sábado, 22 de novembro de 2014

Breves resenhas: Thomas Piketty e o segredo dos ricos

Em 2013, o economista francês Thomas Pikkety publicou "O capital no século XXI", um estudo sobre a crescente concentração de renda e a evolução da desigualdade nos últimos cem anos. A obra de Piketty foi traduzida para o português e publicada recentemente. Também este ano, o LeMonde Diplomatique lançou uma coletânea de breves ensaios discutindo alguns dos aspectos centrais da obra do economista francês. O livro é de fácil compreensão e traz dados estarrecedores (incluindo informações sobre o Brasil), corroborando a hipótese de que o aumento da desigualdade no século XX tem sido brutal, e apontando algumas das suas possíveis consequências sociais, políticos e econômicas.

Um dos ensaios deste livreto é especialmente interessante. O autor - Hervé Kempf, jornalista francês - apresenta quais podem ser os efeitos dessa crescente desiguldade global no meio ambiente e nas políticas ambientais. Seguem trechos selecionados de "Como os ricos estão destruindo o mundo" (os destaques são meus):
Em nível mundial, o número de pessoas em situação de pobreza absoluta, ou seja, que vivem com menos de dois dólares por dia, é da ordem de dois bilhões, enquanto a Organização para a Alimentação e Agricultura estima em 820 milhões o número de seres humanos desnutridos. (p.45)
[Nos EUA], até a década de 1970, os executivos das [500 maiores] empresas ganhavam cerca de 35 vezes o salário médio de seus empregador (...) nos anos 2000, o salário dos executivos correspondia a cerca de 130 vezes o da média dos empregados. (...) A oligarquia acumulou rendimentos e patrimônio em um grau que não se via há um século. (p.45)
[O economista Thorsten] Veblen afirma que a tendência à competição é inerente à natureza humana. Cada um de nós tem uma propensão a se comparar com os outros, procurando manifestar, por meio de traços exteriores, uma pequena superioridade, uma diferença simbólica em relação às pessoas com quem vivemos. Veblen não afirmou que a natureza humana resume-se à essa caracteristica, e não fazia um julgamento moral, apenas uma constatação. Baseando-se em numerosos depoimentos de etnógrafos de sua época, ele também observou que essa forma de rivalidade simbólica é observada em todas as sociedades. (...) todas as sociedades produzem com bastante facilidade a riqueza necessária para atender suas necessidades de alimentação, habitação, educação das crianças, convívio, etc. No entanto, costumam produzir uma quantidade de riqueza bem superior à satisfação dessas necessidades. Por quê? Porque se trata de permitir que seus membros distingam-se uns dos outros. (p.47)
Veblen (...) observou que existem frequentemente várias classes dentro de uma sociedade. Cada uma delas é regida pelo princípio da rivalidade ostentatória. E, em cada classe, os indivíduos tomam como modelo o comportamento vigente na classe social superior, que mostra o que é bom, o que é chique fazer. A camada social imitada toma como exemplo aquilo que se localiza acima dela na escala da fortuna. Essa imitação reproduz-se de baixo até o alto, de modo que a classe no topo define o modelo cultural geral daquilo que é prestigiado, daquilo que impressiona. (p.47)
Como a oligarquia bloqueia as mudanças necessárias para prevenir o agravamento da crise ambiental? Diretamente (...), pelos poderosos instrumentos – políticos, econômicos e midiáticos – de que dispõe e que utiliza para manter seus privilégios. Mas também indiretamente, o que tem a mesma importância, por meio desse modelo cultural de consumo que impregna toda a sociedade e define sua normalidade. (p.48)
Prevenir o agravamento da crise ambiental, e até começar a recuperar o meio ambiente, é um princípio bastante simples: basta que a humanidade reduza seu impacto sobre a biosfera. Chegar a isso também é um princípio muito simples: significa reduzir nossas retiradas de minerais, madeira, água, ouro, petróleo, etc., e reduzir nossas emissões de gases de efeito estufa, resíduos químicos, materiais radioativos, embalagens, etc. Ou seja, reduzir o consumo material global de nossas sociedades. Essa redução é a alavanca essencial para mudar a situação ambiental. (p.48)
Estima-se que 20% a 30% da população mundial consumam de 70% a 80% dos recursos retirados anualmente da biosfera. Portanto, é desses 20% a 30% que a mudança tem de vir(...) [nas] socidades superdesenvolvidas, não é aos pobres, aos beneficiários de programas sociais, aos modestos assalariados que vamos propor uma redução do consumo material. Mas também não são apenas os super-ricos que precisam fazer esse redução (...) É ao conjunto da classe média ocidental que deve ser proposta a redução do consumo material. Vemos aqui que a questão da desigualdade é central: a classe média não aceitará seguir a direção do menor consumo material se perdurar a atual situação de desigualdade, se a mudança necessária não for equitativamente adotada. (p.49)
Uma civilização que escolha a redução do consumo material abrirá as portas para outras políticas. Com a transferência de riqueza que reduziria as desigualdades, ela poderia estimular as atividades humanas socialmente úteis e de baixo impacto ambiental. Saúde, educação, transportes, energia, agricultura – são muitos os domínios em que as necessidades sociais são grandes e as possibilidades de ação, importantes. Trata-se de renovar a economia pela ideia da utilidade humana, em vez da obsessão pela produção material; de promover os laços sociais, em vez da satisfação individual. Diante da crise ambiental, temos de consumir me nos para distribuir melhor. Para podermos viver melhor juntos, em vez de consumir sozinhos. (p.50)

Referência:
Kempf, H. Como os ricos estão destruindo o mundo. Em: Bava, Sílvio Caccia (Org.). 2014. Thomas Piketty e o segredo dos ricos, p.42-50. São Paulo: Editora Veneta. 

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Manifesto da Sociedade Brasileira de Paleontologia



A Sociedade Brasileira de Paleontologia (SBP) publicou um manifesto em sua página  oficial (http://www.sbpbrasil.org/) defendendo a validade da Evolução Biológica e do seu ensino nas escolas do país (no contexto das discussões sobre o "design inteligente"). Fui um dos colaboradores na escrita do manifesto.

O objetivo principal da SBP é esclarecer que declarações de grupos criacionistas e defensores do chamado “Design Inteligente” acerca de temas fundamentais como o estudo de fósseis, da origem do universo e da vida como a conhecemos não possuem respaldo na comunidade acadêmica e não devem ser consideradas de natureza científica. Como diz o texto: "Tais declarações são comumente enganosas e prestam um desserviço à sociedade brasileira, que muitas vezes possui poucas ferramentas para identificar os  equívocos veiculados".

O manifesto pode ser lido na íntegra no endereço:

Crédito da imagem: http://www.durangobill.com/

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Pseudo-ciência e as intenções do Design Inteligente

flying-spaghetti-monster-on-speed.jpg
As pessoas vão se agarrando às cegas a tudo que existe: comunismo, comida natural, zen, surf, balé, hipnotismo, encontros grupais, orgias, ciclismo, ervas, catolicismo, halterofilismo, viagens, retiros, vegetarianismo, Índia, pintura, literatura, escultura, música, carros, mochila, ioga, cópula, jogo, bebida, andar por aí, iogurte congelado, Beethoven, Bach, Buda, Cristo, heroína, suco de cenoura, suicídio, roupas feitas à mão, vôos a jato, Nova York, e aí tudo se evapora, se rompe em pedaços. As pessoas têm de achar o que fazer enquanto esperam a morte.
Charles Bukowski (1978)
Em aulas ou palestras, já me perguntaram várias vezes se acredito na existência de um designer inteligente. Sempre respondo que sim a esse questionamento, afinal, minha mulher é designer E inteligente… 

O Design Inteligente foi uma tentativa, até agora frustrada, de grupos religiosos inserirem o "criacionismo científico" no ensino de ciências dos EUA. O movimento foi criado no final dos anos 1980, não por cientistas, mas por um advogado, Phillip Johnson, professor de direito em Berkeley (um sujeito que, além de não aceitar a evolução, também negava que o HIV era o causador da AIDS). É uma pilha de contradições, não se fundamenta em evidências e todos os seus frágeis argumentos foram desconstruídos sem muito esforço nas últimas décadas. Não obstante, tem sido muito mais utilizado no discurso de políticos e líderes religiosos do que por quem trabalha com teoria evolutiva e áreas afins.

Após a publicação do seu magnum opus - On the origin of species by means of natural selection, or the preservation of favoured races in the struggle for life - em 1859, Charles Darwin (1809-1882) e seus contemporâneos iniciaram a maior revolução científica de todos os tempos, levando à uma mudança radical do conceito que o homem fazia de si mesmo e do mundo natural. Mesmo hoje, mais de um século e meio após a primeira edição do Origin ter esgotado rapidamente nas livrarias britânicas, as controvérsias ainda ressoam. No entanto, nas ciências, há pouquíssimas vozes discordantes da realidade da evolução (quando existem, são apenas retórica carregada de intenções sub-reptícias). 

Evolução é um fato. O mundo natural não é estático e sim o produto contínuo de mudanças, sejam elas graduais ou aceleradas, que vêm acontecendo desde a origem da vida na Terra há quatro bilhões de anos.

Após o Origin e a delimitação de uma área das ciências naturais chamada Biologia Evolutiva, verificou-se uma série de implicações muito claras. O livro de Darwin e seus comentários e refinamentos subsequentes colocaram fim à uma visão de mundo calcada explicitamente no fixismo criacionista, substituindo-a por uma natureza dinâmica, plena de variações por toda a sua história. O mecanismo discutido por Darwin, a seleção natural, não deu qualquer importância à forças sobrenaturais intangíveis. Ele é capaz de explicar a diversidade biológica através de um processo materialista baseado na interação entre variação pré-existente e sucesso reprodutivo. Com isso, os deuses tornaram-se tão obsoletos quanto os papiros ou a fita cassete! Como corolário à ideia de que todos os organismos derivam de ancestrais comuns por um processo contínuo de ramificação - dessa forma, a ancestralidade comum conecta o mundo orgânico - completou-se a revolução iniciada com Copérnico, retirando as poucas justificativas ainda existentes para um antropocentrismo absoluto. O Homo sapiens, após Darwin, não é mais do que um galhinho na imensa árvore da vida, com seus quase um bilhão de ramos, consideradas as espécies recentes e extintas.

