quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Parábola cética atualizada

Surfista Prateado por Jean Giraud Moebius (1988-1989)


Entre 1988 e 1989, foi publicada uma edição especial do Surfista Prateado, escrita por Stan "The Man" Lee e ilustrada por Jean Giraud Moebius, intitulada Parábola. Nela, Galactus, uma entidade cósmica conhecida como "o Devorador de Mundos", vem à Terra para destruí-la e se alimentar da sua energia. Para isso, Galactus permite que as pessoas façam o que bem desejarem em seu nome para, assim, encontrarem a "salvação" – o plano é permitir que a humanidade se aniquile por meios próprios. Nesse ínterim, surge seu ex-arauto, o Surfista Prateado, questionando o direito de Galactus de atacar a Terra com um estratagema tão ardiloso.

Ao final, o vilanesco semi-deus galáctico parte deixando nosso planeta incólume. O Surfista, alçado à categoria de herói planetário, é recebido na sede das Nações Unidas e fala para o mundo. Os diálogos, em uma páginas tocante e dolorosa, é esse:


Embaixador 1: “Nós fomos visitados por dois seres do espaço. Um, tratado como um deus. O outro, para nossa perpétua vergonha, desprezado e condenado. Mas, finalmente, enxergamos a verdade. O surfista é o verdadeiro salvador das estrelas”.
Surfista: “Não! Nenhum homem pode ser colocado acima dos demais. A chama divina está em todos ... ou em ninguém”.
Platéia: “Que humildade. A verdade essência da pureza. Só pode ser um santo. Você deve nos liderar! Oriente-nos. Seremos seus discípulos”.
Surfista (pensando): “Isto é loucura! Eles desejam um líder. Assim como uma criança espera o leite materno. É por isso que se tornam presas fáceis dos tiranos e déspotas. Por que eles não procuram a verdadeira fé em sim mesmos? Por que buscam outro que lhes mostre o caminho?”.

Essa é uma das mais belas histórias em quadrinhos de super-heróis já criadas. Definitivamente, não é leitura apenas para crianças...

Com uma das prosas filosóficas mais elegantes do século XX, Bertrand Russell (1872-1970) foi filósofo, lógico, matemático e escritor vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, em 1950. Defensor do racionalismo e do ceticismo, Russel escreveu, no seu ensaio Sonhos e fatos, que pode ser encontrado na coletânea Ensaios Céticos:

“Os sonhos de um homem ou de um grupo podem ser cômicos, mas os sonhos humanos coletivos, para nós que não podemos ultrapassar o círculo da humanidade, são patéticos. O universo é muito vasto, como revela a astronomia. (...) No mundo visível, a Via Láctea é um fragmento minúsculo; e, nesse fragmento, o sistema solar é uma partícula infinitesimal, e, dessa partícula, nosso planeta é um ponto microscópico. Nesse ponto, pequenas massas impuras de carbono e água, de estrutura complexa, com algumas raras propriedades físicas e químicas, arrastam-se por alguns anos, até serem dissolvidas outra vez nos elementos de que são compostas. Elas dividem seu tempo entre o trabalho designado para adiar o momento de sua dissolução e a luta frenética para acelerar o de outras do mesmo tipo. As convulsões naturais destroem periodicamente milhares ou milhões delas, e a doença devasta, de modo prematuro, mais algumas. Esses eventos são considerados infortúnios; mas quando os homens obtêm êxito ao impor semelhante destruição por seus próprios esforços, regozijam-se e agradecem a Deus. Na vida do sistema solar, o período no qual a existência do homem terá sido fisicamente possível é uma porção minúscula do todo; mas existe alguma razão para esperar que mesmo antes desse período terminar o homem tenha posto fim à sua existência por seus próprios meios de aniquilação mútua. Assim é a vida do homem vista de fora.”

