlevadas de alegria e satisfação.
John Swain (1931) The pleasures of the torture chamber [narrando um auto de fé espanhol]
Mesmo para os padrões do Estados Islâmico, o mais recente vídeo de propaganda é particularmente macabro. A filmagem alterna imagens do piloto enquanto ele está vivo, com sequências mostrando os escombros de edifícios destruídos e os corpos queimados de sírios supostamente mortos em ataques aéreos da coalizão. Membros do Estado Islâmico foram ao Twitter para aplaudir a morte do piloto, chamando-a de "olho por olho". No final do vídeo de 22 minutos, um guerilheiro do Estado Islâmico acende o rasto de pólvora enquanto o tenente Kasasbeh assiste, suas roupas encharcadas de combustível. As chamas correm para dentro da jaula e o engolfam. A câmera se demora mostrando close-ups de sua agonia, antes de concluir com fotos do que o Estado Islâmico reivindicou serem outros pilotos da Jordânia e uma oferta de recompensa de 100 moedas de ouro para quem quer que mate um deles.
Rod Nordland e Ranya Kadri, New York Times, 3 de fevereiro de 2015

Figura 1. http://jesusismuslim.com/
Figura 2. http://images2.alphacoders.com/147/147450.jpg
Figura 3. http://planetoftheapes.wikia.com/
Figura 4. http://waterboarding.org
Figura 5. http://www.livetradingnews.com/

sábado, 28 de fevereiro de 2015

O avesso da vida

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Pensem sobre as coisas perversas que são decretadas pela religião. A mutilação dos genitais de crianças, por exemplo. Quem faria isso, se não fosse, visivelmente, uma promessa selada com Deus? Quem iria dizer, ao receber um recém-nascido, ‘Parece perfeito, mas precisa ser mutilado na genitália antes de ficar realmente ok’? Somente a religião levaria as pessoas a fazer algo tão horrível, tão insano.
Os que alegam conhecer a mente de Deus estão tentando investir-se de autoridade humana - a sua própria - sob um disfarce divino. E não fazem isso porque querem poder no outro mundo, senhoras e senhores, irmãs e irmãos. Fazem isso porque querem poder neste mundo.
Quem alega saber de fato já dispõe de toda a informação da qual precisa e não quer que mais perguntas sejam formuladas. Quem diz, como diriam os muçulmanos: “Já temos um Livro, o que mais vocês querem?” “Temos a última palavra e a palavra final”. “Todas as demais perguntas são desnecessárias”, esses são os inimigos da liberdade, os inimigos do pensamento, os inimigos da sociedade.
Christopher Hitchens (2007), Deus não é grande

‘Se há um Deus que desempenha um papel no nosso mundo, eu comerei todos os chapéus desta cidade’ – e no entanto não pude evitar ser pego pelo espetáculo desta adoração à rocha, exemplo, para mim, do aspecto mais pavorosamente retardado da mente humana.
Você pode sair por aí beijando todos os muros do mundo, e todas as cruzes, e fêmures, e tíbias de todos os santos mártires abençoados que já foram trucidados pelos infiéis e, de volta ao escritório, ser um filho da puta para os seus funcionários e em casa um perfeito pentelho para a família.
Philip Roth (1986), O avesso da vida

Com grande freqüência os líderes espirituais cerraram fileiras no sentido de apoiar o escravismo, direta ou indiretamente. Não eram poucos os que justificavam o seqüestro forçado dos negros africanos para a escravidão americana, dizendo que estes, dessa forma, eram convertidos ao cristianismo e que a salvação de suas almas compensava amplamente a escravidão de seus corpos.(...) E quem é o maior beneficiário de uma religião que se propõe a suprir as necessidades espirituais de escravos e servos, assegurando a estes que sua condição terrena representa a vontade de Deus e prometendo-lhes uma vida de eterna bem-aventurança após a morte, contanto que não cometam o pecado de se rebelar contra essa vontade? Será o escravo, cuja vida poderá tornar-se mais suportável pela contemplação dos Céus? Ou será o senhor de escravos, que poderá ficar menos preocupado em mitigar o pesado fardo dos oprimidos e despreocupado quanto a uma possível revolta.
Issac Asimov (1989), Antologia 2: os melhores ensaios científicos de Asimov