Obviamente, o materialismo evolutivo não é contrário aos deuses, simplesmente porque estes não são objetos de estudo científico e, portanto, não podem ser interpretados à luz do raciocínio lógico preconizado pela teoria da evolução. Parafraseando a lendária resposta do astrônomo Pierre-Simon Laplace, deus é uma hipótese irrelevante para a biologia, assim como é irrelevante também para as demais ciências naturais. O paleontólogo norte-americano Niles Eldredge (1943– ), em seu livro O triunfo da evolução e a falência do criacionismo (publicado no Brasil em 2010), sintetiza de forma brilhante a nossa impossibilidade de experimentar diretamente, através dos nossos sentidos, o sobrenatural divino. Para ele, “(...) no empreendimento chamado ciência, não há afirmação ontológica de que não exista um Deus (...), mas sim um reconhecimento epistemológico de que, mesmo se esse Deus realmente existisse, não haveria como experimentá-lo, apesar dos meios impressionantes, embora ainda limitados, que estão à disposição da ciência”.

O Design Inteligente é um conjunto de afirmações sem sentido que tenta, a todo custo, mudar esse quadro. Eles postulam algo chamado criacionismo científico, uma contradição absoluta. Essa pseudo-ciência, tão válida quanto a ufologia, a astrologia e a saúde quântica, baseia-se na existência de uma certa "complexidade irredutível" nos sistemas biológicos, que os impediria e terem se originado por etapas através de um mecanismo lento e gradual como o da seleção natural. Como a evolução gradualista não seria possível, nas palavras dos proponentes e defensores do movimento, toda a vida no planeta teria que ser obra de um designer ou projetista que tivesse pensado, a priori, no encaixe perfeito entre todos os componentes constituintes dos sistemas biológicos. É a retomada da Teologia Natural, anterior à Darwin, segundo a qual as relações entre as partes orgânicas dos seres vivos e entre estes no ambiente seriam evidência irrefutável para um deus interventor responsável por toda a criação.

Para o bioquímico Michael Behe, da Universidade de Lehigh, autor do famigerado (e cientificamente canhestro) A caixa preta de Darwin, o funcionamento de uma estrutura como o flagelo de uma bactéria, responsável pela sua movimentação, estaria tão finamente relacionado a diferentes microestruturas e processos bioquímicos, que só poderia ter sido fruto de um planejamento prévio feito por alguém (ou algo) de inteligência inescrutável. O conceito de Behe revela nada mais do que a formação acadêmica capenga do seu autor. A literatura especializada traz muitos exemplos de precursores do flagelo que de fato tem “partes faltantes” (ao menos quando comparados ao sistema irredutível apresentado por Behe) e, ainda assim, plenamente funcionais.

Behe fala de outras estruturas, como o olho, também inexplicáveis para ele dentro de uma perspectiva evolutiva. No seu entendimento torto da natureza, nossas estruturas fotorreceptoras não poderiam ter surgido "por partes", uma vez que seriam sistemas irredutivelmente complexos. Se retirássemos quaisquer dos seus componentes, todo o sistema colapsaria e perderia funcionalidade. Bobagem! Existem olhos muito menos complexos, diferentes dos nossos, que funcionam e garantem a sobrevivência dos seus portadores (basta nos lembrarmos de planárias e seus ocelos “vesgos”). No mais, existem espécies com acuidade visual muito maior que a do Homo sapiens, o que refuta a hipótese de que somos o ápice da evolução. 

A questão do surgimento dos olhos nos animais é interessante. O gene Pax6 (referido como Eyeless em moscas, Aniridia em humanos e Small eyes em camundongos) está presente em todas as espécies portadoras de olhos ou ocelos, não apenas nos mamíferos mais derivados. Esse gene é capaz de induzir a formação de estruturas fotorreceptoras e exerce funções diferentes quando expresso em outros tecidos. Assim, vertebrados e insetos compartilham o mesmo gene fundamental e pelo menos parte das sequências de desenvolvimento que levam à expressão dos olhos, o que indica um alto grau de conservação evolutiva.

Estima-se que nos animais o início da diversificação de genes como o Pax6 deu-se no período Cambriano, há cerca de 520 milhões de anos. Muitos dos sistemas gênicos que surgiram nesse período são, hoje, compartilhados por diferentes grupos animais. Esses e outros exemplos podem ser encontrados em livros de ampla divulgação como o Infinitas formas de grande beleza, de Sean Carroll (de 2006) e O maior espetáculo da Terra, de Richard Dawkins (de 2009), ou ainda na internet. Aqui, e em qualquer outro tópico relacionado à biologia evolutiva, não há necessidade alguma de apelar para explicações sobrenaturais ou pseudo-científicas como fazem os defensores do Design Inteligente.

Em suma, não existem sistemas de complexidade irredutível porque os atributos biológicos que surgem e se disseminam são locais, baseadas na relação entre os portadores desses atributos e o ambiente no seu entorno. Algo que garanta altas taxas de sobrevivência e reprodução em um período, se modificadas as condições do entorno e as pressões seletivas, pode se tornar um entrave à perpetuação dos descendentes tempos depois. O Design Inteligente parte da premissa burra de que tudo o que existe no mundo natural é perfeitamente ajustado. Evolução, no entanto, não diz respeito à perfeição, e sim ao que funciona.


Alguém poderia dizer que os “teóricos” do Design Inteligente, assim como os “teóricos” dos alienígenas do passado (ou do Antigo Astronauta), têm todo o direito de se expressar. Isso é óbvio. O que é temerário não é a existência de panfletos defendendo a realidade de um projetista para a vida ou encontros de “pesquisadores” sobre o tema. O que não se pode é misturar maçãs e laranjas: o Design Inteligente NÃO é ciência e, portanto, NÃO deve ser ensinado como tal. Ele não é uma explicação alternativa à teoria evolutiva. O Design Inteligente é retórica criacionista, uma forma de introduzir o literalismo bíblico nas aulas de ciências, que deveriam ter por objetivo permitir aos estudantes discutir e examinar evidências científicas utilizadas para compreender o mundo natural.

Quem entraria em uma padaria para encher o tanque do seu carro? Ou procuraria na loja de materiais de construção por um maço de alface? É muito simples: se não é ciência, não deve ser ensinado ou discutido como ciência. Não existem artigos sobre Design Inteligente publicados em revistas confiáveis - aquelas que passam por um processo de revisão por pares -, nem experimentos ou observações capazes de testar as premissas dessa pseudo-ciência.

Se alguém imagina que o criacionismo judaíco-cristão deva ser ensinado em aulas de ciências, que defenda também o ensino dos mitos de criação indígenas, dos vikings e o Pastafarianismo, além de todas as mais de 6.000 crenças religiosas existentes no planeta. Foi mais ou menos esse o argumento levantado por Bobby Henderson em 2005. Ele era um estudante de física da Oregon State University, nos EUA, e mandou uma carta aberta ao conselho de educação do estado do Oregon, que discutia a possibilidade de incluir o Design Inteligente no currículo escolar. Sua carta é um estupendo exemplo de ironia e sarcasmo (faço aqui uma tradução livre. O original pode ser encontrado em http://www.venganza.org/about/open-letter/):

“Estou muito preocupado após ouvir a respeito da sua audiência para decidir se a teoria alternativa do Design Inteligente deve ser ensinada juntamente com a teoria da evolução. Penso que todos concordamos que é importante para os estudantes ouvir múltiplos pontos de vista para que os próprios possam escolher a teoria que faz mais sentido para eles. Estou preocupado, no entanto, que os estudantes ouçam apenas UMA teoria do Design Inteligente.

Vamos lembrar que existem múltiplas teorias do Design Inteligente. Eu e muitos outros ao redor do mundo aceitamos fortemente que o universo foi criado por um Monstro Espaguete Voador. Foi Ele quem criou tudo o que vemos e o que sentimos. Sentimos fortemente que as extraordinárias evidências científicas que defendem a existência de processos evolutivos não são mais do que coincidências, colocadas lá por Ele.

É por essa razão que estou lhes escrevendo hoje, para formalmente requisitar que essa teoria alternativa seja ensinada em suas escolas, juntamente com as outras duas teorias. De fato, eu iria longe o suficiente para processá-los caso vocês não concordem com isso. Estou certo que vocês estão percebendo para onde vamos. Se a teoria do Design Inteligente não é baseada na fé, mas é apenas outra teoria científica, como ela clama, então vocês devem permitir que nossa teoria seja ensinada, uma vez que ela também se baseia na ciência, e não na fé.

Alguns acham difícil acreditar por isso talvez seja útil contar-lhes um pouco sobre nossas crenças. Nós temos evidências que um Monstro Espaguete Voador criou o universo. Nenhum de nós, é claro, estávamos lá para ver, mas temos escritos que contam a respeito. Temos inúmeros volumes grossos explicando todos os detalhes do Seu poder. Ainda, vocês devem se surprender ao ouvir que há mais de 10 milhões de nós, e os números estão crescendo. Somos seletivos porque muitas pessoas dizem que nossas crenças não são apoiadas por evidências observáveis.