Theodore Sturgeon (1918-1985) foi um escritor norte-americano de ficção científica. Ficou muito conhecido pela chamada "Lei de Sturgeon": “Noventa por cento de toda a ficção científica escrita é lixo; mas, se pararmos para analisar, noventa por cento de TUDO o que se escreve é lixo”. Em 1967, publicou um artigo na Cavalier Magazine, em que escreveu: "Todo avanço que essa espécie já alcançou é o resultado de alguém, em algum lugar, olhar o mundo, sua vizinhança, seu vizinho, sua caverna ou a si mesmo e fazer a próxima questão. Todo erro mortal que essa espécie cometeu, todo pecado contra si e seu destino, é o resultado de não se fazer a próxima questão ou de não se ouvir aqueles que a fizeram".

Certa vez, quando perguntado a respeito do significado da sua marca registrada pessoal (uma letra Q com uma seta apontando para a direita), Sturgeon respondeu:


“Ela significa "Faça a próxima questão" [em inglês, "Ask the next question"], e a seguinte, e a seguinte. É o símbolo de tudo que a humanidade criou e é a razão pela qual as coisas são criadas. O sujeito está sentado na caverna e diz ‘Por que um homem não pode voar?’. Bem, essa é a questão. A resposta pode não ajudá-lo, mas agora a questão foi formulada. Qual é a próxima questão? Como? E assim, através das gerações, as pessoas têm tentado encontrar a resposta para aquela questão. Nós encontramos a resposta e nós voamos. Isso é verdade para qualquer realização humana, seja na tecnologia ou na literatura, na poesia, nos sistemas políticas ou em qualquer outro assunto. É isso. Faça a próxima questão. E a outra depois dela”.

Como podemos depreender dos exemplos supra-citados, que vêm de autores tão diferentes quanto quadrinhistas, filósofos e escritores de ficção-científica, um posição inquiridora e cética não é exclusiva das ciências. Até mesmo as religiões poderiam se beneficiar dele (através, por exemplo, de uma auto-análise periódica - quiçá constante - que levasse à depuração de suas premissas reiteradas vezes consideradas infundadas). No entanto, essa me parece uma visão de mundo otimista demais, quase ingênua. As religiões, quando tomadas no geral, não fazem um esforço sincero para depurar o que podemos chamar de suas "superstições infundadas".

Religiões deveriam se limitar a tratar de alguns dos aspectos éticos e morais do homem e da sua condição na existência. Obviamente, a religião é uma poderosa atividade humana e provavelmente remonta a tempos remotos pré-científicos, muito antes da invenção de qualquer tipo escrita. Para muitos, a fé pode ser uma fonte de conforto para suas vidas - a devoção ao divino, independente de como ele se expressa, funciona como a tábua de salvação. Pode-se até mesmo construir um cenário adaptacionista para explicar o surgimento e desenvolvimento do misticismo: se funcionava como fator organizador dos agrupamentos sociais primitivos, aparecendo por vezes associado às primeiras tentativas do homem de interpretar os fenômenos naturais, essas proto-religiões teriam sido selecionadas, propagando-se na descendência. O evolucionista britânico Richard Dawkins considera as religiões como memes, ou unidades de evolução cultural, que podem se autopropagar – meme, termo criado por Dawkins em seu clássico “O gene egoísta” (de 1976), análogo ao gene, seria a unidade mínima de informação transmitida entre representantes da nossa espécie, através da conexão cérebro-cérebro ou entre locais onde essa informação está armazenada, como livros ou páginas da internet e outros locais de armazenamento e/ou cérebros.

Como é de amplo conhecimento, as doutrinas religiosas baseiam-se em dogmas, fundamentos doutrinários muitas vezes frutos de pretensas revelações ditadas pelos deuses, santos ou espíritos iluminados, todos eles manifestações do imponderável. Visto que seriam as palavras divinas em si, apesar de transcritas e interpretadas por homens, e uma vez tidos como certos pela alta hierarquia da igreja, congregação, seita e similares, esses preceitos transformam-se em ditos sagrados e, infelizmente, não se prestam a indagações sobre seus fundamentos. Assim, passam a corresponder à verdade absoluta proferida pelo altíssimo. Nesse sentido, o desenvolvimento de uma postura cética torna-se pouco provável no âmbito das religiões, pois o questionamento dos dogmas pode levar à dúvida quanto à validade desse ou daquele preceito, conseqüentemente erodindo os pilares sustentadores do pensamento religioso.