Os desígnios de deus são inescrutáveis, nem nós, anjos, podemos penetrar no seu pensamento, Estou cansado da lengalenga de que os desígnios do senhor são inescrutáveis, respondeu caim, deus deveria ser transparente e límpido como cristal em lugar dessa contínua assombração, deste constante medo, enfim, deus não nos ama, Foi ele quem te deu a vida, A vida deram-ma meu pai e minha mãe, juntaram carne à carne e eu nasci, não consta que deus estivesse presente no acto, Deus está em todo lado, Sobretudo quando manda matar, uma só criança das que morreram feitas tições em sodoma bastaria para o condenar sem remissão, mas a justiça, para deus, é uma palavra vã (...)
José Saramago (2009), Caim 

Os filósofos ampliam o significado das palavras até que elas pouco conservem de seu significado original: ao chamar de “Deus” alguma abstração vaga que criaram para si mesmos, eles se apresentam como deístas, crentes, ante o mundo; podem até se orgulhar de terem atingido uma ideia mais elevada e mais pura de Deus, embora o Deus deles não passe de uma sombra sem substância e não seja mais a personalidade poderosa da doutrina religiosa.
Sigmund Freud (1927), O futuro de uma ilusão


Fig1: http://en.wikipedia.org/wiki/Crusades#mediaviewer/File:Philippe_Auguste_arrivant_en_Palestine.jpg
Fig2: http://www.smh.com.au
Fig3: http://nypost.com
Fig4: http://colunas.revistaepoca.globo.com
Fig5: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Inquisition.jpg

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Treinando macacos para o circo

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Dê uma boa olhada nessa foto. Analise a expressão do macaco esperando ser ensinado pelo seu professor a fazer malabarismos e agradar às milhares de pessoas ávidas por diversão e entretenimento. Tente imaginar o que se passa na sua mente dita primitiva.

Nossa espécie, o Homo sapiens, é apenas um dentre mais de um bilhão de ramos da árvore da vida que viceja no planeta Terra. Infelizmente, nossos sistemas sociais ainda baseiam sua organização ética na centralidade humana, o que ignora realidades já compreendidas pela ciência e justifica a utilização instrumental que o homem faz da natureza. Essa prática especista dá ao Homo sapiens o auto-instituido direito de subjugar quaisquer outros organismos, explorando-os de forma cruel, escravizando-os e, muitas vezes, assassinando-os sem cerimônia.

Há mais de 130 anos, Charles Darwin (1809-1882) escreveu no The Descent of Man (A ancestralidade do homem): "O fato de que os animais inferiores são estimulados pelas mesmas emoções que nós mesmos está tão bem estabelecido que não será necessário cansar o leitor com detalhes. Atos de terror agem da mesma maneira neles e em nós, causando tremores nos músculos, o coração a palpitar, o relaxamento dos esfíncteres e o arrepio dos cabelos". A despeito do uso do termo inferior, Darwin nos dizia que todas as espécies do planeta compartilham atributos, mesmo que elas estejam evolutivamente muito distantes. Nós temos características em comum com amebas, planárias, baobás, cogumelos, moluscos, baratas, caranguejos, tartarugas, golfinhos, gatos, vacas e pandas. E macacos.

Agora dê outra boa olhada na foto acima. 

Em Suzhou, na província de Anhui (na China), onde a foto foi tirada, existem mais de 300 trupes de circo. O fotógrafo responsável pelo registro é Yongzhi Chu, premiado na categoria Natureza na World Press Photo of the Year (2014).

sábado, 22 de novembro de 2014

Breves resenhas: Thomas Piketty e o segredo dos ricos

Em 2013, o economista francês Thomas Pikkety publicou "O capital no século XXI", um estudo sobre a crescente concentração de renda e a evolução da desigualdade nos últimos cem anos. A obra de Piketty foi traduzida para o português e publicada recentemente. Também este ano, o LeMonde Diplomatique lançou uma coletânea de breves ensaios discutindo alguns dos aspectos centrais da obra do economista francês. O livro é de fácil compreensão e traz dados estarrecedores (incluindo informações sobre o Brasil), corroborando a hipótese de que o aumento da desigualdade no século XX tem sido brutal, e apontando algumas das suas possíveis consequências sociais, políticos e econômicas.