O que essas pessoas não entendem é que Ele criou o mundo para nos fazer pensar que a Terra é mais velha do que ela realmente é. Por exemplo, um cientista pode executar uma datação por carbono em uma amostra. Ele descobre que aproximadamente 75% do carbono-14 decaiu para nitrogênio-14, e infere que essa amostra tem cerca de 10.000 anos de idade, e que a meia-vida do carbono-14 deve ser de 5.730 anos. Mas o que nosso cientista não percebe é que, toda vez que ele faz uma medida, o Monstro Espaguete Voador está lá mudando os resultados com seus apêndices macarrônicos. Nós temos inúmeros textos que descrevem em detalhes como isso é possível e as razões pelas quais Ele faz isso. Ele é obviamente invisível e pode passar através da matéria como facilidade.

Tenho certeza que vocês agora percebem como é importante que seus estudantes sejam ensinados sobre essa teoria alternativa. É absolutamente imperativo que eles percebam que a evidência observável está a critério do Monstro Espaguete Voador. Além do mais, é desrespeitoso ensinar nossas crenças sem vestir a Sua roupa escolhida, que, claro, é um traje completo de pirata. Eu não posso mensurar suficientemente a importância disso, e infelizmente não posso descrever em detalhes porque isso tem que ser feito pois temo que essa carta já esteja ficando muito longa. A explicação concisa é que Ele fica irritado se não os fizermos.

Vocês devem querer saber que o aquecimento global, terremotos, furacões e outros desastres naturais são efeito direto da diminuição do número de piratas desde o início do século XIX. Eu incluo aqui um gráfico que mostra aproximadamente o número de piratas versus as temperaturas médias globais nos últimos 200 anos. Como podem ver, há uma relação estatisticamente significante e inversa entre o número de piratas e a temperatura global.


Para concluir, obrigado por gastarem seu tempo ouvindo nossas perspectivas e crenças. Espero ter conseguido convencê-los da importância de ensinar esta teoria para seus estudantes. Nós estaremos aptos a treinar os professores sobre ela. Aguardo ansiosamente sua resposta e espero que nenhuma ação legal precise ser tomada. Penso que todos podemos vislumbrar um dia em que, para essas três teorias, será dado o mesmo tempo nas aulas de ciência por todo nosso país e, eventualmente, pelo mundo. Um terço para o Design Inteligente, um terço para o Monstrismo do Espaguete Voador (Pastafarianismo) e um terço para conjecturas lógicas baseadas em extraordinárias evidências observáveis. 

Sinceramente,
Bobby Henderson, cidadão preocupado.

PS: Incluo um desenho artístico Dele criando uma montanha, árvores e um anão. Lembre-se, somos todos Suas criaturas.”


Para quem se interessou pelo Pastafarianismo, visite o site oficial da “igreja”: http://www.venganza.org/ 

O Design Inteligente é tão científico quanto o Monstro Espaguete Voador e não pode ser ensinado em aulas de ciências, de nenhum nível, seja fundamental, médio ou superior. Design Inteligente é uma tática desonesta que tem por objetivo tornar obrigatório aos estudantes entrarem em contato com uma visão de mundo criacionista compartilhada por um grupo, em detrimento à milhares de outras igualmente absurdas do ponto de vista científico. 

Incluir o Design Inteligente nos currículos escolares é um crime contra o Estado laico, contra a ciência e até contra a liberdade religiosa (se o sujeito é hindú, ou xintoísta, ou pastafariano, por que tem que estudar o mito de criação de uma outra religião e não da sua?). No Brasil, nada poderia ser mais inconstitucional.

As aulas de ciências são espaços próprios para se discutir a necessidade de evidências que suportem nossas afirmações. Crianças e adolescentes devem ser incitados a não acreditarem em proposições quando não existem fundamentos para supô-las verdadeiras: sem ceticismo não há alfabetização científica. Tentar impor a estudantes em formação a ideia de que um projetista foi responsável por tudo o que existe no universo é advogar abertamente a favor da irracionalidade e do obscurantismo.

Referências adicionais

Michael Behe. 1996. Darwin’s black box (no Brasil: A caixa preta de Darwin. Jorge Zahar Editor). 
Niles Eldredge. 2010. O triunfo da evolução e a falência do criacionismo. Funpec Editora.
Richard Dawkins. 2009. O maior espetáculo da Terra. Companhia das Letras. 
Sean Carroll. 2006. Infinitas formas de grande beleza. Jorge Zahar Editor.
William Dembsky & Michael Ruse. 2008. Debating design: from Darwin to DNA. Cambridge University Press.

Imagem: http://www.panicmotion.net/wp-content/uploads/2014/04/flying-spaghetti-monster-on-speed.jpg

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Um longo argumento vai virar livro!

Caros amigos,

Finalizei minutos atrás a revisão, ampliação e atualização de alguns dos ensaios publicados neste blog. Eles farão parte de um breve livro de ensaios, intitulado O hipopótamo de Tal: reflexões sobre o conhecimento científico. Tão logo eu tenha informações mais concretas sobre o lançamento - que deve acontecer no segundo semestre de 2014 - eu postarei aqui. A introdução é a que segue:


Hipopótamo de Tal: reflexões sobre o conhecimento científico

Introdução
Este livro começou a ser escrito há exatamente dez anos, quando publiquei, pela primeira vez, uma série de artigos científicos em um jornal da cidade de Ribeirão Preto, interior do Estado de São Paulo. Apesar da pequena tiragem do semanário, por alguns meses pude exercitar a divulgação das bases do raciocínio científico para um público não especializado. Continuei esse exercício quando lancei meu blog “Um longo argumento”, em meados de 2007. Nele tenho escrito ensaios sobre diversos aspectos da biologia evolutiva, da filosofia da ciência e da educação científica, buscando levar a minha perspectica sobre esses assuntos para os leitores que tenham paciência de meu ouvir. As primeiras versões dos textos do presente volume podem ser encontradas lá.

Meu interesse pela divulgação científica é muito anterior à qualquer tipo de educação formal em ciências. Eu era apaixonado pela revista Superinteressante no seu início (foi lançada em setembro de 1987 e vinha encartada na Playboy, que meu pai assinava e disponibilizava para os clientes no seu salão de cabeleireiro). Em 1990, entrei em contato com o saudoso e genial Isaac Asimov através da versão brasileira da Isaac Asimov Magazine, publicada pela editora Record (e que, infelizmente, durou apenas 25 números). Lembro-me que, para comprar o volume de estréia – por muitos anos eu só tive os três primeiros! – eu enganei minha mãe dizendo que precisava muito daquela revista para levar para a escola e que, se eu não fizesse, talvez ficasse de recuperação...

Ao final do colegial, escolhi seguir a carreira de Jornalismo. Estudei por um ano na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, mas não consegui me adequar à maneira como o conhecimento era tratado nas disciplinas (com algumas poucas exceções). Pouco antes de decidir largar o curso, li na biblioteca vários trechos do Biologia Evolutiva, um clássico das Ciências Biológicas escrito por Douglas Futuyma. Parecia o caminho a seguir. Menos de seis meses depois, eu me matriculava no curso de Biologia da Universidade de São Paulo. Mesmo assim, nunca deixei de gostar de comunicação. A oportunidade de escrever para um jornal, quando eu já estava na pós-graduação, uniu essas minhas grandes paixões intelectuais.

Durante toda a minha formação acadêmica, sempre tive um respeito absoluto pela figura do professor. Se hoje sou capaz de me expressar de forma minimamente coerente e apresentar ideias científicas através das minhas aulas e dos meus textos, devo muito aos vários mestres que cruzaram meu caminho. Alguns inesquecíveis, outros nem tanto, mas todos com alguma contribuição a dar. Aqui, agradeço especialmente aos professores Luis Evandro Tavares, Fernando Sérgio Zucoloto, Antônio Carlos Marques, Dalton de Souza Amorim e Nelson Papavero, que me apresentaram as bases do que será discutido neste livro de ensaios. E também agradeço a amigos e contemporâneos, hoje também mestres, que fizeram parte dessa jornada, direta ou indiretamente: Adolfo Ricardo Calor, Gustavo Acrani, André Eterovic, Fernando Gibran, Eduardo Almeida, Guilherme Ribeiro, Daniel Carretiero, Renato Capellari e Sarah Oliveira. O professor Gibran fez a revisão técnica do livro.

Finalmente, sou grato à minha esposa Patricia Kiss, minha incentivadora incansável, com sua mente artística e seu olhar para o detalhe. À ela dedico este livro. 

terça-feira, 10 de junho de 2014

Da relação entre evolução biológica e esportes

Eu perdi mais de 9.000 arremessos em minha carreira. Eu perdi quase 300 jogos. Em 26 vezes, confiaram em mim para dar o lance vencedor e eu errei. Eu falhei muitas e muitas e muitas vezes na minha vida. E foi por isso que tive sucesso.
Michael Jordan

Em tempos de Copa do Mundo da Fifa e da seleção da Confederação Brasileira de Futebol, a biologia evolutiva pode ser uma ferramenta interessante para se discutir o papel dos esportes na natureza humana. Questões sobre as origens das competições esportivas e porque elas atingiram tamanha centralidade nas culturas contemporâneas não são de interesse exclusivo dos programas de debate jornalístico e das mesas-redondas pós-jogo nos domingos à noite. 

Fonte: http://www.etravelphotos.com/ 
Na sua obra magna On the origin of species (publicada originalmente em 1859), o naturalista britânico Charles Darwin (1809-1882) defendia que os organismos estavam em luta perpétua pela vida e que somente os mais bem-adaptados sobreviveriam, deixando uma maior quantidade de filhotes e, consequentemente, aumentando a frequência de suas características na população de uma geração para outra. O raciocínio darwiniano partia da existência de variação prévia nas populações. Os organismos, portanto, adaptam-se às condições ambientais que enfrentam e esse processo, se continuado por longo períodos, pode levar ao surgimento de novas espécies.