A questão é ainda mais ampla e extrapola a frágil dicotomia ciência-religião. Qual seria o objetivo de se estimular a reflexão individual (ou coletiva), o "pensar com a própria cabeça", se tudo parece já estar escrito, refletido e "pensado"? É muito mais cômodo transferir o ato de raciocinar para o padre, o pastor, o papa... ou o jornalista, o professor, o cientista... Como professor, as frases dos estudantes mais desanimadoras são "Professor, o que eu tenho que saber?" ou "Professor, o que o senhor quer que eu estude?" ou ainda "Professor, como eu devo pensar a respeito desse assunto?".

Parece que é da condição humana ansiar por um führer, um condutor para revelar como agir perante o vazio infinito da existência. Esse guia não precisa, necessariamente, estar personificado: ele se apresenta em distintas formas, que trazem, subjacentes ao seu discurso, a questão do controle e do desestímulo ao livre-pensar. Nossa indústria cultural ajuda na padronização das populações, em todos os sentidos (vestuário, ideário político, cinema, literatura, música) – o mesmo vale para muitos dos formadores de opinião, que por vezes parecem se preocupar mais em reforçar estereótipos do que em estimular o espírito crítico do seu público. A democratização da internet, nesse ínterim, tem papel ambíguo (ou paradoxal, dependendo do ponto de vista assumido). Apesar de possibilitarem a veiculação de qualquer conteúdo, qualquer informação, por mais obscura ou pouco usual que seja, ferramentas como blogs, independentemente da boas intenções dos seus criadores, estão cada vez mais semelhantes (doutrinários?).

Apesar de impressas em uma forma de arte ainda tida como menor ou infantil, as sábias palavras do Surfista Prateado bem se encaixam nesse quadro: "Eles desejam um líder, assim como uma criança espera o leite materno. É por isso que se tornam presas fáceis dos tiranos e déspotas".

5 comentários:

Osame Kinouchi disse...

"Como é de amplo conhecimento, as doutrinas religiosas baseiam-se em dogmas, fundamentos doutrinários muitas vezes frutos de pretensas revelações ditadas pelos deuses, santos ou espíritos iluminados, todos eles manifestações do imponderável. Visto que seriam as palavras divinas em si, apesar de transcritas e interpretadas por homens, e uma vez tidos como certos pela alta hierarquia da igreja, congregação, seita e similares, esses preceitos transformam-se em ditos sagrados e, infelizmente, não se prestam a indagações sobre seus fundamentos. Assim, passam a corresponder à verdade absoluta proferida pelo altíssimo. Nesse sentido, o desenvolvimento de uma postura cética torna-se pouco provável no âmbito das religiões, pois o questionamento dos dogmas pode levar à dúvida quanto à validade desse ou daquele preceito, conseqüentemente erodindo os pilares sustentadores do pensamento religioso."

Charles, estou em duvida sobre esta afirmativa. "Como é de amplo conhecimento...????" Se você entrar em qualquer livraria de teologia, por exemplo a Paulus, verá que existe amplo questionamento, inumeras teologias se confrontando, intenso diálogo com as ciencias (humanas, mas tambem naturais) e intenso diálogo entre as diversas igrejas e religiões (ecumenismo).

Acho que nós blogueiros de ciencia deveriamos ser mais cuidadosos em não fazer afirmativas generalizantes em relação às religiões (ou pelo menos conhecer mais de sua historia, antropologia e sociologia antes de tentar faze-las). Se em biologia é dificil fazer afirmativas gerais e encontrar leis gerais, muito mais dificil é fazer tais afirmativas no contexto de fenomenos culturais...

Como exercício de empirismo,
experimente fazer este experimento: ir na livraria Paulus ou entrar em seu catalogo,

http://www.paulus.com.br/lojavirtual/secoes/resultado_busca.php?status=categoria&id_cat=6&cat_busca=produtos_livros&produto=livros

A variedade observada nesses livros não é compativel com a descrição que voce faz no post. Mas talvez vc precise definir antes qual seria o nivel de evidencia empirica que vc aceitaria para considerar sua afirmativa generalizante ou "lei geral das religiões" refutada.