Um dos ensaios deste livreto é especialmente interessante. O autor - Hervé Kempf, jornalista francês - apresenta quais podem ser os efeitos dessa crescente desiguldade global no meio ambiente e nas políticas ambientais. Seguem trechos selecionados de "Como os ricos estão destruindo o mundo" (os destaques são meus):
Em nível mundial, o número de pessoas em situação de pobreza absoluta, ou seja, que vivem com menos de dois dólares por dia, é da ordem de dois bilhões, enquanto a Organização para a Alimentação e Agricultura estima em 820 milhões o número de seres humanos desnutridos. (p.45)
[Nos EUA], até a década de 1970, os executivos das [500 maiores] empresas ganhavam cerca de 35 vezes o salário médio de seus empregador (...) nos anos 2000, o salário dos executivos correspondia a cerca de 130 vezes o da média dos empregados. (...) A oligarquia acumulou rendimentos e patrimônio em um grau que não se via há um século. (p.45)
[O economista Thorsten] Veblen afirma que a tendência à competição é inerente à natureza humana. Cada um de nós tem uma propensão a se comparar com os outros, procurando manifestar, por meio de traços exteriores, uma pequena superioridade, uma diferença simbólica em relação às pessoas com quem vivemos. Veblen não afirmou que a natureza humana resume-se à essa caracteristica, e não fazia um julgamento moral, apenas uma constatação. Baseando-se em numerosos depoimentos de etnógrafos de sua época, ele também observou que essa forma de rivalidade simbólica é observada em todas as sociedades. (...) todas as sociedades produzem com bastante facilidade a riqueza necessária para atender suas necessidades de alimentação, habitação, educação das crianças, convívio, etc. No entanto, costumam produzir uma quantidade de riqueza bem superior à satisfação dessas necessidades. Por quê? Porque se trata de permitir que seus membros distingam-se uns dos outros. (p.47)
Veblen (...) observou que existem frequentemente várias classes dentro de uma sociedade. Cada uma delas é regida pelo princípio da rivalidade ostentatória. E, em cada classe, os indivíduos tomam como modelo o comportamento vigente na classe social superior, que mostra o que é bom, o que é chique fazer. A camada social imitada toma como exemplo aquilo que se localiza acima dela na escala da fortuna. Essa imitação reproduz-se de baixo até o alto, de modo que a classe no topo define o modelo cultural geral daquilo que é prestigiado, daquilo que impressiona. (p.47)
Como a oligarquia bloqueia as mudanças necessárias para prevenir o agravamento da crise ambiental? Diretamente (...), pelos poderosos instrumentos – políticos, econômicos e midiáticos – de que dispõe e que utiliza para manter seus privilégios. Mas também indiretamente, o que tem a mesma importância, por meio desse modelo cultural de consumo que impregna toda a sociedade e define sua normalidade. (p.48)
Prevenir o agravamento da crise ambiental, e até começar a recuperar o meio ambiente, é um princípio bastante simples: basta que a humanidade reduza seu impacto sobre a biosfera. Chegar a isso também é um princípio muito simples: significa reduzir nossas retiradas de minerais, madeira, água, ouro, petróleo, etc., e reduzir nossas emissões de gases de efeito estufa, resíduos químicos, materiais radioativos, embalagens, etc. Ou seja, reduzir o consumo material global de nossas sociedades. Essa redução é a alavanca essencial para mudar a situação ambiental. (p.48)
Estima-se que 20% a 30% da população mundial consumam de 70% a 80% dos recursos retirados anualmente da biosfera. Portanto, é desses 20% a 30% que a mudança tem de vir(...) [nas] socidades superdesenvolvidas, não é aos pobres, aos beneficiários de programas sociais, aos modestos assalariados que vamos propor uma redução do consumo material. Mas também não são apenas os super-ricos que precisam fazer esse redução (...) É ao conjunto da classe média ocidental que deve ser proposta a redução do consumo material. Vemos aqui que a questão da desigualdade é central: a classe média não aceitará seguir a direção do menor consumo material se perdurar a atual situação de desigualdade, se a mudança necessária não for equitativamente adotada. (p.49)
Uma civilização que escolha a redução do consumo material abrirá as portas para outras políticas. Com a transferência de riqueza que reduziria as desigualdades, ela poderia estimular as atividades humanas socialmente úteis e de baixo impacto ambiental. Saúde, educação, transportes, energia, agricultura – são muitos os domínios em que as necessidades sociais são grandes e as possibilidades de ação, importantes. Trata-se de renovar a economia pela ideia da utilidade humana, em vez da obsessão pela produção material; de promover os laços sociais, em vez da satisfação individual. Diante da crise ambiental, temos de consumir me nos para distribuir melhor. Para podermos viver melhor juntos, em vez de consumir sozinhos. (p.50)