Adaptações são as propriedades dos seres vivos que os tornam capazes de sobreviver e de se reproduzir na natureza. Segundo a teoria evolutiva clássica, qualquer atributo que leve um organismo a deixar mais descendentes do que a média da população, isto é, que permita taxas diferenciais de reprodução, terá frequência maior nas gerações subsequentes.

Para que a seleção natural ocorra são necessárias algumas condições:

1. Os organismos precisam ser capazes de reproduzir;
2. Suas características devem ser hereditárias;
3. Deve existir variação de caracteres individuais entre os membros de uma população; 
4. É necessária a ocorrência de variação da aptidão (fitness) do organismo, de acordo com o estado de um determinado caráter herdável. Por aptidão entende-se o número médio de descendentes diretos deixados por um membro médio da população.

Darwin não foi capaz de explicar qual o mecanismo da hereditariedade. Esse problema só encontrou solução quando as ideias de Gregor Mendel (1882-1884) passaram a constituir a teoria da hereditariedade aceita, a partir da década de 1920. Ronald Fisher (1890-1962), J.B.S. Haldane (1892-1964) e Sewall Wright (1889-1988) conseguiram demonstrar que a seleção natural poderia operar em conjunto com a genética mendeliana. Assim estabeleceu-se o que se conhece hoje como a Síntese Moderna da Evolução ou Teoria Sintética da Evolução, por muito tempo tido como o paradigma da teoria evolutiva, centrada no papel preponderante da seleção natural atuando na variedade pré-existente originada a partir de mutações aleatórias e recombinações cromossômicas.

Na perspectiva da Síntese Moderna, a seleção natural leva à evolução a partir das mudanças no ambiente, em decorrência do surgimento de uma nova forma que sobrevive melhor do que a forma vigente. A variação seria resultado de mutações aleatórias, ocorridas durante a replicação do DNA, e da recombinação cromossômica, no processo de meiose que ocorre durante a formação dos gametas. Ao surgir um novo genótipo recombinante não existiria qualquer tendência dele estar relacionado a uma melhora adaptativa. Nessa visão, a pressão seletiva sobre as características dos indivíduos, provenientes de fatores ambientais, leva à fixação de determinados atributos em detrimento de outros. Esse fenômeno é conhecido como mudança da frequência genética nas populações.

Em linhas gerais, a seleção natural é tida como a explicação para a existência de adaptação. Sua atuação proporciona o surgimento de um pico adaptativo no qual o organismo com maior valor de aptidão para um determinado caráter tem vantagem sobre outro com um valor de aptidão menor – a pressão de seleção encaminharia os indivíduos a um estado adaptativo ótimo ou sub-ótimo. Como diz o escritor Max Barry, em seu livro Homem-máquina (originalmente publicado em 2011, página 201):
Ninguém pode ser perfeito na maior parte do tempo. Ninguém pode ser perfeito apenas em alguns momentos. Ou você é perfeito ou não é. E eu não acho que a biologia trabalhe com a noção de perfeição. Biologia é eficiência aproximada. É uma questão de ser razoavelmente boa. Um vácuo é perfeito. Pi é perfeito. A vida não.
A psicologia evolutiva baseia-se em cenários selecionistas para explicar a evolução do comportamento humano. Por muito tempo após a publicação do On the origin of species, estudos sociais, comportamentais e psicológicos passaram ao largo da teoria evolutiva darwiniana. Segundo professor de psicologia David Buss, da Texas University, a psicologia evolutiva é uma tentativa de reunir todas as disciplinas humanas, antes fragmentadas e muitas vezes contraditórias, em um todo logicamente integrado que incorpore os conceitos da teoria da evolução de forma correta e exclua, ao mesmo tempo, todas as percepções e crenças tradicionalmente aceitas que não façam sentido no contexto evolutivo. A psicologia evolutiva pode ser vista como um programa de pesquisa que busca compreender a origem do ciúme, habilidades de raciocínio, processos decisórios, linguagem, preferências de acasalamento, status social, agressão e sexo. Para Buss, como todo tipo de comportamento depende de mecanismos psicológicos complexos, e todos os mecanismos psicológicos, ao menos em algum nível, resultam de um processo de evolução por seleção natural, todas as teorias psicológicas são implicitamente teorias psicológicas evolutivas. A evolução é responsável por quem somos hoje.

Fonte: http://www.animalgalleries.org/
É nesse contexto que se pode discutir a conexão entre esportes e evolução, mais especificamente os mecanismos da seleção natural e da seleção sexual, tanto para se analisar o esporte como analogia à competição no mundo orgânico, quanto para se tentar entender a relação entre torcer / praticar esportes e algum tipo de vantagem seletiva surgida durante a história evolutiva dos hominídeos.

Apesar da sua importância em todas as sociedades humanas desde tempos imemoriais, no geral o esporte tem recebido pouca atenção de biólogos evolucionistas. Isso é surpreendente porque a universalidade dos esportes sugere que sua origem possa ser bem compreendida no contexto da biologia evolutiva.

Segundo Michael Lombardo, do Departamento de Biologia da Grand Valley State University:
As características das brincadeiras entre animais sugerem que os esportes se originaram dessa forma. As brincadeiras entre mamíferos jovens, incluindo humanos, frequentemente mimetizam comportamentos (por exemplo, captura de presas, fuga de predadores, lutas) necessários à sobrevivência. O comportamento de humanos brincando também mimetiza aqueles presentes em muitos esportes (correr, perseguir oponentes, lançar e interceptar projéteis). Em animais não-humanos, as brincadeiras tendem a ocorrer durante um período crítico para o desenvolvimento do cerebelo e para a diferenciação de fibras musculares. Diferentemente das brincadeiras entre os não-humanos, as nossas podem persistir até a idade adulta.
Complexas organizações se desenvolveram, especialmente ao longo dos últimos 150 anos, para regular e promover competições atléticas. Tais competições são importantes eventos sociais, com público de mais de dezenas de milhares de espectadores nas partidas (por exemplo, nos jogos olímpicos e em finais de campeonatos de futebol ou basquetebol). Apesar dessas competições atléticas serem frequentemente simples (por exemplo, quem corre por 100 metros mais rápido?), envolverem poucos participantes e não terem, aparentemente, um propósito biológico direto (como vencer a corrida dos 100 metros afeta a sobrevivência e sucesso reprodutivo do campeão?), elas afetam boa parte da população mundial. A significância social e política global das Olimpíadas de Berlim em 1936, em pleno governo nazista na Alemanha e às portas da Segunda Guerra Mundial, também não pode ser negligenciada.

Competições atléticas são parte importante do tecido social nas sociedades contemporâneas e é interessante notar que, no geral, mais homens do que mulheres, em todas as idades, praticam e assistem a esportes, ao vivo ou pela televisão. Como conjectura a psicologia evolutiva, é possível dizermos que atletas campeões alcançariam maior status dentro dos seus grupos sociais e, dessa forma, aumentariam suas oportunidades de sobrevivência/reprodução. Isso sugere a influência da seleção natural em moldar as características dos atletas e dos esportes dos quais eles participam. 

Essas observações levantam importantes questões sobre o papel do esporte na natureza humana: (1) Como e por que o esporte começou?; (2) Por que os esportes são primariamente fenômenos masculinos?; (3) Por que atletas campeões em determinados esportes frequentemente alcançam maiores status, aumentando suas oportunidades de reprodução, do que atletas em outros esportes e empreitadas?; (4) Quais são os papeis relativos da seleção intra e intersexual na moldagem das características do esporte? (5) Por que os esportes obtiveram tamanha importância nas culturas modernas? 

Para a psicologia evolutiva, um cenário possível para explicar a existência, permanência e diversificação dos esportes baseia-se na seleção sexual, descrita por Darwin como a luta entre indivíduos de um sexo, geralmente os machos, pela posse do outro sexo - a seleção sexual seria responsável pela evolução de todo atributo que desse aos organismos portadores alguma vantagem reprodutiva, mesmo que ele, a priori, pareça minimizar a sua capacidade de sobrevivência (a cauda frondosa de um pavão macho é um exemplo típico).

No início, o esporte teria se originado a partir de brincadeiras e treinamento para luta, caça e guerra, possibilitando ao homem um teste para suas habilidades na competição por fêmeas e também como uma forma de avaliar aliados e rivais em potencial. Os comportamentos e atributos físicos associados com o sucesso atlético seriam subprodutos de características que evoluíram no contexto das competições físicas entre machos (relacionadas à seleção sexual) e à caça e guerra em sociedades primitivas. Esses subprodutos são conhecidos como exaptações, termo cunhado pelos paleontólogos Stephen Jay Gould (1941-2002) e Elisabeth Vrba para designar mudança de função de uma estrutura durante a evolução – uma adaptação que não teria evoluído a partir de pressões seletivas relacionadas à sua função atual. A seleção sexual, portanto, explicaria porque homens são mais interessados em esportes, como praticantes e também como espectadores, do que as mulheres. Obviamente nem todos os atributos existentes nos organismos, incluindo aí o Homo sapiens, são resultado direto do processo de seleção natural. No entanto, é consenso entre boa parte dos evolucionistas que, a despeito de como uma característica tenha se originado, ela será selecionada positivamente se permitir maiores taxas de sobrevivência e reprodução quando comparados a outros indivíduos da mesma espécie.

Fonte: http://www.picturesnew.com/
Além de explicações sobre a origem histórica dos esportes e sua relação com a seleção natural/sexual, uma questão evolutiva fundamental a ser discutida diz respeito aos diferentes tipos de doping e às possibilidades do Homo sapiens mudar sua constituição física (e, talvez, suas habilidades atléticas) a partir do desenvolvimento científico-tecnológico. Esse é um dos tópicos de pesquisa do transhumanismo, filosofia que busca discutir a transcendência tecnológica da condição humana (e discutida anteriormente nesse blog).