Assim, não é obvio que "é de amplo conhecimento" de que a teologia é uma eterna repetição do mesmo ou de que novas teologias nao são inventadas ou de que elas sejam impermeáveis à ciencia. Inclusive, existe uma linha de "teologia Popperiana", que usa a filosofia de Popper para explorar seus pressupostos.

Charles Morphy disse...

Caro Osame,
O objetivo dessa postagem NÃO foi discutir a questão das religiões, em âmbito algum, mas comentar impressões a respeito da importância de uma postura cética frente a realidade. De qualquer forma, por mais questionamento que exista entre teólogos e doutrinas religiosas, a sua forma de argumentação e de busca por evidências (por maior que possa parecer a generalização aqui proposta) não é exatamente a mesma por trás de grande parte do pensamento científico.
Quanto ao cuidado que "nós blogueiros de ciência" deveríamos ter... bem, NÃO sou blogueiro de ciências. Sou professor e cientista! Uso meu blog como uma maneira de levantar algumas discussões que acho relevantes, partindo dos meus pontos de vista. E, obviamente, objetivo levantar discussões e desenvolvimentos das minhas idéias iniciais - contribuições como a sua são inestimáveis.
Agora, os blogueiros de ciências não devem ter cuidado apenas em não fazer generalizações sobre as religiões. Eles têm que ser cuidadoso em todos os temas que tratam...
Abraço

Osame disse...

Charles,

O que estou comentando é exatamente isso: muitos cientistas, ao comentar sobre religiao, são tomados por paixoes emocionais e deixam de se comportar como verdadeiros cientistas. Por exemplo, não consideram a literatura sobre o tema (a imensa literatura que as ciencias humanas produziram sobre as religioes), fazem afirmativas historicamente erradas, etc.

O que eu defendo é um exame mais desapaixonado da questao da religiao, mais isenta, mais objetiva, mais cientifica.
Porque "religiao" é uma categoria tão ampla quanto "arte". Talvez você não goste de arte contemporânea, ou da "arte" usada nos cartazes de propaganda, mas criticar a arte apenas nestes termos é muito simplista.
Falar que os artistas são irracionais ou que não usam os mesmos metodos que os cientistas é verdadeiro mas trivial.

Talvez a religião, enquanto atividade humana, esteja mais proxima da arte do que da ciencia, ou seja, mais ligada a motivar e dar sentido à vida usando imagens e metaforas em vez de transmitir conhecimento cognitivo. Seria absurdo falar que o livro Hamlet é irrelevante ou mesmo "errado" porque tudo o que ali é contado é pura ficção sem base cientifica...

Osame disse...

Assim, o verdadeiro problema é quando religioes pretendem fazer afirmações cientificas. Acho que este é o ponto que devemos focar, porque é ai que o calo pega...

Charles Morphy disse...

"Talvez a religião, enquanto atividade humana, esteja mais proxima da arte do que da ciencia, ou seja, mais ligada a motivar e dar sentido à vida usando imagens e metaforas em vez de transmitir conhecimento cognitivo"... bem, Osame, acho que, aqui, você também mstra uma visão muito particular das religiões!
Por acaso você já entrou em uma igreja evangélica? Já ouviu algum pastor falar sobre como o homossexualismo é uma doença? Como as orações podem curar AIDS, câncer? Não há NADA de shakesperiano nisso! Essa sua visão também me parece inocente e generalista.
A meu ver, dizer que um homem, investido do "poder de Jesus Cristo", pode fazer um tetraplégico voltar a andar, é algo grave e sério.
Sem formação, a população média dificilmente vai olhar com olhos céticos esse tipo de situação. Não há nada de apaixonado em se constatar isso.
Não defendo um enfrentamento no estilo Dawkins (e, diferentemente do que você já escreveu, os biólogos não se posicionam pró e contra o sujeito. Pensar a respeito do que o Dawkins fala é tangencial à nossa atividade. Isso vale mais para quem entra em contato com a biologia apenas por obras de divulgação). Já escrevi a respeito, no início desse blog. Não pretendo, em contrapartida, fazer um comentário tomando-me como especialista no tema (não sou teólogo, sou biólogo evolucionista). No entanto, acredito que cientistas das diversas áreas devem sim defender suas posições em um tema espinhoso como esse.
Abraço!