Referência:
Kempf, H. Como os ricos estão destruindo o mundo. Em: Bava, Sílvio Caccia (Org.). 2014. Thomas Piketty e o segredo dos ricos, p.42-50. São Paulo: Editora Veneta. 

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Manifesto da Sociedade Brasileira de Paleontologia

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A Sociedade Brasileira de Paleontologia (SBP) publicou um manifesto em sua página  oficial (http://www.sbpbrasil.org/) defendendo a validade da Evolução Biológica e do seu ensino nas escolas do país (no contexto das discussões sobre o "design inteligente"). Fui um dos colaboradores na escrita do manifesto.

O objetivo principal da SBP é esclarecer que declarações de grupos criacionistas e defensores do chamado “Design Inteligente” acerca de temas fundamentais como o estudo de fósseis, da origem do universo e da vida como a conhecemos não possuem respaldo na comunidade acadêmica e não devem ser consideradas de natureza científica. Como diz o texto: "Tais declarações são comumente enganosas e prestam um desserviço à sociedade brasileira, que muitas vezes possui poucas ferramentas para identificar os  equívocos veiculados".

O manifesto pode ser lido na íntegra no endereço:

Crédito da imagem: http://www.durangobill.com/

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Um longo argumento vai virar livro!

Caros amigos,

Finalizei minutos atrás a revisão, ampliação e atualização de alguns dos ensaios publicados neste blog. Eles farão parte de um breve livro de ensaios, intitulado O hipopótamo de Tal: reflexões sobre o conhecimento científico. Tão logo eu tenha informações mais concretas sobre o lançamento - que deve acontecer no segundo semestre de 2014 - eu postarei aqui. A introdução é a que segue:


Hipopótamo de Tal: reflexões sobre o conhecimento científico

Introdução
Este livro começou a ser escrito há exatamente dez anos, quando publiquei, pela primeira vez, uma série de artigos científicos em um jornal da cidade de Ribeirão Preto, interior do Estado de São Paulo. Apesar da pequena tiragem do semanário, por alguns meses pude exercitar a divulgação das bases do raciocínio científico para um público não especializado. Continuei esse exercício quando lancei meu blog “Um longo argumento”, em meados de 2007. Nele tenho escrito ensaios sobre diversos aspectos da biologia evolutiva, da filosofia da ciência e da educação científica, buscando levar a minha perspectica sobre esses assuntos para os leitores que tenham paciência de meu ouvir. As primeiras versões dos textos do presente volume podem ser encontradas lá.

Meu interesse pela divulgação científica é muito anterior à qualquer tipo de educação formal em ciências. Eu era apaixonado pela revista Superinteressante no seu início (foi lançada em setembro de 1987 e vinha encartada na Playboy, que meu pai assinava e disponibilizava para os clientes no seu salão de cabeleireiro). Em 1990, entrei em contato com o saudoso e genial Isaac Asimov através da versão brasileira da Isaac Asimov Magazine, publicada pela editora Record (e que, infelizmente, durou apenas 25 números). Lembro-me que, para comprar o volume de estréia – por muitos anos eu só tive os três primeiros! – eu enganei minha mãe dizendo que precisava muito daquela revista para levar para a escola e que, se eu não fizesse, talvez ficasse de recuperação...