O crescimento e a recuperação muscular são controlados por sinais químicos, os quais, por sua vez, são regulados por genes. A perda muscular devido à idade ou doenças pode ser revertida pelo aumento ou bloqueio desses sinais, através da adição de um gene sintético regulador. Os atletas poderiam usar a mesma técnica para aumentar o tamanho, a força e a resistência dos seus músculos, e o tratamento seria virtualmente indetectável. Quando a terapia gênica entrar em uso clínico, pode ser difícil evitar seu abuso. Dado um quadro de busca incessante pelo ganho de desempenho em esportes de alto rendimento, a maneira de encarar o melhoramento biológico a partir da ciência e da tecnologia terá que mudar.

Na contemporaneidade, muitas realidades técnicas estão em emergência promissora. Entram aqui coisas como a confecção de medicamentos que reduzem efeitos colaterais, engenharia tecidual para a regeneração de células e órgãos, e nanotecnologia utilizada em tratamentos de saúde. A realidade potencial destas técnicas permite expandi-las para o aperfeiçoamento das propriedades naturais humanas, como o aumento das capacidades cognitivas e físicas, regulação da sensibilidade ao stress ou a dor. A possibilidade de expandir os limites físicos, criando atletas em certo sentido super-humanos, gerará impactos expressivos nos esportes, e terá que ser analisada tanto em termos econômicos quanto biológico e filosóficos. Um atleta transhumano seria ainda um Homo sapiens ou estaríamos já falando de uma pós-humanidade? Teriam que ser criadas competições específicas para transhumanos? Torceríamos com igual paixão para o Transhuman Football Club? 

A relação entre esportes e a teoria evolutiva, especialmente o mecanismo da seleção natural e seu papel no aumento da aptidão local, ainda precisa ser investigada com mais detalhes. É possível que exista uma relação entre a prática e o apreço por esportes e possíveis estratégias evolutivas surgidas há milhões de anos entre os hominídeos. Isso vale também para as implicações sociais dos esportes, relativas à psicologia evolutiva e à uma moralidade e éticas pós-darwinianas, que discute como o desenvolvimento científico-tecnológico influencia o futuro da nossa espécie.

A biologia evolutiva é capaz de construir cenários para responder a questões como “O que representaria um jogo em termos evolutivos?”, “Por que torcemos?”, “Por que praticamos esportes?” e “Há limites aceitáveis para a melhoria do desempenho atlético?”. Mais do que apenas entretenimento ou procrastinação, os esportes remontam a comportamentos muito anteriores à origem dos hominídeos e, além de arraigadas à história evolutiva dos animais, estão no cerne de contendas sociais e científicas com potencial profundamente explosivo. Pense nisso na próxima vez em que estiver assistindo ao bate-bola na televisão!

Fonte: http://www.zimbio.com/

Referências sugeridas

Block, A. & Dewitte, S. 2009. Darwinism and the cultural evolution of sports. Perspectives in Biology and Medicine, 52(1), 1–16.
Buller, D.J. 2008. Varieties of evolutionary psychology. Em: Hull, D.L. & Ruse, M. (eds.) The Cambridge Companion to the Philosophy of Biology, Cambridge University Press, p. 255-274.
Buss, D.M. (org.) 2005. The handbook of evolutionary psychology. John Wiley & Sons, Inc. 
Lombardo, M.P. 2012. On the Evolution of Sport. Evolutionary Psychology, 10(1):1–28.
Sweeney, H.L. 2012. Doping genético. Scientific American Brasil Especial – A surpreendente complexidade da máquina humana, 28–34.
Urho, M., Kujala, U.M., Sarna, S., Kaprio, J., Tikkanen, H.O. & Koskenvuo, M. 2000. Natural selection to sports, later physical activity habits, and coronary heart disease. British Journal of Sports Medicine, 34, 445–449.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Pandoravirus, chave para a biosfera oculta?

A ciência é a busca de curvas simples, previsíveis, formas compactas de apresentar os dados. Existe sempre, porém, o perigo de que as curvas que vemos sejam ilusórias, como imagens de animais nas nuvens. A verdade é que sempre ficamos com uma dúvida angustiante: estamos deixando de lado algo importante? 
George Johnson, Fogo na mente (1997)

Há alguns meses, fui visitar a casa da minha mãe no interior do estado junto com meu irmão. No carro, começamos a conversar sobre cinema. Em certo momento, discutíamos a respeito de Hellraiser: Renascido do Inferno, um filme britânico de horror escrito e dirigido por Clive Barker em 1987. Discordamos frontalmente a respeito da qualidade do filme (para meu irmão, é uma porcaria; penso que a película tem momentos interessantes, especialmente se consideramos seu orçamento restrito de apenas 1 milhão de dólares).


A peça chave da história é um quebra-cabeça em forma de caixa chamado “Caixa de Lemarchand”. No universo criado por Barker, a mais conhecida dessas caixas recebe o nome de Configuração do Lamento. Essa caixa é um mecanismo místico que funciona como uma porta, ou uma chave, para outro plano de existência. A resolução do quebra-cabeças cria uma ponte para essa nova dimensão, um reino de prazer eterno e inimaginável. No filme, Frank Cotton resolve o quebra-cabeças e abre o cubo, penetrando em um mundo labiríntico habitado por cenobitas, criaturas demoníacas vestidas de couro, deformadas, com escarificações e lacerações pelo corpo, que levam ao extremo o ideal sadomasoquista: alimentam-se de sensações, sobretudo dor e sofrimento, impingidas a outras pessoas. A única emoção que conhecem é o êxtase experimentado pela flagelação. Preso nessa dimensão – uma versão contemporânea e bondage do inferno bíblico –, Frank tem seu corpo dilacerado por ganchos e correntes, que rasgam sua carne em pedaços, fazendo-o experimentar o máximo de prazer através da tortura infinita (essa é a premissa do filme, não é culpa minha!). 

A caixa de Lemarchand, supostamente criada pelo arquiteto e artesão francês Phillip Lemarchand em 1749, também é conhecida como Caixa Miraculosa ou Caixa de Pandora. Na mitologia grega, Pandora – palavra derivada de pan, “todo”, e dõron, “presente” – é a primeira mulher, sobre a qual pouco se sabe. Pandora foi feita no céu por Hefasto e Atena, e cada um dos deuses teria a aperfeiçoado. Vênus deu-lhe a beleza, Mercúrio, a persuasão, Apolo, a música. Assim dotada, Pandora fora enviada à Terra e oferecida a Epimeteu. Ele tinha em sua casa uma caixa, em que guardava os artigos que considerava malignos. Pandora, tomada de curiosidade para conhecer o conteúdo daquela caixa, certo dia destampou-a. Com isso, ela liberou uma multidão de pragas que atingiram o homem, tais como a gota, o reumatismo, a cólica, a inveja, o despeito e a vingança. Vendo o que tinha causado, Pandora apressou-se em colocar a tampa na caixa, mas todo seu conteúdo havia escapado, com exceção da esperança, que ficara no fundo. 

Em julho de 2013, uma descoberta extraordinária “abriu a caixa de Pandora” da biologia evolutiva, levando ao questionamento de uma série de pressupostos aceitos há mais de cem anos. Desde o On the origin of species de Charles Darwin (publicado em 1859), imagina-se que todos os organismos existentes no planeta estejam conectados em uma imensa árvore de vida em que cada galho corresponderia a uma espécie. É possível que tenham existido, desde o organismo primordial, mais de um bilhão de espécies, todas elas aparentadas, em graus diferentes. Tem sido difícil, ou mesmo impossível, posicionar os vírus nessa árvore. A descrição do Pandoravirus salinus e do Pandoravirus dulcis, dois super-vírus encontrados em amostras de água coletadas respectivamente no Chile e na Austrália, com cerca de 1 micrômetro de comprimento e 0.5 micrômetros de diâmetro (maiores até que alguns organismos eucariotos!), trouxe a discussão à tona mais uma vez. Eles se assemelham aos demais vírus conhecidos, mas também têm particularidades que fizeram alguns pesquisadores considerarem-nos como pertencente a um domínio exclusivo, um grupo que pode ter se diferenciado dos demais seres vivos existentes no planeta há mais de três bilhões de anos. A descoberta dos Pandoravirus também abre perspectivas para novos estudos sobre a possibilidade de existência de uma “biosfera oculta” na Terra, formada por potenciais formas alternativas de vida, com um bioquímica radicalmente distinta da conhecida.


É consenso dizer que os vírus são parasitas intracelulares obrigatórios. Eles têm seu genoma composto por DNA ou RNA, que dirige a síntese e a “montagem” dos componentes virais, formando novos vírus, usando a maquinaria metabólica da célula parasitada. Em termos estruturais, os vírus são extraordinariamente simples, as máquinas de sobrevivência e reprodução mais eficientes e otimizadas de todo o planeta. Eles são pouco mais do que um envoltório formado por proteínas (o capsídeo) envolvendo o material genético. 

Como citado acima, a despeito do seu sucesso evolutivo, os vírus não se encaixam em nenhuma posição tradicional entre os superdomínios da vida, que são três, seguindo a classificação de Carl Wöese: (1) Archaea, composto pelas bactérias extremófilas, que vivem em ambientes de alta salinidade, temperaturas altíssimas ou profundidades abissais; (2) Eubacteria, as bactérias “clássicas”; e (3) Eukarya, que reúne todos os seres vivos que portam um envoltório nuclear, a carioteca, incluindo aí organismos tão distintos quanto amebas, sequóias, moscas e dinossauros. Por não terem metabolismo próprio (conjunto de reações químicas através das quais os seres vivos constroem e mantêm seus corpos, crescem e realizam tarefas como locomoção e reprodução) e serem replicados por montagem de partes pré-formadas ao invés de se multiplicarem por fissão binária, os vírus tradicionalmente não se ajustam aos sistemas de classificação biológica. Alguns autores nem mesmo os consideram como seres vivos. Eles não são capazes de importar nutrientes e energia do meio ambiente, não se movem, não se dividem, não crescem... No entanto, vírus se reproduzem, interagem com o aparato metabólico da célula hospedeira e subvertem o metabolismo desta, utilizando-o na produção das suas réplicas. 

Os Pandoravirus não se encaixam exatamente na descrição dos vírus tradicionais. Eles têm genes comuns aos de vírus gigantes e têm um ciclo de vida tipicamente viral, com absorção, penetração, liberação do material genético do vírus no interior da célula hospedeira, transcrição e replicação do material genético viral, montagem dos novos vírus e liberação. Nos Pandoravirus faltam muitas das características de organismos celulares como as bactérias (eles não produzem suas próprias proteínas, não produzem energia via ATP ou se reproduzem por divisão). No entanto, eles são maiores que muitas bactérias, não apenas em tamanho como na quantidade de bases nitrogenadas do seu material genético, como mostra a figura abaixo – P. salinus tem 1.9 milhão de bases enquanto P. dulci tem 2.5 milhões. Os Pandoravirus têm apenas 7% dos seus genes semelhantes aos genes conhecidos para qualquer espécie classificada entre os três superdomínios da vida.

A falta de similaridade poderia ser um indicativo de que eles se originaram de um organismo anterior ao surgimento do ancestral comum de toda a vida reconhecida no planeta. Seria essa espécie viral o primeiro organismo descrito da “biosfera oculta”? Tal biosfera – ainda hipotética já que não há qualquer confirmação da sua existência – seria formada por microorganismos com processos bioquímicos e moleculares radicalmente diferentes das formas de vida conhecidas. Esse termo foi cunhado pelos pesquisadores Carol Cleland and Shelley Cooper em 2005. Para eles:
Encontrar uma forma de vida que difere daquela que conhecemos em sua arquitetura molecular e bioquímica seria profundamente importante tanto de uma perspectiva científica quanto filosófica. Há uma quantidade convincente de evidências de que a vida conhecida hoje na Terra compartilha um ancestral comum universal [no inglês, LUCA, abreviação de Last Universal Common Ancestor]. É improvável que o LUCA tenha sido a primeira forma de vida uma vez que ele já seria muito sofisticado, tendo ácidos nucléicos e proteínas, assim como processos metabólicos complexos. Em suma, a vida como a conhecemos representa um exemplo único de um estágio muito avançado (Cleland & Cooper, 2005, p. 165).  
Organismos de uma “biosfera oculta” poderiam ter sobrevivido de forma independente, em seu próprio sistema de relações predador-presa, tornando-se adaptados a ambientes menos hospitaleiros para a vida microbiana que conhecemos. Ao invés de serem eliminadas, essas formas de vida talvez tivessem evoluído de maneira a não competir com os organismos familiares a nós.

É possível que os Pandoravirus pertençam a alguma linhagem muito distinta dos três domínios tradicionalmente aceitos para a vida no planeta, constituindo, quem sabe, representantes de um quarto domínio. Talvez estejamos às vésperas de encontrar toda uma nova biosfera, provavelmente muito distinta dos seres vivos que a ciência já descreveu. Parafraseando o bardo William Shakespeare, pode haver mais entre os mares e a Terra do que os biólogos evolutivos e seus microscópios eletrônicos poderiam imaginar.

Referência sugerida
Cleland, C. & Copley, S. D. 2005. The possibility of alternative microbial life on Earth. International Journal of Astrobiology, 4, 165-173.
Nadège Philippe et al. 2013. Pandoraviruses: amoeba viruses with genomes up to 2.5 Mb reaching that of parasitic eukaryotes. Science, 341, 281-286.

Imagens:

domingo, 13 de abril de 2014

Não havia evidências suficientes, Deus!*

Uma vez que uma pessoa se deixa contagiar por uma ideologia ou um cientista por uma hipótese, é difícil não encontrar confirmação em toda parte.
George Johnson, Fogo na mente (1997)
A ferramenta básica para se manipular a realidade é a manipulação das palavras. Se você puder controlar o significado das palavras, você poderá controlar as pessoas que precisam delas.
Philip K. Dick, Como construir um universo que não desmorone em dois dias (1978)
Entre 1988 e 1989, foi publicada uma edição especial do Surfista Prateado, escrita por Stan “The Man” Lee (1922– ) e ilustrada por Jean Giraud Moebius (1938–2012), intitulada Parábola. Nela, Galactus, uma entidade cósmica conhecida como “o Devorador de Mundos”, vem à Terra para destruí-la e se alimentar da sua energia. Para isso, Galactus permite que as pessoas façam o que bem desejarem em seu nome para, assim, encontrarem a salvação – o plano é permitir que a humanidade se aniquile por meios próprios. Nesse ínterim, surge seu ex-arauto, o Surfista Prateado, questionando o direito de Galactus de atacar a Terra com um estratagema tão ardiloso.


Ao final, o vilanesco semideus galáctico parte deixando nosso planeta incólume. O Surfista, alçado à categoria de herói planetário, é recebido na sede das Nações Unidas e fala para o mundo. O diálogo, em uma página tocante, é esse:
Embaixador: Nós fomos visitados por dois seres do espaço. Um, tratado como um deus. O outro, para nossa perpétua vergonha, desprezado e condenado. Mas, finalmente, enxergamos a verdade. O surfista é o verdadeiro salvador das estrelas.
Surfista: Não! Nenhum homem pode ser colocado acima dos demais. A chama divina está em todos... ou em ninguém.
Plateia: Que humildade. A verdade essência da pureza. Só pode ser um santo. Você deve nos liderar! Oriente-nos. Seremos seus discípulos.
Surfista (pensando): Isto é loucura! Eles desejam um líder. Assim como uma criança espera o leite materno. É por isso que se tornam presas fáceis dos tiranos e déspotas. Por que eles não procuram a verdadeira fé em sim mesmos? Por que buscam outro que lhes mostre o caminho?
Parábola é uma belíssima história em quadrinhos, tanto pela espetacular arte de Moebius quanto pela profundidade das questões levantadas pelo roteiro de Stan Lee. 

Theodore Sturgeon (1918–1985) foi um escritor norte-americano de ficção científica. Ficou muito conhecido pela chamada “Lei de Sturgeon”: “Noventa por cento de toda a ficção científica escrita é lixo; mas, se pararmos para analisar, noventa por cento de tudo o que se escreve é lixo”. Em 1967, publicou um artigo na Cavalier Magazine, em que escreveu (na página 38):
Todo avanço que essa espécie já alcançou é o resultado de alguém, em algum lugar, olhar o mundo, sua vizinhança, seu vizinho, sua caverna ou a si mesmo e fazer a próxima questão. Todo erro mortal que essa espécie cometeu, todo pecado contra si e seu destino, é o resultado de não se fazer a próxima questão ou de não se ouvir aqueles que a fizeram.
Certa vez, quando perguntado a respeito do significado da sua marca registrada pessoal (uma letra Q com uma seta apontando para a direita), Sturgeon respondeu: 
Ela significa Faça a próxima questão, e a seguinte, e a seguinte. É o símbolo de tudo que a humanidade criou e é a razão pela qual as coisas são criadas. O sujeito está sentado na caverna e diz ‘Por que um homem não pode voar?’. Bem, essa é a questão. A resposta pode não ajudá-lo, mas agora a questão foi formulada. Qual é a próxima questão? Como? E assim, através das gerações, as pessoas têm tentado encontrar a resposta para aquela questão. Nós encontramos a resposta e nós voamos. Isso é verdade para qualquer realização humana, seja na tecnologia ou na literatura, na poesia, nos sistemas políticas ou em qualquer outro assunto. É isso. Faça a próxima questão. E a outra depois dela.
Com uma das prosas filosóficas mais elegantes do século XX, Bertrand Russell (1872–1970) foi filósofo, lógico, matemático e escritor vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, em 1950. Defensor do racionalismo e do ceticismo, Russel escreveu, no primeiro parágrafo do seu ensaio O valor do ceticismo, que pode ser encontrado na coletânea Ensaios Céticos (publicada no Brasil em 2010): 
Gostaria de propor para apreciação favorável do leitor uma doutrina que pode, temo, parecer bastante paradoxal e subversiva. A doutrina, nesse caso, é a seguinte: não é desejável acreditar em uma proposição quando não existe nenhum fundamento para supô-la verdadeira. Devo, é claro, admitir que se essa opinião se tornasse comum transformaria completamente nossa vida social e nosso sistema político; uma vez que ambos são no momento irrepreensíveis, esse fato poderia exercer pressão contra eles. Estou, também, ciente (o que é mais grave) de que tenderiam a diminuir os ganhos dos futurólogos, corretores de apostas, bispos, entre outros, que vivem das esperanças irracionais daqueles que nada fizeram para merecer sorte aqui ou em outro mundo.
Como é possível depreender dos exemplos supracitados, que vêm de autores tão diferentes quanto quadrinhistas, filósofos e escritores de ficção-científica, o ceticismo não é uma perspectiva exclusiva das ciências. Ser cético é questionar qualquer conhecimento, fato, opinião ou crença estabelecida como fato. Filosoficamente significa aceitar apenas informações suportadas por evidências. Até mesmo as religiões podem se beneficiar dele, através, por exemplo, de autoanálises periódicas – ou, de preferência, constantes – que levem ao refinamento das premissas que constituem seu conhecimento de fundo. No entanto, essa me parece uma visão de mundo otimista demais, quase ingênua. As religiões, quando tomadas no geral, não fazem um esforço sincero para depurar o que alguns chamam de suas “superstições infundadas”. Adotar o ceticismo religioso significaria, por exemplo, colocar em dúvida princípios religiosos básicos como a imortalidade, a reencarnação ou a evolução espiritual.