Ao final do colegial, escolhi seguir a carreira de Jornalismo. Estudei por um ano na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, mas não consegui me adequar à maneira como o conhecimento era tratado nas disciplinas (com algumas poucas exceções). Pouco antes de decidir largar o curso, li na biblioteca vários trechos do Biologia Evolutiva, um clássico das Ciências Biológicas escrito por Douglas Futuyma. Parecia o caminho a seguir. Menos de seis meses depois, eu me matriculava no curso de Biologia da Universidade de São Paulo. Mesmo assim, nunca deixei de gostar de comunicação. A oportunidade de escrever para um jornal, quando eu já estava na pós-graduação, uniu essas minhas grandes paixões intelectuais.

Durante toda a minha formação acadêmica, sempre tive um respeito absoluto pela figura do professor. Se hoje sou capaz de me expressar de forma minimamente coerente e apresentar ideias científicas através das minhas aulas e dos meus textos, devo muito aos vários mestres que cruzaram meu caminho. Alguns inesquecíveis, outros nem tanto, mas todos com alguma contribuição a dar. Aqui, agradeço especialmente aos professores Luis Evandro Tavares, Fernando Sérgio Zucoloto, Antônio Carlos Marques, Dalton de Souza Amorim e Nelson Papavero, que me apresentaram as bases do que será discutido neste livro de ensaios. E também agradeço a amigos e contemporâneos, hoje também mestres, que fizeram parte dessa jornada, direta ou indiretamente: Adolfo Ricardo Calor, Gustavo Acrani, André Eterovic, Fernando Gibran, Eduardo Almeida, Guilherme Ribeiro, Daniel Carretiero, Renato Capellari e Sarah Oliveira. O professor Gibran fez a revisão técnica do livro.

Finalmente, sou grato à minha esposa Patricia Kiss, minha incentivadora incansável, com sua mente artística e seu olhar para o detalhe. À ela dedico este livro. 

terça-feira, 10 de junho de 2014

Da relação entre evolução biológica e esportes

Eu perdi mais de 9.000 arremessos em minha carreira. Eu perdi quase 300 jogos. Em 26 vezes, confiaram em mim para dar o lance vencedor e eu errei. Eu falhei muitas e muitas e muitas vezes na minha vida. E foi por isso que tive sucesso.
Michael Jordan

Em tempos de Copa do Mundo da Fifa e da seleção da Confederação Brasileira de Futebol, a biologia evolutiva pode ser uma ferramenta interessante para se discutir o papel dos esportes na natureza humana. Questões sobre as origens das competições esportivas e porque elas atingiram tamanha centralidade nas culturas contemporâneas não são de interesse exclusivo dos programas de debate jornalístico e das mesas-redondas pós-jogo nos domingos à noite. 

Fonte: http://www.etravelphotos.com/ 
Na sua obra magna On the origin of species (publicada originalmente em 1859), o naturalista britânico Charles Darwin (1809-1882) defendia que os organismos estavam em luta perpétua pela vida e que somente os mais bem-adaptados sobreviveriam, deixando uma maior quantidade de filhotes e, consequentemente, aumentando a frequência de suas características na população de uma geração para outra. O raciocínio darwiniano partia da existência de variação prévia nas populações. Os organismos, portanto, adaptam-se às condições ambientais que enfrentam e esse processo, se continuado por longo períodos, pode levar ao surgimento de novas espécies.

Adaptações são as propriedades dos seres vivos que os tornam capazes de sobreviver e de se reproduzir na natureza. Segundo a teoria evolutiva clássica, qualquer atributo que leve um organismo a deixar mais descendentes do que a média da população, isto é, que permita taxas diferenciais de reprodução, terá frequência maior nas gerações subsequentes.

Para que a seleção natural ocorra são necessárias algumas condições:

1. Os organismos precisam ser capazes de reproduzir;
2. Suas características devem ser hereditárias;
3. Deve existir variação de caracteres individuais entre os membros de uma população; 
4. É necessária a ocorrência de variação da aptidão (fitness) do organismo, de acordo com o estado de um determinado caráter herdável. Por aptidão entende-se o número médio de descendentes diretos deixados por um membro médio da população.

Darwin não foi capaz de explicar qual o mecanismo da hereditariedade. Esse problema só encontrou solução quando as ideias de Gregor Mendel (1882-1884) passaram a constituir a teoria da hereditariedade aceita, a partir da década de 1920. Ronald Fisher (1890-1962), J.B.S. Haldane (1892-1964) e Sewall Wright (1889-1988) conseguiram demonstrar que a seleção natural poderia operar em conjunto com a genética mendeliana. Assim estabeleceu-se o que se conhece hoje como a Síntese Moderna da Evolução ou Teoria Sintética da Evolução, por muito tempo tido como o paradigma da teoria evolutiva, centrada no papel preponderante da seleção natural atuando na variedade pré-existente originada a partir de mutações aleatórias e recombinações cromossômicas.

Na perspectiva da Síntese Moderna, a seleção natural leva à evolução a partir das mudanças no ambiente, em decorrência do surgimento de uma nova forma que sobrevive melhor do que a forma vigente. A variação seria resultado de mutações aleatórias, ocorridas durante a replicação do DNA, e da recombinação cromossômica, no processo de meiose que ocorre durante a formação dos gametas. Ao surgir um novo genótipo recombinante não existiria qualquer tendência dele estar relacionado a uma melhora adaptativa. Nessa visão, a pressão seletiva sobre as características dos indivíduos, provenientes de fatores ambientais, leva à fixação de determinados atributos em detrimento de outros. Esse fenômeno é conhecido como mudança da frequência genética nas populações.

Em linhas gerais, a seleção natural é tida como a explicação para a existência de adaptação. Sua atuação proporciona o surgimento de um pico adaptativo no qual o organismo com maior valor de aptidão para um determinado caráter tem vantagem sobre outro com um valor de aptidão menor – a pressão de seleção encaminharia os indivíduos a um estado adaptativo ótimo ou sub-ótimo. Como diz o escritor Max Barry, em seu livro Homem-máquina (originalmente publicado em 2011, página 201):
Ninguém pode ser perfeito na maior parte do tempo. Ninguém pode ser perfeito apenas em alguns momentos. Ou você é perfeito ou não é. E eu não acho que a biologia trabalhe com a noção de perfeição. Biologia é eficiência aproximada. É uma questão de ser razoavelmente boa. Um vácuo é perfeito. Pi é perfeito. A vida não.
A psicologia evolutiva baseia-se em cenários selecionistas para explicar a evolução do comportamento humano. Por muito tempo após a publicação do On the origin of species, estudos sociais, comportamentais e psicológicos passaram ao largo da teoria evolutiva darwiniana. Segundo professor de psicologia David Buss, da Texas University, a psicologia evolutiva é uma tentativa de reunir todas as disciplinas humanas, antes fragmentadas e muitas vezes contraditórias, em um todo logicamente integrado que incorpore os conceitos da teoria da evolução de forma correta e exclua, ao mesmo tempo, todas as percepções e crenças tradicionalmente aceitas que não façam sentido no contexto evolutivo. A psicologia evolutiva pode ser vista como um programa de pesquisa que busca compreender a origem do ciúme, habilidades de raciocínio, processos decisórios, linguagem, preferências de acasalamento, status social, agressão e sexo. Para Buss, como todo tipo de comportamento depende de mecanismos psicológicos complexos, e todos os mecanismos psicológicos, ao menos em algum nível, resultam de um processo de evolução por seleção natural, todas as teorias psicológicas são implicitamente teorias psicológicas evolutivas. A evolução é responsável por quem somos hoje.

Fonte: http://www.animalgalleries.org/
É nesse contexto que se pode discutir a conexão entre esportes e evolução, mais especificamente os mecanismos da seleção natural e da seleção sexual, tanto para se analisar o esporte como analogia à competição no mundo orgânico, quanto para se tentar entender a relação entre torcer / praticar esportes e algum tipo de vantagem seletiva surgida durante a história evolutiva dos hominídeos.