Não se quer criticar aqui as religiões ou fazer generalizações sobre elas, até porque doutrinas religiosas existem aos milhares, muitas delas absolutamente diferentes entre si (compare, por exemplo, os fundamentos do budismo com os da cientologia ou do nuwaubinismo). Religiões são poderosas atividades humanas e provavelmente remontam a tempos remotos pré-científicos, muito antes da invenção de qualquer tipo escrita. Para muitos, a fé pode ser uma fonte de conforto para suas vidas – a devoção ao divino, independente de como ele se expressa, funciona como a tábua de salvação. Pode-se até mesmo construir um cenário adaptacionista para explicar o surgimento e desenvolvimento do misticismo: se funcionava como fator organizador dos agrupamentos sociais primitivos, aparecendo por vezes associado às primeiras tentativas do homem de interpretar os fenômenos naturais, essas protorreligiões teriam sido selecionadas, propagando-se na descendência. O evolucionista britânico Richard Dawkins considera as religiões como memes, ou unidades de evolução cultural, que podem se autopropagar – meme, termo criado por Dawkins em seu clássico O gene egoísta (de 1976), análogo ao gene, seria a unidade mínima de informação transmitida entre representantes da nossa espécie, através de conexões cérebro-cérebro ou entre locais onde essa informação possa estar armazenada, como livros, revistas, páginas de internet, músicas ou programas de TV.


O objetivo deste breve ensaio não é questionar a validade das religiões como formas de conhecimento humano, mas sim comentar impressões a respeito da importância de uma postura cética frente a realidade. É isso que faz o escritor e apresentador pelo comediante norte-americano Bill Maher no documentário Religulous, de 2008. Maher abusa do sarcasmo para enfatizar os aspectos cômico-trágicos das crenças religiosas, em especial do fundamentalismo cristão disseminado por toda a América profunda. Ele faz um trabalho semelhante ao de Dawkins no seu documentário The Root of All Evil (uma síntese das idéias presentes em Deus, um Delírio, de 2006). Em tom satírico, nem por isso pouco sério ou raso, Mahler mostra que, se interpretadas literalmente, muitas das religiões não passam de rascunhos mal feitos de histórias de ficção. Algumas passagens do filme são marcantes:
(...) a religião deve morrer para a humanidade sobreviver. Está ficando tarde demais para deixarmos decisões tão importantes serem tomadas por religiosos, por irracionalistas, por aqueles que tomariam as decisões do estado não com uma bússola, mas pelo equivalente à leitura das tripas de uma galinha.
(...) A religião é perigosa porque permite aos seres humanos, que não têm todas as respostas, acreditar que eles as têm.
(...) A única atitude apropriada a ser tomada pelo homem sobre as grandes questões não é a certeza arrogante que é a marca da religião, mas a dúvida. A dúvida é humilde, e é isso que o homem precisa ser, considerando que a história humana é só uma sucessão de tomar as decisões erradas.
(...) É por isso que pessoas racionais, anti-religiosas, devem perder a timidez, sair do armário e se expressar. E os que se consideram moderadamente religiosos precisam olhar no espelho e reconhecer que o alívio e conforto que a religião lhes traz na verdade vem a um custo muito alto. Se você pertencesse a um partido político ou a um clube social que estivesse ligado a tanta inveja cega, ódio a mulheres, homofobia, violência e desvio de ignorância como é a religião, resignar-se-ia em protesto. Agir de outra forma é ser um conivente, uma esposa da máfia, com os verdadeiros demônios do extremismo que extraem legitimidade dos bilhões de seus companheiros de viagem.
Ao terminar de assistir Religulous, veio a minha mente um conto de Isaac Asimov (1920–1992), um dos mais prolíficos divulgadores das ciências e grande escritor de ficção científica (lembro-me bem que a morte de Asimov, quando eu tinha 12 anos, provocou-me uma inexplicável sensação de vazio. Guardo até hoje a primeira página jornal de cultura com a notícia triste). A história curta é Ao cair da noite (no original, Nightfall), publicada pela primeira vez em 1941 na revista Astounding Science Fiction. Um trecho em especial me chama a atenção sempre que releio o conto:
__ A sua suposta explicação apóia os nossos dogmas mas, ao mesmo tempo, torna-os desnecessários. O senhor transformou a Escuridão e as Estrelas em fenômenos naturais, despojou-os de todo o significado místico. Isso é uma blasfêmia!
__ Se é, a culpa não é minha. Os fatos existem. Como posso deixar de divulgá-los?
__ Os seus “fatos” são uma fraude e uma ilusão.
__ Como é que você sabe?
A resposta traduzia a certeza de uma fé absoluta.
__ Eu sei!
“Saber” a respeito de um fenômeno natural sem que esse conhecimento esteja calcado em evidências empíricas observacionais, experimentais (ou mesmo teóricas) é uma postura contrária ao ceticismo. Grande parte das doutrinas religiosas baseia-se em dogmas, fundamentos doutrinários inquestionáveis pretensamente revelados por deuses, anjos ou espíritos iluminados, todos eles manifestações do imponderável. Visto que seriam as palavras divinas em si, apesar de transcritas e interpretadas por homens, e uma vez tidas como certos pela alta hierarquia da igreja, congregação, seita e similares, elas se transformam em ditos sagrados. Como tal, pouco se prestam a indagações sobre seus fundamentos e passam a corresponder à verdade absoluta. Nesse sentido, o desenvolvimento de uma postura cética torna-se pouco provável no âmbito das religiões, pois o questionamento dos dogmas pode levar à dúvida quanto à validade de um ou outro preceito, conseqüentemente erodindo os pilares sustentadores de parte do pensamento religioso.


O ceticismo e o estímulo à reflexão individual deveriam fazer parte de qualquer currículo escolar, desde os primeiros anos da educação formal. Mas como defender alterações curriculares desse tipo quando 89% dos brasileiros gostariam que o criacionismo (cristão) fosse ensinado nas escolas, e 75% prefeririam que a ideia de criação especial fosse apresentada pelos professores no lugar da teoria evolutiva quando eles fossem discutir a respeito da origem e diversificação dos organismos no planeta? Esses são dados de uma pesquisa feita pelo IBOPE em dezembro de 2004 (código OPP992 – pode ser acessada clicando aqui). Dez anos depois, podemos acreditar em um cenário muito diferente desse? Na edição número 126 da revista Scientific American Brasil, publicada em dezembro de 2012, Rogério de Souza e seus colaboradores da Universidade Estadual de Londrina, revelam que: 
(...) ao menos em parte, a aceitação dessas teorias científicas depende da compreensão que os estudantes têm da metodologia científica. E que ela não é completamente compreendida por uma parte significativa deles. Por outro lado, dados preliminares obtidos junto a professores de ciências e biologia do ensino fundamental e médio indicam que 66% deles concordam que o criacionismo também deva ser abordado em sala de aula como uma teoria alternativa ao darwinismo.
A questão é ainda mais ampla e extrapola a frágil dicotomia ciência-religião. Qual seria o objetivo de se estimular a reflexão individual (ou coletiva), o “pensar com a própria cabeça”, se tudo parece já estar escrito, refletido e pensado? É muito mais cômodo transferir o ato de raciocinar para o padre, o pastor, o papa... ou o jornalista, o professor, o cientista, o intelectual, o escritor...

Como professor, as frases dos estudantes mais desanimadoras que ouço são do tipo “Professor, o que eu tenho que saber?” ou “Professor, o que o senhor quer que eu estude?” ou ainda “Professor, como eu devo pensar a respeito desse assunto?”. Essa atitude sugere a negação do ato de pensar, e é extremamente perigosa. Como conta David Shenk, em seu livro O jogo imortal: o que o xadrez nos revela sobre a guerra, a arte, a ciência e o cérebro humano (na página 233 da edição publicada no Brasil em 2006):
Temos (...) um abismo crescente entre os indivíduos com o pensamento iluminado e cético e os ideólogos fundamentalistas de mentalidade estreita. Estamos também, literalmente, no meio de uma guerra cujas raízes se encontram nessas diferenças. Temos de lutar uma guerra de verdade, com armas de verdade, é claro. Mas também temos de enfrentar esse abismo subjacente a ela. O perigo maior, tanto para nós quanto para as futuras gerações, é o de pararmos de pensar; cabe a nós fazer todo o possível para estimular as mentes afiadas e céticas. 
Parece que é da condição humana ansiar por um führer, um condutor para revelar como agir perante o vazio infinito da existência. Esse guia não precisa, necessariamente, estar personificado: ele se apresenta sob distintas formas, muitas das quais se apoiam abertamente no desestímulo ao livre-pensar. Isso vale para muitos dos formadores de opinião, que por vezes mais reforçam estereótipos do que incitar o espírito crítico do seu público. A democratização da internet, nesse ínterim, tem papel ambíguo (ou paradoxal, dependendo do ponto de vista adotado). Apesar de possibilitarem a veiculação de conteúdo diversificado, por mais obscuro que seja, blogs e redes sociais podem funcionar como ferramentas para a reiteração de informações baseadas em fontes desconhecidas, tendenciosas e até mesmo cheias de interesses sub-reptícios.

Ainda que impressas em uma forma de arte ainda tida como menor ou infantil, as sábias palavras do Surfista Prateado bem se encaixam nesse quadro: “Eles desejam um líder, assim como uma criança espera o leite materno. É por isso que se tornam presas fáceis dos tiranos e déspotas”.