Apesar da sua importância em todas as sociedades humanas desde tempos imemoriais, no geral o esporte tem recebido pouca atenção de biólogos evolucionistas. Isso é surpreendente porque a universalidade dos esportes sugere que sua origem possa ser bem compreendida no contexto da biologia evolutiva.

Segundo Michael Lombardo, do Departamento de Biologia da Grand Valley State University:
As características das brincadeiras entre animais sugerem que os esportes se originaram dessa forma. As brincadeiras entre mamíferos jovens, incluindo humanos, frequentemente mimetizam comportamentos (por exemplo, captura de presas, fuga de predadores, lutas) necessários à sobrevivência. O comportamento de humanos brincando também mimetiza aqueles presentes em muitos esportes (correr, perseguir oponentes, lançar e interceptar projéteis). Em animais não-humanos, as brincadeiras tendem a ocorrer durante um período crítico para o desenvolvimento do cerebelo e para a diferenciação de fibras musculares. Diferentemente das brincadeiras entre os não-humanos, as nossas podem persistir até a idade adulta.
Complexas organizações se desenvolveram, especialmente ao longo dos últimos 150 anos, para regular e promover competições atléticas. Tais competições são importantes eventos sociais, com público de mais de dezenas de milhares de espectadores nas partidas (por exemplo, nos jogos olímpicos e em finais de campeonatos de futebol ou basquetebol). Apesar dessas competições atléticas serem frequentemente simples (por exemplo, quem corre por 100 metros mais rápido?), envolverem poucos participantes e não terem, aparentemente, um propósito biológico direto (como vencer a corrida dos 100 metros afeta a sobrevivência e sucesso reprodutivo do campeão?), elas afetam boa parte da população mundial. A significância social e política global das Olimpíadas de Berlim em 1936, em pleno governo nazista na Alemanha e às portas da Segunda Guerra Mundial, também não pode ser negligenciada.

Competições atléticas são parte importante do tecido social nas sociedades contemporâneas e é interessante notar que, no geral, mais homens do que mulheres, em todas as idades, praticam e assistem a esportes, ao vivo ou pela televisão. Como conjectura a psicologia evolutiva, é possível dizermos que atletas campeões alcançariam maior status dentro dos seus grupos sociais e, dessa forma, aumentariam suas oportunidades de sobrevivência/reprodução. Isso sugere a influência da seleção natural em moldar as características dos atletas e dos esportes dos quais eles participam. 

Essas observações levantam importantes questões sobre o papel do esporte na natureza humana: (1) Como e por que o esporte começou?; (2) Por que os esportes são primariamente fenômenos masculinos?; (3) Por que atletas campeões em determinados esportes frequentemente alcançam maiores status, aumentando suas oportunidades de reprodução, do que atletas em outros esportes e empreitadas?; (4) Quais são os papeis relativos da seleção intra e intersexual na moldagem das características do esporte? (5) Por que os esportes obtiveram tamanha importância nas culturas modernas? 

Para a psicologia evolutiva, um cenário possível para explicar a existência, permanência e diversificação dos esportes baseia-se na seleção sexual, descrita por Darwin como a luta entre indivíduos de um sexo, geralmente os machos, pela posse do outro sexo - a seleção sexual seria responsável pela evolução de todo atributo que desse aos organismos portadores alguma vantagem reprodutiva, mesmo que ele, a priori, pareça minimizar a sua capacidade de sobrevivência (a cauda frondosa de um pavão macho é um exemplo típico).

No início, o esporte teria se originado a partir de brincadeiras e treinamento para luta, caça e guerra, possibilitando ao homem um teste para suas habilidades na competição por fêmeas e também como uma forma de avaliar aliados e rivais em potencial. Os comportamentos e atributos físicos associados com o sucesso atlético seriam subprodutos de características que evoluíram no contexto das competições físicas entre machos (relacionadas à seleção sexual) e à caça e guerra em sociedades primitivas. Esses subprodutos são conhecidos como exaptações, termo cunhado pelos paleontólogos Stephen Jay Gould (1941-2002) e Elisabeth Vrba para designar mudança de função de uma estrutura durante a evolução – uma adaptação que não teria evoluído a partir de pressões seletivas relacionadas à sua função atual. A seleção sexual, portanto, explicaria porque homens são mais interessados em esportes, como praticantes e também como espectadores, do que as mulheres. Obviamente nem todos os atributos existentes nos organismos, incluindo aí o Homo sapiens, são resultado direto do processo de seleção natural. No entanto, é consenso entre boa parte dos evolucionistas que, a despeito de como uma característica tenha se originado, ela será selecionada positivamente se permitir maiores taxas de sobrevivência e reprodução quando comparados a outros indivíduos da mesma espécie.

Fonte: http://www.picturesnew.com/
Além de explicações sobre a origem histórica dos esportes e sua relação com a seleção natural/sexual, uma questão evolutiva fundamental a ser discutida diz respeito aos diferentes tipos de doping e às possibilidades do Homo sapiens mudar sua constituição física (e, talvez, suas habilidades atléticas) a partir do desenvolvimento científico-tecnológico. Esse é um dos tópicos de pesquisa do transhumanismo, filosofia que busca discutir a transcendência tecnológica da condição humana (e discutida anteriormente nesse blog).

O crescimento e a recuperação muscular são controlados por sinais químicos, os quais, por sua vez, são regulados por genes. A perda muscular devido à idade ou doenças pode ser revertida pelo aumento ou bloqueio desses sinais, através da adição de um gene sintético regulador. Os atletas poderiam usar a mesma técnica para aumentar o tamanho, a força e a resistência dos seus músculos, e o tratamento seria virtualmente indetectável. Quando a terapia gênica entrar em uso clínico, pode ser difícil evitar seu abuso. Dado um quadro de busca incessante pelo ganho de desempenho em esportes de alto rendimento, a maneira de encarar o melhoramento biológico a partir da ciência e da tecnologia terá que mudar.

Na contemporaneidade, muitas realidades técnicas estão em emergência promissora. Entram aqui coisas como a confecção de medicamentos que reduzem efeitos colaterais, engenharia tecidual para a regeneração de células e órgãos, e nanotecnologia utilizada em tratamentos de saúde. A realidade potencial destas técnicas permite expandi-las para o aperfeiçoamento das propriedades naturais humanas, como o aumento das capacidades cognitivas e físicas, regulação da sensibilidade ao stress ou a dor. A possibilidade de expandir os limites físicos, criando atletas em certo sentido super-humanos, gerará impactos expressivos nos esportes, e terá que ser analisada tanto em termos econômicos quanto biológico e filosóficos. Um atleta transhumano seria ainda um Homo sapiens ou estaríamos já falando de uma pós-humanidade? Teriam que ser criadas competições específicas para transhumanos? Torceríamos com igual paixão para o Transhuman Football Club? 

A relação entre esportes e a teoria evolutiva, especialmente o mecanismo da seleção natural e seu papel no aumento da aptidão local, ainda precisa ser investigada com mais detalhes. É possível que exista uma relação entre a prática e o apreço por esportes e possíveis estratégias evolutivas surgidas há milhões de anos entre os hominídeos. Isso vale também para as implicações sociais dos esportes, relativas à psicologia evolutiva e à uma moralidade e éticas pós-darwinianas, que discute como o desenvolvimento científico-tecnológico influencia o futuro da nossa espécie.

A biologia evolutiva é capaz de construir cenários para responder a questões como “O que representaria um jogo em termos evolutivos?”, “Por que torcemos?”, “Por que praticamos esportes?” e “Há limites aceitáveis para a melhoria do desempenho atlético?”. Mais do que apenas entretenimento ou procrastinação, os esportes remontam a comportamentos muito anteriores à origem dos hominídeos e, além de arraigadas à história evolutiva dos animais, estão no cerne de contendas sociais e científicas com potencial profundamente explosivo. Pense nisso na próxima vez em que estiver assistindo ao bate-bola na televisão!

Fonte: http://www.zimbio.com/

Referências sugeridas

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