* “Não havia evidências suficientes, Deus!” foi uma frase proferida por Richard Dawkins na Feira Literária de Paraty (a FLIP), em 2011, quando perguntado pelo entrevistador Silio Boccanera o que ele diria caso encontrasse o criador, caso ele existisse. Dawkins estava parafraseando Bertrand Russell. Parte da entrevista pode ser vista clicando aqui

domingo, 2 de março de 2014

Exploração animal: a ignorância não é uma benção

Como muitas crianças brasileiras nascidas entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980, eu e meu irmão crescemos lendo gibis. De todos os tipos: Marvel, DC, Turma da Mônica, Disney, Trapalhões, Recruta Zero ou qualquer outra história em quadrinhos que caísse em nossas mãos. A maioria delas publicada nos saudosos formatinhos da Editora Abril, que comprimiam a arte original, cortavam quadros e recriavam diálogos e personagens. Obviamente adorávamos super-heróis. O Demolidor era um dos nossos favoritos, especialmente nas histórias escritas pelo Frank Miller.

Em 1992, na edição 124 da revista Superaventuras Marvel, uma HQ do personagem, com os desenhos estilizados de John Romita Jr., pareceu-nos completamente deslocada, pois não trazia vilões convencionais e uma profusão de tiros, socos e pontapés. Intitulada Genetrix, a trama discutia, entre outros temas, ganância e exploração animal.

Escrita pela jornalista norte-americana Ann Nocenti, desde os primeiros quadros a postura da história ficava clara: nossa espécie se caracteriza pela ignorância e, por conta dela, é explorada por seus pares (e explora as demais espécies do globo). Fiz uma tradução livre dos balões e recordatórios (clique para ver em tamanho maior)...






Como aqueles que acompanham esse blog sabem, sou biólogo e meu principal foco de interesse em pesquisa é a teoria da evolução, em seus mais diversificados aspectos. É provável que qualquer pessoa interessada nessa área conheça a importância da alimentação para a evolução dos hominídeos, família de animais cuja história iniciou-se no mínimo há 14 milhões de anos, e que inclui quatro gêneros viventes – Pan (chimpanzés e bonobos), Gorilla, Pongo (orangotangos) e Homo (humanos). Nas palavras de Vaclav Smil, autor do livro “Should we eat meat? Evolution and consequences of modern carnivory” (Devemos comer carne? Evolução e consequências da carnivoria moderna), publicado em 2013:
Não há dúvida que a evolução humana esteve conectada à carne de muitas maneiras fundamentais. Nosso trato digestório não é obrigatoriamente de um herbívoro; nossas enzimas evoluíram para [sic] para digerir carne cujo consumo levou a um aumento da cefalização e maior crescimento físico. A caça cooperativa promoveu o desenvolvimento da linguagem e da socialização; a evolução das sociedades do Velho Mundo foi, em certa medida, baseada na domesticação de animais; em sociedades tradicionais, comer carne, mais do que o consumo de qualquer outro gênero alimentício, tem levado à preferências fascinantes (...); e as agriculturas ocidentais são obviamente muito orientadas para a produção de carne.
(...) Matar animais e comer carne têm sido componentes significantes da evolução humana com uma relação sinérgica com vários outros atributos que nos fazem humanos, tais como cérebros maiores, estômagos menores, bipedalismo e linguagem. Cérebros maiores se beneficiaram do consumo de proteínas de alta qualidade, contidas em dietas baseadas em carne; além disso, a caça e a matança de animais grandes, o desmembramento de suas carcaças e o compartilhamento de carne inevitavelmente contribuíram para [sic] a evolução da inteligência humana, em geral, e para o desenvolvimento da linguagem e capacidade de planejamento, cooperação e socialização, em particular.    
Compreender a importância da ingestão de proteína animal para a evolução dos hominídeos é muito diferente de defender coisas como essas:







Essas são fotos retiradas de fazendas industriais da Smithfield Foods, a maior e mais lucrativa produtora de carne de porco do mundo. Em 2006, ela foi responsável pela morte de 26 milhões de animais. Segundo Jeff Tietz, autor do artigo “Boss Hog”, publicado na Rolling Stone, o peso desses porcos abatidos seria o equivalente ao da população das trinta e duas maiores cidades dos Estados Unidos. Em apenas um ano! Ainda nesse mesmo artigo, Tietz levanta uma série de dados assustadores:

- porcos produzem três vezes mais excrementos que a nossa espécie. No total, a Smithfield Foods produz mais de 26 milhões de toneladas de fezes por ano;

- em 2006, o total de vendas da Smithfield Foods foi de 11.4 bilhões de dólares. Caso a companhia tratasse seu lixo fecal como a maioria dos governos civilizados faz, o investimento seria tão alto que ela PERDERIA dinheiro. As lagoas de merda das fazendas industriais da Smithfield Foods – descritas como um contínuo de poluentes semelhante a uma piscina radioativa – cobrem aproximadamente 120.000 metros quadrados de um líquido rosa resultante da mistura de ossos esmagados, carne podre, cartilagens, hormônios, sangue, seringas de antibióticos, fezes, pelos, urina, produtos de limpeza, latas de inseticidas e drogas diversas. É um ambiente propício para a proliferação de salmonella, cryptosporidium e estreptococos (cada grama de merda da Smithfield contém mais de 100 milhões de coliformes fecais);

- Essas lagoas contêm altas quantidades de amônia, sulfeto de hidrogênio, monóxido de carbono, cianeto, fósforo, nitratos e metais pesados. As lagoas são tão venenosas que há dezenas de relatos de empregados da empresa que morreram ao cair em uma delas (ou ao tentarem salvar companheiros que sofreram tamanho infortúnio);

- os porcos da Smithfield vivem em celeiros semelhantes a grandes armazéns, em intermináveis fileiras. São inseminados artificialmente em gaiolas tão pequenas que eles não podem sequer mudar de posição, sem acesso a luz do sol, palha, ar fresco ou terra;

- as temperaturas são altíssimas e o ar no interior dos armazéns é saturado de gases provenientes dos produtos químicos e das fezes dos animais. Dessa forma, os porcos são muito suscetíveis a doenças diversas, parasitas e fungos. A solução encontrada pela Smithfield Foods foi aumentar as dosagens dos antibióticos, vacinas e inseticidas, que mantêm os porcos em um estado zumbi, até o momento em que são abatidos.

Para Joseph Lutter III, CEO da companhia por 31 anos (ela foi vendida para o grupo chinês Shuanghui em setembro de 2013), “Os defensores dos direitos animais querem impor uma sociedade vegetariana nos Estados Unidos”. Ainda segundo ele, a maioria dos vegetarianos é neurótica! Possuidor de uma das 500 maiorias fortunas do mundo (a empresa figura na posição de número 213 em maio de 2013, segundo a revista Fortune), Lutter III parece desconhecer que grande parte da população mundial sofre de algum tipo de ansiedade, neurose ou outras desordens psicossomáticas...

Porcos sofrem na Smithfield Foods, mas a exploração animal não se resumo a eles: aves e bovinos, criados exclusivamente para servirem de comida, também vivem em condições por vezes piores do que as descritas acima. O livro de Jonathan Safran Foer, Comer Animais, resenhado brevemente aqui, faz um apanhado desses cenários.

Apesar de nunca ter sido um carnívoro estrito ou exagerado, desses que salivam apenas em pensar na ida à churrascaria no próximo sábado, por 33 anos comi carne em boa parte das minhas refeições diárias. Na maioria absoluta das vezes, sem nem ao menos refletir a respeito do que estava comendo. Por mais que eu conhecesse as implicações – médicas, evolutivas, econômicas, morais, etc. – foi só há mais ou menos treze meses que suspendi completamente a ingestão de carne. Em janeiro de 2013, um vídeo, apresentado por Steve O, me fez ver como não podemos ceder à ignorância. Se você que está lendo essa postagem tiver 10 minutos, assista-o:


É difícil pensar em um utópico planeta em que não se consuma carne, de qualquer tipo. Enquanto nossa espécie se pautar pela lógica do consumismo extremado e do capitalismo sem rédeas, liberal e exploratório, resta-nos discutir, dentro da perspectiva de uma moralidade pós-darwiniana, alternativas ao consumo desenfreado de proteína animal. A questão mais importante passa a ser a diminuição do consumo desenfreado de carne (que só é possível através da criação intensiva, ou seja, em confinamento, de aves, porcos e vacas).

Com a oferta gigantesca de proteína animal à mão em qualquer supermercado, a maioria se acha bem nutrido porque come carne. Se déssemos mais atenção à variedade de itens alimentares que podemos consumir, a situação seria menos tétrica e mais ambientalmente sustentável, tanto do ponto de vista da exploração animal quanto em termos nutricionais.

Os hominídeos, evolutivamente, tiveram no consumo de carne um fator externo extraordinariamente potente relacionado ao aumento da sua capacidade cerebral. No entanto, há alguns milhares de anos, não comíamos da forma como o fazemos hoje... Precisamos ser educados a conhecer o que comemos, para evitar que essa tradição de coisificação da natureza se perpetue indefinidamente. Para o filósofo australiano Peter Singer:
Precisamos que as pessoas sejam informadas sobre essas questões e de um sistema político que responda às preocupações públicas sobre os animais. Questionários com a opinião pública mostram uma forte oposição contra a crueldade com os animais, mas, no geral, as pessoas não são bem informadas sobre o que acontece a eles em lugares escondidos, em fazendas, laboratórios ou matadouros. Precisamos de informação (...)
Em uma sequência central do filme Matrix, Cypher, um dos passageiros da nave Nabucodonosor que havia sido extraído do mundo on-line por Morpheus, diz que “a ignorância é uma benção”. Fora da matriz, tornamo-nos impotentes quando optamos pela ignorância.

Referências:
Foer, Jonathan Safran. 2011. Comer Animais. Editora Rocco, 320 páginas.
Singer, P. 2012. Uma filosofia para consertar o mundo. Filosofia, Ciência e Vida, 69, abril.
http://www.rollingstone.com/culture/news/boss-hog-the-dark-side-of-americas-top-pork-producer-20061214